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domingo, 23 de fevereiro de 2014

SOBRE GURUS E FALSOS GURUS-TUDO QUE VOCÊ SEMPRE QUIS SABER


O blog  “Alsibar” está alcançando o total de  100.000 visitações. Ao longo desses  quase três anos , percebi que os artigos que mais fizeram sucesso foram os mais polêmicos, principalmente aqueles sobre gurus famosos. Como muita gente me manda emails com perguntas específicas sobre os gurus, ou faz comentários nos posts me taxando de “fofoqueiro”, “caça-gurus”, “caça-defeitos”, “invejoso” e coisas parecidas, resolvi esclarecer de uma vez por todas minha opinião pessoal sobre o tema. Minhas opiniões não são verdades absolutas e acredito que esse seja um dos motivos do sucesso deste blog.  Além de informar, refletir e investigar, aqui também é um espaço virtual para  a livre expressão, discussão e debates de ideias. Agradeço a todos que entenderam essa proposta e que nos prestigiam . Muito obrigado!

Como eu escrevi na epígrafe acima, muita gente me envia emails, faz comentários no blog  e nas redes sociais me perguntando sobre este ou aquele guru específico. Algumas dessas pessoas são até mal educadas . Um tal de “ Consciência Cósmica” chegou a me ameaçar com o julgamento dos “Mestres” por causa do meu posicionamento . Finalmente, escreveram um trecho de uma fala de um guru no meu último post insinuando atitudes que não correspondem à realidade. Como vejo que há muita confusão e mal entendidos, resolvi escrever um artigo só com minha opinião acerca de alguns desses assuntos. Vou tentar abordar as perguntas mais comuns, de forma que meu posicionamento fique definitivamente esclarecido. Vamos por partes.

O GURU VERDADEIRO E O GURU FALSO

Sim, acredito que há gurus verdadeiros e falsos . Estes últimos são os falsos profetas citados por Jesus. Na primeira categoria, estão os  verdadeiros mestres , sábios e iluminados. E na segunda, os fajutos, picaretas e exploradores. Sempre existiram líderes mal intencionados em todas  as épocas movimentos, organizações e religiões. Não só nas grandes religiões, mas também em pequenos movimentos alternativos e desconhecidos. Há pessoas mentirosas e hipócritas em todas as esferas da sociedade, assim como há também pessoas iluminadas, boas, sinceras e honestas . É o tal “trigo e joio" falado por Jesus. Quem é quem? Não dá pra saber. Não é nosso trabalho julgar ninguém. Minhas opiniões pessoais acerca de A ou B não são verdades absolutas e - por isso- podem estar erradas. Mas elas são baseadas naquilo que vivo, leio, vejo, e analiso.

SOBRE OS GURUS ADVAITAS (Não-Dualistas)

Esquerd.. p. direit: Ramakrishna, Ramana, Papaji, Nisargadatta
Gosto dos gurus advaitas que não estão mais fisicamente presentes: Shankara, Ramakrishna, Ramana, Nisargadatta e Papaji. Destes, me identifico mais com Papaji tanto por sua mensagem - simples, prática e direta -quanto por sua vida. Nos relatos biográficos, dizem que mesmo depois de se “iluminar” , Papaji continuou trabalhando e cuidando do sustento de sua família. Somente depois de se aposentar que ele passou a se dedicar totalmente ao trabalho espiritual. Por outro lado, não simpatizo muito com os gurus advaitas vivos- principalmente os brasileiros pois - ao contrário de Papaji - a grande maioria dos gurus advaitas vivos tornaram a espiritualidade um meio de vida. Vivem da exploração da fé, da carência emocional e espiritual dos seus seguidores. Fortalecem e alimentam o apego e a dependência psicológica dos seus seguidores . Fazem de tudo para eles não se libertarem  e assim, deixem de ir aos tais satsangs - sua principal fonte de renda. Não vejo diferença entre isso e a venda de indulgências da Igreja Católica na Idade Média. É a mesma coisa com outra roupagem: a graça,  o céu , o nirvana etc é para os que tem (muito) dinheiro.

SOBRE OS (FALSOS) GURUS

Não é fácil identificar o falso guru.
Não tenho nada contra ninguém. Acredito que mesmo os falsos gurus cumprem um papel importante no sentido de ajudar as pessoas a compreender algumas verdades- mesmo que depois se decepcionem. Mas até isso faz parte da caminhada evolutiva. Pessoalmente não tenho nada contra ninguém. Cheguei, inclusive, a visitar um guru de passagem aqui por Fortaleza, assisti sua palestra com toda atenção e respeito  . Ao final da palestra, nos cumprimentamos e trocamos cordialidades. Sei diferenciar a "pessoa real" do personagem "guru". Quando estou na frente de um guru, vejo um ser humano igual a todos os outros -merecedor do meu respeito e cordialidade. Só não me peça para ser discípulo de ninguém. Ou que eu os defenda ou siga. Afinal, todos são seres humanos- gurus e não gurus- sejam eles verdadeiros ou não. Existem dois tipos de falsos gurus: os que  realmente acreditam ser iluminados porque tiveram algum tipo de experiência "mística" tal como um sonho, visão, alucinação ou coisa parecida- estes são casos de psiquiatria. E há aqueles que se tornaram guru porque perceberam o quanto é fácil enganar as pessoas e por isso exploram e enganam de forma consciente e pensada- estes são casos de polícia. Difícil é diferenciar quem é quem.

SOBRE O OSHO

Osho, polêmico na vida e na morte
Definitivamente não tenho nada contra o Osho- lamento que tenha tido um fim tão trágico. Fui seu admirador e defensor durante boa parte de minha vida. Mas quando estouraram os fatos de Óregon, que culminaram com sua fuga, prisão e morte misteriosa, fiquei com a “pulga atrás da orelha”. Mesmo daqui de Fortaleza as notícias oficiais que nos chegavam não eram confiáveis, pelo contrário, eram confusas e suspeitas. Comecei a desconfiar que algo estava errado. Alguns de seus discursos dessa época destoam dos discursos do começo de sua carreira e mostram um Osho completamente diferente e estranho. Muito tempo depois desses ocorridos, descobri o artigo do Christopher Calder- um ex-discípulo do Osho que resolveu contar ao mundo uma nova versão da vida deste famoso guru. Calder esclareceu muita coisa baseado não somente em seu próprio testemunho- mas no de outros ex-discípulos, indícios, reportagens, fotos, depoimentos etc. Com este artigo, muita coisa se esclareceu e começou a fazer sentido. Além do mais, comecei a desconfiar dos ensinamentos do próprio Osho . Percebi que eram palavras bonitas, belas , poéticas e de efeito, que tinham como objetivo encantar, hipnotizar, convencer e fazer discípulos. Compreendi que nem sempre as palavras bonitas e inspiradoras são verdadeiras. E na maioria das vezes não são.  Palavras verdadeiras são duras . As de Osho  não tinham um fim didático. Não objetivavam a libertação: mas a prisão do leitor ou ouvinte ao seu rebanho. Hoje vejo o Osho como uma incógnita, um mistério que dificilmente será desvendado. Restam apenas dúvidas, indícios, incertezas e hipóteses.

Tenho algumas hipóteses sobre ele:

1.Osho não era iluminado mas apenas um homem muito inteligente, hipnotizador e ótimo orador - isso explicaria toda sua história de extravagância, ganância, megalomania e as tragédias de sua vida: o fracasso da comuna , o suicídio de Vivek- seu grande amor- e seu suposto suicídio um mês depois.
2. Osho era iluminado, mas se perdeu ao longo de sua trajetória. Ou seja, era iluminado mas se perdeu,  fraquejou, caiu- como aconteceu com o mito bíblico da queda dos anjos.
3. Osho era iluminado e continuou iluminado até sua morte trágica. O que aconteceu é que mesmo os iluminados podem enlouquecer- e mesmo assim- continuar sendo iluminado.
4. Foi tudo mentira do Calder, do Milne e dos outros ex-discípulos que o denunciaram. Todas as provas e indícios foram uma farsa montada pelo governo americano para destruí-lo e matá-lo- juntamente com sua amada Vivek. 

Que ninguém me “apedreje” por ter uma opinião, uma hipótese… mas fico com a primeira. E aceito que discordem de mim. E também defendo o direito de cada um ter a sua. Mas registro aqui que reconheço a importância do Osho no que tange à espiritualidade humana moderna- ele ajudou a abrir e expandir os horizontes espirituais de muita gente- inclusive o meu.

SOBRE GURDJIEFF

George I. Gurdjieff
Um grande líder e divulgador dos ensinamentos espirituais das sociedades secretas com os quais tivera contato – mas não era um "desperto". E se era- caiu , desvirtuou-se ao longo do caminho. Suas ações estavam longe de manifestar o que pregava. Ele mesmo confessou ter usado seus poderes de telepatia e hipnose para tirar vantagens pessoais e seduzir mulheres .  No final da vida, ele se arrependeu , entrou em crise existencial e acabou tendo um fim trágico. Sua vida e ensinamentos influenciaram várias pessoas- inclusive o Osho. Ele foi um grande divulgador das Verdades Eternas mas estas não eram suas e ele próprio não conseguiu vivê-las.

SOBRE JIDDU KRISHNAMURTI

J. Krishnamurti: um iluminado, apesar dos deslizes
J.Krishnamurti foi um verdadeiro "guru" no sentido estricto do termo: "aquele que dissipa a escuridão" - não no sentido em que ela é atualmente usada .Ele foi um dos mestres que mais me influenciou. Nos piores momentos de minhas crises existenciais foram às suas palavras que recorri- encontrando de pronto a resposta e a luz que eu precisava. Acho que Krishnamurti foi um iluminado, apesar de seus defeitos e deslizes- como o caso amoroso com a esposa do seu secretário particular. Apesar de considerá-lo o mestre que mais revolucionou a história da espiritualidade humana moderna- não sou seu seguidor- nem muito menos "krishnamurtiano". Desde muito tempo que o tenho como  um dos referenciais espirituais mais seguros e confiáveis . Tenho ainda muita admiração e gratidão por ele, por seu trabalho, ensinamentos e por tudo que ele representa .  Apesar disso, tenho minhas próprias opiniões sobre uma série de coisas que com certeza K. reprovaria. Ele não se arvorava em autoridade nenhuma- deixou para nós a liberdade para investigar a Verdade por nós mesmos, acreditando em nossa própria capacidade e  luz interior. Se hoje procuro manter-me independente, autônomo e livre- agradeço principalmente a sua influencia e a de Buda.

SOBRE UG KRISHNAMURTI

U. G. : ex-ouvinte e admirador de JK.
Muita gente o considera um imitador do Jiddu. Mas a verdade é que Upalluri Gopalla Krishnamurti sempre teve sua vida ligada de alguma forma ao Jidu Krishnamurti. Quando nasceu, seu pai -teosofista e espiritualista -deu-lhe este nome em homenagem ao grande  J.K. Quando cresceu, tornou-se ouvinte assíduo das palestras do J. K.  até que um dia se “iluminou” durante uma de suas conferências. Diz-se que Upalluri alcançou um estado diferenciado de consciência. O próprio UG o denominou de “Calamidade”- devido a natureza dolorosa do misterioso fenômeno. Não teve discípulos nem criou nenhuma organização, movimento  ou sociedade.  Tudo indica que realmente se libertou da opressão dos pensamentos. Através de UG, podemos perceber que o fenômeno da iluminação não pode ser descrito, idealizado ou imaginado- é algo sempre novo, diferenciado, subjetivo e singular. J. Krishnamurti já afirmava isso usando outras palavras. Penso que UG realizou em vida os ensinamentos de JK. Depois, teve que se libertar do mestre, cortando totalmente as ligações com o passado- pelo menos no nível consciente. Inconscientemente, seus ensinamentos são ecos dos de  JK. Há algumas diferenças apenas na forma de expressão. Gosto do UG e acho que sua experiência pode ajudar na compreensão de nossa própria jornada espiritual.

SOBRE A DEPENDÊNCIA DOS GURUS

Isso sim sou contra. Sejam eles verdadeiros ou não. A relação de dependência e obediência cega ao guru é uma das fases da jornada que deve ser ultrapassada se a pessoa quiser crescer e evoluir. Do contrário o próprio guru - que um dia lhe tirou da prisão da mente, da depressão, ou ego- se torna, ele próprio, outra prisão. Todavia, não sou contra a gratidão, o reconhecimento etc. Pelo contrário, acho importante a gratidão e o reconhecimento àqueles que gratuitamente ajudam as pessoas que ainda penam e tateiam ao longo do caminho espiritual.

SOBRE AS RELIGIÕES TRADICIONAIS E SEUS LÍDERES

Apesar de achar que todo mundo deva ser livre, sei que as religiões tradicionais, com seus líderes religiosos, padres e pastores- cumprem uma importante missão no mundo: ajudar as pessoas a sair de uma vida desregrada e materialista, apontando-lhes os primeiros sinais da luz espiritual. Sei que sem essa ajuda muita gente estaria no crime, nas drogas ou depressão. Compreendo que cada um cumpre um papel importante- todos sem exceção. Inclusive este blogueiro. Mas isso não livra ninguém da parcela de culpa que lhe convém. Cada líder religioso deve responder por seus atos  e atitudes perante o tribunal da consciência. Em todo lugar existe gente boa e bem intencionada- assim como pessoas desonestas e falsas.

SOBRE O DISCURSO ADVAITA ( NÃO-DUALISTA)

Sou a favor da visão advaita com algumas reservas- mas sou totalmente contra sua manipulação por parte de pessoas que se apoderam do discurso, tornando-o apenas mais uma “coisa” vendável. Usam-no mais como uma forma de aparecer e se projetar socialmente- do que uma prática de vida. Falta vivência, sobram os discursos e a deplorável exploração comercial dos satsangs.

SOBRE SATSANGS

Nas tradições hindus é comum a adoração ao guru
Sou à favor de satsangs ( encontro com a "verdade") gratuitos ou com contribuições voluntárias. Sou contra satsangs pagos e caros. Compreendo os  de preço justo. Todavia o que se vê atualmente é a espiritualidade sendo transformada em negócio e – em alguns casos- exploração. Satsang não é show e guru não é celebridade- apesar de todo esforço de seus colaboradores de querer transformá-los em mega-stars e mitos  espirituais, essa prática mercantilista reduz a espiritualidade a uma mercadoria de luxo acessível apenas aos "eleitos" pagantes. Cria-se assim a indústria dos satsangs, que precisa lucrar cada vez mais para expandir e crescer. Os seguidores dos gurus se justificam dizendo que tem que cobrir os custos da viagem, hospedagem etc etc. Ora, é só não viajar. Fazer em casa mesmo, como fazia Nisargadatta e Ramana. Pra que viajar ? Não faz sentido. Se, como dizem, "Tudo já é perfeito e nada precisa ser mudado. Não há nada a ser ensinado e não existe ninguém aí para aprender"… então pra que viajar e cobrar caro pelas entrevistas pasticulares?

Espero que agora tenha ficado clara minha posição sobre os assuntos mais polêmicos ao longo desses anos. Só me resta agradecer a todos que participaram do blog com perguntas, comentários e críticas. Não tenho a Verdade absoluta e não julgo ninguém em particular. Deus é que conhece o coração de cada um. Mas também não se pode fechar os olhos aos fatos ou à Verdade-seja ela qual for, seja sobre quem for. Não há ninguém acima do bem e do mal. Todos estão sujeitos a falhas, quedas, deslizes e erros- inclusive eu.

Um fraterabraço a todos!

Muito obrigado!

Namastê!
Alsibar
htt://alsibar.blogspot.com



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O GURU E A BUSCA – UM DIÁLOGO COM KRISHNAMURTI




Primeiro Diálogo com Swami Venkatesananda 25 de Julho de 1969

Swami Venkatesananda: Krishnaji, eu venho como um humilde questionador que vem até um guru, não no sentido do herói venerado, mas no sentido literal, como um removedor das trevas da ignorância- que é o que palavra guru significa. “Gu” significa trevas da ignorância e “ru” significa removedor, aquele que dispersa. Já que  o guru é a luz que dispersa as trevas da ignorância , você é uma luz para mim agora. Nós nos sentamos nesta tenda ouvindo você,  e eu não consigo visualizar outra cena . Por exemplo, Buda se dirigindo aos Bhikshus (discípulos) ou Vasishta instruindo Rama na coorte real de Dasaratha. Nós temos alguns poucos exemplos destes gurus nos Upanishads; Primeiro houve Varuna, o guru, ele é muito parecido com você. Ele apenas incitava seus discípulos com as palavras “ Tapasa Brahma… Tapo Brahmeti”. “Que é Brahman? Não me pergunte”. Tapo Brahman, tapas,  “austeridade ou disciplina” ou como você mesmo frequentemente diz; “ Descubra”. E o próprio discípulo descobre a verdade – mas, por etapas.
Yajnyavalkya e Uddhalaka adotaram uma abordagem mais direta. Yajnyavalka instruindo sua esposa Maitreyi, usava o método “neti, neti” ( nem isso, nem aquilo). Você não pode descrever Brahman positivamente, mas quando você elimina todos os outros, ele está lá. Como você disse outro dia : o amor não pode ser descrito: “é isto”. Mas apenas eliminando-se o que o amor não é- é que ele se revela.
Uddhalaka usava diversas analogias para capacitar seus discípulos a ver a verdade e então cravá-los com a famosa analogia Tat- Twam- Asi ( Você é isto).
Darkshinamurti instruía seus discípulos pelo silêncio e Chinmudra. É dito que Sanatkumaras foram até ele para se instruírem. Quando eu li as descrições de como era Krishnamurti quando jovem, eu sempre me recordo disso. Estes velhos sábios foram até ele e Dakshinamurti ficou em silêncio e mostrou Chinmudra. Os discípulos olharam para ele e se iluminaram. É possível que alguém perceba a verdade sem ajuda de um guru- ou como queira chamar. Obviamente mesmo aqueles que vem regularmente a Saanen são socorridos em sua busca. Agora, na sua visão, qual é o papel de um guru, um preceptor ou um despertador?

Krishnaji: Senhor, se estás usando a palavra guru no sentido clássico, que é o de removedor das trevas da ignorância, pode uma outra pessoa -quem quer que seja, iluminado ou estúpido -realmente ajudar a dispersar esta escuridão em alguém? Suponha que “A” é um ignorante e você seu guru- guru no sentido usual, aquele que dissipa a escuridão e aquele que suporta o peso do outro, aquele que aponta- pode tal guru ajudar o outro? Ou melhor, pode o guru dissipar a escuridão do outro? Não teoricamente mas de verdade?
Você pode, se você for o guru de alguém, dispersar a escuridão de uma outra pessoa? Sabendo que ela é infeliz, confusa, não tem muita massa cinzenta, não tem bastante amor ou sofrimento, você pode dissipar isso?
Ou ele tem que trabalhar tremendamente sobre si mesmo? Você pode apontar, você pode dizer , “ Veja, passe por aquela porta” mas ele tem que fazer todo o trabalho do começo até o fim. Desta forma, você não será um guru no sentido normalmente aceito dessa palavra- se você disser que  não pode socorrer o outro.

Swamiji: É apenas isso: o “se” e o “mas”. A porta está lá. Eu tenho que atravessá-la. Mas existe esta ignorância sobre onde a porta está. Você, ao apontá-la, remove esta ignorância.

Krishnaji: Mas eu tenho que caminhar até lá… Senhor, você é o guru, se você aponta para a porta, você terminou o seu trabalho!

Swamiji: Assim a treva da ignorância é  removida.

Krishnaji: Não. Seu trabalho terminou!  Agora fica por minha conta me levantar, caminhar e ver o que está envolvido no caminhar. Eu tenho que fazer tudo isso.

Swamiji: Isto é perfeito.

Krishnaji: Assim você não dissipa minha escuridão.

Swamiji: Me desculpe. Se eu não sei como sair desta sala…Eu sou ignorante acerca da existência da porta naquela direção. O guru remove as trevas daquela ignorância. Então eu dou os passos necessários para sair.

Krishnaji: Senhor, vamos ser claros. Ignorância é a falta de entendimento, ou é a falta de entendimento de si mesmo? Não do grande “eu”, mas do pequeno “eu”? A porta é o “eu” através do qual eu tenho que ir. Não está fora de mim. Não é uma porta de verdade-como aquela porta pintada. É uma porta em mim, através do qual eu tenho que ir. Você diz: “faça isso”.

Swamiji: Exatamente.

Krishnaji: Você, como guru, terminou. Você não se torna algo importante. Eu não coloco guirlandas ao redor de sua cabeça. Eu tenho que fazer todo o trabalho, todo o trabalho! Você não dissipou as trevas da ignorância. Você , ao contrário, me mostrou que “ Você é a porta através do qual você mesmo tem que passar”.
Swamiji: Mas você, Krishnaji, aceita que foi necessário apontar?

Krishnaji: Sim, é claro. Eu aponto, eu faço isso. Nós todos fazemos isso. Eu pergunto a um homem na estrada, “ Por favor, você pode me dizer qual é o caminho pra Sannen?” e ele me diz. Mas eu não gasto meu tempo, devoção e amor dizendo: “Meu Deus, você é o maior dos homens”. Isso é muito infantil.

Swamiji: Obrigado, senhor.

Extraído do livro “ The Awakening of Inteligence” ( O Despertar da Inteligência)
Tradução: Alsibar
http://alsibar.blogspot.com



sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

GURDJIEFF ,OSHO, RAMANA, KRISHNAMURTI E A VERDADE


http://alsibar.blogspot.com 


          Esse artigo não é pra iniciantes. Dificilmente eles me compreenderão. Vou falar sobre o que Krishnamurti chamou de “terra sem caminhos” . Foi assim que ele denominou a Verdade. Você é meu convidado a fazer essa viagem que nos levará a um mar desconhecido. Muitos buscadores da minha geração provavelmente estão familiarizados com os quatro mestres citados no título deste artigo. Meu objetivo não é descaracterizar, nem desmerecer nenhum. Mas manifestar minhas sinceras impressões com vistas a ajudar o buscador em sua difícil viagem espiritual. Se você tem absoluta certeza de que já encontrou a Verdade, então pare de ler aqui. Este artigo é para aqueles que estão atribulados em seu espírito. Afinal como saber que caminho trilhar? Quem estará certo? Que  mestre seguir? O que fazer nos momentos de angústia e incertezas? Quem poderá nos dá segurança? Até que ponto devo prosseguir no meu caminho, mesmo sabendo que é errado para finalmente mudar de rumo?

          Se estas dúvidas assolam seu coração, então você está no lugar certo. E por providência divina você se deparou com esta mensagem que – creio- poderá lhe ajudar muito. Leia com atenção, mas não aceite nada do que vou dizer. Reflita em seu coração e peça a Deus que lhe ajude a entender. Se houver alguma verdade e se esta lhe for de alguma forma útil, seja grato a Deus no silêncio do seu coração. Caso contrário, obrigado por sua atenção. Continue seu caminho. Talvez não esteja na hora de você despertar para certas verdades. Ou talvez, eu esteja errado e você certo. A verdade não tem caminhos, nem donos.

          Gurdjieff foi um grande mestre- não há dúvidas sobre isso. Todavia, se perdeu ao longo do caminho. Ele apresentou ao mundo uma verdade fragmentada que não levava a lugar nenhum. Seu último livro da série “Sobre tudo e todas as coisas” é o relato de um homem confuso, arrependido e angustiado. Um desabafo de um moribundo próximo à morte.  Gurdjieff se perdeu . Não somente ele mas todos os seus seguidores- desde Ouspensky, passando por J. G Bennet, até Rodney Collin. Este último enlouqueceu e cometeu suicídio. De acordo com relatos, estava obcecado pela ideia da “morte consciente como caminho direto para o Despertar” o que o levou a pular  do alto de uma torre de uma igreja no Peru. Já seu mestre, o Ouspensky, após ter se separado de G., viu-se perdido e sem rumo. Acabou se envolvendo em experiências psicodélicas, principalmente a mescalina. Em relação ao seu próprio desenvolvimento  espiritual, ele foi um grande fracasso. Descobriu tarde demais que o sistema de G. ( Gurdjieff) era um beco sem saída. Suas últimas palavras foram:

- Abandono o sistema. Comecem novamente por si mesmos!

          Osho fora talvez, o guru mais famoso do século xx. O mais rico e mais insano também. Provavelmente, quando começou seu trabalho, sua intenções eram sinceras e verdadeiras. Não foi à toa que ele tinha tantos seguidores e admiradores- inclusive eu. Todavia, ao longo dos anos, o guru e seu movimento foi se afundando. Até o fracasso final que culminou com os fatos em Óregon e finalmente com a morte misteriosa de Osho e da sua namorada Vivek – esta última de overdose. Osho morrera um mês depois de “não-se-sabe-o-quê”. Sua morte é uma polêmica. Assim como fora toda sua vida. Oficialmente os discípulos dizem que Osho morrera em decorrência de envenenamento por Tálium causado pelo governo dos Estados Unidos  durante o tempo em que ficou preso . Extra oficialmente, alguns dissidentes e testemunhas oculares falam em suicídio por overdose. Osho era viciado em Válium ( Diazepan) e Óxido Nitroso. Vários elementos, indícios e testemunhos levam a crer que esta última versão é a mais verdadeira.

          Não se trata aqui  de macular a imagem de alguém que já morreu. Mas de analisar sua Verdade e seu caminho que , ainda hoje, influencia milhares de pessoas no mundo todo. Afinal, o caminho de Osho o levou a quê, à loucura, à tragédia? E que caminho é esse que culmina com a insanidade? Por certo, não é um bom caminho. Os discípulos quiseram distorcer os fatos, apresentando-o como uma espécie de vítima dos cristãos fundamentalistas americanos. Uma tentativa de martirizá-lo, tornando-o uma espécie de Jesus ou Sócrates. Mas o caso desses últimos é totalmente diferente. Tanto Sócrates quanto Jesus têm a seu favor não somente sua história, mas também seus ensinamentos. Qualquer pessoa pode verificar por si mesmo a eficácia daquilo que eles pregaram constatando, assim, sua veracidade.

          Isso não acontece com os ensinamentos do Osho. Qualquer um que tentar seguir seus ensinamentos, ou vira um seguidor fanático, ou simplesmente fica rodando em círculos. É um caminho que não leva a lugar nenhum- não no sentido Zen da expressão - o que seria algo positivo. Mas por que é incipiente e confuso . Osho descobriu uma forma ímpar de ensinar: bela, mas ineficaz. Seu sistema ou visão não funciona. Traz um bálsamo que só dura enquanto dura a leitura. É uma espécie de droga linguística. Dá uma sensação gostosa de paz e conforto. Mas quando defrontado com os reais problemas e desafios da vida, em nada ajudam. Nesses momentos  só nos restam duas alternativas: ou se enfrenta o fato- e isso inclui perceber que o mundo de beleza e celebração idealizado por Osho não existe- ou então fugimos novamente para seu mundo imaginário, gozando daquela paz superficialmente fabricada. Muitos procuram seus discípulos diretos - que agora posam de guru- na tentativa de perpetuar e fortalecer essa suposta “paz espiritual”.

          Ramana foi um autêntico mestre advaita ( tradição não-dualista), assim como Nisargadatta Maharaj. O problema não está nem em Ramana, nem em Nisargadatta, mas naqueles que se dizem seus seguidores e que hoje se autoproclamam gurus. A fonte é pura e verdadeira, mas em geral está poluída pelos gurus que a manipulam. Há centenas de movimentos  e “gurus” que se dizem inspirados nesses mestres. Todavia, é apenas jogada de marketing. Usam suas fotos e citações para atrair suas vítimas em potencial. Mas no fundo, seus caminhos são diametralmente opostos ao seguidos pelas suas supostas fontes. Em geral são pessoas que sofrem algum distúrbio comportamental tais como psicopatia, megalomania ou esquizofrenia.  A aparente simplicidade desses ensinamentos,  junto ao apelo da visão advaita de que tudo já é perfeito, parece uma fórmula fácil  de manipulação e exploração dos incautos.

          O curioso é  que, apesar de tentarem ligar suas imagens às de Ramana ,  o estilo de vida de boa parte desses “gurus”  se aproxima mais do Osho . Em geral, utilizam a mesma técnica que o consagrou o guru dos Rolls Royces: palavras belas, poéticas, frases de efeito que causam sensações agradáveis na mente. Sensações que só duram enquanto ouvimos ou lemos seus discursos. Mas sem nenhum efeito prático  - a não ser o entorpecimento, o embotamento e o isolamento do mundo. Isso pode durar  dias, meses, anos… mas  chegará um dia que a pessoa terá que acordar. Infelizmente, em muitos casos, será  tarde demais. Restará apenas contabilizar os prejuízos espirituais, psíquicos, emocionais e financeiros das vítimas.

          Krishnamurti é um caso raro de autenticidade , heroísmo e sabedoria. Cedo libertou-se das garras de uma poderosa organização que tinha tudo para corrompê-lo e destruí-lo. Mas ele conseguiu se libertar e tornou-se um dos maiores mestres espirituais contemporâneos. Assim como Buda e Jesus, Krishnamurti foi um rebelde. Não foi um rebelde sem causa – mas por uma grande causa: a libertação do homem dos seus grilhões espirituais e psicológicos.

          Krishnamurti teve, certamente, alguns percalços ao longo de sua vida secular.  Desafios que,  tanto Osho quando Gurdjieff também enfrentaram: as tentações do dinheiro-ligado à soberba, ambição e poder. E as tentações do sexo-ligados à luxúria e ao prazer. Osho sucumbiu. Gurdjieff se arrependeu. Mas Krishnamurti superou. Apesar do famoso “escândalo” em que se envolveu com a esposa do seu secretário particular, ele continuou firme em seu caminho. Noventa anos de vida, um caso apenas que talvez o tenha envergonhado pelo resto da vida. Penso que seus milhares de admiradores viram aí uma “falha” natural do seu lado humano. E, ao contrário do que pensavam seus opositores,  aumentou a admiração de seus fãs no mundo todo.  Provavelmente,  muitos se alegraram de saber que Krishnamurti era humano igual a todos eles. Um homem que também teve conflitos, falhas e  imperfeições e que, apesar disso tudo, encontrou Deus ou a Verdade. Esse episódio tirou-o do pedestal de homem-deus,  tornando-o um ser semelhante a nós.

          O caminho trilhado por cada um desses mestres nos revela grandes lições que podem nos servir de inspiração e orientação em nossa própria jornada. O fato é que Gurdjieff tentou trilhar o caminho mas falhou. Osho pareceu já ter chegado-mas revelou-se um grande fracasso. Krishnamurti não chegou a lugar nenhum. Não por fracasso, mas porque ele descobriu que não havia  nenhum lugar para se ir, nem nenhum caminho pra se trilhar. Ramana chegou à mesma conclusão que Krishnamurti. A diferença básica entre estes dois é que o primeiro não era revolucionário, ele não negou a tradição na qual ele próprio estava inserido- pelo contrário reafirmou-a. Krishnamurti negou totalmente as tradições, apesar dele próprio se inserir na tradição dos grandes iconoclastas como Buda e Jesus.

          Ramana não teve mestres, assim como Buda e Krishnamurti. Ambos não precisaram seguir ninguém. Encontraram sua própria via de libertação sozinhos. E se você ainda está seguindo alguém- seja quem for - esqueça, abandone isso. Nunca chegarás a lugar nenhum assim. Escute os mestres autênticos, absorva suas orientações mas não adore ninguém, não bajule ninguém, nem entregue sua vida a ninguém. Encontre sua própria verdade que é única. Cuidado com os exploradores que cantam música para lhe distrair, enquanto  roubam sua carteira.

          Expus, em poucas palavras um pouco da minha própria experiência e visão. Todavia, sei que a minha não é única, nem pretende ser absoluta. As críticas são normais e esperadas. Mas sei também que tudo o que escrevi aqui, poderá ser de grande utilidade àqueles que realmente e sinceramente querem encontrar a Verdade e não apenas um conforto superficial, uma felicidade passageira , uma paz  ilusória . Se é este o seu caso, então preste atenção, não quero que aceite, mas reflita com carinho sobre a minha última mensagem:

“Não há caminho, nenhum lugar pra se ir, ninguém pra ser seguido, nem ninguém pra caminhar”

Se entendeu isso, então  meu esforço não terá sido em vão e minhas palavras não terão sido desperdiçadas.

Namastê!

Alsibar


Todas informações polêmicas aqui apresentadas podem ser checadas nos seguintes livros e links :

GURDJIEFF – George I.-  Life is real only then, when “ I am”-  All and Everything/ third series

SMITH, Joyce Collin- Não chame ninguém de mestre. Siciliano- 1993

MINE, Hugh -Bhagwan: O Deus que falhou Imprensa de São Martinho .

FRANKLIN, Satya Bharty -Promessa do Paraíso: vida íntima de uma mulher com 'Bhagwan' Osho Rajneesh - imprensa Colina Barrytown / Estação.

E o artigo de Christopher Calder sobre o Osho em Inglês e Português:




domingo, 16 de setembro de 2012

O FIM DA “ERA DOS GURUS” ? The end of Professional "Gurus" ?


Novo Milênio: o Final da "Era dos Gurus"?

 O novo milênio representa, para muita gente, uma nova era de elevação da consciência espiritual. Muitas pessoas já compreendem a importância da autonomia, independência e liberdade no processo do despertar. Em tal contexto, questiona-se o papel e a função dos gurus profissionais.  Será o fim do domínio dos tradicionais gurus e "autoridades" espirituais? O ser humano finalmente chegou à maturidade espiritual? Este artigo se propõe a analisar esta e outras questões afins.


Na Índia antiga os gurus educavam os jovens
   O mestre espiritual, ou guru, sempre desempenhou um papel de destaque em todas as sociedades ao longo dos séculos. Nas civilizações antigas, como Índia e Grécia, ele era o responsável pela educação e formação dos jovens. Infelizmente, com o passar dos séculos, a profissão de guru foi se tornando algo questionável. No século XX, a imagem do guru renunciante e espiritualizado tornou-se cada vez mais rara. Ao ganhar o status de deus, o guru passou a ser considerado alguém acima do bem e do mal. Um ser com poderes irrestritos e absolutos, de caráter infalível e atitudes incontestáveis. Isso propiciou o surgimento de gurus megalomaníacos geralmente envolvidos em escândalos e crimes de toda espécie. 

           Ao contrário dos  gurus da antiguidade, os “autoproclamados gurus”, ou gurus profissionais, são pessoas que acreditam ser iluminadas ou fingem sê-lo, mas que, na verdade, são pessoas comuns. Em geral, possuem ótima oratória e forte magnetismo pessoal, qualidades que quando usadas incorretamente se transformam em perigosas armas de dominação mental. Muitos desses gurus são verdadeiros hipnotizadores e usam todos os recursos para manipular e explorar pessoas com dificuldades emocionais, mentais ou espirituais. Vale tudo para a realização de seus objetivos mundanos de expansão, fama, poder e riqueza. 

Quase mil mortos na tragédia de Jonestown
O século XX foi fértil em produzir gurus profissionais. Verdadeiros psicopatas, caras-de-pau e sem o mínimo de escrúpulos  . Alguns como Jim Jones e David Kolesh levaram centenas de inocentes à morte. A grande pergunta que se faz é se, no novo milênio, os gurus profissionais terão tanto destaque como tiveram no  passado. Afinal, se é verdade que a humanidade vive um despertar gradativo e coletivo, aproxima-se o tempo em que  “ser desperto”, tornar-se-á regra e não excepção. Então que lugar terão os gurus profissionais cujo o discurso  se fundamenta no suposto poder de despertar os outros com a "graça" de sua presença?

Krishnamurti, Ramana, Lahiri Mahasaya, Nisargadatta
     Com o advento de seres espirituais como Lahíri Mahasaya, Krishnamurti, Nisargadata Maharaj e Ramana Maharish a compreensão do papel do "guru” passou por uma drástica e total reformulação. Com Lahíri Mahasaya, o iogue pai de família, ficou comprovado que família e emprego não são empecilhos à vida espiritual. Nisargadata chegou a uma conclusão parecida.Ora, se “tudo é um”, que diferença faz viver em uma caverna ou num quarto? Por isso, abandonou a ideia de se isolar nas cavernas do Himalaya e continuou sua vida normalmente. Durante o dia trabalhava na sua quitanda e à noite atendia os discípulos e visitantes. Ramana Maharish,  um tradicional mestre advaita, também compreendeu que a verdadeira renúncia não era externa e sim interna, por isso, não exortou o abandono das coisas exteriores, e sim das “ilusões internas do EGO”. Por último, Krishnamurti, que apesar de ter sido um grande mestre espiritual, não abandonou um estilo de vida considerado “burguês” por muitos críticos. Através dos ensinamentos e do exemplo destes mestres espirituais autênticos, o guru deixou de ser um “parasita do povo”, abrindo assim uma nova concepção sobre a figura do guru no novo milênio.

Ser desperto não concede privilégios, nem autoridade
 Não se pode esquecer que o novo milênio é agora. Por isso, está cada vez mais comum encontrar pessoas despertas, ou despertando. Muitos, já compreendem que ser “desperto” não concede privilégios a ninguém, nem muito menos o status de superioridade espiritual . Viver à custa dos outros, não prover seu próprio sustento, pode até ter sido normal no passado. Hoje, os tempos são outros. Teremos cada vez mais profissionais e especialistas “despertos”, cada um “fazendo a diferença” em sua própria área de atuação. Serão cientistas, educadores, biólogos, físicos, escritores, intelectuais, artistas etc que contribuirão para a edificação de novos paradigmas,  constituindo, assim, os fundamentos sobre os quais serão erguidos um novo mundo e uma nova consciência .

Será o fim dos gurus profissionais?
   No novo milênio, ninguém será considerado especial apenas por ser “desperto”. Ser desperto será regra e não exceção. Assim, desde muito cedo, as crianças conviverão com pessoas espiritualizadas- famílias, amigos e educadores- que lhes ensinarão que o despertar só depende delas mesmas. Ninguém fará da espiritualidade uma profissão, nem uma desculpa para ser adorado ou bajulado. Se a pessoa insistir em viver apenas da espiritualidade, sem querer estudar ou trabalhar  será, certamente, criticado. Afinal, ninguém mais aceitará a ideia “ultrapassada” de que família, estudo e trabalho são obstáculos à espiritualidade. Em um mundo de “despertos”, o guru que não trabalha será uma aberração, uma anomalia. Os gurus perderão seu status de “deus”, pois aumentará cada vez mais o número de pessoas espiritualmente despertas. Será que isso já não está acontecendo? Será que não se aproxima o fim da era dos “gurus profissionais”?

               Talvez, esta geração ainda presencie o fim da era dos gurus. Um novo mundo em que todos sejam, ao mesmo tempo seu próprio mestre e discípulo. Uma sociedade sem exploração, ou manipulação, em que ser “desperto” seja algo comum e ordinário. Talvez, chegue o dia, em que causará estranheza e perplexidade o fato de alguém querer ser considerado especial ou superior, apenas por ser aquilo que ele originalmente "é”.

Que venham então os novos tempos!

Alsibar

http://alsibar.blogspot.com


sexta-feira, 18 de maio de 2012

O MEDITADOR E OS GURUS


O Guru e o Meditador- imagem da Internet

Será realmente necessário termos um guru ? Quais os limites da atuação de um guru e como eles podem nos ajudar? Qual deve ser a qualidade da relação guru-discípulo? Quais os riscos de se ter um guru como autoridade espiritual? Quem são os verdadeiros gurus e como eles atuam? Vamos refletir e descobrir juntos?

O termo “ guru”, mestre espiritual, vem do sânscrito e significa , dentre outras coisas, “aquele que detém a luz do conhecimento”. Na Índia, os gurus gozam de grande respeito e veneração por parte da população. Isso deve-se a fatores culturais e religiosos próprios daquela região. É sabido que existem gurus verdadeiros e verdadeiros charlatães. Os verdadeiros mestres são seres de consciência espiritual tão elevadas e raras, que chamá-los de gurus tornou-se pejorativo. O título, usado livremente por qualquer “guru de araque” como forma de exploração e auto-promoção, tornou-se motivo de paródias e críticas.  Os maiores culpados disso tudo são os próprios "gurus". Via de regra,  eles têm seu nome envolvido em escândalos que vão desde a pedofilia, enriquecimento ilícito, até assassinatos e mortes. Assim como na tradição  ocidental cristã, os pastores, padres, médiuns etc protagonizam esses tipos de escândalos, na Índia, os tais "gurus" estão o centro  de tais aberrações.

É difícil existir um meditador  que não tenha desejado encontrar um guru. Na Internet temos a facilidade de escolhê-lo com um simples “clique”. São centenas de milhares para todo tipo de gosto e bolso. Só na Índia, existem centenas deles. Nos Estados Unidos e Europa, idem. Os brasileiros não precisam mais viajar para Índia para encontrá-los. Já temos tanto gurus, que estamos exportando para o exterior. Já podemos presenciar, inclusive, disputas e brigas entre eles no ambiente virtual . A grande questão que se impõe nessa floresta de confusões, brigas e satsangs é : será mesmo que precisamos dos gurus? E  quais os riscos desta relação polêmica e confusa? É o que vamos analisar adiante.

Os riscos são muitos. O guru, em geral, considera-se uma autoridade espiritual que pode transmitir-lhe a Verdade, a Luz, a Libertação etc. O problema é que, em muitos casos, eles tornam-se mercadores dessa mesma Verdade que professam. Recententemente, vi um caso na Internet em que um guru- desses brasileiros famosos- convidava as pessoas para ajudar na construção de um novo “salão”. Até aí tudo bem. Todos nós podemos contribuir com um trabalho sócio-espiritual. Todavia, no site dizia que para trabalhar lá você tinha que contribuir financeiramente. E a quantia era razoável. Vou repetir para quem não entendeu: você tinha que pagar pra trabalhar! Como pode isso? Ou seja,  a própria ajuda, teria que ser paga. Eles conseguiram transformar algo tão puro e sublime como a "ajuda", em uma espécie de “mercadoria”. Fico imaginando a cena, de algum pedreiro ou servente pobre tentando “ajudar”, com seu  trabalho na obra :

- Vim para ajudar na construção do salão.
- Ok, o preço  é 100, 00!
- Mas como???? Sou eu que vou trabalhar ! Vocês é que deveriam me pagar. Além do mais minha força de trabalho e experiência são mais valiosos do que dinheiro e vocês ainda querem que eu pague por isso?
- Aqui é assim, pra ajudar com seu trabalho, você tem que pagar!!!!

Obviamente que quando um guru chega a este ponto é porque ele já está no topo da fama. Deve ter tanta gente disposta a pagar para trabalhar, que ele não faz questão de nenhuma ajuda sincera e verdadeira. A que ponto do absurdo chegamos? Coitada da viúva dos Evangelhos, iria sentir vergonha de seus parcos vinténs. E Krishna, neste sentido, parece agir tolamente quando diz que recebe de bom grado todas as oferendas oferecidas de coração , mesmo que seja uma simples flor ou um pedaço de pão.

Mas, em geral, os gurus são espertíssimos. Enquanto estão no púlpito, sua linguagem é impecável. Seus discursos são capazes de levar ao êxtase, de tão belos, profundos e poéticos. Aos olhos dos discípulos, encenam o “tipo” que tão esmeradamente tentam encarnar: a do guia espiritual autêntico. Mas, na vida privada, revelam sua verdadeira face cheia de defeitos, desejos, rancores e ambições como qualquer outro ser humano. Quando iniciam sua jornada em direção ao tão sonhado sucesso, evitam assuntos polêmicos , mostram-se tolerantes e amorosos para com tudo e com todos. Na falta de um ensinamento mais original, falam exaustivamente sobre Amor. Nenhum tema é mais universal e cativante do que este. Todavia, quando se estabelecem no sucesso, mudam radicalmente. De forma sutil e sorrateira,  tornam-se autoritários, antidemocráticos e intolerantes com qualquer um que “ameace” os seus domínios. Todavia, muitos são covardes e agem na surdina. Em geral, escolhem algum tipo de “secretário particular” pra fazer o trabalho “sujo”. A estratégia é a seguinte: quando são questionados sobre o estabelecimento de alguma ordem polêmica -que geram críticas ou problemas - atribuem isso aos exageros do “secretário”- nunca a si mesmo. Osho (Bhagwan Shree Rajneesh) o mais famoso dos gurus, usava desta estratégia com sua famosa secretária Sheela- a quem, quando convinha,  atribuía todos os mal-feitos e atrocidades cometidos em seu nome. Nunca assumia a culpa de nada. Apenas quando era estritamente conveniente.

Ou seja,  nesse mar de lama, o meditador deve ter muito, muito cuidado e atenção. Outro fato muito comum que ocorre nesses movimentos é que o meditador passa a ficar tão envolvido com os negócios do movimento, que  esquece o verdadeiro sentido dele está ali. Ou seja, a libertação interior e a meditação passam para segundo plano. Em primeiro lugar vem o trabalho “missionário” de divulgação, estabelecimento e fortalecimento da obra, do nome e da vida do guru. Isso demanda tempo, trabalho e energia.  À essa altura, caso o meditador se questione o porquê de ter que trabalhar tanto, sem tempo para dedicar-se ao seu próprio desenvolvimento interno, o guru ou algum superior imediato lhe responde categoricamente:

- Servir à causa é sua meditação. Trabalhar pela causa do mestre, divulgando seu nome e sua obra é o maior dos exercícios espirituais.

E fica por isso mesmo. A verdade passa a ser, não a “Verdade” , libertadora, universal, além do tempo ou espaço. Mas a verdade professada pelo guru e, de preferência, exclusivamente ela. Morre então todo o sentido de busca real. Aos poucos perde-se a capacidade de compreender, refletir, criticar e indignar-se. Neste ponto, o meditador que, em princípio procurou o guru e o movimento como forma de evoluir interiormente, é reduzido a uma espécie de robô, um zumbi. Perde totalmente a vontade própria e a  capacidade de refletir. Sua vida está entregue totalmente aos pés do guru e a desgraça o acompanhará como uma nefasta sombra.

Os verdadeiros e raríssimos gurus existem. Mas encontrá-los fisicamente é tão raro quanto encontrar um diamante azul. Todavia, eles existem.  Em geral, vivem no anonimato e somente os buscadores sinceros e espiritualmente elevados podem reconhecê-los. Esse foi o grande mérito de Yogananda. Antes dele, muitos escritores, pesquisadores e curiosos haviam ido a ìndia à procura dos grandes iogue -sem sucesso. Achava-se, inclusive, que não mais existiam. Então por que Yogananda conseguiu encontrar tantos iogues fabulosos? É simples: porque ele próprio era um grande iogue. E somente um iogue pode reconhecer outro iogue. Os grandes mestres, ao contrário dos augus (autoproclamados gurus), se escondem dos holofotes, não viajam para dar “satsangs”, evitam a publicidade e não cobram por seus serviços.  Na época de Yogananda havia vários grandes iogues no anonimato. Raríssimas pessoas reconheceram, por exemplo, Sri Yuktéswar como um grande iogue. E até mesmo o fantástico Babaji, aparecia frequentemente entre as pessoas comuns, sem chamar atenção.

A única exceção a esta regra, são os iluminados com missões importantes, tais como Buda, Jesus  e Krishnamurti. Eles seguem uma ordem interna que os impele a agir publicamente devido ao cumprimento de importantes funções no mundo. São missões fundamentais para o desenvolvimento da consciência humana. No caso deles , foi necessário que saíssem do anonimato e assumissem uma vida pública atuante, do contrário, não poderiam desempenhar o papel histórico que o destino lhes conferiu. No caso de Krishnamurti, foi mais difícil ainda, pois ele teve sua vida escancarada na mídia desde muito cedo. Mas, como ele veio com uma missão importante específica,  entende-se o porquê de tanta  visibilidade. Era necessário, que o máximo de pessoas pudessem ter acesso ao seus ensinamentos, pois ele iniciou uma nova era no desenvolvimento da espiritualidade humana.

Apesar dos acima citados fugirem à regra pelas razões já expostas, os verdadeiros mestres, geralmente, são inacessíveis e anônimos. Desconfie dos gurus que vendem caminhos fáceis pela Internet. Em geral, são apenas exploradores. Alguns são “esquizofrêncos” pois se consideram a encarnação de alguma entidade divina.  É mais seguro evitá-los.  Mas  caso você os escute,  escute-os mas não os siga, respeite-os mas não os venere. Reflita sobre a sabedoria da Bíblia: “aprendei de tudo e retei o bem”. Os gurus, por mais elevados que sejam, não podem lhe dar o céu, a verdade ou a libertação. Eles apenas esclarecem, explicam, apontam o caminho. Todo o “trabalho pesado” deve ser feito por você e somente por você. E qual é este trabalho? Meditar, meditar e meditar. Gurdjieff costumava dizer que o nível do guru é proporcional ao nível do discípulo. Ou seja, mesmo que alguém se encontrasse com mestres como  Babaji, Jesus e Krishnamurti não seriam capazes de seguir seus ensinamentos. Como de fato ocorreu com os milhares de ouvintes de Krishnamurti. Por não o compreenderem, ou não conseguirem viver seus ensinamentos, muitos preferiram procurar outros gurus mais “baratos” e práticas mais  “fáceis”. Da mesma forma muitos que iam visitar Sri. Yuktéswar, o abandonavam logo depois, ao constatarem o elevado nível de seus ensinamentos e sua própria incapacidade para cumpri-los.

Portanto, não se lamente por não ter um guru. Buda, Jesus, Ramana e Krishnamurti não tiveram gurus e , no entanto, foram grandes iluminados. Os verdadeiros gurus atuam no plano invisível de forma anônima e silenciosa. Eles não precisam fazer “satsangs” ou viajar fisicamente para se encontrar com as pessoas. Onde quer que haja um meditador sincero, haverá a assistência dos verdadeiros mestres da luz. E o melhor: de graça! Esteja aberto ao aprendizado, e as lições surgirão de todas as fontes. Sejam dos livros, dos mestres, dos “augus”, dos familiares , amigos, professores e pessoas ao seu redor. Todos eles nos ensinam algo. Procure manter sua mente aberta e alerta. As grandes lições da vida podem vir de onde menos se espera. Se estiveres pronto, o mestre aparecerá com certeza. O irônico é que, quando estamos prontos, não precisamos mais de mestres, pois passamos a vê-lo em todos os lugares, pessoas e coisas- inclusive em nós mesmos.

Namastê!
Alsibar