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| Quando a meditação não flui- http://alsibar.blogspot.com |
No texto abaixo, faremos uma rápida
explanação sobre a essência da Meditação e a contribuição de mestres modernos como
Ramana e Krishnamurti para sua compreensão e aprofundamento. Depois, analisaremos
alguns fatores que dificultam ou facilitam a Meditação. Logo em seguida, apresentaremos algumas sugestões e
dicas, que podem ajudar o meditador em momentos de dificuldade. Por fim, apresentaremos uma técnica pré-meditativa chamada de “ Exercício do
Stop” ensinada por Gurdjieff . Boa leitura!
A meditação pode ser definida como um estado de total relaxamento
e descanso mental, em que o EGO-PENSAMENTO está temporariamente “inativo”. Não
é necessariamente um estado de NÃO-PENSAR, mas um estado de completa
consciência e atenção em que não há um centro (ego) traduzindo, julgando,
interpretando ou nomeando o que vê. Todos os grandes mestres do passado já
ensinavam o valor e a importância da meditação. Buda e Jesus, por exemplo, sempre falaram sobre a importância da VIGILÂNCIA. Estar vigilante é estar
alerta, atento a tudo - tanto interiormente quanto exteriormente. Mas
não é apenas isso. Isso é apenas uma parte do “processo” meditativo. Durante
séculos muita gente meditou errado. Disso resultou tormentos, conflitos e um
interminável sofrimento. Foram mestres modernos como Krishnamurti, Ramana Maharshi
e Lahiri Mahasaya, que ampliaram nosso
conhecimento sobre meditação, apontando erros cometidos ao longo dos séculos .
Krishnamurti e Ramana, trouxeram, talvez, a
maior de todas as contribuições para o entendimento da meditação. Segundo eles, na Meditação não há EGO. De forma
muito simples isso pode ser explicado da seguinte forma: onde há EGO (inconsciência) não há
meditação ( consciência) e onde há meditação, não há EGO . Daí ser
imprescindível a ausência deste último para que a meditação ocorra. Em outras
palavras, o ego-pensamento impede a meditação. Todavia, no momento em que dele
tomamos consciência – enquanto desejos, impulsos e pensamentos- ele se enfraquece e sua ação fica limitada. Ramana deixa bem claro que o EGO é uma ilusão. Ele só existe no estado mental de inconsciência e ignorância.
Quando ficamos plenamente conscientes, percebemos que não há ali ego algum. O
que víamos era uma espécie de delírio, resultante de nossa inconsciência. Buda
também ensinou a mesma coisa através do famoso exemplo da corda e da cobra: o EGO é semelhante ao homem que, em seu delírio, confunde uma corda com uma cobra. Da
mesma forma , Krishnamurti afirma em outras palavras: a meditação só acontece
quando não há “observador”(ego), nem coisa observada, mas apenas a observação. Em suma, Meditação pode ser resumida em uma única palavra: CONSCIÊNCIA.
O problema que iremos examinar agora é o que fazer quando a
meditação não está fluindo. Ou seja, qual a melhor atitude quando percebemos que não estamos conseguindo ficar conscientes de nós mesmos. Quando tomamos consciência de nossa total inconsciência e automatismo.
Apesar de sabermos que não há métodos de
meditação- o que é uma verdade- isso não significa que não haja meios ou maneiras de facilitar seu nascimento ou surgimento. O relaxamento é um desses caminhos. Por isso, que a maioria dos métodos
de meditação começam com alguns exercícios de relaxamento. Na
verdade, são preliminares, preparações para que a meditação possa "acontecer". Ou seja, nem sempre quem
senta em meditação, está realmente meditando. Muitas vezes a meditação não
flui, pois esta não pode ser controlada pelo desejo, vontade ou pensamento . O máximo que se pode fazer é sentar-se sem fazer nada ( Zazen). Mas
até mesmo isso é difícil pois, mesmo quando o corpo físico está parado, a mente continua plenamente ativa. E quando a mente está muito ativa o que acontece? Não conseguimos
observar os pensamentos ou qualquer outra coisa pois somos arrastados pelos turbilhão
de imagens, memórias, impressões , ansiedade e stress. Ora, se meditação é um estado de consciência plena , então quanto maior a
agitação dos pensamentos, mais difícil será entrar em meditação. Por isso que
um certo nível de relaxamento e descanso é absolutamente necessário. Mas como
alcançar esse nível de tranquilidade em meio ao ritmo caótico da
vida moderna?
Quem medita há muitos anos já deve ter percebido que a
intensidade da meditação está diretamente relacionada a vários fatores, muitas
vezes, difícil de determinar e identificar. Estados internos, mudanças
repentinas, perdas, quantidade de
energia, cansaço, stress, alimentação, ambiente etc. tudo isso pode influir na
meditação, provocando-a, intensificando-a, enfraquecendo-a ou até mesmo impedindo-a. Muitas
vezes temos a impressão que a meditação é uma espécie de estado que não pode
ser controlado por vontade própria. E isso é confirmado por todos os grandes
mestres. Krishnamurti dizia que o meio é o fim-eles não estão separados.
Ninguém medita para alcançar o Desconhecido. Meditar é entrar no Desconhecido.
Dessa forma, não há dúvidas sobre o caráter
“incontrolável” da meditação, pois é um estado, energia ou movimento que
não se submete à vontade ou caprichos de ninguém.
Então qual a saída pra quem deseja meditar
mas não está conseguindo? Primeiramente, não se deve ter expectativas, nem
desejos de alcançar “algo”. A pessoa deve manter-se totalmente solta, livre e
relaxada reduzindo ao máximo a ação do ego. É no estado de silêncio mental que a meditação começa realmente a fluir. É desse silêncio e
tranquilidade que a energia da meditação começa a atuar. Mas alcançar este
estado é muito difícil. Em suma, não podemos controlar a meditação, mas podemos
controlar o estado que cria as condições necessárias para seu aparecimento. Ou
seja, o estado pré-meditativo. Aquele que prepara o terreno para o seu
florescimento. Há várias dicas e sugestões seguras, usadas há milênios por
meditadores experientes. Buda ensinou uma bastante simples: ficar consciente da
respiração. Consiste apenas em ficar cônscio, prestar atenção ao entrar e sair do ar através narinas
e boca. Na Yoga, ensina-se uma variação desse mesmo exercício que tem um efeito
mais poderoso e imediato que é a retenção momentânea do ar inspirado nos pulmões por alguns instantes. Depois ir gradualmente expirando o ar pela boca – geralmente com o auxílio de um mantra que pode ser o " Sou-hum". Sou-para inspiração. Hum- para a expiração. Tudo de
forma natural e sem exageros. Lembrando: esses exercícios são preliminares. Não
são a Meditação propriamente dita.
Todavia, uma das técnicas que mais
eficazes é o exercício do “Stop”, ensinado por Gurdjieff. No sistema de G., este
exercício deve ser coordenado por um mestre. Apesar dele ter dito que é
impossível alguém “despertar” sem a assistência direta de um mestre- o que foi questionado
por Krishnamurti e Ramana- você pode tentar esse exercício sozinho, contanto
que tenha completa seriedade e obediência às regras do mesmo, do contrário não
funcionará. O exercício é extremamente simples, mas muito poderoso . Ele
consegue quebrar ou reduzir bastante a
corrente que nos prende ao automatismo diário pois atua em todos os centros ao
mesmo tempo: o motor, intelectual e emocional. É de conhecimento dos sábios
antigos que somos um sistema integrado e que tudo está diretamente ligado:
pensamento, respiração, sentimentos e posturas. Se mudamos os pensamentos,
automaticamente a respiração, o sentimento e a postura também mudarão. Da mesma forma se mudamos o ritmo da
respiração ou os sentimentos, isso alterará os pensamentos e a postura. E se
mudamos a postura, os outros três sofrerão mudanças significativas também. O
exercício do ‘Stop” atua principalmente nas posturas e movimentos automáticos,
mas atinge todos os outros centros pois ele consegue atuar nos
sentimentos, pensamentos e ritmo da respiração de uma forma integrada
e imediata. É como um tratamento de choque no EGO. Pode ser usado em
momentos críticos de grande stress em que precisamos meditar ou relaxar,
mas não estamos conseguindo.
O exercício original é muito parecido com a
brincadeira de “estátua”. Quando o mestre grita “Stop”, você deve manter-se na
mesma posição sem se mexer até uma segunda ordem. Nesse momento você deve ficar
totalmente consciente de si, da postura, do pensamento, dos sentimentos,
sensações, sons, cheiros etc. Para realizá-lo sozinho, você tem que fazer da
LEMBRANÇA DO EXERCÍCIO O SEU MESTRE. Assim, toda vez que se lembrar, dê a si
mesmo a ordem :“Pare!”, então você deve “parar” tudo e ficar totalmente
consciente ou alerta. Obviamente se você estiver dirigindo, ou fazendo algo que
seja perigoso pra sua integridade física você não poderá parar a atividade- mas
apenas ficar consciente dos seus pensamentos, sentimentos, sensações etc no exato momento da lembrança, durante o tempo que você conseguir. Apresento abaixo
o exercício original , retirado do livro escrito por P. D. Ouspensky, considerado um dos mais importantes discípulos de Gurdjieff:
O Exercício do "Stop"
OS CENTROS MOTOR, INTELECTUAL E EMOCIONAL
" O homem é incapaz de mudar a forma de
seus pensamentos e de seus sentimentos enquanto não tiver mudado seu repertório
de posturas e movimentos do pensamento e do sentimento, e cada um tem um número
determinado delas. Todas as posturas motoras, intelectuais e emocionais estão
ligadas entre si".
"É uma ilusão crer que nossos movimentos
sejam voluntários. Todos os nossos movimentos são automáticos. E nossos
pensamentos, nossos sentimentos também o são. O automatismo de nossos
pensamentos e de nossos sentimentos corresponde de maneira precisa ao
automatismo de nossos movimentos. Um não pode ser mudado sem o outro. De
maneira que, se a atenção do homem se concentrar, digamos, na transformação de
seus pensamentos automáticos, os movimentos e atitudes habituais intervirão
imediatamente no novo curso de pensamento, impondo-lhes as velhas associações
habituais".
"Nas circunstâncias usuais, não podemos
imaginar o quanto nossas funções intelectuais, emocionais e motoras dependem
umas das outras; e, no entanto, não ignoramos quanto nossos humores e nossos
estados emocionais podem depender dos movimentos e das posturas. Se um homem
assume uma postura que nele corresponde a um sentimento de tristeza ou de
desencorajamento, pode estar certo, então, de que rapidamente se sentirá triste
ou desencorajado. Uma mudança deliberada de postura pode provocar nele o medo,
a aversão, o nervosismo ou, ao contrário, a calma. Mas como todas as funções
humanas - intelectuais, emocionais e motoras - têm seu próprio repertório bem
definido e reagem constantemente umas sobre as outras, o homem nunca pode sair
do círculo mágico de suas posturas".
O
EXERCÍCIO DO “ STOP”
"Para opor-se a esse automatismo e
adquirir um controle das posturas e movimentos dos diferentes centros, existe
um exercício especial. Consiste no seguinte: a uma palavra ou a um sinal do
mestre, previamente combinado, todos os alunos que o ouvem e o que vêem devem
no mesmo instante suspender seus gestos, quaisquer que sejam - imobilizar-se no
lugar na mesma posição em que o sinal o surprendeu. Mais aindas, devem não só
cessar de se mover, mas conservar os olhos ficos no mesmo ponto que olhavam no
momento do sinal, conservar a boca aberta se estiverem falando, conservar a
expressão da fisionomia e, se estivessem sorrindo, manter esse sorriso. Nesse
estado de 'stop', cada um deve também suspender o fluxo dos pensamentos e
concentrar toda a atenção, mantendo a tensão dos músculos, nas diferentes
partes do corpo, no mesmo nível em que se encontrava e controlá-la o tempo
todo, levando, por assim dizer, a atenção de uma parte do corpo a outra. E deve
permanecer nesse estado e nessa posição até que outro sinal convencionado lhe
permita retomar uma atitude normal, ou até que caia de cansaço a ponto de ser
incapaz de conservar por mais tempo a primeira atitude. Mas não tem nenhum
direito de mudar seja o que for, nem o olhar, nem os pontos de apoio; nada. Se
não pode aguentar, que caia - mesmo assim, é preciso que caia como um saco, sem
tentar proteger-se de um choque. Do mesmo modo, se tivesse algum objetivo nas
mãos, deve conservá-lo durante tanto tempo quanto possível; e se as mãos se
recusarem a obedecer e o objeto lhe escapa, isto não é considerado falta
grave".
Este é o
exercício. Ele é muito simples mas , paradoxalmente, muito difícil de ser
executado. Todavia, todos os candidatos
ao despertar podem e devem experimentá-lo para testar e comprovar sua eficácia.
Boa Sorte!
Alsibar
Bibliografia:
OUSPENSKY, P.D. Fragmentos de um ensinamento desconhecido - em busca do
milagroso. São Paulo, Ed. Pensamento.