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domingo, 27 de outubro de 2019

JIDDU KRISHNAMURTI: SOBRE A INCOMPREENSÃO E O SUPOSTO FRACASSO DE SUA MISSÃO ( J. Krishnamurti about misunderstanding and the supposed failure of his mission)



Este artigo  é o resultado dos meus últimos estudos e investigações  sobre Krishnamurti e o fenômeno da iluminação em si. Nele, reflito sobre as questões envolvendo a vida e o trabalho de JK, sobre a incompreensão dos seus ensinamentos e o suposto fracasso de sua missão. É um artigo um pouco longo por causa da importância fundamental dos assuntos aqui tratados. No final, há os links de referência que serviram de base  e fundamentação para muitas das minhas impressões relatadas ao longo do presente artigo. Leia-o e tire suas próprias conclusões.

Quem lê Krishnamurti, precisa lembrar que ele não enfrentou um processo gradual de iluminação; não precisou buscar nada, nenhuma meta, nenhum objetivo. Sua mente, segundo seu próprio relato e os daqueles que o conheceram - incluindo professores, amigos e os tais videntes- era iluminada desde criança. Por isso, sua dificuldade em entender as  limitações da mente humana comum, presa ao tempo e aos condicionamentos . Toda sua vida foi dedicada ao trabalho de libertar o homem de suas próprias  ilusões e, ao mesmo tempo, tentar compreender por que ele não conseguia alcançar a tão sonhada libertação. Muitas vezes, quando perguntado sobre esta questão, JK a devolvia ao interlocutor: é você  mesmo que tem que respondê-la, não eu. E não era retórica. JK queria realmente entender o porquê da dificuldade humana para a iluminação interior.

Por ser considerado um iluminado - e por acharem que isso significaria ter todas as soluções aos problemas do universo - as pessoas o questionavam e até exigiam dele uma resposta sobre suas próprias deficiências. Muitas vezes, fora pressionado a responder questões que ele não sabia as respostas. Para respondê-las, ele teria que ter passado "da sombra à Luz" e, assim, conhecer as dificuldades peculiares dessa transição. Mas, como ele próprio não a vivenciara, era-lhe impossível dar respostas satisfatórias.

Ao longo dos anos, foi ficando cada vez mais claro que sua missão  não seria tão fácil quanto, talvez, imaginara quando em 1929 dissolvera a Ordem da Estrela do Oriente. Libertar o homem se mostraria uma tarefa difícil, inglória e “quase” impossível. Não se sabe ao certo quantos se libertaram enquanto JK ainda estava vivo, oficialmente não há ninguém - nem mesmo aqueles que lhe eram próximos e que com ele conviveram ao longo de tantos anos. Ele mesmo reconheceu apenas um caso de “mutação real da psiquê” : a Vimala Thakar. Mas essa informação é extraoficial. Foi a própria autora que a deu em seu livro " Eternal Voyage".  Como seu relato não foi negado pelas Fundações, nem pelo próprio Krishnamurti - tudo indica que são informações fidedignas.

Susunaga Weeraperuma
Para entender o porquê dessa guerra de informações entre as Fundações e os  biógrafos não-oficiais de K, é preciso analisar o contexto em que ele vivia e sua relação com as Fundações. É público e notório que havia muito desentendimento entre as diversas Fundações Krishnamurti ao redor do mundo. Segundo o site  oficial de Krishnamurti no Brasil- existem  quatro fundações oficialmente reconhecidas: a da Inglaterra, dos Estados Unidos, da Índia e da Espanha. Todas com suas  peculiaridades,  planos e desafios administrativos  específicos. Apesar de  Krishnamurti ser uma espécie de presente para  a humanidade, as Fundações- que detinham os direitos do seu legado intelectual - também  queriam ter todo poder sobre sua vida. Isso, talvez, explique o porquê de nenhuma delas fazer referência ao trabalho de Susunaga Weeraperuma  que, mesmo desautorizado pelas Fundações, escrevera diversos livros sobre a vida e a obra de Krishnamurti. Segundo o autor, autorizado diretamente pelo próprio mestre. 

Isso  também explicaria o  porquê da   Vimala Thakar – a Iluminada de Krishnamurti- ter sido totalmente ignorada pelas suas biógrafas oficiais, apesar de sua inegável importância, uma vez que seu caso foi muito famoso na época. Além disso, a Vimala pode ter sido a única pessoa iluminada sob a influência direta de JK. E por que ninguém fala sobre isso?  Por que preferiram ignorá-la? Por que optaram em apresentar JK como um fracassado ? Qual  problema em reconhecer a iluminação da Vimala? Será por que ela era Hindu e se apenas ela tivesse sido iluminada por JK, isso a tornaria uma espécie de sucessora espiritual do mesmo?

Vimala Thakar
Krishnamurti sabia que seria impossível iluminar todo mundo. Ao ser perguntado sobre as consequências da dissolução da Ordem da Estrela do Oriente, ele teria dito que se pelo menos uma ou duas pessoas o ouvissem e realmente quisessem  ser livres - já valeria todo o esforço.  Talvez não interessasse às Fundações , por motivos políticos ou desconhecidos, apresentar Vimala como a única pessoa iluminada pela ação direta de Krishnamurti.  Isso seria dar a ela um status espiritual muito grande.  Vimala escrevera mais de trinta livros sobre temas ligados à espiritualidade e, em um deles, relatou como conheceu Krishnamurti, seus encontros e conversas, até ela ser atendida diretamente por ele para tratar um problema no ouvido. Foi nesse momento que aconteceu a "explosão" do sentido do eu que a transformou totalmente dali por diante.

O escritor espanhol Carlos Silva, e outras escritoras como Pupul Jayakar, já chamavam a atenção sobre o problema do “Círculo Interno” que super protegia Krishnamurti.  Seus participantes, formado por poderosos sócios e patrocinadores das Fundações, tentavam controlar JK como se ele fosse sua propriedade . E de uma certa forma era, pois eles detinham  os direitos autorais de sua obra, marca e imagem. Isso criava uma situação muito difícil para a mente iluminada do sábio indiano pois as Fundações foram criadas exatamente para cuidar dos assuntos administrativos - algo que, no começo, JK queria manter distância.  JK  fora, muitas vezes, chamado para decidir  à revelia, sobre  questões envolvendo decisões, impasses  e discordâncias entre  os membros das Fundações. Vale lembrar que as pessoas que compunham as Fundações eram muitos queridas e  próximas a ele . Amigos pessoais como  Mary Lutyens, David Bohm, Mary Zimbalist e empresários que ajudavam a manter seu trabalho através de financiamentos . Então, ficava muito difícil para Krishnaji separar a vida pessoal das questões burocráticas.

Em suma , aos milhares de leitores, fãs e o público  em geral,  ficou a amarga sensação de um suposto fracasso. Sua última gravação,  pouco antes de morrer, deve ter chocado muita gente. O que se percebe é que mesmo nos últimos instantes de sua vida, JK continuava sendo o mesmo de sempre: um ser  amoroso, sensível, lúcido, coerente e "preocupado" com o andamento das coisas .  Suas últimas palavras foram também sua última polêmica. Após sua morte, foi publicado um artigo do Osho comentando sobre as últimas palavras de Krishnamurti em que o guru afirmava que JK dissera, nesta ocasião, que sua vida teria sido um grande desperdício porque ninguém o teria levado a sério.  Mas, há provavelmente um mal entendido aí. Segundo Mary Lutyens, o que ele realmente disse foi que NINGUÉM havia entendido nada do seu mistério e que ninguém havia entrado em contato com aquela Suprema Inteligência que havia usado seu corpo durante toda sua vida.

Ele estava certo.  A manifestação daquela Suprema Inteligência da forma como aconteceu com K foi única na história da humanidade. Talvez em séculos ou milênios não aparecerá outro titã espiritual de tamanha envergadura. Era um fenômeno raríssimo - tal como Jesus ou Buda . Mas isso não significa dizer que ninguém se iluminou ou que seu trabalho tenha sido um fracasso. A mutação aconteceu a muitas pessoas e continua acontecendo. Não com a mesma força e singularidade de JK, mas dentro da capacidade e limites de cada um. Ninguém nunca será um Krishnamurti, assim como nunca ninguém será um Jesus ou Buda. Mesmo  seres de grande luz como São Francisco, Saulo de Tarso, Santo Agostinho, Padre Pio, Dogen, Nagarjuna,  Bodhidharma etc. não se tornaram iguais aos seus mestres, apesar de terem  mergulhado na mesma fonte. Não se tornaram cópias, pelo contrário, foram seres humanos únicos cumprindo a missão que lhes foi destinada.

UG Krishnamurti
Se  UG Krishnamurti realmente se iluminou como consequência de ter passado sete anos  ouvindo as palestras de Krishnamurti - não temos como saber .  UG nega toda e qualquer influência de JK no seu processo de  mutação da psiquê. Mesmo assim, é visível o quanto ele bebeu da fonte Krishnamurtiana. Negar essa influência é impossível pois, de tão parecido,  ele chegou a ser confundido com o original.  Seus ensinamentos,  expressão e até o jeito de falar não negam a forte influência de JK sobre ele. Afinal, foram anos de convivência, diálogos e discussões diretas com o Jiddu . Mas quem nasceu para UG nunca será um JK. Cada desabrochar é único. Tocar na mesma fonte e energia que alguém tocou não significa tornar-se cópia do outro. Cada qual segue seu próprio caminho e história pessoal.

Voltando às ultimas palavras de Krishnamurti: para deixar uma porta aberta, JK terminou dizendo: mas aqueles que viverem os ensinamentos poderão entrar em contato com essa Suprema  Consciência e Inteligência. Então nem tudo estava perdido. Ele apenas não quis apontar nomes,  para que ninguém se intitulasse  seu sucessor espiritual, evitando, assim  disputas e brigas internas. Ao responder a esta última questão, ele teria que ser cauteloso  como o fizera ao longo de toda sua vida.

Restou a investigadores independentes, como o  autor desse artigo, buscar as respostas a essa questão primordial : ora, se Krishnamurti não conseguira iluminar ninguém, ou ele era um instrutor incompetente ou seus ensinamentos não eram verdadeiros. Como sou professor por profissão, sei que se numa sala de aula ninguém aprendeu o que foi ensinado, o problema certamente está no professor ou em sua didática. Mas, no caso de JK, o problema talvez seja mais complexo. É provável que a humanidade não estivesse pronta para receber ensinamentos tão elevados. Mas, talvez, as próximas gerações estarão.  Krishnamurti deixou um vastíssimo material que certamente vai contribuir para a evolução espiritual das gerações futuras.  Desta forma, a mutação em massa, que muitos sonhavam e esperavam para a Nova  Era não passaria, então, de uma grande utopia.

Nunca houve uma transformação coletiva da humanidade. Os místicos, santos,  sábios e iluminados foram muito poucos em comparação  a quantidade de pessoas que passaram pela Terra desde o surgimento da civilização. Um número tão irrisório que chega a ser insignificante.   O fato é que todas as transformações SEMPRE foram individuais. Os maiores iluminados da humanidade nunca transformaram profundamente as massas. No máximo, elas se tornaram seus devotos e seguidores . Na melhor das hipóteses, os mestres se transformaram em  mitos, referências ou refúgios espirituais- mas nunca foram fator de transformação coletiva - e o mesmo vale para Krishnamurti.

As sementes foram lançadas por todos os mestres que apareceram nesse período de final de milênio sinalizando o começo de uma Nova Era para a humanidade. O diferencial de JK é que sua vida e mensagem foram extensamente registrados ao longo de vários anos por vários meios e recursos modernos. Nunca antes na história, um grande mestre teve sua vida  gravada com tanta riqueza de detalhes, sob tantos ângulos e olhares. Por isso que,  até mesmo  suas supostas “contradições”, devido às mudanças  em sua linguagem e abordagem, foram amplamente percebidas e discutidas por diversas pessoas.

Ao longo de sua vida, Krishnamurti  refez sua própria linguagem para transmitir seus ensinamentos da melhor forma possível. Muitas vezes, teve que mudar termos e expressões na tentativa de  transmitir suas ideias com a máxima exatidão possível. Aquilo que não funcionou ao longo dos anos, ele deixou de dizer. Ao final dos anos 70, começo dos anos 80, vemos um Krishnamurti mais sereno, com a linguagem mais enxuta, precisa e contida.  Questionado acerca dessas mudanças,  Krishnamurti confirmou que sim, sua linguagem havia sofrido alterações, mas não a essência dos seus ensinamentos.

Os últimos anos de sua vida, Krishnamurti  passou tentando entender o porquê de suas palavras não terem tido o efeito que ele esperava.  Algumas vezes, seu desânimo  era explícito beirando a angústia e o amargor. “ Eu me pergunto se vocês estão conseguindo me entender”- repetia constantemente. Realmente ninguém estava entendendo nada. Durante uma reunião pública, alguns ouvintes chegaram ao ponto de pedir que ele parasse de falar, pois se suas palavras não estavam sendo compreendidas, suas palestras eram, portanto, inúteis. Ao ver o vídeo, eu realmente pensei que ele ia se levantar e abandonar o palco. “ É isso mesmo que vocês querem? Que eu vá embora e os deixe aqui sozinhos?”- perguntou novamente ao públicoAlguns responderam que sim. Mas ele olhou-os novamente e viu que alguns não se pronunciaram e  pareciam até discordar daquela  proposta inusitada e, por que não dizer, ingrata ?


J. Krishnamurti
Não. Ele não foi embora. Não os deixou sozinhos. Seria uma atitude simbólica de falta de compaixão e amor pela humanidade. Ele continuou ali com eles, apesar da visível insatisfação e resistência de parte da audiência. Depois de alguns minutos, Krishnamurti toma uma atitude no mínimo inusitada e que deve ter surpreendido muita gente.  Sem nenhum pudor e destoando de tudo o que dissera ao longo de toda sua vida, pois sempre negara os mestres que o precederam, Krishnamurti usa uma parábola de Jesus para fazer o fechamento da questão e concluiu:

“ Talvez alguns dentre vocês entenderão isso : como a semente lançada, talvez algumas possam cair sobre as pedras, outras num campo fértil, outras simplesmente morrerão.”

De fato, não há nada para reclamar de Krishnamurti. Nem ele, nem ninguém  poderia abrir os corações e as mentes das pessoas à força .  Cada um deve preparar seu próprio solo para receber a semente da “cura” ou mutação interior. O iluminado não pode iluminar ninguém- mesmo que quisesse. Nem fazer por outrem o trabalho que é da responsabilidade individual de cada um .

Cada pessoa deve fazer sua parte e não culpar os outros pelas  próprias dificuldades e deficiências. Através dos grandes mestres do passado, a Verdade tornou-se acessível a todos.  O que nos chegou até aqui foram apenas fragmentos. Com Krishnamurti, a mensagem do Dharma - a Verdade Universal- retorna com uma nova roupagem, numa linguagem moderna e acessível a todos. Não é necessário ser perfeito, nem deixar sua casa, família e trabalho para encontrar a iluminação. É preciso sim assumir a  parcela de responsabilidade e, diante das dificuldades, procurar as soluções.  Se os ensinamentos de JK parecem muito complicados, talvez seja melhor abrir-se a outras fontes de sabedoria e conhecimento. Os dois iluminados ligados à história de Krishnamurti - UG e Vimala- beberam  de outras fontes- eles não ficaram presos ao K. 

Não posso terminar esse artigo sem dar minha contribuição a todos aqueles que realmente querem encontrar a iluminação. Na minha jornada espiritual, sempre tive a fé, a devoção e a oração como importantes aliados em momentos de grande crise. Sempre recorri a " Deus", ao Poder Supremo- seja lá que nome você chama- para me mostrar a "Luz". E, misteriosamente, essa "Luz" sempre me levava aos livros de Krishnamurti. Bastava abrir um livro qualquer e lá estava a resposta, a Luz que me poria novamente na caminhada. Sei que muitos leitores de K o consideram ateu ou algo parecido - mas ele não era. Ele apenas não precisava acreditar em Deus porque ele o vivia como uma Realidade pessoal. Ele  queria que as pessoas saíssem do nível das crenças e passassem para o nível da vivência direta. 

É como se, através de Krishnamurti,  aquela " Suprema Inteligência" tentasse uma nova estratégia para ajudar a humanidade em sua escalada evolutiva já que a religião, as tradições e sistemas haviam falhado. Nascia, então, a figura do iluminado moderno, capaz de alcançar  altos níveis de consciência em contato com  aquela "Suprema Inteligência” enquanto atende as demandas e desafios da vida “material”. Através de JK, fica claro que ninguém precisa se isolar numa floresta, caverna ou mosteiro para ter contato pessoal com o Sagrado. JK não abandonou a vida social,  nem o mundo, mas apenas suas ilusões, superstições, mentiras e falsidades.
Krishnamurti, velho e na juventude

JK nunca teve um emprego formal. Seu trabalho consistia em  transmitir os ensinamentos para a humanidade. Não se eximiu de nada. Viveu, estudou, viajou, se relacionou, aproveitou a vida em todas as suas dimensões- inclusive a amorosa.  Mostrou ao mundo que é possível vivenciar a Verdade, mesmo em meio aos afazeres do dia a dia  e que não é necessário desprezar o corpo, nem tampouco o conforto da vida moderna- como um  bom carro ou uma casa, por exemplo- para ser espiritualizado. Procurou viver uma vida saudável e equilibrada, aproveitou  os prazeres que a vida lhe proporcionou sem culpa , medo ou falsos moralismos. Através do seu exemplo, a Existência parece mandar uma mensagem ao mundo: a de que ninguém precisa ser moralmente perfeito, nem socialmente impecável  para  encontrar a Realidade. Só precisam  ser  honestos,  corajosos, sinceros e terem a Verdade como referencial e objetivo.


Se a missão de Krishnamurti foi a de ser um mensageiro e não um professor- então ele a cumpriu com êxito. Assim como  Jesus, do alto de seu sofrimento, parecia ter fracassado, no caso de Krishnamurti o fracasso também é só aparente. Há muito tempo pela frente para que seu valor possa ser reconhecido. Ele jogou as sementes e agora cabe a cada ser humano cuidar do solo para que cresçam e floresçam. Seu trabalho está terminado - mais de setenta anos- agora chegou a nossa vez. Não hesite em buscar a ajuda divina. Apenas saiba que ninguém tem o poder de despertar outrem.  A iluminação começa dentro de cada ser humano. A luz está em todos os lugares mas só você pode abrir a porta para ela e convidá-la a entrar. Sempre foi  assim e sempre será .


Repostagem autorizada desde que indicada a fonte, autor e endereço eletrônico do mesmo.

Créditos:

Link do vídeo citado acima:



Links sobre Vimala Thakar:


Site e referências a Susunaga Weeraperuma:


Referências a UG Krishnamurti:



Link sobre o escritor espanhol  Carlos Silva que faz uma análise de suas últimas palavras de Krishnamurti e das fundações:


Link do Osho sobre a morte as supostas últimas  palavra de Krsihnamurti ( erroneamente citadas por ele)



quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

OS DOIS KRISHNAMURTIS- The two Krishnamurtis



   Nesse artigo, Peter Holleran faz uma síntese da trajetória dos dois Krishnamurtis e analisa aspectos polêmicos de suas vidas e ensinamentos. Apesar de não concordar ao todo com sua visão- principalmente quando cita  Ramana, Papaji e Paul Bruton como parâmetros para fundamentar sua opinião- considero-a bastante conciliadora e sensata. Vale a pena se abrir para ouvir algo novo- mesmo que esse novo possa abalar a imagem de dois dos mais influentes ícones da espiritualidade contemporânea.Boa leitura!


  J. Krishnamurti, UG Krishnamurti, Shree Atmananda, Papaji e Ramana Maharshi são todos exemplos de mestres espirituais -  considerados sábios por muitos - que tiveram, no início da vida, muitas experiências místicas, ióguicas e espirituais, mas que passaram a renegar o seu valor em favor da simples e silenciosa  percepção da consciência. Apenas Ramana geralmente  acolhia bem práticas diversas entre seus discípulos , além da  pura jnana ou auto-investigação, percebendo sua falta de preparação ou de afinidade com tal caminho, e também reconhecendo a eficácia de outros caminhos, como bhakti ou devoção. Não será verdade que todos esses professores se beneficiaram de suas experiências e práticas anteriores, mesmo que mais tarde tenham repudiado seu valor? Se não, mesmo que milhares de anos de ensino e interação guru-discípulo tenham sido de pouco valor, e os atuais não-dualistas estejam certos: tudo o que uma pessoa tem a fazer é compreender, sem a necessidade de nenhuma mudança, preparação ou qualquer tipo de purificação . As primeiras duas figuras citadas, negaram completamente a necessidade de um instrutor,  mesmo que tenham curiosamente assumido esta função por sua própria negação. Neste ensaio, vamos examinar a vida dos "dois Krishnamurtis" sob este foco, examinando o paradoxo e a contradição em prol  de nossa compreensão.

 Jiddu Krishnamurti (1896-1986) é ,de longe o mais conhecido dos dois, era um jovem sombrio e melancólico, quando, com a idade de doze anos, foi flagrado pelo teósofo Leadbeater que percebeu algum presságio  em sua aura. Leadbeater sugeriu ao pai de Krishnamurti (ele próprio um teósofo local) que seu filho poderia ser o novo messias e seria melhor educá-lo sob os cuidados de Emily Luytens (esposa do ilustre Edwin Luytens, o "arquiteto" do New Delhi), que se tornou sua nova "mãe". Sob os cuidados dos teosofistas (cuja  principal influência era de Leadbeater) Krishnamurti levou uma vida protegida e incomum. Ele não era particularmente inclinado à espiritualidade, mas tinha algo de romântico,  chegando a afirmar, muitas vezes, que ele era "meio apaixonado pela morte fácil." Com a perda precoce e inesperada de seu irmão (seu companheiro mais próximo, que também foi criado por Theosofistas juntamente com ele) Krishnamurti sofreu um terrível e esmagador golpe. Sua mente tomou um rumo sério, e ele passou a sentir que estava sendo usado pelos teosofistas para fins políticos. 

Aclamado por Annie Besant como a reencarnação de Jesus Cristo (um movimento que levou Rudolph Steiner a romper com ela e formar a Sociedade Antroposófica), Krishnamurti, em 1929, denunciou a reivindicação, dissolveu a "Ordem da Estrela", negou que era um guru, mestre espiritual, ou avatar, e desde então, até o fim de sua vida nunca admitiu ter discípulos. Em um comunicado, ele, então, escreveu anunciando que seu papel dali por diante seria ser um livre pensador, não um mestre, e que "a verdade é uma terra sem caminhos . "Embora ele tenha tido inúmeras experiências místicas / kundalini quando  estava com os teosofistas, ele aparentemente nunca se associou fisicamente com um verdadeiro mestre espiritual de maior calibre, e seu futuro repúdio da relação  entre mestre e discípulo – relação esta apoiada nas escrituras- parece ter sido -pelo menos em parte- uma reação às circunstâncias aberrantes de sua educação e sua associação moralmente duvidosa com Leadbeater . Na obra curta, mas poderosa, Aos Pés do Mestre (do qual Leadbeater pode ter sido o autor), ele respeitou a tradição da relação guru-discípulo (1), mas depois fez uma completa reviravolta e afirmou energicamente, com vários argumentos, que era desnecessário e até contra-produtivo,  se ter um guru ou mestre. 

Na verdade, Krishnamurti  teve instrutores, e até  usou esta posição em prol dos outros (apesar de seus protestos em contrário), mesmo assim, ele fez uma carreira com críticas baseadas naquilo que ele viu (não sem alguma razão) como uma insidiosa instituição oriental .  
Foi, sem dúvida, seu contato com certos recursos internos, no entanto, que  deu início em 17 de agosto de 1922- continuando até 1924 e por várias décadas depois disso- o que ele chamou de "o processo". Estes foram essencialmente anos de experiências místicas de transformações psíco-físicas, com aparente manifestação da kundalini , dor aguda na cabeça e na coluna (ver "A viagem pathless de Jiddu Kirshnamurti" para saber mais sobre essas experiências).   

As experiências de JK com mestres internos não terminou quando ele dissolveu a Ordem da Estrela e deixou a teosofia , como muitos podem supor, mas ambos: Aquilo e "o processo", continuaram ao longo de sua vida. Em 1948, quando ele tinha cerca de 53 anos de idade, Luytens escreve:   

"K havia saído para um passeio com elas, então ele disse que se sentiu mal e devia voltar para a casa. Ele pediu-lhes para ficar com ele e  que - acontecesse o que acontecesse-  não ficassem assustadas , e que  não chamassem  o médico . Ele disse que estava sentindo dor de cabeça. Depois de um tempo, disse que estava "saindo". Este 'saindo' era o que sempre acontecia no passado, durante o “ processo”. K deixava seu corpo sob o comando do que nós costumávamos chamar de “ elemental físico” -uma entidade infantil que tinha grande reverência e temor por K . Seu rosto estava cansado e cheio de dores. Ele perguntou-lhes quem eram e se elas conheciam Nitya (irmão de K, que morreu anos antes). Ele então falou de Nitya, contou-lhes que ele estava morto e que ele o amava e chorava por ele. Ele perguntou se elas estavam nervosas, mas de forma alguma  pareceu  interessado ​​na resposta. Ele mesmo parou de chamar para que Krishna  voltasse:. '. ele me disse para não chamá-lo.“Ele então, falou da morte. Disse que ela estava tão perto -" apenas um fio de linha' -  quão fácil teria sido para ele .. morrer, mas ele não queria porque tinha um trabalho a fazer. No final, ele disse: "Ele está voltando. Você vê todos aqueles com ele ? Impecáveis, intocados, com certeza - agora que estão aqui, ele virá . Estou tão cansado, mas ele é como um pássaro -  sempre fresco”  .
K. e Pupul Jayakar

"Na noite seguinte Pupul e Nandini novamente esperaram por ele em seu quarto enquanto ele foi para uma caminhada solitária. Quando retornou por volta das sete, ele estava "  estranho " ...., mais uma vez ele foi se deitar . Ele disse que se sentia queimando, queimando  tudo. Ele estava chorando  e então disse: 'sabe… eu descobri o que aconteceu naquela caminhada. “Ele” veio e tomou de conta totalmente, completamente. É por isso que eu faço.. . não sabia se eu voltaria- eu não sabia de nada.  Eles haviam me queimado de modo que  pudesse haver mais vazio. Eles querem ver o quanto “dele” podia vir. '. Posteriormente Krishnamurti comentou: " que aquela passou realmente de raspão. Aqueles sinos quase dobraram ante o meu funeral. "     

 Há uma boa quantidade de material como esse em toda a trilogia biográfica escrita por Luytens, com o objetivo de preparar e experimentar Krishnamurti para ser um "canal" para o "outro", presumivelmente Maitreya. Há também uma discussão sobre o que Krishnamurti pensava,  anos mais tarde , sobre esta ideia, e até mesmo uma história interessante, sugerindo que este era de fato "o outro". Infelizmente, Krishnamurti não teve professores em corpo físico para trabalhar com ele e confirmar ou prepará-lo ainda mais.  

Mais tarde, Krishnamurti, ou " K ", como ele preferia ser chamado,  pareceu negar a validade, a necessidade, ou a legitimidade dessas experiências (se referindo a elas como meros" incidentes ") e também, posteriormente, todo o processo de intermédio espiritual de um mestre autenticamente realizado. Se ele realmente sentia que suas experiências particulares foram necessárias e úteis para as fases mais maduras de seu próprio desenvolvimento espiritual, ele, no entanto, manteve seu argumento de que a submissão a um guru- ou recorrer ao mesmo para pedir ajuda- não eram importantes de modo algum. Aliás, o artigo no link acima  mencionado sugere que, depois das visões místicas em seus primeiros anos, os aspectos espirituais mais significativos na maior parte de sua vida, foram, para K. uma mente vazia e uma benigna, protetora e orientadora "sensação de presença" . Somente com a idade de oitenta e cinco anos ele realmente pareceu ter tido uma experiência mais profunda ou vislumbre com aquilo que Paul Brunton (PB) viria a chamar de “Eu Superior”, mas isso, na maneira como ele descrevia, não ficava claro. Durante os últimos anos de sua vida, ele disse que podia sentir a Presença o tempo todo com ele. 

Em suma, o estilo e a natureza do ensino avançado de Krishnamurti ao longo dos anos foi uma crítica útil em relação à Teosofia com seu misticismo- em geral- inferior e subjetivo. Mas pode-se argumentar que ele não fora longe o suficiente, e presumira uma capacidade em seus ouvintes que estava além de suas reais habilidades , de forma que não conseguiu a eficácia de levá-los à verdadeira realização. Ele teve uma influência purificadora sobre o ambiente espiritual e oculto de sua época, ainda que não tivesse um escopo abrangente. Seus alunos , em grande parte, foram levados para a prática do que ele chamou de "percepção sem escolha", geralmente limitada a uma disciplina intelectual ou cognitiva, mas não foram informados ou auxiliados para um verdadeiro progresso  através  dos estágios  avançados da prática espiritual. Naturalmente, esta é um coisa que Krishnamurti poderia alegar que estava tentando deliberadamente desencorajar:  a própria ideia de que não existe tal coisa como um progresso. Seu principal e honrado propósito era levar as pessoas  para além da faculdade conceitual da mente, além dos preconceitos e preconcepções, para  um estado de consciência mais perceptiva. Isso é valioso, sem dúvida, mas é apenas o começo, e em si mesmo passível de cair em uma "escola que apenas fala" de prática.   

O processo espiritual é considerado pela maioria dos santos e sábios uma provação ativa e a pessoa precisa de ajuda para isso.Num contraste gritante com a intensidade das experiências de sua juventude, e apesar dos esforços  para  criar uma prática espiritual somente na base dos seus argumentos, muitas pessoas adquiriram a visão- através de leituras de livros e frequentar palestras- que a contemplação e a intelectualização filosófica são práticas suficientes para a realização da Verdade. Para alguns poucos, com necessário background, isso pode realmente ser assim. No entanto, para muitos, infelizmente, não é. Por exemplo, a atitude de "testemunha" recomendada por ele é essencialmente o de uma personalidade presa-no- corpo que observa a si mesmo e a natureza, e não daquela consciência, que testemunha o eu, senhor do corpo-mente, numa fase madura da prática, tal como ensinada por Ramana Maharshi. Tal estágio avançado geralmente requer muitos meios de apoio para a sua realização. Mesmo assim, Krishnamurti teve o benefício de cedo ter despertado  a yoga (união) e isso, sem dúvida, lhe deu  energia e atenção de sobras para os exercícios contemplativos que advogou para a maioria dos seus seguidores. Mesmo assim, ele não ensinou como chegar a esse estágio. Assim Krishnamurti pode ser considerado como um pratyekabuddha , ou alguém que despertou, mas que não é realmente capaz de ensinar  aos outros ou orientá-los para a iluminação - por causa de sua própria falta de desenvolvimento, e também por que não passou através de todos  os estágios de desenvolvimento em uma única vida. Como PB escreveu:  

  "Há iluminados que não conseguem derrubar a ponte de onde estão para onde eles já estiveram uma vez, para que outros também possam atravessar. Eles não sabem ou não conseguem descrever em detalhes o caminho que os outros devem seguir para atingir a meta. Esses homens não são mestres do ensino, e não devem ser confundidos com eles ... O iluminado que nunca foi um aluno, que de repente ganhou seu estado pelo inexorável bom karma de vidas anteriores, é menos capaz de ensinar aos outros do que aqueles que de forma lenta e laboriosamente trabalharam  em seu caminho até alcançarem aquele estado - que recorda os ensaios, as armadilhas e dificuldades que tiveram de superar " (1a)
   
A verdadeira atitude de testemunha requer, tradicionalmente, uma libertação da atenção da natureza limitante dos cinco sheaths ou camadas sobre a alma e de sua ligação terrena que se origina na raiz do coração . Isso raramente é alcançado sem uma grande dose de maturidade e ajuda. Para liberar a mente conceitual  de sua reatividade para uma "consciência sem escolha" que leva à identificação com a “testemunha-transcendental” que é o “Eu”, apenas com a plena maturidade da prática, pois não é apenas um exercício mental, mas uma vida em que o corpo-mente é submetido ao que o-sustenta e o- transcende. Do contrário a tal "não-dualidade" é reduzida a mera conversa.   

Não é nossa intenção encontrar falhas nos mestres espirituais ou adeptos, pois tal tarefa é repleta de perigos. 
"Aquele que tenta distinguir um Santo de um Santo começa  a ir direto para o inferno." - Kirpal Singh (2) 
"A extensão da iluminação de qualquer outro homem não é facilmente mensurável, muito menos em casos em que o outro não está mais vivo ou se nunca fora  pessoalmente encontrado. " - Paul Brunton (3)   

Por outro lado, a discriminação é toda a proteção que temos, e deve ser utilizada em sua plena capacidade. Também foi dito: "Pelos seus frutos os conhecereis." Krishnamurti , quando da aproximação de sua morte, ligado a um gotejamento de morfina por causa de um câncer doloroso nível IV, lamentou que nenhum de seus alunos tenham entendido o que ele havia dito. De acordo com o livro, “Mil Luas” , o autor, Asit Chandmal, um amigo de Krishnamurti, pergunta: "Será que nem mesmo um único ser humano  foi transformado como resultado da aplicação de seu ensino? Krishnamurti respondeu: Esta questão me traz lágrimas aos olhos ... " Antes de morrer, ele disse em um gravador: "Até onde eu sei… ninguém entendeu."  
 Além disso, ele confessou o que eu acho bastante incomum à luz da natureza geral do seu ensino, que ele mesmo havia falhado no que ele considerava  ser essencial para o desenvolvimento espiritual : a transmutação das células cerebrais- algo que eu esperaria ouvir  mais de alguém como Sri Aurobindo do que de JK .   

Brunton era da opinião de que, enquanto Krishnamurti via muito de auto-engano e exploração na religião e misticismo, ele ainda estava lutando contra a verdade e não iria terminar o seu sadhana até que ele aceitasse um guia genuíno. (4) Por outro lado, ele também observou uma vez: que o que Krishnamurti ensinou foi absolutamente correto, mas relativamente inacessível para 99% dos seus seguidores. No entanto, ele, sem dúvida, ajudou muitas pessoas, e o Dalai Lama elogiou-o, dizendo: "Krishnamurti é um dos maiores filósofos da época." Sri Nisargadatta Maharaj foi mais longe ao dizer: "As pessoas que não entendem Krishnamurti não entendem a si mesmas." Ele era um iconoclasta e um indivíduo de extrema auto-confiança, este era o seu gênio, mas talvez também sua limitação. Para muitos ouvintes, a tal "consciência sem escolha", por si só leva facilmente a um esforço intelectual, ou mesmo nenhum esforço, o que torna sem prática e sem realização, um caminho vago, e o "caminho sem-caminho"- um conceito  em que ego pode facilmente se esconder dentro. O conselho para manter a mente "aberta", e sem nenhum esforço para controlá-la  tornando-a algo desinteressante, é um bom  - mas apenas para quem desenvolveu alguma habilidade preliminar para cultivar um centro de consciência. Simplesmente relaxar a mente como principal disciplina antes de ter desenvolvido mindfulness ou lembrança-de-si em um grau significativo, é arriscar definhar no subconsciente com pouco progresso real feito. É por isso que ninguém - ou muito poucos - 'compreenderam'.

 Uppaluri Gopala (UG) Krishnamurti (1918-2007) foi criado por seus avós maternos em Masulipatam, sul da Índia. Seu avô também era um teosofista e o garoto foi exposto aos ensinamentos de muitas filosofias, religiões, ocultistas, gurus e especialistas de sua infância. (Por um momento, apenas imagine o quão diferente era isto da maioria dos baby-boomers ( bebês nascidos no pós-guerra), que passaram os anos de sua formação principalmente assistindo TV!) . Nesse sentido, ele foi semelhante ao J. Krishnamurti (nenhuma relação). Entre as idades de quatorze e vinte e um anos ele praticou diferentes tipos de yoga, incluindo passar sete verões na companhia do renomado Swami Sivananda em seu ashram em Rishikesh, e experimentou muitas formas de estados de transe, mas sentiu que nenhum deles era o equivalente à libertação ou moksha. Isto em si mesmo é um surpreendente insight para alguém em uma idade tão jovem. Certa vez, ele conheceu o grande Ramana Maharshi e pediu ao sábio para "dar-lhe tudo o que tinha", mas Maharshi respondeu: "Eu posso te dar, mas você pode levar?" Isto chocou UG  e levou-o a questionar: "o que é isto que você tem, e por que eu não posso levar? ". Ele, então, sentiu que tinha de seguir o seu próprio" rumo desconhecido "e encontrar a resposta para esta pergunta”.  Ele deixou Ramana, embora mais tarde tenha admitido que o encontro mudou o curso da sua vida e colocou-o no "caminho certo". Isto é revelador daquilo que UG viria a argumentar depois que "ninguém poderia ajudar ninguém a perceber a Verdade" mas como ele podia saber se  a transmissão invisível de Ramana não fora o agente da graça em seu benefício ? Por que ele não ficou por lá por um tempo para ver?  

 Quando seu avô morreu UG herdou uma grande soma de dinheiro, o que lhe deu  relativa liberdade para continuar sua busca. Ele tornou-se ativo na Sociedade Teosófica e deu aulas por dez anos [Por quê? Foi apenas pelo dinheiro?- Pois tudo indica que UG não acreditava mais neste tipo de ensinamentos]. No final da década de 1940 começou a envolver-se com J. Krishnamurti (nos últimos anos viveu perto dele, na Suíça, e um divertido jogo começou com as pessoas indo de um Krishnamurti para outro) e ouviu JK por sete anos antes de realmente conhecê-lo pessoalmente. Depois de uma série de diálogos diários entre os dois, UG chegou à conclusão, para sua grande decepção, que o "outro Krishnamurti" não podia comunicar o que ele queria saber além  do  Ramana Maharshi já havia feito, e ele deixou-o também. Mais tarde, ele ridicularizou JK, referindo-se a ele como "a solteirona", vítima de um "pensamento distorcido", uma "fraude completa", e um " vitoriano que vive jorrando besteira pura."
  
Em seus vinte e poucos anos UG casou-se e, por fim, teve quatro filhos. Ele sentiu logo depois do dia da celebração que o casamento tinha sido um erro. Ele gastou a maior parte da fortuna que recebeu de seu avô com tratamento médico para seu filho mais velho, e garantiu a sua esposa um trabalho na World Book Encyclopedia para que ele pudesse seguir sozinho. Ele se mudou para Nova York, depois para  Londres, e depois Paris. Finalmente, falido e sozinho, ele se descreveu assim: 

  "Eu era como uma folha soprada por um vento inconstante, sem passado ou futuro, sem família, nem carreira, nem qualquer tipo de realização espiritual. Eu estava lentamente perdendo a minha força de vontade para fazer qualquer coisa. Eu não estava rejeitando ou renunciando ao mundo. Eu estava apenas se afastando de mim e eu me sentia incapaz e sem vontade de segurar-me " (5)   

Neste ponto UG entrou no consulado indiano em Genebra e se rendeu à sua misericórdia, pedindo para ser repatriado para a Índia. A secretária do Consulado, Valentine deKerven, sentiu solidariedade por UG , viveu com ele e o sustentou pelos próximos quatro anos. Durante este período UG não fazia nada: "Eu dormia, lia a revista Time, comia, e saia para passear com Valentine ou sozinho - e isso era tudo." Os dois viveram como emigrantes proprietários de casas , passando seus verões no vale suíço de Saanen, onde J.Krishnamurti mantinha conversações e reuniões.   

Desde a idade de trinta e cinco UG começou a ter fortes dores de cabeça e tomava grandes quantidades de café e aspirina para lidar com a dor. Segundo o biógrafo Terry Newland, UG começou a parecer mais jovem neste momento. Naquela época, ele tinha quarenta e nove anos mas parecia que tinha dezessete ou dezoito anos, depois disso ele envelheceu novamente. Ele começou a ter períodos que chamou de "Headlessness" (Sem cabeça) e desenvolveu várias habilidades ocultas, que ele chamou de "poderes e instintos naturais do homem." 
     Em seu  quadragésimo nono  ano, UG começou a sentir um upheavel ( comoção) dentro de si, que durou seis anos e terminou no que ele chamou de "calamidade". Ele descreveu isso como sendo um "simples definhamento da vontade", culminando em uma experiência de morte que posteriormente produziu mudanças físicas em seu sistema inteiro. Ironicamente, isso aconteceu enquanto ele ouvia uma palestra de J. Krishnamurti sobre o "homem livre" que aparentemente catalisou este evento final. Ele sentiu como se JK estivesse descrevendo ele ... Depois disso, ele pensou:  

"Eu procurei em todos os lugares para encontrar uma resposta para a minha pergunta: Existe iluminação? mas nunca questionei a própria busca. Porque eu assumi a meta- iluminação, existe!- eu tive que procurar, e a própria busca  foi me sufocando e me mantendo fora do meu estado natural. Não existe tal coisa como iluminação espiritual ou psicológica , porque não existe tal coisa como espírito ou alma- em absoluto. Tenho sido um tolo toda a minha vida, em busca de algo que não existe. Minha busca está terminada. " (6)   
  "Todos aqueles que procuram haverão de encontrar ", disse Cristo. Então UG procurou muito e encontrou a resposta- mas não foi o que ele estava esperando. Apesar disso, sua busca foi proveitosa. O aparente colapso da "estrutura" ou a identificação com um “eu” separado liberou grande energia no corpo de UG . 

  "Foi um prelúdio para a sua" morte clínica "em seu quadragésimo nono aniversário, e o início das mais incríveis mudanças corporais e experiências que iriam catapultá-lo a um estado que é difícil de entender dentro da nossa até então conhecida  iluminação tradicional ou mística . Suas experiências não foram as experiências felizes ou transcendentais que a maioria dos místicos falam, mas uma 'tortura física' desencadeada por uma explosão de energia em seu corpo que finalmente deixou-o no que ele chamou de "estado natural". 
  
 "Durante sete dias, o corpo de  UG  sofreu grandes mudanças. Toda a química do corpo, incluindo os cinco sentidos, foi transformada. Seus olhos pararam de piscar, sua pele ficou macia, e quando ele esfregava qualquer parte de seu corpo com a palma da mão, produzia uma espécie de cinzas. Ele desenvolveu uma mama feminina em seu lado esquerdo. Seus sentidos começaram a funcionar de forma independente e em seu pico de sensibilidade. E a glândula timo, que, segundo os médicos está ativa durante toda a infância e, em seguida, torna-se adormecida na puberdade, foi reativada. Todos os pensamentos do homem desde tempos imemoriais, todas as experiências, sejam boas ou ruins, felizes ou infelizes, ótimas ou horríveis, místicas ou comuns, experimentada pela humanidade desde os tempos primordiais (toda a 'consciência coletiva') foram jogadas para fora do seu sistema, e no sétimo dia, ele "morreu ", mas apenas para renascer em " consciência indivisível ".Foi uma viagem maravilhosa e um grande  e repentino salto  para o estado primordial intocado pelo pensamento. "(6a)  

Experiências kundalínicas ocorreram, e várias vezes ao dia, ele experimentou uma parada (shut-down) de todos os processos do corpo, em que a frequência cardíaca e a temperatura corporal diminuíram drasticamente e todo o seu corpo ficava rígido. Apenas quando o “desligamento” parecia estar quase completo  é que seu sistema voltava novamente até que tudo estivesse funcionando normalmente.   

 Um ano depois, UG não falou ou não podia falar, mas depois ele começou a falar incansavelmente. Ele insistia que a "calamidade" aconteceu sem a sua vontade e apesar de sua formação religiosa e espiritual [como ele sabia disso?], e que ele não podia ser usado como um modelo a ser repetido por outros. Devido às mudanças físicas em seu corpo, UG argumentou, por vezes, que a iluminação era um acontecimento mais fisiológico do que psicológico. De uma certa forma, nisto ele estava certo, uma vez que é a própria psique que é transcendida, mas a iluminação ou realização- se as escrituras e a confissão dos realizados puderem ser o nosso guia-não é apenas uma transformação física, mas uma total realização psico-físico e espiritual na e da consciência. Costuma-se dizer que é a realização da própria Consciência, com efeitos muitas vezes secundários no corpo-mente, que podem variar  de indivíduo para indivíduo. Como os estados Wei Wu Wei ( que é um aspecto importante a se notar, mas que ainda sentimos como sendo apenas parte de uma transformação total):  
 
 "Nada acontece...nada, nada é alterado, não há nenhum evento psico-somático- em absoluto; a mente não é afetada.É apenas a recuperação de uma visão clara. Não tem existência objetiva: é puramente um ajuste subjetivo. Não é fenomenal: ele não tem impacto direto sobre corpo-mente. É inteiramente numenal: sua existência é intemporal, e ele não se manifesta fenomenalmente.É essencialmente impessoal - a impersonalização de uma pseudo-psique individual. É um olhar na direção certa: é uma súbita compreensão de que não há “Eu” sujeito ao tempo. " (6-B)   

É um pouco difícil levar a sério a afirmação de UG , de que foi um processo completamente aleatório, sem ajuda de ninguém, incluindo mestres espirituais, santos ou sábios, a quem ele sentia, como JK, que eram fraudes em sua maioria. Quem sabe, no entanto, talvez a sua busca teria terminado muito mais cedo se ele tivesse ficado com Ramana Maharshi? Talvez não. Em qualquer caso, é óbvio que UG teve muita ajuda, incluindo aqueles que o instruíram no começo de suas práticas quando jovem. A graça de Deus na forma de seu avô, que lhe deixou uma boa soma de dinheiro, a simpática senhora do consulado que o apoiou durante anos, a presença de Maharshi e a influência do ensino de J.Krishnamurti. Mesmo assim UG declarou:

 . "Eu descobri sozinho e por mim mesmo que não há nenhum “eu” para se realizar – é esta a realização sobre a qual estou falando.Isto vem como um golpe devastador [talvez, se você não está esperando por isso]. Ele bate em você como um raio [talvez de novo, ou pode "cair como uma suave chuva do céu"]. Você investiu tudo em uma "cesta", auto- realização, e, no final, de repente, você descobre que não há nenhum “eu”  para descobrir, nenhum “eu” para realizar [nenhum “eu” sobre o qual você possa pensar ] - e você diz para si mesmo: 'O que diabos eu estava fazendo toda a minha vida ! Aquilo destrói você [mas "quem" diz isto? "Quem é destruído?]. 

    Todos os tipos de coisas aconteceram comigo - eu passei por isso, veja . [ novamente, 'quem' passou por isso?] A dor física era insuportável - é por isso que eu digo que você realmente não quer isso. Eu gostaria de poder lhe dar um vislumbre disso, um toque disso - então você não iria querer tocar nisso de forma alguma [que é a finalidade da prática, e , como disse Ramana Maharshi, da companhia do sábio, de modo que você vai gradualmente se acostumando com isso e não vai temer tal estado- que é a sua verdadeira natureza, o Eu, ou não-eu, faça sua escolha: a realidade] . O que você está buscando não existe,.. é um mito. Você não iria querer nada que tivesse a ver com isso!”

  "Meu interesse é apontar a absoluta impossibilidade de fazer o que quer que seja para atingir o estado natural … Para aqueles que chegam, porque seriamente desejam me entender, tudo o que posso dizer é que eu não tenho nada a dizer [parece que ele disse muito]. Eu não posso ajudar ninguém, e ninguém mais pode. Você não precisa de ajuda; pelo contrário, você precisa estar totalmente desamparado - e se você procurar alcançar esse desamparo com a minha ajuda, você estará perdido. "   

"É uma entrega total, jogando a toalha, jogando na esponja - e o que sai disso é jnana (sabedoria) ... Todos aqueles para quem esse tipo de coisa aconteceu realmente trabalharam muito duro [exatamente] , tocaram no fundo do poço, apostaram tudo. Isto não vem facilmente. Ele não é entregue a você numa bandeja de ouro por alguém " (7) [mas porque "apostar tudo" se é "algo que ninguém quer", e "não é atingível? UG não deixa nada -. ​​O que -supostamente- era sua intenção]   

É difícil não concordar com UG em certos pontos, e sua franqueza é refrescante. Duas coisas podem ser ditas, no entanto. Uma: se é como ele alegou que ninguém pode ajudá-lo, então por que ele se preocupou em ensinar? Além disso, se ninguém pode ajudá-lo, por que o seu encontro com Ramana Maharshi colocou-o "no caminho certo"? E por que seu despertar coincidiu de acontecer justamente durante uma palestra de J. Krishnamurti que parecia descrever seu próprio estado tão profundamente? UG parece ter sido desnecessariamente obscuro aqui, e isso pode ser simplesmente porque sua própria formação ( background) não preparou-o totalmente, nem ele estava purificado o suficiente para lidar com os acontecimentos de seu despertar sem grande comoção e trauma. Ou ele não compreendeu totalmente, a fim de ser capaz de ensinar aos outros de uma forma eficaz, em vez de enigmática. Já para Ramana não havia tanta agonia ou espanto. Além disso, as escrituras concordam que o ego deve perceber sua impotência , mas também que há certamente ajuda para tal revelação. Esforço e graça coincidem, e as tradições proclamam que a companhia de sábios iluminados -se alguém puder encontrar um- pode ser um agente da graça que ajuda na efetiva realização de um indivíduo preparado . Tal graça não funciona de um modo arbitrário, mas em uma divina  e espontânea sincronia, com muito mais  eficácia em níveis que são inconscientes para a  mente do praticante que está despertando.   

Todavia, é possível que o despertar da UG tenha sido resultado de um recepção tardia da transmissão do Maharshi. É verdade que ninguém pode ajudá-lo enquanto ego, mas argumentar que a ajuda divina não está disponível para minar o ego, ou que o Ser não se manifeste na auto- investigação, é injustificável. Tudo o que precisamos fazer é comparar o encontro de UG e Ramana, com o relato de Papaji sobre sua própria realização pela graça do Maharshi. [Papaji também teve muitas experiências místicas ao longo de sua juventude e praticou muitos sadhanas antes de vir até o sábio. Ele estava maduro. Sua mente tinha conseguido a devoção que aponta para o UM e ele podia ver a forma de seu ishta-guru Krishna à vontade. Ele, então, chegou ao estado de quietude mental, e recebeu um golpe final de Ramana que transformou totalmente o seu ser. É verdade que ele disse que se  tivesse ouvido falar da investigação de Ramana "Quem sou eu?" quando ele tinha seis anos de idade, isto teria lhe poupado anos passados ​​em devoção, mas quem sabe como isso aconteceria para outra pessoa?] Sim, ninguém torna-se iluminado. Como Adyashanti disse, apenas a iluminação torna-se iluminada. Ou, nas palavras de PB, a Mente Vazia conhece a si mesmo.Mas, será que mesmo isso é verdade? É dito que o ego morre no coração e o Self é realizado. No entanto, é o  Eu Absoluto que é realizado desta forma ou a alma? O despertar é paradoxal, mas não é tão desprovido de articulação como UG tenta fazer parecer. Milhares de pessoas já trilharam este caminho antes dele e deixaram o seu testemunho.

UG continua: "Eu não tenho mensagem para a humanidade, mas de uma coisa eu tenho certeza, eu não posso ajudá-lo, eu não posso ajudá-lo a resolver o seu dilema básico ou salvá-lo de seu auto-engano, e se eu não posso te ajudar, ninguém pode". (8)   

É claro que UG ou qualquer outra pessoa como um ego não pode ajudar a resolver o dilema básico de qualquer pessoa da falsa identificação, do sentir-se separado, mas o dilema pode ser revelado, isto se o discípulo estiver disposto  a permitir esta revelação, depois de chegar ao fim de suas forças, e com toda a ajuda disponível.   
Vemos que esses dois homens foram presenteados com um começo de vida rico em contato com fontes para  relembrar a verdade. Ambos também tiveram processos místicos e de yoga de natureza dramática surgidos ou espontaneamente ou por meio de práticas de um tipo ou de outro. Os dois finalmente chegaram ao ponto de ver jnana ou conhecimento verdadeiro como não sendo a posse ou a experiência do ego e da mente conceitual, e ambos também passaram a ensinar que a idéia de um professor era falso e, portanto, por inferência, alguém pode também supor que tudo é graça. A única conclusão que posso tirar de tudo isso é que sua compreensões, enquanto genuínas, e até mesmo úteis, era - no entanto- incompleto. O equilíbrio necessário é encontrado na obra de Paul Brunton no "Caminho longo" e o "Caminho Curto"- ambos os professores se beneficiaram do primeiro, mas depois de se graduar no último, denunciaram desnecessariamente o primeiro como falso, ao passo que as duas abordagens em conjunto são necessários na maioria dos casos.Veja The Long and Short of It neste site].  

Mesmo assim todos os professores são merecedores da nossa gratidão, e o testemunho e a companhia dos amigos espirituais em todos os lugares a nossa bênção. Há uma ajuda para ser encontrada em cada etapa. Como disse ainda Kirpal Singh  "há livros em riachos e sermões em pedras." Para dizer a verdade, eu até que gosto desses caras.


JK - Nirvana UG - O que você vai fazer com o Iluminismo? (1) Alguns acham que Aos Pés do Mestre foi escrito por Leadbeater, Krishnamurti se lembrava de nada sobre isso, de acordo com a SR Vas, em The Mind of Krishnamurti (Jaico Publishing, 1971) (1a) Paul Brunton, de referência deslocada (2) Kirpal Singh, Godman (Franklin, New Hampshire: Sáb Sandesh Books, 1971), p. 152 (3) Os Cadernos de Paul Brunton (Burdett, New York: Larson Publications, 1988), vol. 16, 3.399 (4) ibid, vol. 10, 2.511 (5). Terry Newland, ed, Mente é um Mito: Conversations inquietantes com o homem chamado UG (Goa, Índia: Dinesh Publications, 1988), p. 16 (6), Ibid, p. 20 (6) Mukunda Rao, um esboço Vida de UG Krishnamurti, corpo, mente e alma - que eles existem, O Enigma do Estado Natural, Anti-ensino:? Chamando-lhe como é, Rir com UG (pós-internet) (6b), Wei Wu Wei, Pergunte ao Desperto , 2002, p. 174-175 (7) Rodney Arms, a mística do Esclarecimento: As idéias unrational de um homem chamado UG (Goa, Índia: Dinesh Vaghela, 1982) (8) Newland, op. cit., p.23

Fonte em português :http://alsibar.blogspot.com.br/2013/12/os-dois-krishnamurtis-two-krishnamurtis.html

Obs: os links citados no texto só podem ser encontrados no site original

segunda-feira, 6 de maio de 2013

O ENCONTRO DOS SÁBIOS: UG KRISHNAMURTI E NISARGADATTA



Um belo e bem humorado relato de um suposto encontro entre UG Krishnamurti e Nisargadatta Maharaj, leiam e tirem suas próprias conclusões. Vale pela reflexão e profunda sabedoria que transmite! ( Alsibar)

Parece que Maurice Frydman conhecia U. G – e também sabia que ele e Maharaj ( Nisargadatta) nunca tinham se encontrado, e provavelmente não conheciam nada um do outro. Ele queria testar a teoria de que um “jnani” (sábio) pode detectar um outro jnani quando colocados numa mesma sala, com algumas pessoas ao redor formando uma camuflagem. Ele organizou um  trabalho e convidou ambos para participar. U. G. passou um bom tempo lá, mas Maharaj ficou apenas  alguns poucos minutos e depois saiu.

Depois que Maharaj havia partido Maurice foi até  U.G. e disse, “ Você viu aquele senhor que entrou aqui por alguns minutos? Você  notou algo de especial nele? O que você viu?”
U.G. respondeu, “ Eu vi um homem, Maurice, mas o importante é: o que você viu?”
No dia seguinte, Maurice foi ver Maharaj e perguntou, “ Você viu aquele homem que eu convidei ontem?”. Uma breve  descrição de como ele era e onde ele estava seguiu-se.
Então Maurice perguntou: “ O que você viu?”
Majaraj respondeu: “ Eu vi um homem, Maurice , mas o mais importante é: o que você viu?”

Tradução: Alsibar , indicado por Cláudio Sangito.

htt://alsibar.blogspot.com

sábado, 2 de março de 2013

UG KRISHNAMURTI: UM NOVO ESTADO DE CONSCIÊNCIA



Upalluri Gopalla Krishnamurti, ou simplesmente UG, foi  um buscador como milhares de outros ao redor do mundo. Passou boa parte da vida procurando a Verdade . Praticou métodos de Ioga, estudou Teosofia e Ocultismo, meditou bastante sob orientação do mestre Sivananda, mas nada parecia satisfazê-lo. Chegou a visitar o mestre advaita Ramana Maharshi e durante muito tempo fora ouvinte assíduo das palestras do grande mestre Jiddu Krishnamurti. Finalmente convenceu-se  que tinha que abandonar tudo e seguir seu próprio caminho. Certo dia, algo inesperado  lhe aconteceu. Isso mudou completamente sua vida e maneira de ser. Ele chamou esse evento de “calamidade”. Outros viram aí o despertar repentino de uma energia poderosa e desconhecida . Seria o despertar da Kundalini? Seria isso o que todos chamam de Iluminação? Nesta palestra antiga e rara, gravada logo após a “calamidade” , UG revela a natureza deste fenômeno, fala sobre os ensinamentos de J. Krishnamurti e demonstra uma visão bastante peculiar sobre assuntos como iluminação, meditação e espiritualidade. Vale a pena  preparar a mente para ouvir algo novo e- talvez perturbador!(Alsibar)

PALESTRA RARA DO FINAL DOS ANOS SESSENTA

Por algum golpe de sorte- ou pela Graça de Deus se você quiser- eu cheguei ou tropecei em um novo estado de ser. Melhor dizendo, eu me encontrei desperto para uma maneira totalmente nova de viver. Minha oração costumava ser: “ Oh Deus, caso exista um  deus, por que me abandonaste?”. Isto agora mudou para algo assim: “ Oh Deus, caso exista um deus… -aquela parte: “ caso exista um Deus” ainda continua - “ Por que me escolheste para derramar toda tua Graça Divina  sobre mim?”.

Mas descrever isso em termos de “Iluminação”, “esclarecimento” ou pela palavra sânscrita moksha ou libertação, ou mesmo para usar aquelas palavras bonitas “ primeira e última liberdade”, “mutação radical”…  é perder o ponto.
Não é  , realmente, uma revelação  religiosa . Ou mesmo, o que chamamos de “ algo além do intelecto humano”. Não há nenhum mistério nisso. Isto não é a mesma coisa que as pessoas falam: que a apreensão da Verdade espiritual é algo intelectualmente incompreensível.

Não há mistério sobre isto. O que aconteceu comigo é puro e simplesmente um fenômeno físico. De alguma forma, o mecanismo da mente parou. E os sentidos começaram a funcionar , ou operar, de uma forma muito pura e simples. Isto em si mesmo é uma coisa extraordinária. Isto não é uma questão de “iluminação” espiritual ou intelectual - de forma alguma. Ou para usar aquela expressão comum “ algo religioso”.

Não há nada a ser convertido , nenhuma crença, ou nenhum estado monástico. Ou até mesmo se sentar em meditação procurando absorção em Deus, Infinito ou qualquer que seja o nome. Não é uma fábula imaginada ou contada. É um mundo no qual nós mesmos não mais existimos. Não é algo nem explicável, nem  inexplicável. Não há por que se fazer mistério sobre isso. Se tal coisa acontece a um indivíduo, ele não estava diretamente preocupado com a comunhão da alma com Deus ou coisa parecida.
Assim, qual é então o efeito disso sobre o comportamento de um indivíduo?
Isto afeta não somente seu comportamento mas a totalidade do seu ser. Isto pode afetar os outros também? Como diz o provérbio:
“ Você não pode acender uma vela e colocá-la embaixo de um arbusto”.

O que eu penso de Krishnamurti?
Seu estado de ser, seu ser… não deve ser diferente daquele dos sábios, santos e salvadores da humanidade. As abstrações que ele joga para as pessoas, é um tipo de “truque” para levá-lo àquele estado em que a mente pára. Uma parada repentina onde algo pode acontecer. Mas se você apenas repete aquelas frases, isto se torna uma mera tagarelice, uma verborragia, um disparate...Será uma coisa sem conteúdo.
 Você pode, inclusive, citar o Bhagavad-Gíta, a Bíblia ou o Alcorão. Ou qualquer uma das escrituras. Não fará nenhuma diferença. Só mais uma coisa… Um novo conjunto de frases é totalmente necessário para se falar sobre isto. Por que repetir aquelas frases? Por que falar das flores? Onde os olhos as observam e os ouvidos as escutam? Você está  fora de toda esta estrutura, de uma vez por todas.
Você nunca mais fará estas perguntas. 

O que existe por detrás e por baixo daquelas abstrações que Krishnamurti lança pras pessoas? Existe alguma coisa afinal? Como uma visão mental,  uma concepção ou visão mental... uma imagem mental, ou até mesmo como uma expectativa otimista… elas soam maravilhosas. São palavras encantadoras. Mas se você realmente conhecer isso, eu acho que você, talvez , nem vai desejá-lo. É uma dinamite. Não é algo com que se possa brincar.

Como eu sei disso?... Qual é a pergunta?... Eu realmente não sei. Sua conjectura é melhor do que a minha. Se eu lhe disser que é a mesma, qual valor isso tem? Se eu lhe disser que não é a mesma coisa, isso também não terá valor nenhum.
Mas por que coloquei estas questões pra nós? Como podemos saber sobre algo que não é seu, nem de ninguém mais?
Você não tem como sabê-lo, em absoluto.

Com um pouco de sorte, você tropeça nisso. Isto pode ser um negócio completamente desconcertante e intrigante. Você nem mesmo se importa em compará-lo com o de ninguém mais. Não será a mesma coisa, nem chegará a você da forma como você imagina.

O despertar espiritual- ou como quer que você chame isso -não chegará a você da forma que você imagina. Ele chegará contrariando todas suas imaginações. Ele chegará de uma forma muito simples, tranquila e inesperada.
Mas , de qualquer forma, o que é exatamente isso? Pode me dizer o que é isto que você está buscando, o que você quer? Ou você está tentando descobrir? Você pode me dizer?

Mudar  completamente a estrutura e o pensamento da civilização? Não é algo religioso. Isso significa que o próprio fundamento sobre o qual a superestrutura da civilização repousa, deve ser destruído. Isto não pode ser feito de uma maneira fácil. Nem pode ser feito sem uma mudança total em nossa perspectiva intelectual e espiritual.
O sistema educacional deve mudar. Mas não é fácil dizer tudo isso. A não ser que um indivíduo mude, não haverá mudança de forma alguma. E mesmo aquela mudança não pode ser feita através da vontade. E isto requer uma grande compreensão. Se fosse tão simples, com todas as descrições que temos nas escrituras hindus e budistas , todo mundo na Índia teria sido um grande iogue.

Certamente nós temos oito milhões de sadhus ao redor do país. Há tantas afirmações para isso que você chama de Iluminação Espiritual, que o resultado é que você não sabe o que é  iluminação ou quem é realmente e genuinamente uma alma  que alcançou um autêntico despertar espiritual.

Atualmente, a quantidade de discípulos ocidentais parece ser a medida, da grandeza de um mestre espiritual. Eles tem muitos seguidores, na Europa, na América e no mundo todo, cavalgando ao redor do globo. Falar para estas pessoas, se tornou algo muito “chique”.

UG Krishnamurti

Tradução: Alsibar ( se você achou que algo não foi traduzido corretamente, por gentileza, coloque nos comentários sua sugestão- obrigado)
Escute o áudio e assista ao vídeo :