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sábado, 16 de agosto de 2014

DOR NA MEDITAÇÃO- Pain in Meditation




Como lidar com a dor existencial ou psicológica durante a meditação? A dor durante a meditação deve ser considerada algo natural ? E a tal da “bem-aventurança” , paz e felicidade que todos falam? Deve-se evitar ou aceitar a dor interna? Estas e outras questões afins serão aprofundadas e analisadas ao longo desse artigo.

A meditação é algo muito simples e complexo ao mesmo tempo. Em seu aspecto de simplicidade, sobressai-se sua práxis- que nada mais é do que o desenvolvimento da consciência- que inclui tudo- inclusive a si mesmo. Já a complexidade na meditação  está relacionada com a natureza complexa do ser humano. E exatamente por isso que muita gente acha complicado, difícil e até impossível meditar.

Recentemente conversei com um rapaz da internet sobre sua dificuldade em meditar. Disse-me ele que quando ficava consciente  de sua dor interna -que já era grande- esta se intensificava e que por isso evitava a meditação consciente, preferindo praticar  meditações mântricas - pois esta o fazia sentir-se melhor. Este é um caso típico e muito comum de fuga à dor. A questão que se coloca então é a seguinte: a dor na meditação é algo natural, normal e comum? E a tal da “bem-aventurança” , paz e felicidade que todos falam? Como lidar com a angústia durante a meditação? Deve-se evitá-la ou aceitá-la?

Como eu disse na introdução deste artigo, entramos agora no lado complexo do universo meditativo: o próprio ser humano. A meditação não é algo separado da pessoa- pelo contrário- é uma porta de entendimento e aprofundamento do ser humano, com toda sua famosa complexidade. Obviamente, estamos falando da dimensão mais ampla da meditação e não apenas daquele momento em que se pratica algum método . A meditação é como um revelador das antigas máquinas fotográficas: mostra a imagem oculta e invisível do papel. Ela também pode ser comparada a um grande trator que remexe o lixo psicológico acumulado nas camadas mais profundas da psique. É nesse remexer de feridas antigas e abertas que surge a dor .  

A autoconsciência traz à tona conteúdos recalcados. Ao meditar, todo esse material inconsciente torna-se consciente e esse processo é doloroso. Daí por que muita gente se sente “melhor” cantando mantras, ouvindo músicas da natureza , visualizando paisagens, sentindo cheiro de incensos ou “dopando” a mente com mantras, rezas e orações. Claro que não estou criticando casos em que o cantar dos mantras, o rezar terços ou orar  não caracterizem fuga da realidade interna. É exatamente quando estamos resolvidos com nós mesmos que podemos saborear essas práticas de forma plena e saudável.

Tem-se agora dois caminhos: o da meditação amortizadora, aquela que ao invés de revelar a verdade do ser, a esconde. E o outro é o da meditação consciente , reveladora das camadas mais ocultas do ser. A primeira traz um certo alívio temporário, mas não ataca as raízes do problema. Age como analgésicos e anestésicos. A segunda  age como antibiótico e bisturi sem anestésico- e por isso dolorosa. Antibiótico por que  é poderosa e realmente cura o que está doente ou desequilibrado – não remenda. E bisturi por que tira, extrai aquilo que está causando a dor, que em termos médicos poderia ser comparado, por exemplo, a pedras nos rins ou apendicite.

É preciso compreender que se há dor psicológica na meditação- e geralmente há, principalmente no começo da vivência- é por que há algo a ser curado ou operado e a “Dra.” , no caso, chama-se Meditação. Ela  opera através do laser da consciência ou atenção plena. Fugir  não resolve o problema, mas apenas adia-o. É atitude semelhante a de alguém que precisa fazer uma operação vital e fica protelando a dor e o problema por medo. Não é uma atitude sensata, nem razoável. Conscientizar-se do seu mundo interno, deixar que as energias negativas e desequilibradora tais como – tristeza, raiva,ressentimento, inveja, mágoa, ciúme- se manifestem pode ser doloroso, mas também é libertador.

Assim, compreende-se que meditar nem sempre significa deitar num oceano de paz- como pregam alguns auto-gurus. Dependendo do caso, do momento, do estágio meditativo, da situação específica,  e da maturidade do sujeito em seus aspectos psicofísicos, emocionais e espirituais, a pessoa pode sim vir a sentir dor, angústia, sofrimento. Mas isso não deve ser visto como algo “errado” que a pessoa esteja fazendo. Pelo contrário, pode indicar o caminho “certo”. Em alguém com sérios bloqueios ou dificuldades de auto-aceitação, imaturidade ou incapacidade de lidar com suas questões subjetivas mais profundas- é claro que haverá muita dor, devido exatamente àquilo que não se resolveu, que se ocultou, que foi jogado pra “debaixo do tapete”, na esperança de se resolver por si mesmo- ou esquecê-lo mesmo.

Daí por que os métodos de meditação  e, os auto-gurus que prometem resultados rápidos e fáceis, são tão populares. Eles amenizam rapidamente a dor ao reprogramar ou sugestionar a mente, fazendo-a fugir da realidade dolorosa  para um estado utópico e paradisíaco. Mas que na verdade não existe. E que a qualquer momento pode desmoronar pois não se alicerça na Verdade, na autodescoberta, e na libertação profunda do ser. Trata-se apenas de esperanças, sonhos, devaneios e ilusões. O que se constrói sem o alicerce da Verdade não pode se sustentar. Apenas o encarar a Verdade sem medo ou fugas pode realmente perdurar e se manter.

A dor não deve ser amada, nem condenada. Ela deve ser encarada com naturalidade como uma das etapas do processo meditativo que promove uma limpeza interna. Não há céu sem purgatório, não há renascimento sem dor. O sofrimento é decorrente de um processo de desconstrução ou destruição de um sistema fajuto, sobre o qual o ego mantém e sustenta sua falsa imagem. Ao longo dos anos, vários sistemas de defesas foram “criados” como forma de amenizar ou evitar a dor- carcaças, couraças, autoimagens, mecanismos de fuga etc. O desgrudar, destruir, ou desfazer desses mecanismos  não é algo fácil. É trabalhoso e doloroso devido à identificação, ao apego e a falta de sabedoria em lidar com esses sistemas sutis profundamente arraigados. A pessoa se sente vulnerável , impotente e angustiada diante da visão daquilo que ela realmente é . É daí que surge a necessidade dos gurus, dos métodos, dos medicamentos, dos terapeutas. De fato, nosso medo à dor, impede-nos de sermos verdadeiramente livres. Muitos preferem os paliativos. São mais fáceis- apesar de serem muito mais caros.

Para concluir, é importante compreender que nos estágios iniciais, a meditação é geralmente acompanhada de dor psicológica. Mas se a pessoa vencer seu medo inicial, ela vai  começar sua viagem interior, fazendo sua  limpeza interna, em que  feridas profundas e dolorosas- vão sendo, aos poucos, descoberta, tratadas e curadas. E isso não é feito diretamente pela pessoa- mas de forma indireta através da Luz curativa da Consciência Silenciosa ou Meditação. Somente depois de tratadas, curadas e fechadas estas feridas é que a pessoa penetrará nos níveis mais profundos da consciência onde habitam a paz e a beatitude. Por isso, não pare de meditar por causa da dor. Se está doendo, é por que algo está doente e a dor  sinaliza  que a meditação  está fazendo seu trabalho de harmonização, libertação e  auto-cura.

Namastê!
Alsibar
http://alsibar.blogspot.com


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O APEGO E A DOR- The attachment and the pain


É possível compreender e se libertar do apego ? Qual a relação entre apego e dor? É possível alguém viver desapegado, sem se tornar insensível, cruel e frio?O que a meditação tem a ver com isso tudo?
As tradições religiosas em geral pregam que o apego é uma das causas do sofrimento humano. Na vida diária, não é difícil perceber o quanto o apego  causa dor. Não é fácil separar-se das coisas que tanto se ama -seja o que for: um amor, um parente, um amigo, um trabalho, um animal, um objeto, uma rotina, um lugar, nosso corpo, a juventude, a vida etc. Essas coisas são muito caras e ninguém quer perdê-las ou delas se separar. Diante das inevitabilidades da vida- a perda, a separação, a velhice e a morte -a pessoa sente o quanto aquele apego pode custar-lhe caro. Em geral, as pessoas não sabem lidar com aquela dor tão peculiar a esses momentos. Será possível compreender o apego e dele se libertar? É possível gostar, amar, sentir, sem se apegar e sem se tornar uma pessoa distante, fria e insensível?
Não é possível compreender o desapego sem compreender o apego. Por que a mente se apega a qualquer coisa? É por que lhe dá prazer não? Ninguém se apega ao que não traz satisfação, conforto e felicidade. Ao analisar bem esse assunto, apesar do apego estar ligado a uma sensação de prazer, o que o alimenta não é a experiência em si- mas sim o desejo de continuidade . Posso ter várias experiências prazerosas, senti-las, vivê-las plenamente e quando elas cessarem, não permitir que a lembrança daquela experiência se transforme em um "desejo por mais"? Afinal, é isso que causa o sofrimento, não ? Ou seja, posso viver cada instante, sem desejar a continuidade daquele instante? Por exemplo: posso viver o prazer de estar ao lado da pessoa amada- mas quando não estiver, não sofrer por isso? Posso viver a alegria de estar em um lugar lindo e maravilhoso- mas quando não estiver mais- posso deixar as experiências e lembranças lá- sem transformá-las em um motivo de pesar? Posso viver cada momento, tão plenamente, que  não reste nenhuma sensação de insatisfação e incompletude?
O apego nada mais é do que o desejo de continuidade de uma experiência de prazer ligado a algo ou alguém. Uma vez que perco aquilo que me dava prazer, sendo o meu presente triste e vazio, lembro-me das experiências do passado e  desejo ardentemente sua continuidade como forma de amenizar meu sofrimento. Em suma: o ciclo do apego pode ser resumido na seguinte fórmula:

PRAZER> PERDA> DOR> MEMÓRIA> DESEJO DE CONTINUIDADE

não necessariamente nesta sequência. O ser humano está acostumado a considerar essa cadeia como algo normal e natural.  E, por nunca questionar sua validade, de repente, se vê nas garras da dor e do sofrimento. Mas é possível ser uma pessoa saudável, ter uma vida normal e equilibrada- sem cair nas  armadilhas do apego?
Conhecer o ciclo do apego é o primeiro passo para a libertação. O problema, pelo que percebo, não está na experiência do prazer- mas no  desejo de continuidade, ativado pela memória, tendo como causa principal, a dor causada pela separação. Posso olhar minha dor diretamente sem medo- sem justificá-la, sem nomeá-la, sem procurar dela fugir? Posso simplesmente olhar como minha mente cria este ciclo, ficar consciente dele, percebê-lo claramente sem querer alterá-lo ou dele escapar? Posso ficar com o “fato” e compreendê-lo em sua totalidade-de forma que aja apenas o fato e nada mais?

 Certamente que perceber o fato inclui a percepção de todo o ciclo- minha dor, minhas memórias e meu desejo de fuga ou continuidade. Em geral, são as memórias a causa dos tormentos pois a mente é escrava das memórias, das imagens do passado. As imagens da pessoa, coisa ou situação  continuam, ainda por muito tempo, vivas em na mente. Quando a mente percebe que a realidade é outra, que estas coisas não existem mais, o que ela faz? Ela reativa as lembranças como forma de evitar a realidade dolorosa. Mas -você pode perguntar- apenas a compreensão e a percepção de tudo isso é capaz de  libertar do apego e da dor ?  

A resposta a esse questionamento é a seguinte : enquanto não houver o percebimento de que o próprio desejo de se libertar da dor é em si o alimento da dor- nunca haverá libertação. Assim, o que fazer? Diretamente nada. Indiretamente,  muita coisa. A própria percepção clara e direta deste ciclo – “percepção sem escolha” como diz Krishnamurti- faz a mente libertar-se deste ciclo. Em outras palavras, quando a mente percebe que qualquer movimento da sua parte não pode transformar ou mudar esse ciclo- então o que ela deve fazer? Relaxar, não? E esse próprio perceber e consequente relaxamento e quietude- produzirá uma mudança  independente de qualquer ação direta por parte da mente.
Agora, ao se perceber todo esse ciclo o que se pode fazer em relação a isso?  É possível tornar cada experiência um momento novo e único? É possível olhar diretamente para a realidade independente do que ela seja, de forma que não haja mais a tristeza, nem a memória, me impelindo a evitar a dor e desejar o prazer? Em outras palavras, posso viver cada momento, sem permitir que a memória me roube a experiência direta com o agora -que é único -seja ele o que for ? Isso é uma maneira de viver que poucos, muito poucos conhecem. Em geral só vive-se de memórias, lembranças, medo e desejos e a vida se torna uma eterna busca pelas experiências passadas e que se tenta revivê-las. Nesse ínterim, perde-se o aquiagora- que não é bom nem ruim- somente é.
Sim- é possível um novo caminho. Mas para isso, é necessário aprender a experimentar a realidade do agora- “que é”- sem medos, receios e sem a interferência da palavra, das memórias e imagens do passado. A meditação é exatamente a vivência dessa  outra maneira viver a vida. Na meditação, vive-se o presente plenamente. No presente não há perdas,  pois ele é completo em si- não deixa margens para ideais, imagens, desejos ou lembranças. Na meditação, tudo o que existe, existe neste momento de percepção. E se tudo- absolutamente tudo o que precisamos está no aquiagora- não haverá carência psicológica de espécie alguma e- consequentemente- nenhum espaço para o apego, nem para a dor.
Experimente e constate por si mesmo!
Alsibar- (inspirado)

terça-feira, 23 de agosto de 2011

OS PRINCIPAIS ERROS NO CAMINHO DO BUSCADOR- The main mistakes on the searcher's way

O caminho para o Infinito.
 Buscador é uma pessoa que quer encontrar Deus, a Verdade, a Libertação, o Despertar. Todavia, muitas vezes ele  envereda por caminhos e concepções erradas o que pode  trazer graves problemas para sua vida. O objetivo deste artigo, não é ensinar, mas refletir sobre os principais erros cometidos por aqueles que procuram a verdadeira paz espiritual.

Quase todo mundo já teve sua fase de “buscador(a)”. A “busca”é natural de todo ser humano e faz parte nossa vida  – seja a felicidade, sejam respostas, seja paz, seja Deus. Por isso que muitos viajam pelos livros, filosofias, religiões, movimentos. Esperam, assim, encontrar algo que possa aplacar sua angústia, sua dor e inquietação. Poucos param para analisar e aprofundar-se no significado e importância do próprio  ato de buscar. Obviamente, que há estágios de desenvolvimento, em que a busca não somente é saudável como também necessária. Mas será correto passar uma vida buscando? E por que  buscamos. E o quê ? Abaixo iremos refletir sobre os principais erros cometidos pelos buscadores. Novamente repetimos : não somos  donos da verdade, mas sentimos o dever de ajudar a todos que buscam, já buscaram, ou vão começar sua busca pela Felicidade , Deus, a Verdade,  Amor,  Céu,  Nirvana etc.
1.     A BUSCA PODE SER UM ERRO.

As pessoas em geral, não sentem nada de errado em buscar. Buscar é algo tão comum que nunca questionamos essa atitude  universalmente aceita como algo saudável. É.  Até certo ponto. Mas  será que não terá um momento em que toda a busca cessa? Ora, se ela não cessar, como poderá haver paz ou felicidade? Assim, a busca não pára com o encontro do objetivo buscado, mas pela própria compreensão da inutilidade da busca. Pode ser que “o encontro” nunca ocorra e, além do mais, o que estamos buscando? Se for Deus, peguntaremos : será que ele está em algum ponto distante do Universo? Se você procura é porque acredita que ele não está aqui e isso é um pressuposto que pode ser falso. Então como descobriremos? Certamente, mantendo-nos abertos. Sem afirmações prévias , nem pressupostos. Assim, o próprio “buscar” pode ser um erro, por isso, pare de buscar como se Deus, a Verdade, estivesse longe ou fora de você. Reflita sobre esta atitude e perceba que ela apenas lhe distancia do seu objetivo.

2.     A CRENÇA NA EXISTÊNCIA DE UM EU SEPARADO E PERMANENTE

Este é outro grande problema mais sutil e difícil de se compreender. O “eu separado e permanente” é uma outra expressão para a palavra EGO. O EGO é um dos maiores entraves no caminho do buscador. Primeiro porque lhe ensinaram que o EGO esta relacionado com nossos defeitos como inveja, ambição, materialismo, egoísmo, concupscência, luxúria etc. Em oposição ao “EU SUPERIOR” – cujos atributos são bondade, equanimidade, tolerância, paciência, compaixão, desprendimento, espiritualidade etc. Mas será correta esta divisão? Nunca paramos para questioná-la pois ela nos é ensinada , desde o berço, pela sociedade, família, educação e religião. Nasce, desta forma, a dualidade “bem-mal” o maniqueísmo que irá torturar nossos espíritos pelo resto de nossas vidas. Mas essa concepção também deve ser questionada, pois nada a sustenta como verdadeira. Tanto o EGO, quanto o EU podem ser criações de nossas mentes e esta divisão, que tortura tantos espiritualistas, pode ser uma mera ilusão diabólica. Sim, maligna, pois sustenta o conflito, a dor, o medo, a depressão, a baixa autoestima, a fraqueza interior, a falta de auto-confiança. A dualidade pode ser uma grande falácia, sustentada há séculos pelas religiões  e falsos gurus, como forma de manipular e dominar  as massas, em geral, ingênua, manipulável e ignara. Krishnamurti contou certo dia, sobre a visita de um “saniasin” - um renunciante- que cortou os próprios genitais pois não suportava mais lutar contra eles. Não preciso dizer o inferno que esse homem viveu daí por diante. O desejo não está nos órgãos genitais – está  na mente. O conflito está na mente, assim como a dualidade. Sustentar a existência do EGO e do EU Superior- pode ser um caminho tortuoso e sem volta. Pode ser que o EU SUPERIOR exista, mas não está ao alcance do nosso pensamento. Não podemos concebê-lo como uma entidade. Não sabemos o que ele é, pois está no além do além. Ao buscador só resta encontrar dentro de si mesmo o silêncio, o reino infinito do não-pensamento. Só assim haverá “aquilo ou aquele” que trancende toda dualidade, desejos e concepções. Mas somente na paz interior, e na unidade da meditação é que este “ outro” pode se manifestar.

3.     O VALOR DAS CRENÇAS

Crenças são apenas crenças e nada mais. Não o levarão a lugar nenhum, a não ser aonde você acredita que vai. O poder de criação da mente é conhecido desde tempos imemorias. Hermes  Trimegistro já dizia que o universo é mental – significando que a mente molda e cria sua própria realidade. O homem  não pode moldar sua vida pelas crenças. Elas impedem que vejamos a VERDADE- o que é verdadeiro. Assim, o homem sábio deve ter bem claro em sua mente o que é crença: algo que pode ser verdadeiro ou não. E o que é verdade: eu sei que é verdadeiro por experiência própria . Certamente que algumas crenças podem ser verdadeiras – PODEM. Mas que importa isso? O mais importante é que percebamos a Verdade e esta existe independe de qualquer tipo de crença. Importa meditarmos para que possamos nos auto-conhecermos. Do contrário, não nos libertaremos das ilusões e do sofrimento psicológico. As crenças só separam. São fontes de guerras, divisões e brigas.  O homem pode e deve procurar a Verdade além das concepções e das crenças.  Só assim poderá encontrar em si a paz e o amor que unifica e irmana os homens.

4.     A QUESTÃO DA DISCIPLINA, DO ESFORÇO E DO TEMPO


Outro erro muito comum entre os buscadores é acreditar que o esforço e a disciplina são condições necessárias à vivência da espiritualidade. Será que é mesmo? Nos ensinam que sim. Os livros, os gurus, as religiões mas será que esse pressuposto é verdadeiro? Por que não analisamos? Por que não refletimos? É muito simples. O esforço e a disciplina partem de vários pressupostos que podem ser falsos. O esforço que fazemos para encontrar Deus ou a Verdade, seja na luta contra os desejos, contra as imperfeiçoes, contra os defeitos etc. nos trará realmente a libertação desses “defeitos”? Ou será que ele –o esforço- apenas o fortalece? Ora, sabemos que o conflito e a repressão são becos sem saídas. Quanto mais lutamos mais perditos e fracos ficamos. Além disso, qual é o sentido da disciplina ( entende-se aqui disciplina espiritual tais como sacrifícios, práticas rituais, regras, imposições etc.)? Como se Deus ou a Verdade, pudesse ser comprado, ou surgisse como o resultado final de nossos esforços e buscas. Mas será mesmo? Talvez Deus não venha como um “resultado” final de uma longa e penosa disciplina. Como se fosse um prêmio ganho por um atleta que muito treinou e venceu a prova. Será que é? Será que não estamos passando para a dimensão espiritual nossas práticas humanas? É bom que se reflita seriamente sobre esta questão. Talvez Deus não seja algo distante no espaço e no tempo. Talvez ele já esteja no aquiagora. Para descobrirmos, temos que investigarmos e para isso temos que abandonar todas as nossas crenças, conceitos e preconceitos. A meditação poderá nos revelar a resposta.

5.     A CRENÇA NAS PRÁTICAS, TÉCNICAS E MÉTODOS

Outro ponto muito sutil, mas por ser tão simples, torna-se difícil para nossas mentes complexas. Alguns iluminados defendem que a crença nas técnicas é errada. Como saber a verdade? Investigando, vivendo, experimentando, refletindo. Qual o objetivo das práticas, métodos ou técnicas? A idéia é a seguinte: acreditamos que precisamos “fazer” algumas coisa, praticar alguma técnica, seguir algum método para se alcançar o objetivo –ou objetivos. Ora,  se o seu objetivo é “expandir a consciência”, alcançar o “êxtase”, sentir-se mais “calmo e sereno”, ter visões e experiências extrassensoriais, desenvolver poderes de cura e clarividência, fazer viagens astrais, ler pensamentos etc então continue praticando que você chegará lá. Mas não se engane achando que encontrou Deus, a Verdade ou seja o que for. Você apenas alcançou o que seu desejo determinou em sua mente – e isso não é a Verdade- que está além da mente. Muitos espiritualistas e buscadores, não entendem porque mesmo alcançando êxtases e “poderes” ainda se sentem presos à ilusão. Sua mentes ainda voam pelos vendavais do desejo, do medo , da tristeza e da dor. É porque tudo o que você deseja você alcança, mas o que sua mente alcança através do desejo NÃO É O REAL. Não é a VERDADE LIBERTADORA. O que alcançamos através das técnicas ainda está circunscrito na dimensão da mente, do tempo, da dualidade e do EGO. Somente quando não buscamos mais nada, não praticamos mais nada, nem desejamos mais nada – é que se revela algo que nosso pensamento não conhece. E isso não se pratica, pois quem vai praticar? É o EGO que pratica, que busca através de uma técnica e método aquilo que ele acredita ser DEUS ou a VERDADE. E este é o caminho seguro para a frustração, a depressão e o sofrimento.

Certamente que não se esgotam aqui os erros cometidos pelos buscadores. Mas, percebo que os acima descritos são os mais comuns , os mais graves, pois não só impedem o buscador de avançar, como causam estragos irrecuperáveis tais como loucura, suicídio, doenças graves, amputações etc. As reflexões acima tem como único objetivo levar aos buscadores sinceros, uma outra linha de reflexão e raciocínio.
Que aqueles que choram a dor do conflito e da dualidade possam encontrar nesse artigo a coragem de se desfazer de seus condicionamentos e crenças arraigadas, pois só assim poderão  encontrar a paz da libertação.  O conflito, a dualidade, a guerra interior , são os verdadeiros males da humanidade não nossos defeitos e imperfeições- próprios do nosso atrasado estágio evolutivo- mas cuja libertação só vem quando encaramos o que somos- quanod vemos como e o que realmente somos.
O homem sábio vive em paz consigo mesmo e com o mundo. Sem paz não somos nada, não temos forças, nem preservamos a energia necessária ao bem viver, ao verdadeiro discernimento,  ao despertar espiritual, à libertação da Matrix.

Que todos possam chegar à Verdade por si mesmos. A MEDITAÇÃO é a porta.

AUTOR : ALSIBAR
http://alsibar.blogspot.com/
MSN: alsibar1@hotmail.com

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

CRISES REPETITIVAS - Repeated Crises

  


O que são as crises? 
São situações de ruptura que desencadeiam mudanças . Elas são decisivas para produzir transformações necessárias à expansão da vida. Certas situações críticas são tão dolorosas que deixam marcas profundas em nossa psique - e até no corpo. Doenças  físicas e  psicológicas tais como: stress, pressão alta, depressão, distúrbios mentais e comportamentais- são alguns exemplos de marcas deixadas pelas crises.  Algumas crises são passageiras, outras estão sempre se repetindo, numa espécie de "eterno retorno"- mudam o cenário e os personagens - mas o roteiro básico é essencialmente o mesmo. É difícil entender como os mesmos problemas  teimam em retornar- por mais que tentemos evitar. Quem nunca teve uma sensação de " Dejavú" do tipo: "eu já vivi isso antes". A impressão é de estar preso  numa espécie de  “looping” do tempo. A questão é : como libertar-se desse círculo vicioso?

O COMEÇO DA LIBERTAÇÃO
 Perceber a própria parcela de culpa no encadeamento das crises é o começo da libertação. Entender o processo de fuga também. Fugir para as igrejas, drogas, futebol, relacionamentos, estudo, trabalho, sexo ou alguma outra atividade superficial, não impede o reaparecimento desses pesadelos recorrentes. Mudanças superficiais não atingem o cerne do problema e, por isso, eles voltam a aparecer. É necessário que se extraia as raízes do problema, de forma que não cresçam mais.  Mas onde estão estas raízes? Como exterminá-las de forma que não voltem a brotar?

PRIMEIRO PASSO : ASSUMIR A CULPA

  Ao admitir que as raízes estão dentro de si , um trabalho sério de libertação começa a ser realizado. Mas admitir isso não é fácil . A dor causada pela percepção da verdade sobre nós mesmos é muito forte- em alguns casos- insuportável . Olhar para si mesmo, ver os próprios erros e falhas é um verdadeiro chute em nosso orgulho . Isso pode ser angustiante, principalmente para aqueles que  idealizam demais a si mesmos.  Todavia, a verdade é que a situação crítica é criada pelas atitudes, pensamentos e sentimentos plantados no ontem. É preciso ter coragem  para admitir que tudo o que está ocorrendo - todas as crises e suas repetições - é resultado de nossas próprias ilusões e falhas do passado.

SEGUNDO PASSO: ARRANCANDO AS RAÍZES

Depois do primeiro passo, vem o segundo: arrancar as raízes causadoras das crises . Ora, isto poderá ser feito através de alguma ação direta da vontade? Ou haverá outra possibilidade?  Existe uma ação que não parta do ego, do centro- causador de todo o problema? Esta ação não é algo que se faz -mas surge com o percebimento da verdade sobre si mesmo- sem condenação ou julgamento- de qualquer espécie. É nessa hora que se deve ter muito cuidado . Deve-se olhar para si mesmo como realmente se é- e não a imagem idealizada criada por nós. Ora, se já nos vemos como seres perfeitos, completos e acabados - não há chances de mudanças ou transformação.  O que somos realmente? Ego, tristezas, desilusões, sofrimento, esperanças, condicionamentos, memória, vazio, desejo, conflitos etc. E, partindo desse pequeno feixe de retalhos - nos identificamos com algo maior que nós: Deus, Luz, Eu Sou etc. Mas quando o ego se  identifica com algo maior do que ele o resultado final é sofrimento e decepção. Tem-se que ver a realidade do que somos- não através do filtro do ego, da palavra, do pensamento- e sim no silenciar destes.

TERCEIRO PASSO : A VERDADE LIBERTA

Encarar a verdade transforma e liberta . Talvez, em nossa essência, sejamos luz, amor, paz etc. Mas não é isso que importa  nesta questão. É preciso que a pessoa se veja como é na atualidade e não na possibilidade.   E o que somos atualmente? Somos um movimento de forças em perpétuo conflito e contradição . Um emaranhado de energias desconexas e impessoais buscando a supremacia, a continuidade e a felicidade permanente . Um monte de lixo , metais comuns sendo cuidado como se fosse ouro . Talvez haja ouro por baixo de tanto lixo, mas isso é apenas uma possibilidade .
Enquanto a pessoa  não encarar sua própria verdade interior, a MATRIX da ilusão continuará dominando e escravizando .Daí a importância do estar consciente de seus próprios movimentos e realidade interna de forma direta- sem intermediários.

O AUTOCONHECIMENTO NÃO É UM PROCESSO DUAL

Compreender que o autoconhecimento não é um processo de análise dual constitui o quarto passo. Infelizmente,  poucas pessoas não compreendem o que é autoconhecimento. Muitos acham que é encontrar defeitos, julgá-los, admiti-los, e lutar contra eles. Nada mais equivocado . A análise parte do ego e como o ego iria analisar a si mesmo? Não pode .  A liberdade não está na autoanálise ( processo dual EGO-OBSERVADOR x EGO-OBJETO OBSERVADO). Nem mesmo na busca ansiosa pela autoconsciência, estado de alerta ou lembrança de si .  O motivo é muito simples : se há esforço, expectativa ou desejo, então o resultado será frustrante pois o ego não tem como por cabo a si mesmo. O desejo não pode cessar o próprio desejo, através do desejo. Esses são sinais claros de que o Ego "poluiu" o processo do autoconhecimento. No verdadeiro autoconhecimento, não existe dualidade. Isso é um paradoxo difícil de ser entendido. Em outras palavras: o estado de percepção/observação/autoconhecimento só se realiza através do não-esforço e da não-dualidade. Se alguém quer despertar seus poderes adormecidos tem que entrar na dimensão da unidade -onde não há nem o eu que busca (observador), nem o desejo (a ânsia pela observação), nem o objeto de busca (a transformação). Há simplesmente o observar, o perceber, o conscientizar.

APENAS FIQUE CONSCIENTE !
Quinto passo: apenas observe- sem fazer nada . Percebemos o mundo ao nosso redor através da "cortina" do EGO.  Esse EGO é como espelho distorcido que impede de ver a realidade como ela é . Essa verdade é o que você  é agora, não o que será no futuro. Evite as idealizações e projeções. Este é o verdadeiro  autoconhecimento. "Olhe" para si mesmo. Olhar é ficar consciente de seus pensamentos, desejos, emoções, sentimentos, reações e atitudes diante dos desafios e circunstâncias reais.  Mas se no começo for difícil- não deixe a ansiedade lhe dominar ."o desejo, a expectativa" de se alcançar este estado , ou mesmo de prolongá-lo -cria um novo problema. Por isso, não se esforce, não ansei por isso. Deixe que este estado "venha" naturalmente, que ele se estabeleça por si mesmo. Mas, faça sua parte: sempre que se lembrar mergulhe nisso. Evite analisar, criticar ou julgar aquilo que você percebe em você- seja o que for.  Tais atitudes apenas fortalecem o EGO, impedindo seu enfraquecimento e a transformação do centro . 

A CONSCIÊNCIA TRAZ A LIBERTAÇÃO
O sexto passo : consciência passiva . Se preferir, você pode reservar alguns momentos do dia  para entrar neste estado.   Mas , não se prenda a horários e rotinas. Todavia, se quiser, você pode reservar alguns momentos do dia - pela manhã ao acordar, à noite antes de dormir- para "VER".
Lembre-se : nesse estado, não há ator, não há entidade, não há Ego. Há apenas uma "consciência passiva" daquilo que é percebido. Mas não se deve achar que este é um estado de passividade mórbida. Não é. Há muita ação na observação silenciosa- apenas ela não é percebida pelo cérebro .Krishnamurti dizia :  "o observador é a coisa observada" . A partir daí, inicia-se um movimento, sutil, misterioso, além da atuação do ego. Esse "movimento" ativa as energias poderosas inerentes ao ser humano e elas estão fora do campo de atuação do EGO, do pensamento.

 Somente a CONSCIÊNCIA PASSIVA faz nascer o poder capaz de enfraquecer e vencer as atitudes recorrentes, mecânicas e condicionadas do EGO- responsáveis pelas crises repetitivas. Ao estabelecer-se uma mudança no centro controlados, as coisas mudam. E as crises cumprirão sua verdadeira função: a de desencadeadora de mudanças profundas no sujeito, fazendo com que ele evolua, cresça e se expanda em sua viagem rumo ao infinito!
               
Autor: Alsibar