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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

GURDJIEFF ,OSHO, RAMANA, KRISHNAMURTI E A VERDADE


http://alsibar.blogspot.com 


          Esse artigo não é pra iniciantes. Dificilmente eles me compreenderão. Vou falar sobre o que Krishnamurti chamou de “terra sem caminhos” . Foi assim que ele denominou a Verdade. Você é meu convidado a fazer essa viagem que nos levará a um mar desconhecido. Muitos buscadores da minha geração provavelmente estão familiarizados com os quatro mestres citados no título deste artigo. Meu objetivo não é descaracterizar, nem desmerecer nenhum. Mas manifestar minhas sinceras impressões com vistas a ajudar o buscador em sua difícil viagem espiritual. Se você tem absoluta certeza de que já encontrou a Verdade, então pare de ler aqui. Este artigo é para aqueles que estão atribulados em seu espírito. Afinal como saber que caminho trilhar? Quem estará certo? Que  mestre seguir? O que fazer nos momentos de angústia e incertezas? Quem poderá nos dá segurança? Até que ponto devo prosseguir no meu caminho, mesmo sabendo que é errado para finalmente mudar de rumo?

          Se estas dúvidas assolam seu coração, então você está no lugar certo. E por providência divina você se deparou com esta mensagem que – creio- poderá lhe ajudar muito. Leia com atenção, mas não aceite nada do que vou dizer. Reflita em seu coração e peça a Deus que lhe ajude a entender. Se houver alguma verdade e se esta lhe for de alguma forma útil, seja grato a Deus no silêncio do seu coração. Caso contrário, obrigado por sua atenção. Continue seu caminho. Talvez não esteja na hora de você despertar para certas verdades. Ou talvez, eu esteja errado e você certo. A verdade não tem caminhos, nem donos.

          Gurdjieff foi um grande mestre- não há dúvidas sobre isso. Todavia, se perdeu ao longo do caminho. Ele apresentou ao mundo uma verdade fragmentada que não levava a lugar nenhum. Seu último livro da série “Sobre tudo e todas as coisas” é o relato de um homem confuso, arrependido e angustiado. Um desabafo de um moribundo próximo à morte.  Gurdjieff se perdeu . Não somente ele mas todos os seus seguidores- desde Ouspensky, passando por J. G Bennet, até Rodney Collin. Este último enlouqueceu e cometeu suicídio. De acordo com relatos, estava obcecado pela ideia da “morte consciente como caminho direto para o Despertar” o que o levou a pular  do alto de uma torre de uma igreja no Peru. Já seu mestre, o Ouspensky, após ter se separado de G., viu-se perdido e sem rumo. Acabou se envolvendo em experiências psicodélicas, principalmente a mescalina. Em relação ao seu próprio desenvolvimento  espiritual, ele foi um grande fracasso. Descobriu tarde demais que o sistema de G. ( Gurdjieff) era um beco sem saída. Suas últimas palavras foram:

- Abandono o sistema. Comecem novamente por si mesmos!

          Osho fora talvez, o guru mais famoso do século xx. O mais rico e mais insano também. Provavelmente, quando começou seu trabalho, sua intenções eram sinceras e verdadeiras. Não foi à toa que ele tinha tantos seguidores e admiradores- inclusive eu. Todavia, ao longo dos anos, o guru e seu movimento foi se afundando. Até o fracasso final que culminou com os fatos em Óregon e finalmente com a morte misteriosa de Osho e da sua namorada Vivek – esta última de overdose. Osho morrera um mês depois de “não-se-sabe-o-quê”. Sua morte é uma polêmica. Assim como fora toda sua vida. Oficialmente os discípulos dizem que Osho morrera em decorrência de envenenamento por Tálium causado pelo governo dos Estados Unidos  durante o tempo em que ficou preso . Extra oficialmente, alguns dissidentes e testemunhas oculares falam em suicídio por overdose. Osho era viciado em Válium ( Diazepan) e Óxido Nitroso. Vários elementos, indícios e testemunhos levam a crer que esta última versão é a mais verdadeira.

          Não se trata aqui  de macular a imagem de alguém que já morreu. Mas de analisar sua Verdade e seu caminho que , ainda hoje, influencia milhares de pessoas no mundo todo. Afinal, o caminho de Osho o levou a quê, à loucura, à tragédia? E que caminho é esse que culmina com a insanidade? Por certo, não é um bom caminho. Os discípulos quiseram distorcer os fatos, apresentando-o como uma espécie de vítima dos cristãos fundamentalistas americanos. Uma tentativa de martirizá-lo, tornando-o uma espécie de Jesus ou Sócrates. Mas o caso desses últimos é totalmente diferente. Tanto Sócrates quanto Jesus têm a seu favor não somente sua história, mas também seus ensinamentos. Qualquer pessoa pode verificar por si mesmo a eficácia daquilo que eles pregaram constatando, assim, sua veracidade.

          Isso não acontece com os ensinamentos do Osho. Qualquer um que tentar seguir seus ensinamentos, ou vira um seguidor fanático, ou simplesmente fica rodando em círculos. É um caminho que não leva a lugar nenhum- não no sentido Zen da expressão - o que seria algo positivo. Mas por que é incipiente e confuso . Osho descobriu uma forma ímpar de ensinar: bela, mas ineficaz. Seu sistema ou visão não funciona. Traz um bálsamo que só dura enquanto dura a leitura. É uma espécie de droga linguística. Dá uma sensação gostosa de paz e conforto. Mas quando defrontado com os reais problemas e desafios da vida, em nada ajudam. Nesses momentos  só nos restam duas alternativas: ou se enfrenta o fato- e isso inclui perceber que o mundo de beleza e celebração idealizado por Osho não existe- ou então fugimos novamente para seu mundo imaginário, gozando daquela paz superficialmente fabricada. Muitos procuram seus discípulos diretos - que agora posam de guru- na tentativa de perpetuar e fortalecer essa suposta “paz espiritual”.

          Ramana foi um autêntico mestre advaita ( tradição não-dualista), assim como Nisargadatta Maharaj. O problema não está nem em Ramana, nem em Nisargadatta, mas naqueles que se dizem seus seguidores e que hoje se autoproclamam gurus. A fonte é pura e verdadeira, mas em geral está poluída pelos gurus que a manipulam. Há centenas de movimentos  e “gurus” que se dizem inspirados nesses mestres. Todavia, é apenas jogada de marketing. Usam suas fotos e citações para atrair suas vítimas em potencial. Mas no fundo, seus caminhos são diametralmente opostos ao seguidos pelas suas supostas fontes. Em geral são pessoas que sofrem algum distúrbio comportamental tais como psicopatia, megalomania ou esquizofrenia.  A aparente simplicidade desses ensinamentos,  junto ao apelo da visão advaita de que tudo já é perfeito, parece uma fórmula fácil  de manipulação e exploração dos incautos.

          O curioso é  que, apesar de tentarem ligar suas imagens às de Ramana ,  o estilo de vida de boa parte desses “gurus”  se aproxima mais do Osho . Em geral, utilizam a mesma técnica que o consagrou o guru dos Rolls Royces: palavras belas, poéticas, frases de efeito que causam sensações agradáveis na mente. Sensações que só duram enquanto ouvimos ou lemos seus discursos. Mas sem nenhum efeito prático  - a não ser o entorpecimento, o embotamento e o isolamento do mundo. Isso pode durar  dias, meses, anos… mas  chegará um dia que a pessoa terá que acordar. Infelizmente, em muitos casos, será  tarde demais. Restará apenas contabilizar os prejuízos espirituais, psíquicos, emocionais e financeiros das vítimas.

          Krishnamurti é um caso raro de autenticidade , heroísmo e sabedoria. Cedo libertou-se das garras de uma poderosa organização que tinha tudo para corrompê-lo e destruí-lo. Mas ele conseguiu se libertar e tornou-se um dos maiores mestres espirituais contemporâneos. Assim como Buda e Jesus, Krishnamurti foi um rebelde. Não foi um rebelde sem causa – mas por uma grande causa: a libertação do homem dos seus grilhões espirituais e psicológicos.

          Krishnamurti teve, certamente, alguns percalços ao longo de sua vida secular.  Desafios que,  tanto Osho quando Gurdjieff também enfrentaram: as tentações do dinheiro-ligado à soberba, ambição e poder. E as tentações do sexo-ligados à luxúria e ao prazer. Osho sucumbiu. Gurdjieff se arrependeu. Mas Krishnamurti superou. Apesar do famoso “escândalo” em que se envolveu com a esposa do seu secretário particular, ele continuou firme em seu caminho. Noventa anos de vida, um caso apenas que talvez o tenha envergonhado pelo resto da vida. Penso que seus milhares de admiradores viram aí uma “falha” natural do seu lado humano. E, ao contrário do que pensavam seus opositores,  aumentou a admiração de seus fãs no mundo todo.  Provavelmente,  muitos se alegraram de saber que Krishnamurti era humano igual a todos eles. Um homem que também teve conflitos, falhas e  imperfeições e que, apesar disso tudo, encontrou Deus ou a Verdade. Esse episódio tirou-o do pedestal de homem-deus,  tornando-o um ser semelhante a nós.

          O caminho trilhado por cada um desses mestres nos revela grandes lições que podem nos servir de inspiração e orientação em nossa própria jornada. O fato é que Gurdjieff tentou trilhar o caminho mas falhou. Osho pareceu já ter chegado-mas revelou-se um grande fracasso. Krishnamurti não chegou a lugar nenhum. Não por fracasso, mas porque ele descobriu que não havia  nenhum lugar para se ir, nem nenhum caminho pra se trilhar. Ramana chegou à mesma conclusão que Krishnamurti. A diferença básica entre estes dois é que o primeiro não era revolucionário, ele não negou a tradição na qual ele próprio estava inserido- pelo contrário reafirmou-a. Krishnamurti negou totalmente as tradições, apesar dele próprio se inserir na tradição dos grandes iconoclastas como Buda e Jesus.

          Ramana não teve mestres, assim como Buda e Krishnamurti. Ambos não precisaram seguir ninguém. Encontraram sua própria via de libertação sozinhos. E se você ainda está seguindo alguém- seja quem for - esqueça, abandone isso. Nunca chegarás a lugar nenhum assim. Escute os mestres autênticos, absorva suas orientações mas não adore ninguém, não bajule ninguém, nem entregue sua vida a ninguém. Encontre sua própria verdade que é única. Cuidado com os exploradores que cantam música para lhe distrair, enquanto  roubam sua carteira.

          Expus, em poucas palavras um pouco da minha própria experiência e visão. Todavia, sei que a minha não é única, nem pretende ser absoluta. As críticas são normais e esperadas. Mas sei também que tudo o que escrevi aqui, poderá ser de grande utilidade àqueles que realmente e sinceramente querem encontrar a Verdade e não apenas um conforto superficial, uma felicidade passageira , uma paz  ilusória . Se é este o seu caso, então preste atenção, não quero que aceite, mas reflita com carinho sobre a minha última mensagem:

“Não há caminho, nenhum lugar pra se ir, ninguém pra ser seguido, nem ninguém pra caminhar”

Se entendeu isso, então  meu esforço não terá sido em vão e minhas palavras não terão sido desperdiçadas.

Namastê!

Alsibar


Todas informações polêmicas aqui apresentadas podem ser checadas nos seguintes livros e links :

GURDJIEFF – George I.-  Life is real only then, when “ I am”-  All and Everything/ third series

SMITH, Joyce Collin- Não chame ninguém de mestre. Siciliano- 1993

MINE, Hugh -Bhagwan: O Deus que falhou Imprensa de São Martinho .

FRANKLIN, Satya Bharty -Promessa do Paraíso: vida íntima de uma mulher com 'Bhagwan' Osho Rajneesh - imprensa Colina Barrytown / Estação.

E o artigo de Christopher Calder sobre o Osho em Inglês e Português:




domingo, 16 de outubro de 2011

A VERDADE E O PROBLEMA DA LINGUAGEM: The Truth and the Language's problem

A Verdade e o problema da linguagem- Alsibar
 Qual a importância da linguagem no nosso dia-a-dia? Será que todos nós realmente usamos uma "linguagem comum" ? Qual a relação entre linguagem e a percepção da Verdade? O que precisamos fazer para compreender o “novo”e , consequentemente, nos transformarmos? Vamos refletir sobre estes e outros assuntos ?
      A linguagem molda nosso mundo subjetivo e, consequentemente, a forma como o percebemos e dele nos acercamos . Gurdjieff costumava afirmar que uma das nossas maiores ilusões é acreditar que “usamos uma linguagem comum e que nos compreendemos”. Não nos damos conta o “quão subjetiva é a linguagem, quão diferentes são as coisas que dizem, embora todas empreguem as mesmas palavras”. Assim, é impossível haver um verdadeiro estudo ou uma verdadeira comunicação, se não estivermos conscientes do papel que a linguagem exerce sobre nós. 

              Ora, tudo em nossa vida é comunicação. As relações se baseiam nela. Quanto melhor o nível de comunicação, maior o entendimento. Se nos entendemos bem, não há espaço para confusões ou mal-entendidos. Mas se nossas linguagens são tão confusas como haveremos de nos comunicarmos corretamente? Será que somos capazes de entender o Novo que é a Verdade? Será que somos capazes de transmiti-la?
Em geral , achamos que para entender a Verdade transmitida por um sábio basta  lê-lo ou ouvi-lo. O problema é que, à medida que vou lendo ou ouvindo, vou fazendo associações com as coisas que já conheço. Se o que o autor fala condiz com o meu pré-conhecimento, então passo a gostar dele.  Senão, taxo-o de complicado ou simplesmente discordo dele. Além disso, mesmo quando penso que  compreendi o que o autor disse , em geral, o que aconteceu foi apenas uma reinterpretação das falas do autor de  acordo com o meu pré-conhecimento .  E isso não é compreensão .
    Na verdade, a compreensão só surge quando não faço associações. Se escuto algo realmente novo, esse algo só é novo, quando minha mente não a reinterpreta de acordo com o velho. Caso contrário,  perderá o impacto que deveria ter sobre minha mente e sobre minha vida. O resultado é a continuidade do velho, em detrimento do novo. Vamos pegar, por exemplo, a palavra "vigiar". Se em toda sua vida, você ouviu esta palavra sob a visão da cultura judaico-cristã, então no seu universo linguístico a palavra “vigiar”  tem um peso moral e repressor muito específico. Significaria algo como  “cuidar para não cair em pecado ou em tentação”. Mas, se escuto um monge budista dizer: Vigiai o pensamento!- então o significado não é o mesmo. Um budista pensa na vigilância do pensamento dentro de uma perspectiva não-dual e impessoal. Enquanto um cristão tem nessa frase uma perspectiva totalmente dual e pessoal . Assim, se o cristão não libertar sua mente de conceitos  fortemente arraigados, dificilmente irá compreender o novo significado que está sendo apresentado a ele dentro de uma nova perspectiva cultural. 

         Em suma, a linguagem e a capacidade de compreensão estão interligados. E se para evoluir preciso compreender, tenho então que refletir sobre minha capacidade de compreensão e como isso se manifesta na minha mente. Ora, será que existe o novo se estou apenas reinterpretando e fazendo associações? Existe o novo se já considero que aqueles conceitos já me são conhecidos e que, por isso mesmo, penso já tê-los apreendidos? Existe o novo se minha mente está saturada de  velhas idéias, conceitos, imagens e definições ? Ou será que tenho que me libertar de tudo isso para que o novo possa “nascer” ?
  O novo só pode surgir quando se compreende o quanto o “velho” é prejudicial. Infelizmente, estamos tão dominados por velhos conceitos que fica difícil entendermos o quanto isso é verdadeiro. Para demonstrar o quanto nossa linguagem  é confusa, plural e imprecisa vamos analisar, algumas palavras e conceitos do  nosso cotidiano. São palavras que, em geral, acreditamos saber o significado mas será que sabemos mesmo? Senão, vejamos:

1.  ILUSÃO: uma palavra que tornou-se, ela própria, fonte de muitas ilusões. Ora, a ilusão para uma pessoa criada e educada dentro de uma perspectiva religiosa repressiva e moralizadora poderá considerar como ilusão tudo o que esteja dentro da esfera dos desejos biológicos ou carnais. Todavia, temo que ter cuidado para não confundir as coisas. Ilusão por definição é tudo que parece ser mas não é. Mas os “desejos da carne” são bastante reais. Além do mais, se considero ilusão tudo o que é carnal então por que tenho lutar contra ? O que é ilusão simplesmente não existe e se não existe para que a luta, a disciplina, a repressão?  Na verdade , a ilusão  está na mente. Não está nas coisas tangíveis, não está nos nossos desejos sexuais-estes são muito reais. Dizer que “o mundo é uma ilusão, um sonho”- não tem significado nenhum. A verdadeira ilusão, a verdadeira Maya, está na nossa mente. É dela que parte nossa visão subjetiva de mundo. É esta visão de mundo subjetiva, forjada pela cultura e educação, que nos impede de ver a Realidade como ela realmente é. 

    2.  EGO- esta palavra é uma verdadeira salada de significados e fonte de muitos mal-entendidos. Por isso que, quando me refiro ao EGO, sempre procuro usá-la em “caps lock”-pois tenho em mente um sentido bastante específico. Seus significados são múltiplos e variam conforme o autor, a cultura, a tradição, a fonte, o livro etc. Para mim,  EGO é  simplesmente o conteúdo da mente representado pelas pensamento, pelo passado, as imagens, as convicções, as certezas, os desejos psicológicos, o futuro psicológico, as vontades, as escolhas, as lembranças, as expectativas, o meu senso de “mim mesmo” etc.  Muitos autores dizem por aí que o EGO é uma ilusão. Mas como o EGO pode ser uma ilusão se ele existe? Em outras palavras, o sonho é uma ilusão? O sonho é real, pois todos nós sonhamos. O problema surge quando confundimos as "realidades". Mas se compreendo que sonho é sonho e realidade é realidade então está tudo bem.  A miragem existe, enquanto miragem e assim deve ser considerada. As imagens na tela do cinema são reais enquanto imagens projetadas em uma tela branca. Tolo é quem confunde a realidade objetiva com a realidade encenada na tela . Cada coisa deve ser considerada em sua própria natureza. Assim o EGO é uma realidade projetada na tela da mente original. Mas ele existe, não como entidade essencial, verdadeira mas existe; e se o negamos corremos um grande risco de sermos, por ele,  enganados.

           3. CRENÇAS-As crenças, por exemplo, são crenças apenas- não podem ser confundidas com a realidade ou consideradas verdades absolutas. Se assim compreendo, e coloco cada coisa em seu lugar, então não há problema nenhum. 
   4.  AMOR- Esta palavra é, talvez a mais desgastada e incompreendida de todas. Não irei defini-la, pois a considero indefinível. Apenas mostrarei que esta palavra tem para cada pessoa um significado diferente. Para alguns ela significa caridade, para outros ela encerra uma Força, uma Luz. Alguns acreditam que amar é cultivar as virtudes da tolerância, gentileza e bondade. Há  aqueles que dizem que o amor não se pratica, pois está além de todas as práticas , palavras e virtudes. E também aqueles que defendem que não há diferença entre Amor e Deus- quem encontra um, encontra o outro pois estão intimamente associados. E assim, por diante. O fato é que em termos de significado a palavra amor está totalmente alterada e desgastada pelo seu mau uso. Como resgatar seu significado puro e original? Eis um dos grande desafios daqueles que procuram resgatar a força de uma palavra tão bela, poderosa e importante.
   5. A VERDADE- É dito que a Verdade, está além de todos os conceitos e palavras mas, até mesmo para compreender isso, precisamos estar abertos ao novo. O novo só surge quando o velho morre. Assim, se queremos nos autoconhecermos, se queremos realmente nos transformarmos, temos que morrer também para velhos e desgastados conceitos que nos impedem  a percepção da Verdade. Deus, ou o Desconhecido é definido em algumas culturas e autores como “ o eternamente novo”. Ele, não pode ser “captado” por uma mente que opera dentro da dimensão do velho e do conhecido . Somente quando a mente liberta-se completamente do seu próprio conteúdo -velho, desgastado e repetitivo- é que ela poderá entrar em contato com uma nova dimensão. Chame-a de Deus, Desconhecido, Verdade… Ou, se preferir, fique quieto e em silêncio- deixando que “aquilo” se revele por si mesmo.
          Por fim temos o problema  da transmissão. Muitos sábios optaram pelo silêncio. A lenda diz que Bodhidharma- o grande introdutor do Budismo na China- foi um deles. Passou nove anos olhando para uma parede, pois não encontrava ninguém que pudesse entender a Verdade. Após esse tempo, um discípulo apareceu e o desafiou, cortou sua própria mão e disse: “Já cortei minha mão, se não virares e não me ensinares, cortarei também a cabeça !”. Foi aí que ele se virou, satisfeito por ter encontrado um discípulo com condição de entender a verdadeira essência do Budismo, daí surgiu o Chan ou Zen. Ramana passou um bom tempo em silêncio. E Lao Tsé  dizia que o Tao é indefinível. Eis o grande dilema: como comunicar o incomunicável? Como falar daquilo que não se pode falar? Como nomear o que é “ inonimável”? Essa foi e continua sendo a grande dificuldade de todos os mestres, sábios e iluminados. Talvez, por isso, o Tao Te Ching nos adverte: “ o sábio cala, quem fala- não sabe”.
    O silêncio, talvez, seja a resposta- não o exterior, mas o interior encontrado na verdadeira Meditação. 

 Namastê!
 Alsibar ( inspirado)

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

DEUS É UMA PESSOA? Reflexões sobre a visão antropomórfica de Deus- Is God a person? Reflecting on God's Anthropomorphic Vision

A Criação e o Caos
Como explicar o fato de uma criança inocente ser raptada durante uma missa e ser cruelmente assassinada? Como entender o fato de uma pessoa sofrer um acidente fatal ao fazer uma peregrinação  religiosa de agradecimento por ter sido salva de um acidente? Abaixo refletiremos sobre estas e outras questões que desafiam a  visão antropomórfica de Deus pregada pela maioria das religiões tradicionais.

FATOS QUE DESAFIAM A VISÃO ANTROPOMÓRFICA DE DEUS

Alguns fatos são tão intrigantes que põe em cheque a  lógica das religiões tradicionais, no que concerne à visão de Deus. Estes eventos sinistros, desafiam a nossa compreensão, o bom senso, e abalam a coerência  do discurso teológico tradicional. Será mesmo que Deus pode ser considerado um ser antropomórfico? ( forma e atributos humanos). Quando, diante de tragédias dolorosas, dizemos: “é a vontade de Deus!” não estamos tornando-o igual a nós e, consequentemente, reduzindo-o a nossa condição? Mas será que esta visão de um Deus pessoal é correta? Ora, se Deus é Onipotente, Onisciente e Onipresente e se tem vontades e emoções similares aos humanos por que permitiria tais acontecimentos ? Essa tese não tornaria Deus um ser sádico, cruel e omisso? Obviamente que isso não faz sentido. Então como poderemos lidar com tais questões de maneira, no mínimo, coerente?

COMO SABER QUAL É A VONTADE DE DEUS?

Há, certamente, muitas coisas além de nossa compreensão. Todavia , este argumento não pode ser usado sempre que nossas  crenças são desafiadas pelos fatos chocantes. O problema é que muitas religiões defendem a concepção de um deus antropomórfico somente quando assim lhe parece conveniente. Por exemplo, quando querem impor regras estritamente humanas , em nome de Deus.  Como alguém pode saber o que Deus quer ou não de nós? Alguns podem responder: “está nos livros sagrados”. Mas existem tantos e vários livros sagrados, tantas traduções e interpretações que não dá pra sabermos qual a mais verdadeira ou "autorizada".

A verdade é que, durante muito tempo, as religiões tradicionais usaram tais expedientes  para explorar, dominar e oprimir. A história já nos provou que este é um caminho perigoso , cujas consequências danosas a humanidade conhece muito bem. Quando edificamos uma “autoridade espiritual” o resultado são as divisões, os conflitos e as guerras. Não há religião, livro sagrado, ou intérpretes mais verdadeiro, sagrado ou autorizado do que o outro. Tais concepções fortalecem o fanatismo possibilitando a prática da crueldade em nome do Amor. No novo milênio, a humanidade precisa ultrapassar esse nível de compreensão puramente sectária, para uma visão mais essencial e universalista acerca da vontade divina.

 NÃO EXISTEM AUTORIDADES OU INTERMEDIÁRIOS

Temos  que entender uma coisa simples: ninguém é dono da verdade e ninguém é autoridade espiritual de nada. Aqueles que se autointitulam intermediários entre Deus e o Homem estão mentindo e explorando. Ninguém deveria aceitar como VERDADE concepções  radicadas no sectarismo,  na fé cega,  em teorias e especulações . A história nos mostra que muitas dessas visões e princípios  são impostas pelo poder estabelecido como forma de dominar as massas. Muitas delas, caíram, por terra com o passar dos anos diante da incontestabilidade dos fatos. Hitler pregava  a pureza e superioridade da raça ariana sobre outras "assim chamadas" sub-raças. A igreja católica pregava que o negro não tinha alma, que a Terra era o centro do Universo e que o papa era infalível. Dizia-se na antiguidade que o Império Romano era invencível e, mais recentemente, que o Titanic era o navio mais seguro da época.  Exemplos de crenças aceitas como verdade incontestável e que posteriormente provaram-se infundadas é o que não falta. Ou seja,  frequentemente nos vemos diante de situações que desafiam nossas crenças e certezas acerca da vida, levando-nos a reinventá-las ou repensá-las. Mas, infelizmente, muitos preferem continuam acreditando cegamente em algo - mesmo que seja totalmente sem fundamento.

NADA SABEMOS

Esses fatos apontam para uma coisa básica,  mas que teimamos em não aprender : NADA SABEMOS. Os cientistas vivem refazendo suas teorias e explicações acerca do Universo. Debruçam-se anos e anos à procura de fórmulas matemáticas e equações que consigam explicá-lo e não encontram. Assim também é na nossa vida. Como explicar a crueldade? As coincidências sinistras? As fatalidades? Devemos simplesmente fazer de conta que Deus  estava ausente ou estava “ocupado” demais e não viu  o que estava acontecendo? Sabemos que não  é assim. Uma concepção antropormófica de Deus  não se sustenta diante de tais fatos . Assim , não podemos considerar Deus uma pessoa, com sentimentos e emoções humanas pois, desta forma, ele perderia seus principais atributos: o de Amor,  Sabedoria e Poder Ilimitados e não seria, portanto, Deus. Infelizmente, é devido a concepções tradicionalistas como estas, que muita gente abandona a  espiritualidade para abraçar o ateísmo. Que nada mais é do que outra forma de crença. Isso é lamentável. Essas concepções equivocadas, ao invés de aproximar as pessoas de Deus , tem o poder de afastá-las.

SOMOS CO-CRIADORES DO UNIVERSO

Também é comum vermos alguns religiosos pregarem que se deve “exigir” coisas de Deus.  Alguns pedem, gritam, tentando impor suas vontades, como se Deus fosse alguém que cedesse às pressões humanas. Agimos com Ele como se fôssemos crianças choronas e teimosas  que pedem aos pais coisas que não podem ser atendidas. E, por incrível que pareça, boa parte dos desejos são atendidos ( não esqueçamos que a própria Bíblia diz que "somos deuses", portanto, co-criadores do Universo). Assim, quando pelejamos ou insistimos com Deus, muitas vezes somos atendidos. Mas isso não significa que essa seja “a vontade de Deus”- talvez seja a nossa própria vontade posta em ação.  Apesar de Jesus ter dito “pedi, pedi e dar-se-vos-á”, ele enfatizou várias vezes, que devemos nos resignar à Vontade do Pai que sabe, melhor que ninguém, o que é melhor pra nós. Não é à toa que na oração do Pai Nosso, ele  diz " Seja feita a tua Vontade assim na terra como no céu." 

SEJA FEITA A TUA VONTADE !

No Pai Nosso, Jesus diz : seja a feita a Tua Vontade.  Significando que não devemos pelejar contra a vontade de Deus. Mas, muitas vezes não ficamos satisfeitos. Vivemos reclamando ou infelizes e, muitas vezes, praguejando. O que se deve entender é que há momentos na vida para cada coisa. Há momentos de  ação e momentos de resignação. Aprender a diferenciar os dois é o começo da sabedoria.  Certa feita, Jesus disse : até o cabelo de vossas cabeças estão contados e não cai uma folha que não seja pela vontade do Pai. Eis então  o argumento perfeito para os ateus : se Deus é ilimitadamente poderoso e compassivo porque não age de forma a evitar calamidades, injustiças e crueldades? A resposta do senso comum  seria: ele é bom, mas é justo. Todavia, há centenas e milhares de casos em que crianças inocentes são vítimas de crueldade e injustiça. Sabemos que as religiões orientais, notadamente budismo e hinduísmo,  explica tudo isso através da crença na reencarnação e no carma. Mas será que essas explicações são capazes de nos trazer a paz e conforto? Para alguns, talvez sim. Todavia, não podemos considerar as crenças como sendo fatos. O fato é que são crenças. Será que não haveria uma outra forma de se considerar a questão, sem precisarmos recorrer às crenças?

 CONHECER A VERDADE PELA EXPERIÊNCIA DIRETA

Os verdadeiros místicos e sábios dizem que sim. Eles não defendem qualquer posição radicada na fé cega ou crenças. Em geral, são contra todo tipo de radicalismos e sectarismos, pois sabem  que tanto a crença quanto a descrença , impedem a experiência direta da Verdade ou Deus. Por isso defendem que o homem deve conhecer a Verdade diretamente. Sendo este o única caminho capaz de nos trazer a verdadeira paz e libertação da dor. 

A IDÉIA  ANTROPOMÓRFICA DE DEUS TRAZ DIVISÕES

Deus não pode ser reduzido às proporções humanas. Quando assim o fazemos, nós o destruímos . Como o Imensurável pode se encaixar dentro dos estreitos limites e medidas humanos? A idéia antropomórfica de Deus, torna-o mais próximo da gente mas, ao mesmo tempo, o distancia pois deixamos de vê-lo como a Essência de tudo que há no Universo. Essa centelha essencial se manifesta em todas as coisas, inclusive no homem. O deus antropomórfico, traz divisões e guerras pois as religiões dominantes  sempre brigam pela supremacia do seu deus, em detrimento dos outros "deuses". A verdade é que, as diversas formas e  imagens existentes sobre Deus refletem a cultura de um determinado povo, região e época. Talvez o Hinduísmo seja uma das poucas religiões tradicionais que aceitam a multiplicidade de manifestações divinas. Mesmo assim, ainda há grupos que discutem sobre qual é  a forma mais original, a mais poderosa ou suprema se é Brahma, Krishna, Shiva, Kali etc

DEUS É INFINITO, INCONCEBÍVEL E INCOGNOSCÍVEL

Os grandes místicos e sábios não se preocupam com tais dilemas. Suas experiências de Deus vão além de todo sectarismo . Assim, se entendemos que Deus é inconcebível, incognoscível, atemporal e ilimitado então resolvemos vários dilemas. Quando consideramos Deus como sendo "alguém"- no sentido humano, os fatos tomam aparência de crueldade e injustiça. Ora, se Deus é ILIMITADO e INFINITO, não podemos querer “abarcá-lo” ou “prendê-lo” nas garras da nossa lógica finita e limitada . Consciente disso é que o sábio reconhece sua própria limitação e lida com a questão de outra maneira  : se a vida no parece incompreensível isso se deve ao fato de atribuirmos a Deus  valores e medidas estritamente humanos. Então, concluímos que há coisas no Universo que nossa limitada capacidade nunca compreenderá. Ora, se não conseguimos compreender o simples universo visível, como compreenderemos o que é Invisível, Incondicionado, Atemporal e Infinito? Por isso, Lao Tsé dizia no Tao Te Ching: “o Inconcebível que se pode conceber não é o Inconcebível… o Sábio deve auscultá-lo no silêncio”. Posições bastante similares são compartilhadas por outros místicos e iluminados como Krishnamurti, Buda,  dentre outros.

RECONHECENDO NOSSAS LIMITAÇÕES

Desta forma, quanto mais tentamos entender as razões e o sentido das coisas, mais confusos e perturbados ficamos. Por isso é dito que o “sábio cala”. Não há nada a se falar ou discutir sobre Deus pois nunca teremos capacidade para compreendê-lo em sua magnitude e amplidão. Neste particular, os mitos e os símbolos exercem uma função  importante : são tentativas de comunicar de maneira simples e inteligível, concepções complexas e profundas. Como entender quando Krishna diz no Bhagavad- Gita: “ Eu sustento todo o Universo com apenas uma centelha do meu esplendor”? Como entender o Amor de Deus? Como entender a morte, a solidão, as perdas, as tragédias e o sofrimento que atingem a todos- muitas vezes sem   nenhum motivo aparente e de forma "injusta" pelos padrões humanos? Como entender o episódio que envolveu Hitler e sua escalada ao poder, permitindo assim, o Holocausto?  Só nos resta reconhecer nossas limitações e abandonarmos essa mania de querer entender as razões de tudo.

SOBRE A NECESSIDADE DAS CRENÇAS

Uma outra questão seria : será que as crenças  são necessárias a uma conduta ética e uma vida plena, equilibrada e saudável? Talvez para algumas pessoas a resposta seja sim. Todavia, algumas vezes, elas são verdadeiros empecilhos e até mesmo prejudiciais. Mas se tua crença não cria divisões, não incita ao ódio,  ou à ilusão, então não há problemas, desde que você esteja plenamente consciente de que  crenças não são a VERDADE. É algo que você escolhe confiar porque lhe parece razoável, ou lógico, ou porque lhe ensinaram assim. Mas temos que compreender que podem não ser exatamente como acreditamos que seja.  Então a questão sobre se Deus existe, qual sua aparência e quais suas "vontades e desejos"- nunca serão completamente respondidas. E qualquer que seja a conclusão que cheguemos, por mais confortadoras que sejam, não deixarão de ser crenças. Falando isso não estou afirmando que são falsas- as crenças podem ser verdadeiras ou não. Simplesmente não temos como comprová-las, se tivéssemos não seria crença. Mas, será possível irmos além das crenças? Sim, é possível.

INDO ALÉM DAS CRENÇAS E CONCEPÇÕES INTELECTUAIS

Para aqueles que não se satisfazem com as crenças, mas querem encontrar a Verdade, experimentá-la e vivê-la como uma experiência direta, então só resta um caminho : a MEDITAÇÃO. Todos os grandes mestres sem excepção, a ensinaram.  A meditação pode  transformar, iluminar, libertar  e unir os homens pois não está radicada em concepções teóricas,  mas na experiência direta e objetiva da verdade . A meditação pode libertar os homens das falsas concepções e fazê-los penetrar na dimensão do Desconhecido. Lá estão todas as respostas e o bálsamo para todas as dores. Quando o homem se liberta das limitações do pensamento, do tempo e do desejo passa ele a sintonizar-se com aquela Energia ilimitada, infinita e atemporal chamada Deus. Chegando aí o indivíduo não se questiona mais, não se confunde mais, nem exige, nem pede mais nada. Passa também a compreender que  Deus é simplesmente o Absoluto, sendo assim, é tudo o que existe: o perceptível  e o imperceptível,  o imanente e o transcendente; o que está dentro, fora, acima, abaixo e além.

HUMILDADE E FÉ DO HOMEM SÁBIO

Quando a mente questionadora silencia, não há mais espaço para sectarismos, radicalismos ou discussões teóricas acerca do transcendental. Ao  reconhecer suas limitações, o homem sábio demonstra humildade e fé no Absoluto. Também demonstra verdadeira confiança no Amor e na Proteção Divina pois não suplica ou impõe nada à Divindade. Se Deus é o criador e mantenedor Supremo, ele  nunca pode estar “ausente” ou “omisso”. Mas não compete a nós questionar suas atitudes e os movimentos do Destino Inexorável. Quando sentimos a existência de uma Força Superior do Universo, então qual o sentido da inquietação, medo ou preocupação? O sábio  relaxa pois sabe que Universo  existe por si mesmo e que sua vida não depende de sua medíocre e limitada vontade. Tudo que existe vive pela “vontade” do PAI. A "vontade do Pai" é apenas uma metáfora usada por Jesus  para expressar o fato de que o Universo é regido por Leis e Forças Superiores, matematicamente exatas, Infinitas, Inteligentes e Autocriadoras.

DEUS “É  O QUE É”

E se aceitamos que Deus  é o Absoluto Insondável, e portanto cria, destrói, comanda, sustenta e controla tudo no Universo, desde o pequeno átomo até as galáxias infinitas, então compreenderemos quando Ele afirma na Bíblia que “É O QUE É”.  E assim compreendemos quando os sábios afirmam que perceber  "o que é", é perceber a Verdade, o Desconhecido, Deus, enfim.

AUTOR : ALSIBAR (inspirado)

http://alsibar.blogspot.com



sábado, 13 de agosto de 2011

"OS SETE SÁBIOS CEGOS E O ELEFANTE" OU "A PERCEPÇÃO FRAGMENTADA DA VERDADE"



Numa cidade da Índia viviam sete sábios cegos. Como os seus conselhos eram sempre excelentes, todas as pessoas que tinham problemas recorriam à sua ajuda.
Embora fossem amigos, havia uma certa rivalidade entre eles que, de vez em quando, discutiam sobre qual seria o mais sábio.
Certa noite, depois de muito conversarem acerca da verdade da vida e não chegarem a um acordo, o sétimo sábio ficou tão aborrecido que resolveu ir morar sozinho numa caverna da montanha. Disse aos companheiros:
- Somos cegos para que possamos ouvir e entender melhor que as outras pessoas a verdade da vida. E, em vez de aconselhar os necessitados, vocês ficam aí discutindo como se quisessem ganhar uma competição. Não aguento mais! Vou-me embora.
No dia seguinte, chegou à cidade um comerciante montado num enorme elefante. Os cegos nunca tinham tocado nesse animal e correram para a rua ao encontro dele. O primeiro sábio apalpou a barriga do animal e declarou:
- Trata-se de um ser gigantesco e muito forte! Posso tocar nos seus músculos e eles não se movem; parecem paredes…
- Que palermice! – disse o segundo sábio, tocando nas presas do elefante. – Este animal é pontiagudo como uma lança, uma arma de guerra…
- Ambos se enganam – retorquiu o terceiro sábio, que apertava a tromba do elefante. – Este animal é idêntico a uma serpente! Mas não morde, porque não tem dentes na boca. É uma cobra mansa e macia…
- Vocês estão totalmente alucinados! – gritou o quinto sábio, que mexia nas orelhas do elefante. – Este animal não se parece com nenhum outro. Os seus movimentos são bamboleantes, como se o seu corpo fosse uma enorme cortina ambulante…
- Vejam só! – Todos vocês, mas todos mesmos, estão completamente errados! – irritou-se o sexto sábio, tocando a pequena cauda do elefante. – Este animal é como uma rocha com uma corda presa no corpo. Posso até pendurar-me nele.
E assim ficaram horas debatendo, aos gritos, os seis sábios. Até que o sétimo sábio cego, o que agora habitava a montanha, apareceu conduzido por uma criança.
Ouvindo a discussão, pediu ao menino que desenhasse no chão a figura do elefante. Quando tacteou os contornos do desenho, percebeu que todos os sábios estavam certos e enganados ao mesmo tempo. Agradeceu ao menino e afirmou:
- É assim que os homens se comportam perante a verdade. Pegam apenas numa parte, pensam que é o todo, e continuam tolos!
Sensibilizado com aquela situação, o sábio aproximou-se dos amigos e contou-lhes que falavam do mesmo animal. Apenas estavam tocando partes diferentes. Quão surpreso  ficou ao perceber que a reação dos amigos não fora nada amistosa. Começaram a xingá-lo acusando-o de  soberba por se achar mais sábio do que todos os outros juntos.
- Como sabes que é o mesmo animal se não consegues ver?
O sétimo sábio pensou um pouco e respondeu :
- Esta criança, que não é cega, descreveu-a para mim
- Ora, como sabes que ela não é tão cega quanto nós, uma vez que não enxergas? Vai-te embora pois, antes que nossas iras recaiam sobre vós! E nunca mais  apareçam aqui novamente.
Diz-se que o sábio retornou para a caverna, triste, mas satisfeito por ter feito sua parte. Notícias correram anos mais tarde informando que os cegos continuaram brigando durante muito tempo, até que uns foram matando os outros. Quando restou apenas um, este foi pisoteado pelo elefante.

Adaptado de um conto Hindu por Alsibar
Conto original enviado pelo colaborador Assis Duarte
COMENTÁRIO
Este famoso conto hindu descreve fielmente a situação em que todos nós nos encontramos em relação à Verdade. É bom lembrar que já houve muitas guerras, violência e mortes por causa de visões religiosas divergentes. A versão dos vitoriosos passa a ser considerada a  "verdadeira". O conflito se agrava quando cada organização, religião ou teólogo tenta impor sua própria visão à força.  É claro que sair vitorioso numa batalha não  significa necessariamente que se está com a Verdade. Assim, é tolo considerar  que a Verdade está em livro A ou B, nesta ou naquela interpretação, em religiões, seitas e movimentos religiosos – pois cada uma  tem um ponto de vista, uma  visão parcial da Verdade. E, acredito, que o espírito belicoso do radicalismo e da intolerância nega a própria Verdade. 
Infelizmente a intolerância  e as discordâncias teórico-religiosas alimentam as disputas do ego. Aprender a conviver com a diversidade de opiniões é uma arte que muitos não sabem, nem querem aprender. Que importa se temos  pontos de vista diferentes? Isso nos torna inimigos? Claro que não. Mas, será há um ponto em que todas as divergências e discórdias chegam a um termo?  
Sim, quando a teoria não se sobrepõe à prática.  Quando aprendermos que amar é mais importante do que discutir sobre a natureza do amor. Quando formos naturalmente tolerantes e humildes, quando, pelo autoconhecimento, nos conscientizarmos de nossas próprias contradições. O autoconhecimento verdadeiro, objetivo e direto é libertador.  Este impede que fiquemos discutindo sobre a natureza da Verdade sendo, assim, libertador. Ver a Verdade é libertar-se da ilusão que nos torna inimigos mortais simplesmente por causa de divergências religiosas.  A percepção da Verdade liberta-nos do conflito, trazendo-nos a paz e  a plenitude interior.

Mas como podemos nos autoconhecermos? Só há um caminho : a meditação. Sem meditação ficaremos discutindo sobre o “sexo dos anjos”, ou sobre quem tem razão -como no caso do Elefante. Por isso que o sétimo sábio recolheu-se a sua caverna. A Caverna  representa nosso mundo interior,  significa também  o útero,  a origem, a face original. Somente quando nos recolhemos à nossa caverna interior, a Verdade se revela, transformando nossas vidas. Ora, se percebemos o que realmente somos no nível mental : animalizados , violentos, feios, egoístas, condicionados, medrosos, ávidos, ciumentos, invejosos  etc. então o que devemos fazer? Nada de forma direta.  A ação direta continua no  nível do ego-pensamento sendo, ainda, uma ação do próprio EGO. E este próprio EGO "é a raiz de todo o mal" como afirmou Buda há  2.500 anos atrás.
Apenas na cessação da atividade egóica é que nasce  “O Outro”. É o ego que briga. É ele que quer ter sempre razão. É ele que  destrói, engana, rouba e mata . E é através dele que todos nós vivemos , agimos e pensamos. Nós alimentamos o Ego toda vez que desejamos o céu , as coisas materiais, o poder, a razão e a certeza. É o ego que estimula nossas disputas pelo poder . Ele quer sempre conquistar, vencer e dominar. Ele é a  nossa ânsia pelo "mais" e pelo "melhor".  É o movimento incessante dos pensamento, do medo e do desejo.  O ego nunca pára, feito macacos inquietos, está sempre nos impelindo a agir, a lutar, a buscar… mas até quando continuaremos neste círculo? Até quando continuaremos cegos e até quando lutaremos para convencer os outros de nossas “verdades”? O domínio do Ego é o domínio do mal - a origem dos males que afligem a humanidade.
Mas, quando percebemos diretamente todo este  mecanismo complexo e sutil , a primeira reação é de  choque pelo horror das coisas que vemos. Então,  só nos  resta  nos recolhermos ao nosso recanto particular, à nossa caverna , nos recusando a fazer parte de tudo isso. Só assim,  há a possibilidade de algo novo começar a brotar . Algo que nossos egos não criaram. Algo que não surgiu da nossa mente, nem do nosso pensamento, nem dos nossos desejos. Esse algo ,  não pode ser descrito mas, para indicá-lo os iluminados chamam-no de “Aquilo”. E por estar além da dimensão de nossos Egos, e por encontrar-se fora do alcance de nossas mentes limitadas, nunca será objeto de disputas, brigas, ou discussões. Só nos resta pois encontrar o "espaço" dentro de nós não corrompido pelos valores e artimanhas do EGO. Só nos resta o silêncio e a meditação. Neste estado é impossível haver disputas e conflitos pois não haverá mais "alguém" para brigar. Deixa de existir o sentido de separatividade e tudo torna-se 
UM.

TEXTO COMENTÁRIO : ALSIBAR *
http://alsibar.blogspot.com
* sentindo-se inspirado - só não sei por qual "entidade"