quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

O CONHECIDO E O DESCONHECIDO

 



Quando Buda alcançou a Iluminação desfez-se a ilusão do "eu" enquanto entidade autônoma e separada. Dizer que o 'eu' não existe seria incorreto pois é ele que cria toda a ilusão do mundo de maya, a divisão e o sofrimento. Afirmar que ele existe seria, igualmente, impreciso pois incorreria no erro de afirmar a existência de algo que está sempre se transformando, em um constante processo de morte e renascimento. O eu, portanto, existe e não existe ao mesmo tempo. Quanto mais apegados à ideia de sua existência concreta/permanente, maior é a resistência à Realidade e, por conseguinte, maior o conflito e o sofrimento.

Quando o ego enquanto entidade autônoma está plenamente cônscio de sua própria existência e, consequentemente, da realidade criada por ele mesmo, seja ela de luz, escuridão ou neutralidade - diz-se que ele vive no 'conhecido'- ou seja, com pleno conhecimento daquilo que vive, sente e experimenta.

O 'conhecido' é a extensão sutil do próprio ego. Imagine o ego como uma lanterna acesa que ilumina o mundo ao seu redor. Sem a luz da lanterna não há mundo visível, não há cores, sensações e percepções. É o ego que torna o mundo perceptível e visível aos olhos da consciência.

Em termos práticos é o seguinte: se estou plenamente consciente da minha própria ascensão, das minhas virtudes, da minha Iluminação e espiritualidade então é tudo ilusório pois é o ego que está 'iluminando' tudo. É essa a dimensão que Krishnamurti apelidou de 'conhecido' pois há um conhecimento pleno do ego acerca de suas próprias ações, conquistas , perdas, ganhos, objetivos, processo, etc, etc.

No Antigo Testamento, há uma vaga alusão a essa questão. Quando Deus diz a Moisés: 'aquele que vê minha face morre' (Êxodo 33:20) é exatamente Isso. Em outras palavras: o ego não pode ver (conhecer) Deus - o Eterno Desconhecido. Assim, apenas com a morte do ego ilusório é que o Desconhecido pode então se apresentar.

Ego é sinônimo de conhecido/conhecimento/consciência de si, o sentido do eu auto-existente e separado. O conhecido é a dimensão onde o Ego governa e reina - inclusive quando trata dos assuntos ditos ' espirituais'.

O Desconhecido é a dimensão onde o ego não mais manda, não resiste, nem existe - exceto nas questões de ordem prática para garantir a sobrevivência, o conforto e a proteção do corpo. No Reino do Desconhecido não há mais o 'mundo do eu'. Internamente, esse mundo perde a consistência, existência e importância.

Por isso que, quem alcança o Desconhecido penetra na imensidão do Infinito. Lá, passado, presente e futuro fundem-se na Eternidade. Nesse estado, tudo está constantemente emergindo e imergindo, aparecendo e desaparecendo, nascendo e morrendo. É como um movimento constante das ondas do mar que quando vem cria o mundo com suas aparências, cores e dores. E quando se vai, leva tudo consigo revelando a natureza essencial da realidade aparente onde tudo se manifesta: o Espaço Imensurável, o Grande Vazio de onde tudo nasce e para onde tudo retorna.

Alsibar Paz

05/01/22

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terça-feira, 28 de dezembro de 2021

A ESSÊNCIA DOS ENSINAMENTOS DE KRISHNAMURTI

 



                   J. Krishnamurti publicou centenas de livros. A grande maioria foram compilações de palestras e diálogos que ele fazia quase que diariamente. Por incrível que pareça, a sua hiper produção que, em tese, deveria ajudar a esclarecer seu pensamento, teve, em muitos casos, o efeito contrário.

                   A questão, me parece, é que JK não queria dar respostas fáceis e prontas. Ele queria que o ouvinte fosse capaz de investigar a questão juntamente com ele, acompanhando seu direcionamento. Por isso, ele sempre começava do começo, lançando as bases, destruindo ilusões e, só então, chegava à conclusão final.

                 Tendo isso em vista, seria possível fazer um resumo da sua mensagem sem grandes imprecisões e mantendo-se fiel à essência dos seus ensinamentos?

                  Penso que sim. De fato, Krishnamurti ensina algo extremamente elementar: como ver/encarar/observar 'aquilo que é'.

                  O problema é que, em geral, as pessoas se excluem do fato quando deveriam ver a si mesmas- seus pensamentos, sentimentos, reações e emoções - como parte integrante do fato. Vamos pegar um exemplo: a ansiedade é o fato. Mas me separo do fato, tentando ficar livre dele. Nesse momento crio um outro fato: a separação observador ( aquele que vê o fato de estar ansioso) e a coisa observada (a ansiedade). E aí gera-se o conflito que passa a ser outro fato. E no momento em que vejo todo esse processo e tento dele me libertar crio um novo fato. Isso vai aumentando o conflito, a neurose e agravando o sofrimento.

                    Então, se formos fiéis aos apontamentos de Krishnamurti bastaria ver o fato a que chamamos "ansiedade" sem dar-lhe nome e, por conseguinte, sem tentar controlá-lo,  modificá-lo, nem mesmo observá-lo já que a "observação" já aconteceu no momento em que você se dá conta do fato.

                    Em suma, é ver "aquilo que é'  sem a interferência da palavra ou pensamento. E, caso ocorra a interferência, vê-la como parte inevitável do fato e não tentar modificá-lo. E, pronto, eis a essência dos ensinamentos de Krishnamurti.

Alsibar Paz 22/12/21

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sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

A NOVA MODA DA TURMINHA 'PINEO-ADVAITA'.



Tenho observado, de uns tempos para cá, um considerável aumento de indivíduos se apoderando dos conhecimentos espiritualistas, notadamente - mas não exclusivamente - do advaita-vedanta sob um viés perigoso. Aparentemente, tais sujeitos - muitos deles com sérios transtornos psíquicos  - encontraram nessa tradição milenar o veículo ideal para darem vazão à sua própria confusão e loucura. 

 A última mania dos mesmos é dizer que tudo que não presta em si mesmos e nos outros é do 'personagem' . E aquilo que está de acordo com o que eles consideram correto/bom vem do tal "Ser".

Todavia, a primeira pergunta que salta aos olhos é: quem faz esta divisão? Quem julga o que é do personagem e o que é do ' Ser'?

Fiz, certa vez, essa pergunta a uma pessoa adepta desse conhecimento  superficial de inspiração advaita e ela me respondeu: é o Ser!. Mas será que é mesmo? 

Ora, quem é que divide? Quem é que percebe? Quem classifica, analisa e julga senão a própria pessoa baseada em seus referenciais mentais (background)? No que leu, no que fantasiou, no que interpretou e acha que compreendeu? 

Ou seja, quando classifico : tal atitude é do ser e tal atitude é do personagem (ego) quem faz esse trabalho é o próprio ego. E por mais que o ego o negue, continua sendo ele que está à frente de tais procedimentos.

Aquilo que as pessoas conhecem como "ser" não é o verdadeiro Ser, pois esse não pode ser conhecido, muito menos seus atributos e qualidades. Quando a mente qualifica a atitude de outrem como sendo egoica e a de si mesma como sendo 'divina', isso nada mais é do que a própria mente, o  pensamento, o próprio ego do sujeito em ação.

Alguém pode perguntar: mas e suas análises Alsibar, não são também egoicas?

E eu respondo: alguma vez eu disse que não eram? 

É claro que toda minha análise - inclusive esta que estou fazendo agora - parte do meu ego. Mas eu  admito isso, ao contrário daqueles que me acusam de estar sendo vítima do  'personagem'. Estou, agora mesmo, admitindo e  confirmando o que eu próprio ensino: sim, é o ego que  pensa, reflete, raciocina, escreve, analisa e "julga". Eu sou o personagem, eu sou o ego! Nunca me consideraria o Ser pois quem se considera o Ser não é o Ser.

O  que estou falando vem da minha própria experiência, mas  tem respaldo nas mensagens de outros grandes mestres:

Buda, Krishnamurti e UG passaram uma vida afirmando: você nada mais é do que memória, desejo, medo, esperança, ansiedade, conflito, pensamentos, etc. Ou seja, ego/personagem. Em meio a esse caos, criamos uma entidade acima e além de nós mesmos a que chamamos de Ser, Atman, Deus, Consciência, etc. Mas, esse deus nada mais é do que uma ilusão mental, uma idealização, uma fuga.

Ora, qual é o fato?

O fato é que só existe o personagem formado por milênios de cultura, educação, memórias, condicionamentos, tradição, etc. O tal " Ser'  foi inventado pelo próprio personagem para dar a si mesmo um status de nobreza, dignidade, permanência  e elevação espiritual.  Mas, essa entidade ainda é a extensão do próprio 'eu', ou seja, de sua mesquinhez, de sua confusão, de sua mediocridade.

Agora, quando você identifica e vê claramente essa artimanha sutil do ego/personagem aí sim,  começa  a libertação dessa que talvez seja a mais poderosa de todas as ilusões: aquela em que o próprio ego se disfarça de Ser para melhor "passar" e continuar controlando tudo de forma escondida, achando que seu 'plano' nunca será descoberto. Lamento decepcioná-lo.

Por Alsibar Paz

10/12/21

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

A PIMENTEIRA (Aroeira): A ÁRVORE DA ILUMINAÇÃO DE KRISHNAMURTI

 



Ojai é abençoado com uma abundância de árvores de todas as variedades, mas nenhuma é mais ilustre do que a velha e retorcida pimenteira na extremidade leste do vale, onde Krishnamurti teve um nascimento espiritual. Ele tinha 27 anos e a árvore era apenas uma muda. Krishnamurti teve seu nascimento físico em 1895, em Madanapalle, uma pequena cidade no sul da Índia, mas seu nascimento espiritual - aquele que importava para o mundo - ocorreu em 1922, logo depois que ele e seu irmão chegaram pela primeira vez a Ojai. Quando ele morreu, em 1986, a árvore havia crescido enorme e pesada e caiu uma noite durante uma tempestade. Mas suas raízes ainda eram vitais e desde então cresceu magnificamente. Evidentemente, a árvore é imortal e sua história dura para sempre.

A sequência de eventos que trouxe Krishnamurti a Ojai abrangeu três continentes e quase um século. A força motriz neste drama foi Annie Besant, a escritora, oradora e ativista social que conquistou Londres em 1877. Annie foi a primeira mulher a se defender perante um tribunal na Inglaterra. Em questão estava o direito de publicar um pequeno volume, composto por um médico americano, com o título desarmante de “Frutos da Filosofia”. O subtítulo do livro talvez fosse mais indicativo de seu conteúdo: “The Private Companion of Young Married Couples”. A intenção geral de “Frutos da Filosofia” era fornecer as informações mais precisas então disponíveis para a prática do controle de natalidade.

Besant e seu associado, Charles Bradlaugh, presidente da Sociedade de Pensamento Livre, publicaram uma reimpressão de “Frutos da Filosofia” e foram prontamente presos sob a acusação de disseminação de obscenidade. Eles passaram a noite na prisão. Após a sua libertação, Bradlaugh implorou a ela que concordasse em interromper a distribuição de "Frutos da Filosofia". Annie Besant, de 27 anos, recusou. Ela não poderia ceder diante de uma lei tão manifestamente injusta e negar às mulheres tais informações essenciais. Ela defendeu seu caso no tribunal por três dias, examinando o mérito da questão de todos os ângulos - legal, médico, social e ético. O poder de sua voz falando, juntamente com sua lógica rígida, a catapultou para a fama. No ano seguinte à sua vitória no tribunal, “Fruits of Philosophy” vendeu mais de 100.000 cópias.

A carreira de Besant foi caracterizada por sua eloqüência pública, sua defesa apaixonada dos direitos das mulheres e sua defesa precoce e poderosa pela independência da Índia. Ao longo do caminho, ela teve uma longa ligação com George Bernard Shaw. A maior conquista de sua vida, no entanto, pelo menos em sua opinião, foi sua liderança na Sociedade Teosófica, começando com sua eleição como presidente em 1907. A Sociedade Teosófica (TS) era uma organização nascente, quase religiosa, dedicada à irmandade do homem e a descoberta de poderes inexplorados no universo. Os fundamentos da ST eram ocultos e esotéricos, mas com a visão de Besant, a Sociedade adotou uma missão decididamente mais prática. 

Besant declarou que o estudo da história revela que a humanidade é guiada nas horas mais sombrias pela presença de um Instrutor do Mundo, alguém como Jesus ou Buda, que pode apontar o caminho em direção a uma forma nova e mais elevada de consciência. Era missão da Sociedade, afirmou ela, descobrir um jovem que pudesse mais uma vez cumprir esse papel e treiná-lo e alimentá-lo adequadamente.

Dois anos depois que Annie assumiu a presidência da ST, ela encontrou o que procurava. Em 1909, Krishnamurti era um menino de 14 anos, o oitavo de onze filhos, que vivia em bairros primitivos fora do complexo que abrigava a sede internacional da Sociedade Teosófica, em Adyar, na costa sudeste da Índia, do outro lado do rio Adyar de Madras . Seu pai era um teosofista que serviu como clérigo para a ST. Krishna, como era chamado, às vezes brincava na praia à tarde com seu irmão mais novo, Nityananda. O sócio de Annie, Charles Leadbeater, observou Krishnamurti ali e declarou que sua aura não continha partícula de interesse próprio. As investigações clarividentes de Leadbeater nas vidas passadas de Krishna revelaram uma linhagem ilustre, e em sua próxima visita a Adyar,

Krishna e Nitya eram inseparáveis, então Annie colocou os dois sob sua proteção. Ela os levou para a Inglaterra, contra as objeções do pai, onde foram devidamente alojados, vestidos, ensinados e expostos aos melhores elementos da sociedade inglesa. Krishna desenvolveu um gosto pela qualidade em roupas e carros, e adquiriu tal habilidade no golfe que seu handicap estava abaixo do esperado. 

Por mais de dez anos, Krishna concordou com as expectativas extraordinárias que Annie impôs a ele. Ele parecia aceitar sem questionar o edifício da ideologia teosófica, incluindo a crença nos "Mestres ascensionados", uma espécie de panteão de indivíduos espirituais, residentes no plano astral, que se interessavam pelos assuntos da humanidade e às vezes exerciam poderes ocultos para o benefício da humanidade. Krishna carregava o manto de seu futuro ostensivo com leveza e às vezes até brincava sobre isso entre aqueles de quem era próximo. Mas ele escreveu artigos para revistas teosóficas, apareceu em eventos teosóficos e parecia, para todos os efeitos, estar no caminho para cumprir o destino que Annie traçara para ele.

Sob a superfície, entretanto, outra realidade estava se revelando. Quando chegou aos vinte e poucos anos, uma sutil sensação de descontentamento estava se enraizando dentro dele e, pouco depois de chegar a Ojai, veio à tona de uma forma altamente incomum. 

Dois anos antes de os irmãos virem para Ojai, Nitya contraiu tuberculose, e sua saúde tornou-se um motivo de preocupação cada vez maior. Como resultado dos deslocamentos geológicos causados ​​pela Falha de San Andreas, onde duas placas continentais estão se movendo inexoravelmente em direções opostas, o Vale Ojai é torcido em uma orientação leste-oeste. Como consequência, o vale recebe uma quantidade maior de luz solar do que receberia de outra forma, e sua proximidade com o oceano e ligeira elevação também contribuem para um clima mediterrâneo. Por esta razão, o vale foi outrora considerado propício para o tratamento da tuberculose. AP Warrington, o presidente da seção americana da ST, recomendou que Krishna e Nitya viessem a Ojai, onde havia uma propriedade de seis acres, pertencente a uma família teosófica,

Duas estruturas residenciais existiam na propriedade. Uma era uma longa e rústica casa de fazenda conhecida como Arya Vihara (residência nobre); o outro era um prédio menor chamado Pine Cottage. Tinha um quarto e uma sala, um alpendre com vista para o vale e era ladeado por uma pimenteira jovem. 

Quando Krishna e Nitya chegaram ao porto de São Francisco, a caminho da Austrália, em julho de 1922, foi a primeira vez que pisaram em solo americano. Acompanhados pelo Sr. Warrington, eles pegaram um trem para o sul, para Ojai, e se estabeleceram na propriedade na extremidade leste do vale. Foi também a primeira vez que os irmãos ficaram por conta própria desde que Krishna fora descoberto, oito anos antes.

Pouco depois de sua chegada, Nitya descreveu o vale nestes termos:

Em um vale longo e estreito de pomares de damascos e laranjais é nossa casa, e o sol quente brilha dia após dia para nos lembrar de Adyar, mas ao anoitecer o ar fresco vem da cadeia de colinas de cada lado. Muito além da extremidade inferior do vale corre a longa e perfeita estrada de Seattle em Washington até San Diego no sul da Califórnia, cerca de 3.200 quilômetros, com um fluxo incessante de tráfego turbulento, mas nosso vale permanece feliz, desconhecido e esquecido, por um a estrada vagueia por dentro, mas não conhece saída. Os índios americanos chamavam nosso vale de Ojai ou o ninho, e por séculos devem tê-lo buscado como refúgio.

Duas semanas depois de chegar a Ojai, Krishna começou a tomar medidas para resolver seu crescente descontentamento consigo mesmo e com a vida que estava levando. Ele começou a meditar por meia hora todas as manhãs com a intenção geral, conforme escreveu em uma carta a um amigo, “para aniquilar as acumulações erradas dos últimos anos”. No início, ele relatou um bom progresso e afirmou que estava trazendo um maior senso de harmonia aos vários níveis de sua personalidade. Em poucas semanas, porém, um conjunto de sintomas bastante perturbador começou a surgir. O que aconteceu depois disso foi registrado em longos e detalhados relatos escritos separadamente por Nitya e Krishna; suas lembranças independentes se encaixam em muitos aspectos, embora uma tenha sido escrita de uma perspectiva objetiva e a outra conforme os eventos foram vivenciados subjetivamente. A avaliação geral de Nitya foi que suas vidas mudaram para sempre; como ele disse: "Nossa bússola encontrou sua estrela guia."

As dificuldades começaram uma noite com uma dor na nuca de Krishna, e Nitya observou ali um caroço, como se de um músculo contraído, mais ou menos do tamanho de uma bola de gude. Na manhã seguinte, os sintomas tornaram-se sistêmicos e mais agudos. Krishna reclamou de calor escaldante alternando-se com períodos de tremores intensos. A dor em seu pescoço se espalhava para sua cabeça e coluna, e às vezes ele ficava incoerente. Ele dormiu a noite toda, mas os sintomas recomeçaram com ainda mais força no dia seguinte.

Esses e outros sintomas persistiram por três dias. Na noite do terceiro dia, de acordo com Nitya, Krishna declarou seu desejo de dar um passeio na floresta:

Agora ele soluçava alto, não ousávamos tocá-lo e não sabíamos o que fazer; ele havia deixado sua cama e se sentou em um canto escuro do quarto no chão, soluçando alto que queria ir para a floresta na Índia. De repente, ele anunciou sua intenção de dar um passeio sozinho, mas com isso conseguimos dissuadi-lo, pois não achávamos que ele estivesse em condições de deambulação noturna.

Então, quando ele expressou um desejo de solidão, nós o deixamos e nos reunimos do lado de fora na varanda, onde em poucos minutos ele se juntou a nós, carregando uma almofada na mão e sentando-se o mais longe possível de nós. Força e consciência suficientes foram concedidas a ele para sair, mas mais uma vez ele desapareceu de nós, e seu corpo, murmurando incoerências, foi deixado sentado na varanda….

O sol se pôs há uma hora e estávamos sentados de frente para as colinas distantes, roxas contra o céu pálido no crepúsculo que escurecia, falando pouco, e a sensação veio sobre nós de um clímax iminente; todos os nossos pensamentos e emoções estavam tensos com uma expectativa estranhamente pacífica de algum grande acontecimento.

É nesse ponto que a pimenteira entra em ação. A narrativa de Nitya continua,

Então o Sr. Warrington teve uma inspiração enviada do céu. Em frente à casa, a poucos metros de distância, ergue-se uma pimenteira jovem, com folhas delicadas de um verde tenro, agora carregadas de flores perfumadas, e o dia todo é o 'murmúrio das abelhas', pequenos canários e brilhantes beija-flores. Ele gentilmente exortou Krishna a ir para debaixo daquela árvore, mas a princípio Krishna não o fez, então foi por conta própria.

Evidentemente, sentar-se sob a árvore teve um efeito notável sobre o estado de espírito de Krishnamurti e efetivamente pôs fim ao período de três dias de provação e sofrimento. Na verdade, a árvore parecia precipitar uma culminação extraordinária para toda a sequência de eventos. Nitya lutou para interpretar o que ocorreu em termos teosóficos, embora Krishna tenha traduzido em uma linguagem mais secular. Em qualquer caso, o que aconteceu a seguir agora é lenda. Continuando com a narrativa de Nitya,

Agora estávamos em uma escuridão estrelada e Krishna estava sentado sob um teto de delicadas folhas negras contra o céu. Ele ainda estava murmurando inconscientemente, mas logo veio um suspiro de alívio e ele nos chamou: "Oh, por que você não me mandou aqui antes?" Então veio um breve silêncio.

E agora ele começou a cantar…. Enquanto Krishna, sob a jovem pimenteira, terminava sua canção de adoração, pensei no Tathagata [o Buda] sob a árvore Bo, e novamente senti invadindo o vale pacífico uma onda daquele esplendor, como se novamente Ele tivesse enviado um bênção sobre Krishna.

Ficamos sentados com os olhos fixos na árvore, imaginando se tudo estava bem, pois agora havia um silêncio perfeito, e enquanto olhávamos, vi de repente por um momento uma grande estrela brilhando acima da árvore ... Inclinei-me e contei ao Sr. Warrington sobre o Estrela….

No dia seguinte, novamente, houve uma recorrência do estremecimento e da consciência semi-desperta em Krishna, embora agora durasse apenas alguns minutos e em longos intervalos. O dia todo ele ficou debaixo da árvore em Samadhi…. Desde então e todas as noites ele se senta em meditação sob a árvore.

A descrição de Krishna do que ocorreu foi escrita alguns dias após os eventos:

No primeiro dia, enquanto estava naquele estado e mais consciente das coisas ao meu redor, tive a primeira experiência mais extraordinária. Havia um homem consertando a estrada; aquele homem era eu mesmo; a picareta que ele segurava era eu; a própria pedra que ele estava quebrando era uma parte de mim; a tenra folha de grama era meu próprio ser, e a árvore ao lado do homem era eu mesmo. Quase conseguia sentir e pensar como o curador de estradas, podia sentir o vento passando pela árvore e a formiguinha na folha de grama que eu podia sentir. Os pássaros, a poeira e o próprio barulho faziam parte de mim. Nesse momento, um carro passou a alguma distância; Eu era o motorista, o motor e os pneus; conforme o carro se afastava de mim, eu estava me afastando de mim mesmo. Eu estava em tudo, ou melhor, tudo estava em mim, inanimado e animado, a montanha, o verme,

Krishna descreveu a noite do terceiro dia da seguinte forma:

Naquela noite ... me senti pior do que nunca. Não queria que ninguém perto de mim nem me tocasse. Eu estava me sentindo extremamente cansado e fraco. Acho que estava chorando de mera exaustão e falta de controle físico. Minha cabeça estava muito ruim e a parte superior parecia como se muitas agulhas estivessem sendo introduzidas….

Eventualmente, eu vaguei pela varanda e sentei-me por alguns momentos exausto e um pouco mais calmo. Comecei a voltar a mim mesmo e finalmente o Sr. Warrington me pediu para ir para debaixo da pimenteira que fica perto da casa. Lá eu me sentei de pernas cruzadas na postura de meditação. Depois de algum tempo sentado assim, senti que estava saindo do corpo. Eu me vi sentado com as delicadas folhas tenras da árvore sobre mim. Eu estava voltado para o leste. Na minha frente estava o meu corpo e sobre a minha cabeça eu vi a estrela, brilhante e clara….

Havia uma calma profunda tanto no ar quanto dentro de mim, a calma do fundo de um lago profundo e insondável. Como o lago, eu sentia que meu corpo físico, com sua mente e emoções, poderia ser revolvido na superfície, mas nada, nada, poderia perturbar a calma de minha alma.

Fiquei extremamente feliz, pois tinha visto. Nada poderia ser o mesmo. Bebi das águas límpidas e puras da fonte da fonte da vida e minha sede foi saciada. Nunca mais poderia estar com sede, nunca mais poderia estar na escuridão total. Eu vi a luz. Toquei a compaixão que cura todas as tristezas e sofrimentos; não é para mim, mas para o mundo.

Já se passaram cem anos desde que Krishnamurti foi descoberto na praia de Adyar, e o significado de sua vida e obra ainda não emergiu totalmente. Sete anos após os eventos sob a pimenteira, ele se afastou totalmente da Sociedade Teosófica. Declarando que “a verdade é uma terra sem caminhos”, ele afirmou que nenhuma organização, por mais benigna que seja suas intenções, poderia ajudar alguém a descobrir a verdade ou levar uma vida de liberdade psicológica. Ele dedicou o resto de sua vida a proferir palestras públicas destinadas a elucidar os contornos da vida diária e da consciência. Ele insistiu que não estava falando como qualquer tipo de autoridade, espiritual ou não, e fez questão de que suas próprias experiências, incluindo os eventos sob a pimenteira, não fossem divulgadas publicamente até o fim de sua vida.

Krishnamurti morreu de câncer pancreático em Ojai, em sua casa em Pine Cottage, em 1986. A pimenteira permaneceu como uma sentinela, protetora e acolhedora, o tempo todo. Alguns anos antes de sua morte, um muro baixo de pedra foi construído ao redor da árvore para proteger suas raízes e seu enorme tronco. Mesmo assim, em 1994, a árvore tombou em sua base uma noite no meio de uma tempestade. Em vista de sua história, os zeladores da árvore se abstiveram de removê-la e ela teve um renascimento notável. Suas raízes ainda estão vivas e novos ramos e folhas frescas continuam a crescer até hoje.

O significado último do que aconteceu a Krishnamurti sob a pimenteira é uma questão que ocupará as gerações futuras. Foi este um momento crucial em seu desenvolvimento como o Instrutor do Mundo, como Annie Besant previra que ele se tornaria? Ou marcou o início de sua ruptura com a Teosofia? Ou, paradoxalmente, eram os dois? Talvez só a pimenteira saiba com certeza.

Postado em 6 de março de 2015 por Eric Williamson

Fonte:

http://krishnamurti-america.blogspot.com/2015/03/the-tree-where-krishnamurti-was-born.html