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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

GURDJIEFF : A VIDA SÓ É REAL QUANDO “ EU SOU”



( Mais uma vez a afirmação de Ouspensky de que é preciso separar a pessoa  Gurdjieff de seus ensinamentos ganha força . Não se trata aqui de diminuir o valor de um mestre que tanto contribuiu para a expansão do verdadeiro conhecimento. Todavia, é importante encararmos a verdade, pois esta é a única forma de  aceitarmos nossas próprias limitações e jornada. Gurdjieff nos deixou um grande legado, mas compreender sua verdadeira história, falhas e imperfeições é fundamental à compreensão de nossa complexa jornada interior- cheia de percalços, dificuldades e acontecimentos que- muitas vezes não conseguimos compreender - alsibar.)


Eu sou…?
Mas o que aconteceu com aquele vasto-sentido da totalidade de mim mesmo, que antes estava sempre em mim nos exatos momentos de auto-questionamentos, durante o processo de  lembrança de si?

Será possível que esta habilidade interna  -alcançada  por mim graças a todo tipo de auto-negação e persistente auto-motivação– deva  simplesmente desaparecer,  exatamente agora quando sua influência para meu Ser é mais necessária  do que o próprio ar?
Não pode ser!... Algo aqui não está correto!

Se isto é verdade, então tudo na esfera da razão é sem lógica!
Mas em mim ainda não está atrofiada a possibilidade de realizar um trabalho consciente e sofrimento intencional!...
De acordo com todos os eventos passados eu ainda devo ser.
 Eu desejo!... e  eu serei!

Além disso, meu Ser é necessário não apenas para meu egoísmo pessoal mas também para o bem estar de toda humanidade.
Meu Ser é realmente necessário para todas as pessoas;  mais necessário para eles do que sua própria alegria e felicidade de hoje.
Eu ainda desejo ser, eu ainda sou!

George I. Gurdjieff – da série “ Sobre tudo e todas as coisas”

Tradução: alsibar


domingo, 5 de agosto de 2012

O QUE FAZER QUANDO A MEDITAÇÃO NÃO FLUI?

Quando a meditação não flui- http://alsibar.blogspot.com

No texto abaixo, faremos uma rápida explanação sobre a essência da Meditação e a contribuição de mestres modernos como Ramana e Krishnamurti para sua compreensão e aprofundamento. Depois, analisaremos alguns fatores que dificultam ou facilitam a Meditação.  Logo em seguida, apresentaremos algumas sugestões e dicas, que podem  ajudar o meditador em momentos de dificuldade. Por fim, apresentaremos uma técnica pré-meditativa chamada de “ Exercício do Stop” ensinada por Gurdjieff . Boa leitura!
  A meditação pode ser definida como um estado de total relaxamento e descanso mental, em que o EGO-PENSAMENTO está temporariamente “inativo”. Não é necessariamente um estado de NÃO-PENSAR, mas um estado de completa consciência e atenção em que não há um centro (ego) traduzindo, julgando, interpretando ou nomeando o que vê. Todos os grandes mestres do passado já ensinavam o valor e a importância da meditação. Buda e Jesus, por exemplo, sempre falaram sobre a importância da VIGILÂNCIA. Estar vigilante é estar alerta, atento a tudo - tanto interiormente quanto exteriormente. Mas não é apenas isso. Isso é apenas uma parte do “processo” meditativo. Durante séculos muita gente meditou errado. Disso resultou tormentos, conflitos e um interminável sofrimento. Foram mestres modernos como Krishnamurti, Ramana Maharshi e Lahiri Mahasaya,  que ampliaram nosso conhecimento sobre meditação, apontando erros cometidos ao longo dos séculos .

 Krishnamurti e Ramana, trouxeram, talvez, a maior de todas as contribuições para o entendimento da meditação. Segundo eles, na Meditação não há EGO. De forma muito simples isso pode ser explicado da seguinte forma: onde há EGO (inconsciência) não há meditação ( consciência) e onde há meditação,  não há EGO . Daí ser imprescindível a ausência deste último para que a meditação ocorra. Em outras palavras, o ego-pensamento impede a meditação. Todavia, no momento em que dele tomamos consciência – enquanto desejos, impulsos e pensamentos- ele se enfraquece e sua ação fica limitada. Ramana deixa bem claro que o EGO é uma ilusão. Ele só existe no estado mental de inconsciência e ignorância. Quando ficamos plenamente conscientes, percebemos que não há ali ego algum. O que víamos era uma espécie de delírio, resultante de nossa inconsciência. Buda também ensinou a mesma coisa através do famoso exemplo da corda e da cobra: o EGO é semelhante ao homem que, em seu delírio, confunde uma corda com uma cobra. Da mesma forma , Krishnamurti afirma em outras palavras: a meditação só acontece quando não há “observador”(ego), nem coisa observada, mas apenas a observação.  Em suma, Meditação pode ser resumida em uma única palavra: CONSCIÊNCIA.

          O problema que iremos examinar agora é o que fazer quando a meditação não está fluindo. Ou seja, qual a melhor atitude quando percebemos que não estamos conseguindo ficar conscientes de nós mesmos. Quando tomamos consciência de  nossa total inconsciência e automatismo.

Apesar de sabermos que não há métodos de meditação- o que é uma verdade- isso não significa que não haja meios ou maneiras de facilitar seu nascimento ou surgimento. O relaxamento é um desses caminhos. Por isso, que a maioria dos métodos de meditação começam com alguns exercícios de relaxamento. Na verdade, são preliminares, preparações para que a meditação possa "acontecer".  Ou seja, nem sempre quem senta em meditação, está realmente meditando. Muitas vezes a meditação não flui, pois esta não pode ser controlada pelo desejo, vontade ou pensamento . O máximo que se pode fazer é sentar-se sem fazer nada ( Zazen). Mas até mesmo isso é difícil pois, mesmo quando o corpo físico está parado, a mente continua plenamente ativa. E quando a mente está muito ativa o que acontece? Não conseguimos observar os pensamentos ou qualquer outra coisa pois somos arrastados pelos turbilhão de imagens, memórias, impressões , ansiedade e stress. Ora, se meditação é um estado de consciência plena , então quanto maior a agitação dos pensamentos, mais difícil será entrar em meditação. Por isso que um certo nível de relaxamento e descanso é absolutamente necessário. Mas como alcançar esse nível de tranquilidade em meio ao ritmo caótico da vida  moderna?

Quem medita há muitos anos já deve ter percebido que a intensidade da meditação está diretamente relacionada a vários fatores, muitas vezes, difícil de determinar e identificar. Estados internos, mudanças repentinas, perdas,  quantidade de energia, cansaço, stress, alimentação, ambiente etc. tudo isso pode influir na meditação, provocando-a, intensificando-a, enfraquecendo-a ou até mesmo impedindo-a. Muitas vezes temos a impressão que a meditação é uma espécie de estado que não pode ser controlado por vontade própria. E isso é confirmado por todos os grandes mestres. Krishnamurti dizia que o meio é o fim-eles não estão separados. Ninguém medita para alcançar o Desconhecido. Meditar é entrar no Desconhecido. Dessa forma, não há dúvidas sobre o caráter  “incontrolável” da meditação, pois é um estado, energia ou movimento que não se submete à vontade ou caprichos de ninguém.

Então qual a saída pra quem deseja meditar mas não está conseguindo? Primeiramente, não se deve ter expectativas, nem desejos de alcançar “algo”. A pessoa deve manter-se totalmente solta, livre e relaxada reduzindo ao máximo a ação do ego. É no estado de silêncio mental que a meditação começa realmente a fluir. É desse silêncio e tranquilidade que a energia da meditação começa a atuar. Mas alcançar este estado é muito difícil. Em suma, não podemos controlar a meditação, mas podemos controlar o estado que cria as condições necessárias para seu aparecimento. Ou seja, o estado pré-meditativo. Aquele que prepara o terreno para o seu florescimento. Há várias dicas e sugestões seguras, usadas há milênios por meditadores experientes. Buda ensinou uma bastante simples: ficar consciente da respiração. Consiste apenas em ficar cônscio, prestar atenção ao  entrar e sair do ar através narinas e boca. Na Yoga, ensina-se uma variação desse mesmo exercício que tem um efeito mais poderoso e imediato que é a retenção momentânea do ar inspirado nos pulmões por alguns instantes. Depois ir gradualmente expirando o ar pela boca – geralmente com o auxílio de um mantra que pode ser o " Sou-hum". Sou-para inspiração. Hum- para a expiração. Tudo de forma natural e sem exageros. Lembrando: esses exercícios são preliminares. Não são a Meditação propriamente dita.

Todavia, uma das técnicas que mais eficazes é o exercício do “Stop”, ensinado por Gurdjieff. No sistema de G., este exercício deve ser coordenado por um mestre. Apesar dele ter dito que é impossível alguém “despertar” sem a assistência direta de um mestre- o que foi questionado por Krishnamurti e Ramana- você pode tentar esse exercício sozinho, contanto que tenha completa seriedade e obediência às regras do mesmo, do contrário não funcionará. O exercício é extremamente simples, mas muito poderoso . Ele consegue quebrar ou reduzir bastante  a corrente que nos prende ao automatismo diário pois atua em todos os centros ao mesmo tempo: o motor, intelectual e emocional. É de conhecimento dos sábios antigos que somos um sistema integrado e que tudo está diretamente ligado: pensamento, respiração, sentimentos e posturas. Se mudamos os pensamentos, automaticamente a respiração, o sentimento e a postura também mudarão.  Da mesma forma se mudamos o ritmo da respiração ou os sentimentos, isso alterará os pensamentos e a postura. E se mudamos a postura, os outros três sofrerão mudanças significativas também. O exercício do ‘Stop” atua principalmente nas posturas e movimentos automáticos, mas atinge todos os outros centros pois ele consegue atuar nos sentimentos, pensamentos e ritmo da respiração de uma forma integrada e imediata. É como  um tratamento de choque no EGO. Pode ser usado em momentos críticos de grande stress em que precisamos meditar ou relaxar, mas não estamos conseguindo.

O exercício original é muito parecido com a brincadeira de “estátua”. Quando o mestre grita “Stop”, você deve manter-se na mesma posição sem se mexer até uma segunda ordem. Nesse momento você deve ficar totalmente consciente de si, da postura, do pensamento, dos sentimentos, sensações, sons, cheiros etc. Para realizá-lo sozinho, você tem que fazer da LEMBRANÇA DO EXERCÍCIO O SEU MESTRE. Assim, toda vez que se lembrar, dê a si mesmo a ordem :“Pare!”, então você deve “parar” tudo e ficar totalmente consciente ou alerta. Obviamente se você estiver dirigindo, ou fazendo algo que seja perigoso pra sua integridade física você não poderá parar a atividade- mas apenas ficar consciente dos seus pensamentos, sentimentos, sensações etc no exato momento da lembrança, durante o tempo que você conseguir.  Apresento abaixo o exercício original , retirado do livro escrito por P. D. Ouspensky,  considerado um dos mais importantes discípulos de Gurdjieff:
 O Exercício do "Stop"
OS CENTROS MOTOR, INTELECTUAL E EMOCIONAL
" O homem é incapaz de mudar a forma de seus pensamentos e de seus sentimentos enquanto não tiver mudado seu repertório de posturas e movimentos do pensamento e do sentimento, e cada um tem um número determinado delas. Todas as posturas motoras, intelectuais e emocionais estão ligadas entre si".
"É uma ilusão crer que nossos movimentos sejam voluntários. Todos os nossos movimentos são automáticos. E nossos pensamentos, nossos sentimentos também o são. O automatismo de nossos pensamentos e de nossos sentimentos corresponde de maneira precisa ao automatismo de nossos movimentos. Um não pode ser mudado sem o outro. De maneira que, se a atenção do homem se concentrar, digamos, na transformação de seus pensamentos automáticos, os movimentos e atitudes habituais intervirão imediatamente no novo curso de pensamento, impondo-lhes as velhas associações habituais".
"Nas circunstâncias usuais, não podemos imaginar o quanto nossas funções intelectuais, emocionais e motoras dependem umas das outras; e, no entanto, não ignoramos quanto nossos humores e nossos estados emocionais podem depender dos movimentos e das posturas. Se um homem assume uma postura que nele corresponde a um sentimento de tristeza ou de desencorajamento, pode estar certo, então, de que rapidamente se sentirá triste ou desencorajado. Uma mudança deliberada de postura pode provocar nele o medo, a aversão, o nervosismo ou, ao contrário, a calma. Mas como todas as funções humanas - intelectuais, emocionais e motoras - têm seu próprio repertório bem definido e reagem constantemente umas sobre as outras, o homem nunca pode sair do círculo mágico de suas posturas".
 O  EXERCÍCIO DO “ STOP”
 "Para opor-se a esse automatismo e adquirir um controle das posturas e movimentos dos diferentes centros, existe um exercício especial. Consiste no seguinte: a uma palavra ou a um sinal do mestre, previamente combinado, todos os alunos que o ouvem e o que vêem devem no mesmo instante suspender seus gestos, quaisquer que sejam - imobilizar-se no lugar na mesma posição em que o sinal o surprendeu. Mais aindas, devem não só cessar de se mover, mas conservar os olhos ficos no mesmo ponto que olhavam no momento do sinal, conservar a boca aberta se estiverem falando, conservar a expressão da fisionomia e, se estivessem sorrindo, manter esse sorriso. Nesse estado de 'stop', cada um deve também suspender o fluxo dos pensamentos e concentrar toda a atenção, mantendo a tensão dos músculos, nas diferentes partes do corpo, no mesmo nível em que se encontrava e controlá-la o tempo todo, levando, por assim dizer, a atenção de uma parte do corpo a outra. E deve permanecer nesse estado e nessa posição até que outro sinal convencionado lhe permita retomar uma atitude normal, ou até que caia de cansaço a ponto de ser incapaz de conservar por mais tempo a primeira atitude. Mas não tem nenhum direito de mudar seja o que for, nem o olhar, nem os pontos de apoio; nada. Se não pode aguentar, que caia - mesmo assim, é preciso que caia como um saco, sem tentar proteger-se de um choque. Do mesmo modo, se tivesse algum objetivo nas mãos, deve conservá-lo durante tanto tempo quanto possível; e se as mãos se recusarem a obedecer e o objeto lhe escapa, isto não é considerado falta grave".
Este é o exercício. Ele é muito simples mas , paradoxalmente, muito difícil de ser executado.  Todavia, todos os candidatos ao despertar podem e devem experimentá-lo para testar e comprovar  sua eficácia. 
Boa  Sorte! 
Alsibar
Bibliografia: OUSPENSKY, P.D. Fragmentos de um ensinamento desconhecido - em busca do milagroso. São Paulo, Ed. Pensamento.