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sábado, 17 de agosto de 2013

“ ALCANCEI A ILUMINAÇÃO!!!” - I REACHED THE ENLIGHTMENT!


Recentemente, deparei-me com tal afirmação em um post no Facebook – e não era brincadeira. O sujeito realmente afirmava ter alcançado a iluminação. Fiquei intrigado. Por definição,  a iluminação seria um estado de “não-eu”, então quem é esse que diz “alcancei”?  Além disso, por que alguém bradaria tal fato em uma rede social? Seria uma maneira de angariar seguidores, admiradores e fama? E, em caso afirmativo, isso seria mesmo a tal “iluminação”? Talvez não seja. Ora, para saber o que não é iluminação, deve-se saber o que ela é. Este pequeno artigo se propõe a fazer uma reflexão sobre o fenômeno da iluminação em si, baseado em falas e testemunhos de iluminados autênticos . Quero deixar bem claro que não estou analisando ou julgando a pessoa que afirmou isso, mas as características do próprio fenômeno em si.

Um leitor escreveu certa vez em meu blog que não acreditava que Krishnamurti era iluminado. Fiquei pensando nas seguintes hipóteses : será por que Krishnamurti nunca se classificou ou se auto-denominou como tal? Ou será por que K. não organizou nenhum movimento religioso em torno de si? Ou será por que K. era uma pessoa de aparência comum, não lembrando em nada os gurus clássicos? E não será exatamente essa maneira comum, sem poses ou afetação, um dos sinais da iluminação? Senão, vejamos:
Na tradição budista e taoista o “ser comum” é exatamente uma das características dos maiores mestres iluminados. Na tradição judaico-cristão, a Bíblia diz que Jesus era tão comum que “nem seus irmãos acreditavam nele”(Jo- 7:5). Em nada ele lembrava um grande
avatar. A mesma coisa se pode dizer de Sri. Yuktéswar – o mestre de Yogananda. Segundo este último- poucos o reconheceram como um grande mestre ainda em vida.  Apenas após a morte do corpo físico e com o grande sucesso do Autobiografia, foi que ele se tornou conhecido como um grande iogue. Yogananda encontrou vários iogues iluminados que moravam no mesmo bairro dele - na esquina. E que ele só soube que eram iluminados, por circunstâncias muito especiais. O próprio Yogananda era um iluminado, mas não sabia que o era. É significativa a conversa que ele teve certo dia com seu mestre:
- Mestre quando encontrarei Deus?
- Ohhh… você já o encontrou!
Ele não tinha consciência que já havia “alcançado” o estado de União Divina. Em suma, o iluminado é o último a saber que o é, pelo simples fato de que não há  mais ali ninguém para dizer “eu alcancei”. Não há mais passado, presente ou o futuro matéria prima do “ego”. Esta é a dimensão do eterno presente em que TUDO JÁ É . A fronteira dos limites do tempo e do espaço: a Eternidade, o Atemporal. Onde está então aquele que alcançou alguma coisa, já que não existe passado, nem futuro, nem "ego-centro"? 
Um iluminado não sabe que o é. Se sabe-não é. Obviamente ele tem consciência de que algo lhe aconteceu, mas esse algo não pode ser expresso, nem comunicado . A iluminação é um termo muito amplo, que pode significar desde o despertar dos chakras através da Kundalini,  até o simples estado de presença, ou paz interior permanente- sem abalos ou oscilações. Isso já foi dito por grandes mestres do passado como Dogen, Lao Tsé e da modernidade como Jiddu Krishnamurti , U.G.  , Ramana etc. Mas ainda há pessoas que insistem em tratar os dois estados como algo bem dividido , demarcado e diferenciado- apartado de tudo que lembre a vida humana normal. Haveria então dois polos : um estado marcado pela bem-aventurança, êxtase intenso, amor, perfeição moral e ética , conhecimento universal, luzes, sensações, poderes etc. E no outro lado estaria o estado de sofrimento, ilusão e ignorância em que a maioria da humanidade vive. Mas será que existe mesmo tal linha demarcatória? Será mesmo que esses estados são tão diferenciados e estanques? Ou será que eles são dinâmicos , interconectados e coexistentes?
Uma das ideias mais estranhas pra quem começa a meditar é  imaginar que um dia de repente, deixará de ser um simples reles mortal ignorante e agonizante, para, de uma hora pra outra, tornar-se um ser bem-aventurado e celestial, cheio de sabedoria, luz e atributos especiais.  Ele então fica meditando, na esperança de que um dia isso vai acontecer. Mas, passa o tempo e nada desse acontecimento sublime chegar. E provavelmente morrerá sem que nada aconteça. Quem poderá nos esclarecer sobre essa questão ? 
Ora, mesmo as palavras de Buda e outros grandes mestres do passado podem ter sido deturpadas, mal interpretadas, ou sofrido alterações ao longo das inúmeras traduções e compilações. A nossa sorte é que existem Budas modernos que podem nos dar uma luz. Para os dois Krishnamurtis e Ramana- por exemplo, tudo já é aqui-agora. Não há nada pra se alcançar. E isso não é algo que se realiza no final de uma jornada de esforços e práticas- mas no começo. Para J. Krishnamurti, não há caminhos, nem jornada, e nem espaço separando os fins dos meios- os meios e os fins formam um todo integrado. Não há um “passo a passo” que culmina com um acontecimento, pois isso criaria o futuro psicológico que é o próprio centro do “eu”. O que seria, por si mesmo, um obstáculo à libertação.
Talvez os mitos e lendas em torno da história de Buda tenham contribuído  para essa ideia de que a Iluminação é um grande acontecimento datado no tempo e espaço.  Pode ser que o que  realmente aconteceu, não tenha nada a ver com o que a tradição nos conta. É possível que Buda  já viesse numa longa jornada de interiorização e compreensão que foi aos poucos se aprofundando, se expandindo, se ampliando. Não necessariamente num processo gradativo e definitivo- como comumente se pensa. Um dia ele compreendeu uma coisa, noutro outra… a formação do eu, a natureza do desejo, o encadeamento das causas e efeitos, até que chegou a compreensão do sofrimento e sua consequente extinção. Isso tudo pode ter levado anos, em termos de tempo cronológico. Em termos psicológicos é impossível dizer se houve um marco demarcatório,  como alguns querem crer e fazer crer.
A iluminação pode ser algo totalmente subjetivo e pessoal.  U.G.  Krishnamurti chamava seu estado de “calamidade” e que provavelmente se as pessoas soubessem como era “aquilo” não iriam desejar tal coisa. Já o Jiddu  fala de bençãos e ondas de êxtases em seu diário.  Cada dia era algo diferente, difícil de relatar, difícil de expressar. Sobre os tais poderes e percepções extra-sensoriais- são elementos que podem ou não acontecer. No universo místico de Ramana quase ninguém relata a existência de poderes e milagres- sua presença bastava para trazer paz e luz aos corações. Já no universo mágico descrito por Yogananda em seu Autobiografia, não faltam relatos de milagres e feitos maravilhosos que aconteciam no entorno dos mestres que ele conheceu.
Isso nos leva a concluir que essas coisas podem acontecer- mas não necessariamente. Elas são como sinais de que a consciência individual está “avançando” na conscientização de sua identidade universal. Mas isso não significa que houve um marco delimitador:um dia , uma hora em que a pessoa foi totalmente transformada de “não-iluminada” para iluminada- e que isso se tornou um estado fixo e permanente . Quando se diz que Buda “alcançou” a iluminação é para expressar uma percepção, uma compreensão, um entendimento, um insight- repentino e intuitivo-  sobre algum problema ou questão existencial.
Assim, pode-se dizer que a Iluminação é um estado de claridade, percepção, sabedoria, bem-aventurança que tanto pode ser a causa como o efeito. Ao compreender a si mesmo- seu próprio processo de formação, manutenção e dissolução do ego- de forma direta
e objetiva o sujeito se abre para novas possibilidades e insights. E esses mesmos insights o fazem avançar em sua sabedoria e percepção, o que resulta no amadurecimento espiritual,  impulsionando, assim, a escalada evolutiva da consciência individual . Em suma, não há diferença entre a meditação e a iluminação. E quem está falando isso não sou eu. Leia a sentença abaixo de Dogen- um dos grandes reformadores do Zen-budismo:
“"Praticar o caminho diligentemente é, por si só, iluminação. Não há qualquer diferença entre prática e iluminação ou entre zazen e vida diária. Zazen não é meditação passo-a-passo".
Ora, em meditação todos nós nos tornamos momentaneamente “iluminados”. Na verdade, a meditação é uma degustação deste estado sublime e isso pode ser vivido por qualquer pessoa, a qualquer hora- desde que medite corretamente. É como um peixe que sobe momentaneamente à superfície e percebe o céu infinito acima dele. O céu está sempre ali, mesmo quando ele desce às profundezas sombrias do Oceano. Ele pode retornar de tempos em tempos para vislumbrar o espaço infinito. Assim também é na meditação: um olhar para fora do oceano da mente.
O problema é que devido a diversos fatores: cármicos, sociais, espirituais, culturais, as pessoas não se dedicam  bastante a isso. Quando digo “cármicos”, significa que dentro de nós mesmos há forças que não querem, que resistem à permanência definitiva neste estado, talvez por ele ser "devastador" para o ego-centro. É um estado que destrói o conhecido, as memórias formadoras do ego, os apegos, as imagens, os desejos mentais . O ego fica reduzido momentaneamente a nada. Daí a fuga da mente que prefere viver isso apenas em alguns momentos do dia. Reservamos alguns instantes do dia, ou dos finais de semana, pra  penetrar nisso e muitas vezes de forma superficial e errada.
Lá  no fundo, o ego  não quer a Iluminação. Prefere algo que ele possa manipular e tirar proveitos pessoais. Daí que, qualquer estado de bem-aventurança ou qualquer estado mental diferenciado, logo, logo se alardeia como sendo a grande “Iluminação”. É como se dissessem aos outros “ venham até a mim, agora sou uma pessoa especial, importante e espiritualmente realizada”. Lamentavelmente, alguns gurus  realmente acreditam que se autorrealizaram- é o chamado auto-engano.  Essas pessoas tem, em geral, sérios distúrbios e transtornos comportamentais. Estão numa zona intermediária entre a loucura da iluminação idealizada e a sanidade do ego esperto -mas não desperto . Muitos são espertalhões ,  outros são charlatães mesmo- agem de má fé.
E a iluminação é um fenômeno permanente e estanque como em geral se acredita? Será que é algo que se alcança e fica-se lá eternamente em berço esplêndido?  Sabemos que a consciência vai e volta, sobe e desce, mergulha e volta à superfície… a profundidade do mergulho é que vai determinar a intensidade da experiência. Por isso que ninguém pode-se dizer iluminado… quando a consciência está mergulhada lá, nada pode ser dito acerca disso. E quando ela volta, voltou. Não deixou de ser, mas deixou de estar em contato com as profundezas iluminadas da própria consciência. Por isso mesmo que até seres como Jesus, Krishnamurti e outros, tem que manter constante vigilância  pois há sim o risco de queda. A subida e a descida da consciência individual ao Infinito é uma viagem arquetípica que ocorre sempre que a consciência desce à carne, ou sobe de volta à fonte. Essa mesma experiência é vivida por todos durante a meditação- mesmo que por alguns instantes. 
O fato é que quem diz “alcancei a Iluminação”, está na verdade, apartado dela. Esse em si é um sinal de que a consciência “voltou” do seu estado de união, para o estado de separação. E é exatamente aí que mora o perigo. Quando a consciência volta, o ego toma de conta e passa a usar o tal “estado”  para manipular as  pessoas, fazer discípulos, estabelecer-se e expandir-se.
Baseado nos argumentos acima, podemos concluir que o estado de iluminação não é algo que possa ser comunicado, nem manipulado,  não torna a pessoa um ser “especial”, não outorga privilégios, nem autoridade. Você poderá perguntar então: e como saberão que a pessoa alcançou aquele estado já que ele não pode ser comunicado?  É a própria vida da pessoa que comunica, seu ser, suas atitudes diárias, seu olhar, suas ações,  a forma como se relaciona consigo mesmo, com a vida e as pessoas ao seu redor- é isso que irá indicar ou até mesmo revelar que algo diferente aconteceu. O “iluminado” que orgulhosamente  divulga o próprio estado como quem passou num vestibular, terminou uma graduação ou alcançou o pico do Everest, está se iludindo e iludindo os outros. Na verdadeira iluminação, não há mais o sentido do “eu sou, eu alcancei, eu me tornei…” Daí a humildade natural dos verdadeiros despertos. Eles são como crianças, sem afetação ou sentido do “eu”.
Quer um exemplo? Veja o relato de Ram Gopal Muzumdar- o “Santo que Não Dorme” meditou por mais de 45 anos diariamente o dia todo, e mesmo assim não se achava digno diante de Deus. Quando  Yogananda lhe pediu a iluminação, o grande iogue respondeu-lhe de uma forma inesperada e significativa:
“- Você me pede a iluminação enquanto eu próprio cismo , insignificante como sou, e com a pouca meditação que fiz, se consegui agradar a Deus, e que merecimento poderei encontrar a Seus olhos no cômputo final.
- Senhor, não procurou Deus, com toda sinceridade, durante longo tempo?
- Não fiz outra coisa. Durante vinte anos ocupei uma gruta secreta, meditando dezoito horas diariamente. Em seguida, mudei-me para uma caverna mais inacessível e ali permaneci por vinte e cinco anos, mantendo-me em êxtase durante vinte e quatro horas todos os dias. Não precisava dormir, pois estava sempre com Deus, Meu corpo conhecia mais
Ram Gopal Muzundar
descanso, pela calma absoluta da superconsciência, do que poderia obter pela imperfeita paz do estado subconsciente ordinário. Os músculos se relaxam durante o sono; mas o coração, os pulmões e o sistema circulatório continuam a trabalhar incessantemente; não conhecem repouso. Em superconsciência, todos os órgãos internos permanecem em estado de animação suspensa, eletrificados pela energia cósmica. Por este meio, para mim, vem sendo desnecessário dormir durante anos.
- Céus, o senhor meditou tanto tempo e ainda não tem certeza do favor de Deus? - Então, que esperar para nós, pobres mortais?
- Bem, não vê, querido jovem, que Deus é a própria Eternidade? Pretender conhecê-lo em Sua plenitude, com quarenta e cinco anos de meditação, é expectativa bastante absurda. Bábají nos assegura, entretanto, que até uma pequena meditação nos salva do terrível temor à morte e aos estados pós-morte. Não fixe seu ideal de espiritualidade em pequenas montanhas, mas engaste-o na estrela da integral realização do Divino. Se praticar com firmeza e constância, atingi-lo-á.”
Este mestre vivia anonimamente em um pequeno vilarejo da Índia, em um local distante e de difícil acesso. Ele não precisou dizer para ninguém que era iluminado. Ninguém na vila sabia que morava ali um grande iogue. Mesmo assim, suas palavras e vida são fontes de inspiração e exemplo pra milhares de pessoas no mundo todo. Isso nos traz grandes lições. Uma delas é a da humildade . Mostra-nos que ninguém precisa proclamar aos quatro ventos que  é um cristo, iluminado, guru ou salvador. Deus, a Vida- se encarrega dessa parte, se isso for necessário, útil e importante. Ou seja, quando está no plano divino que a pessoa seja reconhecida, o próprio Destino se encarrega de torná-la conhecida. Não é necessário que a própria pessoa alardei isso. Ao buscador compete  apenas meditar e e se entregar- o resto vem pela providência divina.
Que cada um possa refletir sobre essas questões em seus corações e tirar suas próprias conclusões. Como sempre digo no final de meus artigos: as reflexões aqui apresentadas não se pretendem verdades absolutas, mas norteadores no caminho da sabedoria e do verdadeiro despertar espiritual.
Namastê!
Alsibar
Bibliografia: Autobiografia de um Yogue Contemporâneo- Paramahansa Yogananda- Self Realization Fellowship.




terça-feira, 15 de novembro de 2011

O FILÓSOFO, O SÁBIO, O MÍSTICO E O ILUMINADO- QUAL A DIFERENÇA? The philosopher, the mystic, the wise man and the enlightened one!


                   Qual a diferença entre o filósofo, o sábio , o místico e o iluminado ? Quais os limites do pensamento, do silêncio e da experiência mística? E no que a Iluminação se diferencia disso tudo? Qual a relação do ser humano comum com essas dimensões? O que os grandes mestres iluminados nos ensinam sobre isso ? Vamos investigar juntos?                    
 Muitas pessoas talvez se perguntem se tenho autoridade para falar sobre essas coisas. Mas, nesse caso não é preciso autoridade. Para falar , investigar ou refletir sobre qualquer assunto, só é necessário um cérebro que pense com clareza. A premissa de que apenas as "autoridades" podem abordar um tema é falsa, pois cria os tais gurus e líderes espirituais  e - por isso- deve ser questionada. Qualquer um pode falar sobre qualquer assunto. Basta que seja capaz de penetrar um pouco em sua própria natureza, de perceber o mecanismo de sua própria mente, fazer inferências, relações, pesquisas, estudos e - ainda - meditar. Os iluminados apontam-nos verdades universais que podem ser comprovadas por qualquer um que esteja disposto a investigar.  Creio que a inteligência é uma capacidade divina que todos possuem. Com o raciocínio,  é possível investigar qualquer assunto de natureza concreta ou abstrata. 
o filósofo, o sábio, o místico e o Iluminado

               A jornada individual de cada um parece seguir o mesmo paradigma da história humana. Ao longo da vida passamos por diversas fases : começamos como filósofos, depois enveredamos pela sabedoria, em seguida vem o misticismo até chegar à Iluminação. Boa parte das pessoas começam sua busca questionando coisas como "o que sou?", "quem é Deus?" " por que sofremos?". Nessa fase,  são comuns os estudos e pesquisas sobre  religiões, filosofias, ocultismo, psicologia e ensinamentos espirituais. 
Após algum tempo, nos fartamos de tudo isso. Então,  procuramos algo além da simples teoria. Algo que possa aplacar nossa inquietação e vazio interior. É aí que começam as praticas de ioga, meditação, hipnose, mentalização, visualização etc.  Com sorte,  podemos aprender a meditar e começamos a experimentar um pouco de paz e o silêncio interior . É a fase do sábio. À medida que o tempo passa, descobrimos que enquanto houver um sujeito experimentando o silêncio, ou seja, a dualidade - não chegaremos ao estágio seguinte. A vivência mística começa com a experiência da unidade. É quando o observador se une com a coisa observada, o experimentador com a experiência, o adorador com o objeto adorado. 
Sócrates: filósofo e sábio

             Voltando aos filósofos, o que caracteriza a filosofia é a investigação sobre os grandes temas da vida, do ser e do universo buscando compreender a verdade acerca deles. Sócrates, Platão, Aristóteles, Heráclito, Pitágoras, Schopenhauer, Nietzche, são alguns desses exemplos. Pelo que sabemos, boa parte deles eram eruditos, mas não eram sábios. Muitos se perderam em seu excesso de teorização e especulação. Sócrates, Aristóteles e Platão, ao contrário, além de filósofos eram também sábios. A principal característica do sábio é o autoconhecimento que leva ao  silêncio e à paz interior.  Lao Tsé , Bodhidarma, Hui Neng, Dogen foram grandes sábios, alguns desses foram também filósofos e até iluminados. 

Já o místico tem na experiência mística sua principal característica. A  experiência mística pode ser definida como a manifestação de uma dimensão desconhecida, misteriosa, sagrada na vida do sujeito. Na tradição cristã, temos grandes místicos como  Francisco de Assis, Santo Agostinho, Santa Tereza D'Ávilla, São João da Cruz, Padre Pio que se tornaram conhecidos como grandes santos. Na vida dos grandes místicos se revelam milagres, curas e fenômenos paranormais que a ciência não explica. Muitos viveram suas vidas dedicadas à devoção e à chamada dimensão espiritual. Já Santo Agostinho, foi ao mesmo tempo, um místico, um sábio, um filósofo e um santo. Lembrando que "santo" é aquele que foi alçado a esse posto por um processo burocrático e administrativo da igreja católica. 
Bodhidharma- mestre Zen

            Na Índia, grandes seres como Ramakrishna, Vivekananda, Trailanga, Ramana Maharshi, etc. foram considerados místicos devido às suas experiências transcendentais, seus êxtases e uma vida dedicada à meditação, à oração, devoção, etc. Ramakrishna era chamado de "O louco de Deus". Seus êxtases eram tão intensos que frequentemente desmaiava, tendo que ser sustentado por seus discípulos para não se machucar. Trailanga andava completamente nu, como se fosse uma criança. Por causa disso, fora preso diversas vezes, mas - ainda na prisão-  seu corpo era frequentemente visto caminhando livremente por cima da cela totalmente sem roupas.   
Registro  dos êxtases de Krishnamurti

             O estado místico é marcado experiências extáticas ou epifanias diversas com ou sema manifestação de sidhis (poderes) .  Neste estado,  é comum sinais físicos visíveis, tais como : transes, desmaios,  chagas, dores, transfigurações, sinais corporais. milagres, manifestação paranormais, clarividência, curas, milagres, etc. O místico pode ser  um religioso tradicional ou não. Jiddu Krishnamurti  e U.G. Krishnamurti foram exemplos de místicos não religiosos - pois não estavam ligados a nenhuma tradição religiosa convencional. U.G. descreve com detalhes os sintomas físicos que se manifestaram em seu corpo devido a "explosão" desse estado diferenciado de consciência - que ele chamou de  "calamidade". Já Jiddu Krishnamurti descreveu com detalhes seus êxtases místicos diários em seu livro "Diário de Krishnamurti". Ao longo de sua vida, JK. protagonizou diversos casos de cura e manifestações milagrosas - inclusive transfigurações. Ele não gostava de falar sobre isso e pedia que as pessoas não comentassem. Mesmo assim, há vários testemunhos e registros sobre estas e outra manifestações místicas. 

Dogen: sábio que se iluminou

                  Mas e o Iluminado? O que o diferencia do filósofo, do sábio e do místico? Um Iluminado é aquele que despertou para a Verdade acerca de si mesmo e, consequentemente, da existência. O iluminado vivenciou a experiência mística da iluminação que revela sua real natureza, transformando sua psique e seu ser para sempre. Diferente do místico, que tem experiências sagradas transformadoras, mas continua com o sentido do ego, o iluminado tem o sentido do ego totalmente transformado pela experiência do Nirvikalpa Samadhi.  Ou seja, o místico pode ter experiências transcendentais, mas continuar com o sentido de separatividade/dualidade ( savikalpa samadhi), já o iluminado perde o sentido de separatividade através de uma experiência concreta de mutação cerebral ( nirvikalpa samadhi). O iluminado perde o sentido do ego psicológico, mas continua com o aspecto funcional/biológico do ego que é necessário para a defesa, sobrevivência e proteção do corpo físico.
Sidarta Gautama, o Buda, assim como Jesus Cristo, foram dois dos maiores iluminados de todos os tempos. O iluminado pode ser um filósofo - pois conhece as verdades essenciais sobre a vida e o ser. Um sábio, pela equanimidade mental e silêncio interior alcançados através do autoconhecimento. E um místico, pela vivência de estados diferenciados de consciência. Além de iluminados do passado como Bodhidharma e Dogen, há exemplos de grandes iluminados modernos, tais como: Babaji (do Autobiografia de um Yogue), Sri. Yuktéswar, Lahíri Mahasaya,  Jiddu Krishnamurti, U.G. Krishnamurti, Vimala Thakar, Ramana Maharshi, Nisargadatta, dentre outros.
Na oração  e meditação vivenciamos a experiência mística da devoção

                   Mas, será que os seres humanos comuns não vivenciam um pouco de cada um desses aspectos em vários momentos da vida diária?   Eu diria que sim. Quando refletimos sobre questões existenciais como o sofrimento e o significado da vida estamos filosofando. Quando aprendemos alguma lição importante da vida, quando mudamos nosso comportamento para melhor, quando nos conscientizamos de nossos equívocos e ilusões - estamos vivenciando  a sabedoria. E quando, nos momentos de intensa  devoção religiosa, experimentamos  um sentimento de paz e unidade - seja em uma missa, meditação, culto ou celebração religiosa - vivenciamos o misticismo. 
Contemplação silenciosa é Meditação

                 E quando será que experimentamos a Iluminação? Quando, de repente, ouvimos com atenção e silêncio o canto de um pássaro, o som das árvores e do vento. Quando , por um instante, olhamos atenta e silenciosamente para as cores de um ambiente, um belo rosto ou uma bela paisagem . Ou até mesmo quando prestamos atenção à fala de alguém importante, ou algum assunto que nos interessa.  Nesses breves momentos, a mente silencia e nos tornamos  NATURALMENTE atentos ao que está ocorrendo no agora. É o SILÊNCIO e a QUIETUDE que caracterizam a mente iluminada. 
Assim, quanto mais silenciosos, em paz e equilibrados formos em nosso dia-a-dia, mais iluminados nos tornamos. A Meditação ou quietude interior é tão fundamental, que até mesmo a Bíblia judaico-cristã traz uma referência memorável a ela:
 “ Há um rio, cujas correntes alegram a cidade de Deus, o santuário da morada do Altíssimo. Deus está no meio dela; jamais será abalada.(…)Aquietai-vos e sabei que  EU SOU DEUS!”- Salmo 46- versículos 4 e 10 .



"Aquietai-vos e sabei que sou Deus"

          Assim, todos nós temos nossos momentos de filósofos, sábios, místicos e iluminados. Mas apenas a QUIETUDE E O SILÊNCIO NATURAIS - que é a verdadeira MEDITAÇÃO - podem preparar a mente para a experiência (sem experimentador) da ILUMINAÇÃO. Daí por diante, a alma segue sua jornada por estágios cada vez mais profundos, vastos e desconhecidos. Portanto, todas essas dimensões estão dentro de nós. São etapas arquetípicas, universais que fazem parte de nossa jornada espiritual rumo ao Infinito. 
By Alsibar Paz