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domingo, 17 de julho de 2011

ONDE GURDJIEFF FALHOU? WHERE DID GURDJIEFF FAIL?


George Ivanovich Gurdjieff foi um dos mestres espirituais mais importantes  do século XX. Seus ensinamentos e estilo, influenciaram grandes personalidades  do meio espiritual e esotérico tais como Samael Aun Weor , Osho e seu mais famoso discípulo  P.D. Ouspensky. Também é considerado um dos pais do Eneagrama, método de autoconhecimento que faz muito sucesso nos meios espirituais e psicológicos. 

Gurdjieff escreveu três  livros famosos que compõem a série " Sobre tudo e todas as coisas" a saber: “Relatos de Belzebu a seu Neto”,  “Encontros com homens notáveis” e o último inacabado " A vida é real apenas quando EU SOU". O mais popular deles é o segundo.  Relata alguns episódios de sua busca espiritual, quando viajou  por mosteiros e escolas do Tibet e regiões do Oriente Médio.  Este livro virou filme e é considerado um clássico do espiritualismo. 


G. teria aprendido seu sistema das Escolas de Mistério
Os ensinamentos de Gurdjieff se confundem com os das tradições esotéricas tais como, Maçonaria, Rosa Cruz, Gnose e Teosofia. Seus defensores dizem que esta similaridade é devido ao fato de que estes conhecimentos provêm de uma mesma fonte, remontando às antigas escolas de mistérios do Egito, Índia, Grécia e Israel com os  quais G. teria entrado em contato em suas viagens. 

Mas Gurdjieff foi além de um simples repassador de conhecimentos . Ele não só popularizou estes ensinamentos como também impôs sua marca pessoal ao sistema. A partir de grupos organizados por ele e seus discípulos, surgiram muitas escolas baseadas em seus ensinamentos  em vários países,  como a Escola G. do Quarto Caminho, dentre outros. É importante lembrar que há vários ramos e escolas que se declaram ligadas diretamente a G. Mas, na verdade, houve apenas três grandes grupos originais: os ligados a Ouspensky, J.G. Bennet e Madame de Salszman.

          O sistema de G. utiliza-se de conceitos da ciência, da matemática e da psicologia para dar soluções a problemas espirituais complexos . As leis do universo  são explicadas dentro de princípios matemáticos que se estendem também ao homem- considerado um microuniverso.  O ensinamento de G. parece trazer  respostas a muitos questionamentos e dúvidas.  É difícil  não ficar fascinado desde o primeiro contato com estes princípios e leis. Eu mesmo fiquei, assim como Ouspensky-seu ex-discípulo mais famoso. O livro “Fragmentos de um ensinamento desconhecido – em busca do milagroso” relata  a história de Ouspensky e seus anos de convivência com Gurdjieff. Um grande clássico, imprescindível para quem quer se aprofundar  no assunto e conhecer  um pouco mais do que eu relato aqui.


O raio da criação, segundo o sistema de Gurdjieff
     Ouspensky conta toda sua trajetória com G. desde o início até o rompimento, anos mais tarde. Mas qual teria sido o motivo desta ruptura ?  O fato é que após tantos anos de convivência e aprendizado, Ouspensky ficou insatisfeito com o andamento do "trabalho". Mas o que  realmente teria acontecido? O que Ouspensky viu que o levou a tomar esta decisão? 

Em alguns momentos, ele escreveu sobre a necessidade de separar a pessoa de Gurdjieff de seu ensinamento. Comigo também tive essa sensação em relação a G.. Primeiramente, fiquei apaixonado por seus ensinamentos mas, depois, comecei a ter a impressão de que eu não estava indo a lugar nenhum. E , realmente, toda vez que tentava por em prática alguns de seus métodos as coisas pareciam piorar. Senti que havia algo errado . E não sabia ao certo o que era. Ouspensky não deixa claro os motivos de sua separação. Sua amizade e consideração por G. pode ter lhe impedido de esclarecer melhor esta questão. Todavia, ele dá algumas pistas. Ouspensky cita dois motivos no livro :   o trabalho começou a ficar repetitivo e enfadonho - ou seja os alunos pareciam estar caminhando em círculos; e, o segundo motivo, as atitudes estranhas e um tanto “cruéis”  de G. em relação aos seus discípulos.  

P. D. OUSPENSKY
    Os anos foram se passando e a questão relacionada ao sistema de Gurdjieff continuava me intrigando. O “trabalho sobre si”, ensinado por ele, tinha como principal objetivo  despertar o homem do seu "sono". Isso deveria começar pela tentativa de "lembrança de si". E para, isso, usavam-se vários métodos e exercícios. Dentre eles a técnica do “Stop!” descrito por Ouspensky . Em linhas gerais, o exercício consistia em ficar estátua  quando o mestre desse a ordem : pare!  O discípulo tinha que parar exatamente na posição em que se encontrava, independente do que estivesse fazendo. Mesmo que estivesse bebendo chá quente, comendo, tomando sopa , ou mergulhado dentro d’água . Deveria ficar naquela posição, totalmente consciente da postura, emoções, pensamentos, sentimentos etc, permanecendo  assim até  segunda ordem do mestre . Ouspensky conta que isso criava situações um tanto quanto constrangedoras, dolorosas, dramáticas e até cruéis. Muitos alunos abandonaram o  "trabalho" por  não suportarem a pressão desses métodos.

O "trabalho sobre si" deveria começar pelo Centro Motor
    O objetivo principal do sistema de G. era fazer o homem "despertar" através do conhecimento da máquina humana. Esse processo deveria começar pelo conhecimento do centro motor.  E daí a importância de exercícios como o "stop!". Através dele, o homem poderia se autoconhecer melhor e ainda desenvolver sua vontade e disciplina sob o comando de um mestre desperto.  Mas, estaria Gurdjieff realmente “desperto” no sentido em que ele dava a esta palavra? Não é estranho que um mestre desperto sofra dois acidentes de carro, sendo que , o último quase o levou à morte? E como explicar sua aparente voracidade pelo dinheiro? E sobre o uso que ele fez de seus poderes de telepatia e hipnose-com fins puramente egoístas - fato este confessado por ele próprio em seu último livro ? Serão essas as atitudes de um homem realmente desperto ou estaria ele dormindo tanto quanto os outros? 

Meu objetivo aqui não é julgar G. mais sim a eficácia de seu sistema para o objetivo principal a que se propõe: o despertar .  Parto da premissa que ele mesmo ensinou: somente alguém desperto pode despertar outra pessoa. Particularmente, creio que o principal furo nos ensinamentos de G. é que seu sistema mantém e fortalece a dualidade CONTROLADOR X CONTROLADO. Segundo G., o homem é uma entidade condicionada e fragmentada não sendo, portanto, um indivíduo, na acepção da palavra. 

Assim, o que chamamos de indivíduo trata-se de uma conjunção de diversos "Eus" conflitantes e contraditórios entre si.  O problema está no caminho ensinado por ele para se alcançar a unidade ou integração. Após anos e anos de tentavas frustradas,  finalmente cheguei à seguinte conclusão: não há despertar na dualidade, na divisão, no conflito. A ideia de juntar os diversos fragmentos do EGO para se criar um super EU capaz de subordinar e liderar os outros é totalmente equivocada e leva a resultados contrários aos pretendidos.
Krishnamurti e Gurdjieff: meios diferentes para fins iguais

              Esse entendimento só me foi possível quando entrei em contato com os ensinamentos de Krishnamurti - uma visão oposta à pregada por Gurdjieff .  Apesar do objetivo ser o mesmo- despertar a consciência - os meios empregados pra isso são totalmente diferentes. K. ensina que enquanto houver a dualidade observador versus coisa observada o despertar é impossível. Isso coloca abaixo os fundamentos do sistema de Gurdjieff que se baseia totalmente nessa dualidade. 

Em outras palavras, não é possível um trabalho sobre si mesmo, nos moldes pregados por G., simplesmente por que o EGO não pode analisar e libertar o próprio EGO. Além disso, não posso também analisar meus defeitos, nem lutar contra os mesmos de forma direta porque a força e o conflito  apenas fortalecem ainda mais o EGO. Quando um EGO vence e controla os outros EGOs continua sendo EGO-mais fortalecido e poderoso. Sendo assim,  ao invés de  extingui-lo estamos, na verdade, fortalecendo-o. É como se estivéssemos usando gasolina para apagar o fogo. O resultado é um completo fracasso. É importante frisar, ainda, que- contrariando G., Krishnamurti ensina que o conflito não cria energia- pelo contrário- faz é desperdiçá-la. Portanto, a fricção como forma de se criar energia, que é um dos fundamentos dos exercícios e disciplinas das Escolas- na verdade causa o efeito contrário. Há novamente um fundo de verdade nessa premissa- mas não é da forma que G. ensinou e usou.


         Afora isso, sempre tive curiosidade em saber o que aconteceu com os grupos de G. após sua morte. Aí entra outro fato curioso. Quem me deu esta resposta foi uma respeitada escritora e jornalista inglesa chamada Joyce Collin-Smith em seu livro “Não Chame ninguém de Mestre – como aprender com líderes espirituais sem transformá-los em gurus”*. Ela relata que depois da morte de G. os grupos ficaram divididos e sem rumo. Muitos tornaram-se adversários entre si, não podendo nem mesmo conversar uns com os outros. Na busca por uma liderança espiritual, alguns grupos  aderiram a gurus exóticos como, por exemplo, o Maharishi Mahesh Yogue , de quem Joyce  tornou-se secretária particular. 

Rodney Collin


   Joyce também descreve fatos desconhecidos da vida dos discípulos mais próximos de G. e dos díscipulos destes como, por exemplo, Ouspensky e seu pupilo Rodney Collin- de quem ela era cunhada. É desconcertante e doloroso perceber como estas pessoas, tão próximas de Gurdjieff, não só não  despertaram, como perderam-se totalmente,  beirando a loucura e o suicídio- fato este que realmente aconteceu com Rodney. Triste também foi saber que Ouspensky terminou seus dias fazendo experiências com  drogas alucinógenas como é descrito por ela neste dramático relato :

“Ouspensky, lidando com os pensamentos induzidos pelas experiências com a mescalina, concentrava-se num cinzeiro sobre sua escrivaninha e escrevia suas profundas impressões. Mais tarde, livre da droga, descobriu envergonhado que tinha rabiscado estas ridículas palavras:
"Um homem pode ficar louco com um cinzeiro".

Mais curioso ainda, foi saber que as últimas palavras do grande discípulo de G. apenas confirmam minhas suspeitas sobre a hiper-teorização e falhas no sistema ensinado por seu mestre . Segundo Joyce, ele teria dito:

“- Abandono o sistema. Comecem novamente por si mesmo.”

Por tudo que foi exposto e também pela minha própria experiência e vivência dos ensinamentos de G. posso concluir que a principal falha do seu sistema é manter , alimentar e fortalecer os Egos - tanto do mestre quanto do discípulo. Além disso, aqueles que se autodenominam “mestres” não estarão, na verdade, explorando e usando seus comandados ao sabor dos gostos e caprichos de seu EGO ? Se o mestre não é liberto, como poderá libertar os outros? 

         Ora, segundo Krishnamurti, o despertar é resultado de um trabalho pessoal, individual e solitário  e não coletivo- como pregava Gurdjieff. Os conceitos de "lembrança de si" e " Consciência de si" são legítimos mas totalmente mal compreendidos e erroneamente abordados no sistema de G. Em suma, há um fundo de verdade nesses ensinamentos mas, repito, estão vagos, fragmentados e incompletos. Além disso, os métodos ensinados por G. tem resultados contrários ao que se propõe. Meios errados só podem levar a resultados errados. Não sei se no sistema original usava-se esses métodos, ou se muitos desses princípios foram acrescentados a posteriori por G. - conforme sua conveniência. Não dá pra saber se os "furos" neste sistema é resultado da má compreensão do sistema original, por serem incompletos mesmo, ou por terem sido   propositadamente alterados por G. .
O livro de Ouspensky

            Uma coisa que sempre me intrigou foi o título do livro de Ouspensky: "Fragmentos de um ensinamento desconhecido". Isso já nos dá uma pista de que o sistema de G. está incompleto, sendo, na verdade, parte de um ensinamento muito maior e mais profundo. Além disso, por tudo o que se conta no livro de O., pelos acontecimentos dramáticos na vida de G. e pela ineficácia prática de seus ensinamentos, tudo isso nos deixa, no mínimo, desconfiados. 

A importância da obra e do trabalho de Gurdjieff  é incontestável. Todavia, seu sistema parece falho e ineficaz, pois se não levou nem o próprio G. ao despertar, nem os seus discípulos diretos, nem ninguém- então... isso é no mínimo estranho e merece nossa desconfiança e profunda reflexão. 

Autor : Alsibar 

Obs: o texto poderá ser usado integralmente desde que seja informada a fonte e o link originais.


Referências:
Ouspensky, P. D.- Fragmentos de um ensinamento desconhecido – em busca do Milagroso – Editora Pensamento, Rio de Janeiro.
Collin-Smith, Joyce – Não chame ninguém de mestre- Siciliano, 1993.
Você poderá  baixar os livros acima gratuitamente nos links abaixo. Ou então vá no 4share e faça o download. É tudo  grátis :




O filme “Encontro com homens notáveis” poderá ser assistido no link abaixo. É um filme antigo, com uma produção tosca, mas  uma jóia rara  para quem quer conhecer mais sobre a vida de Gurdjieff:

http://www.youtube.com/watch?v=hQL3jFTQJQM