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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

O MITO DA TRANSIÇÃO PLANETÁRIA E DO DESPERTAR INEVITÁVEL

  


By Alsibar Paz


Uma das afirmações mais repetidas pelo movimento “nova era”  e seus simpatizantes é a de que a humanidade vive uma “transição planetária” que culminará com o despertar espiritual de toda humanidade, levando o planeta a um patamar de consciência mais elevado. Essas crenças têm um fundo de verdade mas, da forma como normalmente são apresentadas e defendidas, não passam de engodo, fantasia, ilusão e até estratégias de manipulação das massas. Algo muito parecido com o que a Igreja Católica fazia na idade média quando controlava o povo através do medo do fogo eterno. Aliás, crenças como essas que espalham temor sempre foram usadas como meio de controle por movimentos religiosos em todo o mundo e em todas as épocas. A tal da “nova era”, apesar de se apresentar como algo novo, apenas usa as mesmas velhas estratégias de manipulação que sempre foram usadas desde que o mundo é mundo. Então, o que há de verdade ou falso nessa crença? É o que vamos analisar nesse artigo.


A QUESTÃO DA TRANSIÇÃO PLANETÁRIA


É preciso explicar uma coisa: não estou defendendo que as coisas não evoluem. Nem que a humanidade não esteja, de certa forma, evoluindo e se desenvolvendo mesmo que seja a passos de tartaruga. O que estou discordando é que o fenômeno da transição propriamente dita esteja ocorrendo só agora — ou em qualquer outro tempo em específico — e que isso culminará com o despertar da consciência da humanidade. O que os fatos históricos nos mostram? Que a humanidade SEMPRE EVOLUIU. Ou seja, o mundo sempre esteve em transição. Portanto, usar tal argumento para fundamentar e motivar certos comportamentos e atitudes não faz o menor sentido. A transição é parte da natureza do universo e das coisas em geral. Usar tal fato para gerar temor ou um senso de urgência nas pessoas é simplesmente desonesto.


Crenças sobre o fim do mundo eram comuns nas civilizações antigas: egípcios e  judeus, passando pelos primeiros cristãos que acreditavam que o fim do mundo aconteceria ainda em sua época por conta de supostas profecias de Jesus (Mateus 24:3) no qual Cristo teria respondido claramente sobre o fim dos tempos e o seu retorno à Terra. Obviamente que a “nova era” não fala nada sobre um “julgamento final”, mas defende que quem não se “alinhar” com os elevados valores da nova terra não poderá  continuar vivendo no planeta e terá que renascer em mundos primitivos de vibrações mais densas e mais compatíveis com as suas. O que, na prática, continua sendo uma espécie de julgamento, apenas tiraram a imagem do “julgador personalizado” do palco dos acontecimentos. 


É importante relembrar o movimento sobre o fim do mundo em 2012 basedo na suposta profecia do calendário maia que foi explorada pela mídia e por líderes espirituais de todo mundo. A mentira e a manipulação foi tão escancarada que depois desse dia ficou claro para todos o quanto tais líderes são charlatães. Mas, infelizmente, muitos deram uma desculpa esfarrapada e continuaram com suas mentiras, devaneios e engodos e, ainda, mantiveram muitos dos seus  antigos seguidores e discípulos fiés. 


Em suma, não existe, nem existirá um “momento de transição”, como se antes estivesse parado e depois começasse. Ou como se antes estivesse devagar e depois acelerasse. Não. Como disse o filósofo alemão Leibniz : “ a natureza não dá saltos”. A humanidade continuará andando no seu “passo de tartaruga” como sempre fez. E talvez — só talvez — seguindo seu  próprio ritmo, consiga um dia alcançar um patamar elevado de consciência em um futuro muito, mas muito distante de nós. E, sendo assim, ver sinais de uma “transição planetária especial” em fatos históricos ( a vinda de Jesus, a passagem do milênio, o calendário maia, etc.) sem levar em conta tais questões  não passa de estratégias de manipulação das massas. Ou, talvez, alguém usando tais argumentos para fundamentar alguma tese em benefício próprio.


A QUESTÃO DO DESPERTAR COLETIVO INEVITÁVEL


Uma coisa está atrelada à outra. Então, se não existe uma transição planetária delimitada no tempo e espaço, também não existe  um despertar coletivo inevitável. Uma crença está intrinsecamente conectada com a outra,  se uma cai, a outra cai também. Portanto, seguindo a mesma lógica do argumento anterior, não faz muito sentido. 


A civilização humana tem mais ou menos uns seis mil anos. Basicamente e fundamentalmente, ao longo desses anos, evoluÍmos muito pouco em relação ao tempo transcorrido. Antes usávamos pedras, facas, espadas e flechas para matar os inimigos. Hoje usamos armas semiautomáticas, bombas, aviões, drones, mísseis e inteligência computacional, mas o que mudou de fato? Só a tecnologia usada, mas o impulso egoísta, predador, cruel e separativista continua basicamente o mesmo. Em todos os tempos sempre existiram algumas raras pessoas com mais consciência espiritual do que as outras e que lhes serviram de liderança, inspiração  e referência. Onde estão os tais “conscientes” que deveriam ter nascido em maior quantidade do que os “inconscientes” já que faz tempo que se fala nessa tal transição?  Será que são aqueles milhares/milhões que dão audiência a todo tipo de bobagens, fantasias e mentiras na Internet? O que mais apetece às massas: conteúdos sérios, verdadeiros e profundos ou ilusões, fantasias, mentiras e entretenimentos superficiais? Ou seja, basicamente nada mudou. As arenas foram substituídas pela internet. Mata-se  de uma outra forma, mas o impulso instintivo e cruel é fundamentalmente o mesmo.


CONCLUSÃO

Não há nada que sinalize uma etapa específica de aceleração da transição planetária e a consequente transformação do mundo. Muito menos qualquer coisa que aponte para a possibilidade de um despertar coletivo da humanidade . Quem quiser acreditar nisso, acredite. É escolha de cada um, mas sua crença tem o mesmo valor que a dos Testemunhas de Jeová, dos Mórmons, dos Adventistas do Sétimo Dia, dos Espíritas, dos Muçulmanos, etc. Não há nada de novo, nem de especial nisso. São apenas crenças como todas as outras e nada mais.


Alsibar Paz

12/02/26

sábado, 22 de dezembro de 2012

…E O MUNDO NÃO ACABOU.




   O mundo não acabou, nem vai acabar tão cedo. Cientistas estimam mais alguns bilhões de anos até isso acontecer. Como tudo no Universo, o Sol um dia vai envelhecer e morrer . Tornar-se-á uma Supernova, um buraco negro onde nem mesmo a luz escapa de ser sugada. Mas por que , com tudo isso, ainda existem tantas pessoas presas a esta crença obsessiva? Por que os tais "profetas do terror" continuam espalhando o medo e a ilusão ? E por que há tanta gente os seguindo?

      Os tais "espíritos de luz", "videntes" e "mestres ascensionados"  passam o dia contando estórias que levam o povo a dormir mais ainda. Prender sua atenção e interesse é a palavra de ordem. Sua atenção é muito valiosa. Quanto mais atenção eles conseguirem de você- mais energia vital lhes será sugada. Energia esta que poderia ser utilizada em um trabalho sério de despertamento e amadurecimento espiritual.  Mas eles não querem que ninguém se liberte do sono de Maya, da Ilusão. Mas isso é o que realmente deveria interessar a todos nós.

         Maya é considerada uma espécie de demônio em algumas religiões. Mas não é uma entidade. Maya é invisível e está em tudo e em todos. É o outro lado da moeda. A escuridão, o falso, a mentira, a Ilusão. O véu de Maya está dentro de nós e também fora de nós. São como as bactérias e os vermes. Não há como se livrar dela facilmente. O maior trunfo de Maya é inventar uma luta contra si mesma que não é, em absoluto, verdadeira. E é isso que fazem a maioria – senão todos- os que participam de movimentos  conhecidos como“ Nova Era”. Empunham a bandeira da libertação, quando, na verdade, estão a serviço da escravidão das mentes , contribuindo para o fortalecimento do sonho de Maya. É preciso que se compreenda: não há libertação através do EGO. Mas eles dizem a mesma coisa. O discurso é muito parecido com o da maioria dos verdadeiros mestres libertadores. Mas, o que fazem realmente? Espalham o MEDO e a MENTIRA. Contribuem para que mais pessoas ao redor do mundo se conectem com eles, ajudando a espalhar suas crenças escravizantes. Se alguém defende uma crença de forma fanática e radical já é um claro indício de auto-engano. Não de LIBERTAÇÃO.

     Acompanhei esta história sobre fim de mundo desde os anos oitenta. Muita gente dedicou sua vida à isso. Mas é um movimento sem nenhum fundamento ou verdade. É hora de encarar os fatos: não há fim do mundo. É tudo uma grande bobagem e mais uma das mentiras, dentre as milhares que existem e existiram ao longo da história . Mentiras essas que serviram a movimentos totalitários, que escravizaram e levaram milhões a morte.  Temos que acordar para este fato e ter sim a coragem de encarar a realidade seja ela qual for.  Que seja o fim do mundo da ILUSÃO sobre nós mesmos. Que possamos deixar de nos iludir com tanta falácia, com tantos movimentos e figuras messiânicas, com tantas organizações e religiões que em nada- absolutamente nada - contribuem para a transformação do homem e do mundo.

O homem desperto não é escravo do medo, nem de nenhuma ilusão. Ele não vende sua consciência, nem sua valiosa atenção. Contempla a VERDADE em si, e por isso sabe diferenciar a ilusão da verdade- onde quer que ela esteja. É alguém que realmente contribui para o DESPERTAR- a única ação que realmente interessa nesse mundo de sonâmbulos e dorminhocos.    Essa é a verdadeira revolução e o verdadeiro começo de uma NOVA ERA. Vamos deixar o mundo de sonhos para trás e que nesse novo ano possamos trabalhar com seriedade e dedicação para o que realmente importa nessa vida. É assim que contribuiremos para a construção de uma nova terra e um novo homem. Que cada um possa fazer sua parte, mesmo que pequena, mesmo que pareça insignificante. Não é.

Vale muito mais uma pequena atitude que ajude o homem a despertar, do que ações grandiosas e vistosas que em nada contribui para tirar o homem do seu sono milenar. Fica aqui a minha mensagem.

NAMASTÊ!

Alsibar
http://alsibar.blogspot.com

domingo, 16 de setembro de 2012

O FIM DA “ERA DOS GURUS” ? The end of Professional "Gurus" ?


Novo Milênio: o Final da "Era dos Gurus"?

 O novo milênio representa, para muita gente, uma nova era de elevação da consciência espiritual. Muitas pessoas já compreendem a importância da autonomia, independência e liberdade no processo do despertar. Em tal contexto, questiona-se o papel e a função dos gurus profissionais.  Será o fim do domínio dos tradicionais gurus e "autoridades" espirituais? O ser humano finalmente chegou à maturidade espiritual? Este artigo se propõe a analisar esta e outras questões afins.


Na Índia antiga os gurus educavam os jovens
   O mestre espiritual, ou guru, sempre desempenhou um papel de destaque em todas as sociedades ao longo dos séculos. Nas civilizações antigas, como Índia e Grécia, ele era o responsável pela educação e formação dos jovens. Infelizmente, com o passar dos séculos, a profissão de guru foi se tornando algo questionável. No século XX, a imagem do guru renunciante e espiritualizado tornou-se cada vez mais rara. Ao ganhar o status de deus, o guru passou a ser considerado alguém acima do bem e do mal. Um ser com poderes irrestritos e absolutos, de caráter infalível e atitudes incontestáveis. Isso propiciou o surgimento de gurus megalomaníacos geralmente envolvidos em escândalos e crimes de toda espécie. 

           Ao contrário dos  gurus da antiguidade, os “autoproclamados gurus”, ou gurus profissionais, são pessoas que acreditam ser iluminadas ou fingem sê-lo, mas que, na verdade, são pessoas comuns. Em geral, possuem ótima oratória e forte magnetismo pessoal, qualidades que quando usadas incorretamente se transformam em perigosas armas de dominação mental. Muitos desses gurus são verdadeiros hipnotizadores e usam todos os recursos para manipular e explorar pessoas com dificuldades emocionais, mentais ou espirituais. Vale tudo para a realização de seus objetivos mundanos de expansão, fama, poder e riqueza. 

Quase mil mortos na tragédia de Jonestown
O século XX foi fértil em produzir gurus profissionais. Verdadeiros psicopatas, caras-de-pau e sem o mínimo de escrúpulos  . Alguns como Jim Jones e David Kolesh levaram centenas de inocentes à morte. A grande pergunta que se faz é se, no novo milênio, os gurus profissionais terão tanto destaque como tiveram no  passado. Afinal, se é verdade que a humanidade vive um despertar gradativo e coletivo, aproxima-se o tempo em que  “ser desperto”, tornar-se-á regra e não excepção. Então que lugar terão os gurus profissionais cujo o discurso  se fundamenta no suposto poder de despertar os outros com a "graça" de sua presença?

Krishnamurti, Ramana, Lahiri Mahasaya, Nisargadatta
     Com o advento de seres espirituais como Lahíri Mahasaya, Krishnamurti, Nisargadata Maharaj e Ramana Maharish a compreensão do papel do "guru” passou por uma drástica e total reformulação. Com Lahíri Mahasaya, o iogue pai de família, ficou comprovado que família e emprego não são empecilhos à vida espiritual. Nisargadata chegou a uma conclusão parecida.Ora, se “tudo é um”, que diferença faz viver em uma caverna ou num quarto? Por isso, abandonou a ideia de se isolar nas cavernas do Himalaya e continuou sua vida normalmente. Durante o dia trabalhava na sua quitanda e à noite atendia os discípulos e visitantes. Ramana Maharish,  um tradicional mestre advaita, também compreendeu que a verdadeira renúncia não era externa e sim interna, por isso, não exortou o abandono das coisas exteriores, e sim das “ilusões internas do EGO”. Por último, Krishnamurti, que apesar de ter sido um grande mestre espiritual, não abandonou um estilo de vida considerado “burguês” por muitos críticos. Através dos ensinamentos e do exemplo destes mestres espirituais autênticos, o guru deixou de ser um “parasita do povo”, abrindo assim uma nova concepção sobre a figura do guru no novo milênio.

Ser desperto não concede privilégios, nem autoridade
 Não se pode esquecer que o novo milênio é agora. Por isso, está cada vez mais comum encontrar pessoas despertas, ou despertando. Muitos, já compreendem que ser “desperto” não concede privilégios a ninguém, nem muito menos o status de superioridade espiritual . Viver à custa dos outros, não prover seu próprio sustento, pode até ter sido normal no passado. Hoje, os tempos são outros. Teremos cada vez mais profissionais e especialistas “despertos”, cada um “fazendo a diferença” em sua própria área de atuação. Serão cientistas, educadores, biólogos, físicos, escritores, intelectuais, artistas etc que contribuirão para a edificação de novos paradigmas,  constituindo, assim, os fundamentos sobre os quais serão erguidos um novo mundo e uma nova consciência .

Será o fim dos gurus profissionais?
   No novo milênio, ninguém será considerado especial apenas por ser “desperto”. Ser desperto será regra e não exceção. Assim, desde muito cedo, as crianças conviverão com pessoas espiritualizadas- famílias, amigos e educadores- que lhes ensinarão que o despertar só depende delas mesmas. Ninguém fará da espiritualidade uma profissão, nem uma desculpa para ser adorado ou bajulado. Se a pessoa insistir em viver apenas da espiritualidade, sem querer estudar ou trabalhar  será, certamente, criticado. Afinal, ninguém mais aceitará a ideia “ultrapassada” de que família, estudo e trabalho são obstáculos à espiritualidade. Em um mundo de “despertos”, o guru que não trabalha será uma aberração, uma anomalia. Os gurus perderão seu status de “deus”, pois aumentará cada vez mais o número de pessoas espiritualmente despertas. Será que isso já não está acontecendo? Será que não se aproxima o fim da era dos “gurus profissionais”?

               Talvez, esta geração ainda presencie o fim da era dos gurus. Um novo mundo em que todos sejam, ao mesmo tempo seu próprio mestre e discípulo. Uma sociedade sem exploração, ou manipulação, em que ser “desperto” seja algo comum e ordinário. Talvez, chegue o dia, em que causará estranheza e perplexidade o fato de alguém querer ser considerado especial ou superior, apenas por ser aquilo que ele originalmente "é”.

Que venham então os novos tempos!

Alsibar

http://alsibar.blogspot.com


sábado, 13 de agosto de 2011

"OS SETE SÁBIOS CEGOS E O ELEFANTE" OU "A PERCEPÇÃO FRAGMENTADA DA VERDADE"



Numa cidade da Índia viviam sete sábios cegos. Como os seus conselhos eram sempre excelentes, todas as pessoas que tinham problemas recorriam à sua ajuda.
Embora fossem amigos, havia uma certa rivalidade entre eles que, de vez em quando, discutiam sobre qual seria o mais sábio.
Certa noite, depois de muito conversarem acerca da verdade da vida e não chegarem a um acordo, o sétimo sábio ficou tão aborrecido que resolveu ir morar sozinho numa caverna da montanha. Disse aos companheiros:
- Somos cegos para que possamos ouvir e entender melhor que as outras pessoas a verdade da vida. E, em vez de aconselhar os necessitados, vocês ficam aí discutindo como se quisessem ganhar uma competição. Não aguento mais! Vou-me embora.
No dia seguinte, chegou à cidade um comerciante montado num enorme elefante. Os cegos nunca tinham tocado nesse animal e correram para a rua ao encontro dele. O primeiro sábio apalpou a barriga do animal e declarou:
- Trata-se de um ser gigantesco e muito forte! Posso tocar nos seus músculos e eles não se movem; parecem paredes…
- Que palermice! – disse o segundo sábio, tocando nas presas do elefante. – Este animal é pontiagudo como uma lança, uma arma de guerra…
- Ambos se enganam – retorquiu o terceiro sábio, que apertava a tromba do elefante. – Este animal é idêntico a uma serpente! Mas não morde, porque não tem dentes na boca. É uma cobra mansa e macia…
- Vocês estão totalmente alucinados! – gritou o quinto sábio, que mexia nas orelhas do elefante. – Este animal não se parece com nenhum outro. Os seus movimentos são bamboleantes, como se o seu corpo fosse uma enorme cortina ambulante…
- Vejam só! – Todos vocês, mas todos mesmos, estão completamente errados! – irritou-se o sexto sábio, tocando a pequena cauda do elefante. – Este animal é como uma rocha com uma corda presa no corpo. Posso até pendurar-me nele.
E assim ficaram horas debatendo, aos gritos, os seis sábios. Até que o sétimo sábio cego, o que agora habitava a montanha, apareceu conduzido por uma criança.
Ouvindo a discussão, pediu ao menino que desenhasse no chão a figura do elefante. Quando tacteou os contornos do desenho, percebeu que todos os sábios estavam certos e enganados ao mesmo tempo. Agradeceu ao menino e afirmou:
- É assim que os homens se comportam perante a verdade. Pegam apenas numa parte, pensam que é o todo, e continuam tolos!
Sensibilizado com aquela situação, o sábio aproximou-se dos amigos e contou-lhes que falavam do mesmo animal. Apenas estavam tocando partes diferentes. Quão surpreso  ficou ao perceber que a reação dos amigos não fora nada amistosa. Começaram a xingá-lo acusando-o de  soberba por se achar mais sábio do que todos os outros juntos.
- Como sabes que é o mesmo animal se não consegues ver?
O sétimo sábio pensou um pouco e respondeu :
- Esta criança, que não é cega, descreveu-a para mim
- Ora, como sabes que ela não é tão cega quanto nós, uma vez que não enxergas? Vai-te embora pois, antes que nossas iras recaiam sobre vós! E nunca mais  apareçam aqui novamente.
Diz-se que o sábio retornou para a caverna, triste, mas satisfeito por ter feito sua parte. Notícias correram anos mais tarde informando que os cegos continuaram brigando durante muito tempo, até que uns foram matando os outros. Quando restou apenas um, este foi pisoteado pelo elefante.

Adaptado de um conto Hindu por Alsibar
Conto original enviado pelo colaborador Assis Duarte
COMENTÁRIO
Este famoso conto hindu descreve fielmente a situação em que todos nós nos encontramos em relação à Verdade. É bom lembrar que já houve muitas guerras, violência e mortes por causa de visões religiosas divergentes. A versão dos vitoriosos passa a ser considerada a  "verdadeira". O conflito se agrava quando cada organização, religião ou teólogo tenta impor sua própria visão à força.  É claro que sair vitorioso numa batalha não  significa necessariamente que se está com a Verdade. Assim, é tolo considerar  que a Verdade está em livro A ou B, nesta ou naquela interpretação, em religiões, seitas e movimentos religiosos – pois cada uma  tem um ponto de vista, uma  visão parcial da Verdade. E, acredito, que o espírito belicoso do radicalismo e da intolerância nega a própria Verdade. 
Infelizmente a intolerância  e as discordâncias teórico-religiosas alimentam as disputas do ego. Aprender a conviver com a diversidade de opiniões é uma arte que muitos não sabem, nem querem aprender. Que importa se temos  pontos de vista diferentes? Isso nos torna inimigos? Claro que não. Mas, será há um ponto em que todas as divergências e discórdias chegam a um termo?  
Sim, quando a teoria não se sobrepõe à prática.  Quando aprendermos que amar é mais importante do que discutir sobre a natureza do amor. Quando formos naturalmente tolerantes e humildes, quando, pelo autoconhecimento, nos conscientizarmos de nossas próprias contradições. O autoconhecimento verdadeiro, objetivo e direto é libertador.  Este impede que fiquemos discutindo sobre a natureza da Verdade sendo, assim, libertador. Ver a Verdade é libertar-se da ilusão que nos torna inimigos mortais simplesmente por causa de divergências religiosas.  A percepção da Verdade liberta-nos do conflito, trazendo-nos a paz e  a plenitude interior.

Mas como podemos nos autoconhecermos? Só há um caminho : a meditação. Sem meditação ficaremos discutindo sobre o “sexo dos anjos”, ou sobre quem tem razão -como no caso do Elefante. Por isso que o sétimo sábio recolheu-se a sua caverna. A Caverna  representa nosso mundo interior,  significa também  o útero,  a origem, a face original. Somente quando nos recolhemos à nossa caverna interior, a Verdade se revela, transformando nossas vidas. Ora, se percebemos o que realmente somos no nível mental : animalizados , violentos, feios, egoístas, condicionados, medrosos, ávidos, ciumentos, invejosos  etc. então o que devemos fazer? Nada de forma direta.  A ação direta continua no  nível do ego-pensamento sendo, ainda, uma ação do próprio EGO. E este próprio EGO "é a raiz de todo o mal" como afirmou Buda há  2.500 anos atrás.
Apenas na cessação da atividade egóica é que nasce  “O Outro”. É o ego que briga. É ele que quer ter sempre razão. É ele que  destrói, engana, rouba e mata . E é através dele que todos nós vivemos , agimos e pensamos. Nós alimentamos o Ego toda vez que desejamos o céu , as coisas materiais, o poder, a razão e a certeza. É o ego que estimula nossas disputas pelo poder . Ele quer sempre conquistar, vencer e dominar. Ele é a  nossa ânsia pelo "mais" e pelo "melhor".  É o movimento incessante dos pensamento, do medo e do desejo.  O ego nunca pára, feito macacos inquietos, está sempre nos impelindo a agir, a lutar, a buscar… mas até quando continuaremos neste círculo? Até quando continuaremos cegos e até quando lutaremos para convencer os outros de nossas “verdades”? O domínio do Ego é o domínio do mal - a origem dos males que afligem a humanidade.
Mas, quando percebemos diretamente todo este  mecanismo complexo e sutil , a primeira reação é de  choque pelo horror das coisas que vemos. Então,  só nos  resta  nos recolhermos ao nosso recanto particular, à nossa caverna , nos recusando a fazer parte de tudo isso. Só assim,  há a possibilidade de algo novo começar a brotar . Algo que nossos egos não criaram. Algo que não surgiu da nossa mente, nem do nosso pensamento, nem dos nossos desejos. Esse algo ,  não pode ser descrito mas, para indicá-lo os iluminados chamam-no de “Aquilo”. E por estar além da dimensão de nossos Egos, e por encontrar-se fora do alcance de nossas mentes limitadas, nunca será objeto de disputas, brigas, ou discussões. Só nos resta pois encontrar o "espaço" dentro de nós não corrompido pelos valores e artimanhas do EGO. Só nos resta o silêncio e a meditação. Neste estado é impossível haver disputas e conflitos pois não haverá mais "alguém" para brigar. Deixa de existir o sentido de separatividade e tudo torna-se 
UM.

TEXTO COMENTÁRIO : ALSIBAR *
http://alsibar.blogspot.com
* sentindo-se inspirado - só não sei por qual "entidade"