domingo, 23 de fevereiro de 2014

SOBRE GURUS E FALSOS GURUS-TUDO QUE VOCÊ SEMPRE QUIS SABER


O blog  “Alsibar” está alcançando o total de  100.000 visitações. Ao longo desses  quase três anos , percebi que os artigos que mais fizeram sucesso foram os mais polêmicos, principalmente aqueles sobre gurus famosos. Como muita gente me manda emails com perguntas específicas sobre os gurus, ou faz comentários nos posts me taxando de “fofoqueiro”, “caça-gurus”, “caça-defeitos”, “invejoso” e coisas parecidas, resolvi esclarecer de uma vez por todas minha opinião pessoal sobre o tema. Minhas opiniões não são verdades absolutas e acredito que esse seja um dos motivos do sucesso deste blog.  Além de informar, refletir e investigar, aqui também é um espaço virtual para  a livre expressão, discussão e debates de ideias. Agradeço a todos que entenderam essa proposta e que nos prestigiam . Muito obrigado!

Como eu escrevi na epígrafe acima, muita gente me envia emails, faz comentários no blog  e nas redes sociais me perguntando sobre este ou aquele guru específico. Algumas dessas pessoas são até mal educadas . Um tal de “ Consciência Cósmica” chegou a me ameaçar com o julgamento dos “Mestres” por causa do meu posicionamento . Finalmente, escreveram um trecho de uma fala de um guru no meu último post insinuando atitudes que não correspondem à realidade. Como vejo que há muita confusão e mal entendidos, resolvi escrever um artigo só com minha opinião acerca de alguns desses assuntos. Vou tentar abordar as perguntas mais comuns, de forma que meu posicionamento fique definitivamente esclarecido. Vamos por partes.

O GURU VERDADEIRO E O GURU FALSO

Sim, acredito que há gurus verdadeiros e falsos . Estes últimos são os falsos profetas citados por Jesus. Na primeira categoria, estão os  verdadeiros mestres , sábios e iluminados. E na segunda, os fajutos, picaretas e exploradores. Sempre existiram líderes mal intencionados em todas  as épocas movimentos, organizações e religiões. Não só nas grandes religiões, mas também em pequenos movimentos alternativos e desconhecidos. Há pessoas mentirosas e hipócritas em todas as esferas da sociedade, assim como há também pessoas iluminadas, boas, sinceras e honestas . É o tal “trigo e joio" falado por Jesus. Quem é quem? Não dá pra saber. Não é nosso trabalho julgar ninguém. Minhas opiniões pessoais acerca de A ou B não são verdades absolutas e - por isso- podem estar erradas. Mas elas são baseadas naquilo que vivo, leio, vejo, e analiso.

SOBRE OS GURUS ADVAITAS (Não-Dualistas)

Esquerd.. p. direit: Ramakrishna, Ramana, Papaji, Nisargadatta
Gosto dos gurus advaitas que não estão mais fisicamente presentes: Shankara, Ramakrishna, Ramana, Nisargadatta e Papaji. Destes, me identifico mais com Papaji tanto por sua mensagem - simples, prática e direta -quanto por sua vida. Nos relatos biográficos, dizem que mesmo depois de se “iluminar” , Papaji continuou trabalhando e cuidando do sustento de sua família. Somente depois de se aposentar que ele passou a se dedicar totalmente ao trabalho espiritual. Por outro lado, não simpatizo muito com os gurus advaitas vivos- principalmente os brasileiros pois - ao contrário de Papaji - a grande maioria dos gurus advaitas vivos tornaram a espiritualidade um meio de vida. Vivem da exploração da fé, da carência emocional e espiritual dos seus seguidores. Fortalecem e alimentam o apego e a dependência psicológica dos seus seguidores . Fazem de tudo para eles não se libertarem  e assim, deixem de ir aos tais satsangs - sua principal fonte de renda. Não vejo diferença entre isso e a venda de indulgências da Igreja Católica na Idade Média. É a mesma coisa com outra roupagem: a graça,  o céu , o nirvana etc é para os que tem (muito) dinheiro.

SOBRE OS (FALSOS) GURUS

Não é fácil identificar o falso guru.
Não tenho nada contra ninguém. Acredito que mesmo os falsos gurus cumprem um papel importante no sentido de ajudar as pessoas a compreender algumas verdades- mesmo que depois se decepcionem. Mas até isso faz parte da caminhada evolutiva. Pessoalmente não tenho nada contra ninguém. Cheguei, inclusive, a visitar um guru de passagem aqui por Fortaleza, assisti sua palestra com toda atenção e respeito  . Ao final da palestra, nos cumprimentamos e trocamos cordialidades. Sei diferenciar a "pessoa real" do personagem "guru". Quando estou na frente de um guru, vejo um ser humano igual a todos os outros -merecedor do meu respeito e cordialidade. Só não me peça para ser discípulo de ninguém. Ou que eu os defenda ou siga. Afinal, todos são seres humanos- gurus e não gurus- sejam eles verdadeiros ou não. Existem dois tipos de falsos gurus: os que  realmente acreditam ser iluminados porque tiveram algum tipo de experiência "mística" tal como um sonho, visão, alucinação ou coisa parecida- estes são casos de psiquiatria. E há aqueles que se tornaram guru porque perceberam o quanto é fácil enganar as pessoas e por isso exploram e enganam de forma consciente e pensada- estes são casos de polícia. Difícil é diferenciar quem é quem.

SOBRE O OSHO

Osho, polêmico na vida e na morte
Definitivamente não tenho nada contra o Osho- lamento que tenha tido um fim tão trágico. Fui seu admirador e defensor durante boa parte de minha vida. Mas quando estouraram os fatos de Óregon, que culminaram com sua fuga, prisão e morte misteriosa, fiquei com a “pulga atrás da orelha”. Mesmo daqui de Fortaleza as notícias oficiais que nos chegavam não eram confiáveis, pelo contrário, eram confusas e suspeitas. Comecei a desconfiar que algo estava errado. Alguns de seus discursos dessa época destoam dos discursos do começo de sua carreira e mostram um Osho completamente diferente e estranho. Muito tempo depois desses ocorridos, descobri o artigo do Christopher Calder- um ex-discípulo do Osho que resolveu contar ao mundo uma nova versão da vida deste famoso guru. Calder esclareceu muita coisa baseado não somente em seu próprio testemunho- mas no de outros ex-discípulos, indícios, reportagens, fotos, depoimentos etc. Com este artigo, muita coisa se esclareceu e começou a fazer sentido. Além do mais, comecei a desconfiar dos ensinamentos do próprio Osho . Percebi que eram palavras bonitas, belas , poéticas e de efeito, que tinham como objetivo encantar, hipnotizar, convencer e fazer discípulos. Compreendi que nem sempre as palavras bonitas e inspiradoras são verdadeiras. E na maioria das vezes não são.  Palavras verdadeiras são duras . As de Osho  não tinham um fim didático. Não objetivavam a libertação: mas a prisão do leitor ou ouvinte ao seu rebanho. Hoje vejo o Osho como uma incógnita, um mistério que dificilmente será desvendado. Restam apenas dúvidas, indícios, incertezas e hipóteses.

Tenho algumas hipóteses sobre ele:

1.Osho não era iluminado mas apenas um homem muito inteligente, hipnotizador e ótimo orador - isso explicaria toda sua história de extravagância, ganância, megalomania e as tragédias de sua vida: o fracasso da comuna , o suicídio de Vivek- seu grande amor- e seu suposto suicídio um mês depois.
2. Osho era iluminado, mas se perdeu ao longo de sua trajetória. Ou seja, era iluminado mas se perdeu,  fraquejou, caiu- como aconteceu com o mito bíblico da queda dos anjos.
3. Osho era iluminado e continuou iluminado até sua morte trágica. O que aconteceu é que mesmo os iluminados podem enlouquecer- e mesmo assim- continuar sendo iluminado.
4. Foi tudo mentira do Calder, do Milne e dos outros ex-discípulos que o denunciaram. Todas as provas e indícios foram uma farsa montada pelo governo americano para destruí-lo e matá-lo- juntamente com sua amada Vivek. 

Que ninguém me “apedreje” por ter uma opinião, uma hipótese… mas fico com a primeira. E aceito que discordem de mim. E também defendo o direito de cada um ter a sua. Mas registro aqui que reconheço a importância do Osho no que tange à espiritualidade humana moderna- ele ajudou a abrir e expandir os horizontes espirituais de muita gente- inclusive o meu.

SOBRE GURDJIEFF

George I. Gurdjieff
Um grande líder e divulgador dos ensinamentos espirituais das sociedades secretas com os quais tivera contato – mas não era um "desperto". E se era- caiu , desvirtuou-se ao longo do caminho. Suas ações estavam longe de manifestar o que pregava. Ele mesmo confessou ter usado seus poderes de telepatia e hipnose para tirar vantagens pessoais e seduzir mulheres .  No final da vida, ele se arrependeu , entrou em crise existencial e acabou tendo um fim trágico. Sua vida e ensinamentos influenciaram várias pessoas- inclusive o Osho. Ele foi um grande divulgador das Verdades Eternas mas estas não eram suas e ele próprio não conseguiu vivê-las.

SOBRE JIDDU KRISHNAMURTI

J. Krishnamurti: um iluminado, apesar dos deslizes
J.Krishnamurti foi um verdadeiro "guru" no sentido estricto do termo: "aquele que dissipa a escuridão" - não no sentido em que ela é atualmente usada .Ele foi um dos mestres que mais me influenciou. Nos piores momentos de minhas crises existenciais foram às suas palavras que recorri- encontrando de pronto a resposta e a luz que eu precisava. Acho que Krishnamurti foi um iluminado, apesar de seus defeitos e deslizes- como o caso amoroso com a esposa do seu secretário particular. Apesar de considerá-lo o mestre que mais revolucionou a história da espiritualidade humana moderna- não sou seu seguidor- nem muito menos "krishnamurtiano". Desde muito tempo que o tenho como  um dos referenciais espirituais mais seguros e confiáveis . Tenho ainda muita admiração e gratidão por ele, por seu trabalho, ensinamentos e por tudo que ele representa .  Apesar disso, tenho minhas próprias opiniões sobre uma série de coisas que com certeza K. reprovaria. Ele não se arvorava em autoridade nenhuma- deixou para nós a liberdade para investigar a Verdade por nós mesmos, acreditando em nossa própria capacidade e  luz interior. Se hoje procuro manter-me independente, autônomo e livre- agradeço principalmente a sua influencia e a de Buda.

SOBRE UG KRISHNAMURTI

U. G. : ex-ouvinte e admirador de JK.
Muita gente o considera um imitador do Jiddu. Mas a verdade é que Upalluri Gopalla Krishnamurti sempre teve sua vida ligada de alguma forma ao Jidu Krishnamurti. Quando nasceu, seu pai -teosofista e espiritualista -deu-lhe este nome em homenagem ao grande  J.K. Quando cresceu, tornou-se ouvinte assíduo das palestras do J. K.  até que um dia se “iluminou” durante uma de suas conferências. Diz-se que Upalluri alcançou um estado diferenciado de consciência. O próprio UG o denominou de “Calamidade”- devido a natureza dolorosa do misterioso fenômeno. Não teve discípulos nem criou nenhuma organização, movimento  ou sociedade.  Tudo indica que realmente se libertou da opressão dos pensamentos. Através de UG, podemos perceber que o fenômeno da iluminação não pode ser descrito, idealizado ou imaginado- é algo sempre novo, diferenciado, subjetivo e singular. J. Krishnamurti já afirmava isso usando outras palavras. Penso que UG realizou em vida os ensinamentos de JK. Depois, teve que se libertar do mestre, cortando totalmente as ligações com o passado- pelo menos no nível consciente. Inconscientemente, seus ensinamentos são ecos dos de  JK. Há algumas diferenças apenas na forma de expressão. Gosto do UG e acho que sua experiência pode ajudar na compreensão de nossa própria jornada espiritual.

SOBRE A DEPENDÊNCIA DOS GURUS

Isso sim sou contra. Sejam eles verdadeiros ou não. A relação de dependência e obediência cega ao guru é uma das fases da jornada que deve ser ultrapassada se a pessoa quiser crescer e evoluir. Do contrário o próprio guru - que um dia lhe tirou da prisão da mente, da depressão, ou ego- se torna, ele próprio, outra prisão. Todavia, não sou contra a gratidão, o reconhecimento etc. Pelo contrário, acho importante a gratidão e o reconhecimento àqueles que gratuitamente ajudam as pessoas que ainda penam e tateiam ao longo do caminho espiritual.

SOBRE AS RELIGIÕES TRADICIONAIS E SEUS LÍDERES

Apesar de achar que todo mundo deva ser livre, sei que as religiões tradicionais, com seus líderes religiosos, padres e pastores- cumprem uma importante missão no mundo: ajudar as pessoas a sair de uma vida desregrada e materialista, apontando-lhes os primeiros sinais da luz espiritual. Sei que sem essa ajuda muita gente estaria no crime, nas drogas ou depressão. Compreendo que cada um cumpre um papel importante- todos sem exceção. Inclusive este blogueiro. Mas isso não livra ninguém da parcela de culpa que lhe convém. Cada líder religioso deve responder por seus atos  e atitudes perante o tribunal da consciência. Em todo lugar existe gente boa e bem intencionada- assim como pessoas desonestas e falsas.

SOBRE O DISCURSO ADVAITA ( NÃO-DUALISTA)

Sou a favor da visão advaita com algumas reservas- mas sou totalmente contra sua manipulação por parte de pessoas que se apoderam do discurso, tornando-o apenas mais uma “coisa” vendável. Usam-no mais como uma forma de aparecer e se projetar socialmente- do que uma prática de vida. Falta vivência, sobram os discursos e a deplorável exploração comercial dos satsangs.

SOBRE SATSANGS

Nas tradições hindus é comum a adoração ao guru
Sou à favor de satsangs ( encontro com a "verdade") gratuitos ou com contribuições voluntárias. Sou contra satsangs pagos e caros. Compreendo os  de preço justo. Todavia o que se vê atualmente é a espiritualidade sendo transformada em negócio e – em alguns casos- exploração. Satsang não é show e guru não é celebridade- apesar de todo esforço de seus colaboradores de querer transformá-los em mega-stars e mitos  espirituais, essa prática mercantilista reduz a espiritualidade a uma mercadoria de luxo acessível apenas aos "eleitos" pagantes. Cria-se assim a indústria dos satsangs, que precisa lucrar cada vez mais para expandir e crescer. Os seguidores dos gurus se justificam dizendo que tem que cobrir os custos da viagem, hospedagem etc etc. Ora, é só não viajar. Fazer em casa mesmo, como fazia Nisargadatta e Ramana. Pra que viajar ? Não faz sentido. Se, como dizem, "Tudo já é perfeito e nada precisa ser mudado. Não há nada a ser ensinado e não existe ninguém aí para aprender"… então pra que viajar e cobrar caro pelas entrevistas pasticulares?

Espero que agora tenha ficado clara minha posição sobre os assuntos mais polêmicos ao longo desses anos. Só me resta agradecer a todos que participaram do blog com perguntas, comentários e críticas. Não tenho a Verdade absoluta e não julgo ninguém em particular. Deus é que conhece o coração de cada um. Mas também não se pode fechar os olhos aos fatos ou à Verdade-seja ela qual for, seja sobre quem for. Não há ninguém acima do bem e do mal. Todos estão sujeitos a falhas, quedas, deslizes e erros- inclusive eu.

Um fraterabraço a todos!

Muito obrigado!

Namastê!
Alsibar
htt://alsibar.blogspot.com



domingo, 16 de fevereiro de 2014

O EGO DOS ILUMINADOS - The ego of the Enlighted Ones


É lamentável o desserviço que alguns gurus advaitas fazem à espiritualidade humana ao pregar a inexistência do ego. Quem prega o contrário- a existência- também presta outro desserviço. Como assim? Leia o artigo abaixo para compreender esse paradoxo  e depois tire suas próprias conclusões.
Boa leitura!

A corrente espiritualista neo-advaita (novos-monistas) composta de seguidores de gurus defensores da crença do “não existe ninguém aí” presta um desserviço à humanidade ao apregoar a inexistência do ego. Não entendem, ou não querem entender , que o ego é parte constitutiva do ser humano manifesto no corpo e na mente e que – por isso- não há como libertar-se dele. Talvez, ele cesse completamente com a morte do corpo físico... talvez. O mais provável é que continue existindo mesmo após ela.  E, tudo indica que, mesmo aqueles que chamamos de "despertos" tenham que conviver com sua incômoda companhia. Entende-se assim, que o ego é vencido, dominado, controlado - mas nunca destruído.


As alucinações existem ou não existem?

Uma das questões mais difíceis é compreender o paradoxo sobre a existência do ego. Como compreender que o ego existe e não existe ao mesmo tempo? Vamos a alguns exemplos: uma miragem no deserto existe? Ela não existe de fato, mas existe aos olhos de quem vê e – por isso- pode causar problemas se a pessoa não perceber a diferença. Ou seja, a miragem existe- mas não o que ela representa. Outro exemplo: um sonho existe? Se dissermos que não existe então ninguém sonha? Portanto os sonhos existem-mas como sonhos, dentro de uma realidade subjetiva – existente apenas na mente de quem dorme- não no nível concreto. Mais um exemplo, já usado pelos budistas e imitados pelos advaitas : um homem acorda e pisa numa corda achando que é uma cobra- a cobra existe? Não. Mas a visão da cobra existe? Sim. Então ambos são reais. Tanto a corda, como a visão da cobra. Negar a existência da visão da cobra é negar o fato da alucinação.  Ora, os psicóticos veem o que não existe- mas não se pode negar a existência de suas alucinações - do contrário quem procuraria tratar-se? As visões existem no plano subjetivo da mente doentia- mas não no plano da realidade concreta.

 Não seria exagero dizer que a  mente humana comum - quando  comparada a de um Buda- sofre de uma espécie de doença mental, uma psicose chamada egolatria, ignorância, ilusão. Assim, afirmar que o ego não existe é negar um problema fundamental no caminho da espiritualidade: que o ego, apesar de não ter existência substancial, ele existe enquanto persistir a doença da ignorância. Ora, se a pessoa  se considera liberta da “ilusão” do ego-sem realmente estar- isso apenas perpetua  e fortalece a atuação dele. Com isso, a pessoa não toma consciência de sua prisão e, consequentemente, não trabalha interiormente para libertar-se.

Outro engano é achar que apenas a desindentificação com os pensamentos é o bastante para promover a libertação do ego. Isso é o começo de um processo de desconstrução. O ego é uma estrutura milenar e intrínseca ao ser humano. A desindentificação com os pensamentos é um passo importante- mas não é tudo. Representa apenas o começo de uma jornada. O problema é que ao chegar nesse nível muita gente pensa: " pronto, estou livre, agora posso gozar e ser feliz!". É comum ver esse tipo de testemunho em sites, posts e comentários de pessoas supostamente "libertas" que vendem essa imagem para o mundo, geralmente para promover satsangs.


A libertação do ego talvez nunca venha nesta vida- e reconhecer isso  é de grande importância. Os pensamentos são apenas das partes, dentre as várias que compõe a  complexa estrutura do eu. Além dos pensamentos existem os desejos, os sentimentos, as emoções, as tendências pessoais, os conteúdos inconscientes individuais e coletivos etc etc. Se realmente não existisse ego por que uma pessoa gritaria para o mundo que é um “Desperto” – se autopromovendo? E  para que seus discípulos ficariam dando testemunhos- como se quisessem convencer a si mesmos e aos outros de que estão livres e felizes? A ausência do ego não seria- por definição- o fim de toda atitude ego-centrada? Não se parece isso uma grande contradição?

Krishna: o ego pode ser amigo ou inimigo
Ora, até os seres iluminados mais famosos da história deram sinais de que ainda possuíam  ego- todavia de uma maneira controlada. A mente não existe como algo separado. Ela faz parte de um fluxo universal que Jung chamou de Inconsciente Coletivo. E todo mundo que tem uma mente está ligado a este fluxo que, dentre outras coisas, é composto de elementos simbólicos, culturais, e históricos resultados de experiências e vivencias tanto individuais quanto coletivas. Jesus chorou, se enraiveceu, lutou contra os escribas e fariseus- inclusive humilhando-os em praça pública.  Krishnamurti se irritava publicamente e teve um caso com a mulher do seu secretário particular. E mesmo Ramana- que tentou representar a anulação absoluta do ego e suas partes constitutivas- ainda estava preso ao ego por sua atitude extremada de negação e passividade diante da vida. O próprio Krishna diz no Bhagavad-Gita : “O ego é o pior inimigo do Eu, mas o Eu é o melhor amigo do ego... O ego é um péssimo senhor, mas é um ótimo servidor." Claro está que o Ego continua existindo- mas controlado, não mais como senhor- mas como servo.

Alguns seguidores da visão “neo-advaita” acham que apenas a supressão dos pensamentos  “eu” e “meu” basta para libertar a Consciência do ego. Esquecem que esta é apenas uma pequena parte da porção intelectual do EGO. Além desta, o ego também tem sua parte emocional , instintiva e inconsciente. Essas continuam atuando mesmo na ausência dos pensamentos. Na verdade, ao se negar o pensamento o que acontece? São reprimidos e jogados para o inconsciente- mas isso não extingue-os de verdade. O ego continua agindo na surdina , por debaixo dos panos. Sua atuação passa a ser mais sutil e – por isso mesmo- mais perigosa uma vez que dificilmente será detectada.

 Por isso, você que é um buscador sincero da verdade, não se deixe enganar pelas palavras floridas e frases de efeitos dos gurus. Não acredite em nada em que se diz por aí- nem aqui- principalmente se pedirem  “entrega”, ou “rendição”- pois é aí onde mora o perigo. Quando a “guarda” baixa, seu ego é enfraquecido- mas não por que você se liberta dele- mas por que o seu “ego” passa a ser escravo do guru e da organização, grupo ou movimento que ele representa. Eles dizem :" não acredite em nada que você lê, não acredite na sua mente, nem nos seus pensamentos. Entregue-se. Renda-se!". E então cai-se vítima de uma prisão maior ainda. Pois se antes havia a consciência de se estar preso à ignorância do ego e precisava dele libertar-se, ao render-se ao guru a pessoa continua presa- pensando estar livre- tornando a libertação algo cada vez mais distante e irrealizável.


A maior artimanha do ego é fazer a pessoa crer que ele não existe, que nunca existiu, ou que existia e depois deixou de existir. Seja livre e veja a verdade por si mesmo. Esse artigo é apenas um “cutucão”  para que você acorde de seu sono, de suas verdades, de suas ilusões e prisões- mesmo aquelas pregadas pelos gurus e que você aceita como verdadeira por que elas lhes dão uma gostosa sensação de conforto e felicidade .  A verdade pode não ter nada a ver com isso. Como poderás saber se não a encontrares por si mesmo, sem gurus , sem organizações ou grupos?

Pense nisso e depois não diga que ninguém o avisou!

Namastê!
Alsibar

http://alsbibar.blogspot.com

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

CRÍTICAS À RAMANA MAHARISH?




( Paul Bruton foi quem primeiro revelou Ramana para o mundo através do seu best-seller  "A Índia Secreta". Esta convivência diária rendeu-lhe não apenas graças e bençãos- como podia se imaginar-mas também muitos problemas- alguns bastante peculiares a todas organizações burocráticas que começam a envolver dinheiro e poder.   Esse artigo é uma síntese dos vários anos em que Brunton passou com o sábio em seu ashram (mosteiro). É curiosa a visão de Brunton  acerca da personalidade de Ramana, dos seus ensinamentos  e da própria viagem espiritual em si. Uma análise crítica de quem não apenas leu- mas conviveu diariamente com um dos maiores iluminados de nossa época. No final, há uma resenha em que se analisa a própria atitude de Brunton como mestre. Seria algo como " tal mestre, tal discípulo?"- Leia e tire suas próprias conclusões- Alsibar)

 AS CRÍTICAS DE PAUL BRUTON AO SÁBIO RAMANA MAHARISH

Como alguém que pesquisa nos anais da história:

Paul Brunton foi um escritor Inglês que escreveu sobre  espiritualidade   e assuntos relacionados. Ele manteve mistério sobre detalhes de seu próprio passado. O nome original de Paul Brunton era Raphael Hurst. Ele foi um jornalista londrino que estava muito interessado nos ensinamentos espirituais orientais e achava que para um estudo inteligente e valorização dos mesmos, a causa da cooperação entre o oriente e o ocidente deveria ser promovida intensamente. Ele foi ao encontro Sri Ramana Maharishi depois de visitar muitos mestres espirituais, swamis e iogues. Brunton escreveu sob vários pseudônimos, incluindo Raphael Meriden e Raphael Delmonte. Ele mudou seu nome quando  visitou a Índia e decidiu escrever sobre assuntos espirituais. No começo, ele escolheu o pseudônimo de Brunton Paul. Mais tarde, ele mudou para Paul Brunton.

 Paul Brunton foi quem tornou Sri. Ramana Maharishi famoso no mundo ocidental. Ele conheceu Sri, Ramana Maharishi em 1931, e em 1934, publicou um livro sobre seu encontro com Ramana. O livro foi chamado de  “ A Índia Secreta” (A Search in Secret India).    Pessoas do mundo todo citam as obras de Brunton.
Agora é interessante que Brunton tenha tido críticas muito semelhantes às que Ramana sofreu. Trechos do livro de Brunton  “A Índia Secreta”  ainda são publicados e distribuídos pelo  Ramana  ashram . O que o  ashram  não diz é que Brunton teve uma profunda discordância com eles. Brunton diz que sofreu ameaças de violência contra sua pessoa. Na verdade, ele diz que se sentiu forçado a deixar o  ashram e, por isso, partiu "abruptamente" (32).

Brunton diz que ele não viu Ramana  nos 12 anos antes da morte da morte do sábio, embora elepassasse a poucos quilômetros do  ashram ( 33).

Em um livro escrito em 1941, “O caminho secreto”, Brunton se refere a "ameaças de violência física" e "ignorância mentirosa e maldosa." Ele fala de ter sido “duramente separado pela má vontade de alguns  homens”. Ele cita "ódio" e "baixarias", que ele atribui à inveja por causa do seu sucesso. Os principais problemas foram: em março de 1939, Brunton chegou a Tiruvannamalai, onde se hospedara no Ramana  ashram , não para passar os três meses que era  esperado, mas por três semanas. Brunton descreve a situação no ashram  como: ... uma situação altamente deplorável no ashram de Ramana representando a culminância de uma crise degenerativa que vinha acontecendo e piorando durante os últimos três anos. E que o  ashram  acabou se tornando "um fragmento em miniatura do mundo imperfeito que eu havia abandonado" (O caminho secreto  , 43).

Ele reclama que Ramana não estava exercendo qualquer controle sobre o ashram: “mas durante minhas duas últimas visitas a Índia tornou-se dolorosamente evidente que a instituição conhecida como  Ashram - que tinha crescido em torno dele durante os últimos anos, e sobre os quais sua ascética indiferença ao mundo rendeu-lhe temperamento inclinado a  não exercer o menor controle- poderia apenas dificultar e não ajudar meus próprios esforços para alcançar a meta mais elevada, então eu não tive outra alternativa senão a oferta de uma abrupta e final despedida ( O caminho secreto   p. 18)

É claro que havia desentendimentos entre Brunton e o irmão de Ramana -que estava no comando do ashram. Masson diz que Brunton tinha dado entrevistas nos jornais indianos sobre Ramana que o irmão dele não tinha ficado satisfeito. Seriam esses desentendimentos ainda mais antigos do que 1939? Brunton não esteve no ashram desde o início de 1936. Em setembro de 1936, perguntaram a Ramana sobre "algumas declarações desagradáveis feitas por um homem bem conhecido de Maharshi". Ramana respondeu, “eu lhe permiti fazê-lo. Eu já tinha permitido .Deixe-o fazê-lo ainda mais. Deixe que outros sigam o exemplo. Apenas deixe para que eles me deixem em paz. Se por causa desses relatos ninguém vier a mim, vou considerar como um grande serviço feito para mim. Além disso, se ele se importa de publicar livros contendo escândalos sobre mim, e se ele ganhar dinheiro com sua venda, isto é realmente bom. Tais livros vão vender ainda mais rapidamente e em maior número do que os outros (...) Ele está me fazendo um bom trabalho. (36B).

 Agora Brunton não é especificamente identificado aqui. Mas as datas coincidem com a partida de Brunton para o Himalaia "em exílio."

Foi iniciada uma ação judicial pelo controle do ashram. Algumas pessoas disseram que Brunton estava envolvido. Brunton sentiu que deveria negar esta alegação.

Brunton reclamou que Ramana não deu a orientação que ele estava buscando ( O caminho secreto    , p.15 ).Agora, o que Brunton queria? Ele certamente tinha instrução sobre o método de auto-investigação de Ramana. Provavelmente ele estava querendo os poderes mágicos ou  siddhis  associados a yoga . Por exemplo:  o poder da telepatia ou de prever o futuro. Sabemos que Brunton estava interessado em tais poderes. E ele se refere aos "mistérios mais elevados de  yoga . " Parece que ele queria algum tipo de iniciação de Ramana. Mas Ramana nunca iniciou ninguém. E embora tais poderes possam surgir no curso de iluminação, as tradições hindus afirmam que é um erro buscar tais poderes em si mesmos. Curiosamente, o próprio Brunton foi criticado por seus próprios seguidores por não cumprir  suas promessas. Brunton contou para seu jovem discípulo Jeffrey Masson sobre seus poderes. Masson diz que Brunton sempre carregava uma varinha mágica ou bastão de vidro. Masson ficou desapontado por não ter conseguido tais poderes.

O transe não desperta a consciência
Brunton diz que a meditação separada da experiência é "inevitavelmente vazia" ( , O caminho secreto   p. 19). As iluminações alcançadas pela  yoga  ou por estados de transe são sempre temporárias. Embora um transe possa produzir um sentimento de exaltação, esse sentimento vai embora e é preciso repetir a experiência diariamente. Ele cita o filósofo/sábio hindu Aurobindo: “o transe é uma maneira de escapar . O corpo é mantido tranquilo, a mente física está em um estado de torpor, a consciência interior é deixada livre para continuar com sua experiência. A desvantagem é que o transe torna-se algo indispensável e  o problema da consciência desperta não é resolvido, ela permanece imperfeita.” ( O caminho secreto  , p.27.

Brunton refere-se ao Zen como mais sensato e prático. Os jovens são treinados por 3 anos; durante esse tempo lhes são dadas tarefas ativas. Eles não estão autorizados a passar o dia numa existência preguiçosa, inútil ou parasitária ". Depois de sua saída do mosteiro uma meia hora de meditação diária é suficiente para mantê-los em contato com a paz espiritual. Sua vida mundana não foi afetada, pelo contrário, foi enriquecida ( O caminho secreto   , 28).

Brunton refere-se à " enorme complacência atrofiada" de alguns dos seguidores de Ramana, e seu "complexo de superioridade escondido." Ele se refere a esta atitude mística como uma atitude de querer ser mais santo do que os outros, e um pressuposto de que o conhecimento total tenha sido alcançado quando, na verdade, foi apenas um conhecimento parcial (O caminho secreto  , p. 16). Ele diz que, sem a  saudável oposição de uma ativa participação nos assuntos do mundo, eles [os místicos] não têm meios de saber se eles estão vivendo em um reino de auto-alucinação estéril ou não. ( O caminho secreto  , p. 19).

 Brunton teve divergências éticas com Ramana. Para Brunton, a meditação não era suficiente para uma pessoa realizada. Interação e envolvimento com o mundo exterior é necessário. Ele sentiu que Ramana não tomou nenhuma posição sobre questões como a guerra iminente. Brunton parecia particularmente aborrecido com um incidente quando chegaram no ashram notícias sobre os aviões italianos que haviam assassinado cidadãos indefesos nas ruas da Etiópia (os italianos invadiram a Etiópia em outubro de 1935).

Brunton relata que Ramana disse: O sábio que conhece a verdade de que o Ser é indestrutível, não é afetado, mesmo que cinco milhões de pessoas sejam mortas em sua presença.(Lembra o conselho de Krishna para Arjuna quando este ficou desanimado com o pensamento do massacre iminente de parentes no lado oposto do campo de batalha)

 Agora, eu acredito que a crítica do Brunton em relação à Ramana é correta, pelo menos no que diz respeito à ética. Ken Wilber também diz que, embora Ramana fosse realizado, ele tinha deficiências éticas (39). Eu vejo um problema de inconsistência nos ensinamentos de Ramana entre os diferentes pontos de vista do self. Por um lado, o eu (self) é visto como algo estático e imóvel, não envolvido com o mundo. Por outro lado, há o ponto de vista do eu como algo dinâmico e participante do mundo. Brunton diz que o campo da atividade humana não é pra ser vivida num mundo de transe , mas no mundo externo, neste " mundo cuja fachada é o tempo e o quintal é o espaço."

Experiências anteriores de Brunton com yoga e meditação: No  O caminho secreto  , Brunton diz que ele ainda considera Ramana como “O mais eminente Yogue do Sul da Índia” .Mas ele também diz algo bastante surpreendente : que ele sabia sobre meditação e yoga antes de vir para o Ramana  ashram , e que sua experiência com Ramana não foi uma  experiência nova.
 Ele faz a "confissão" de que quando veio pela primeira vez à Índia, ele não era um novato na prática da yoga . Mesmo quando adolescente ... o inefável êxtase do transe místico tornou-se uma ocorrência diária no calendário da vida , os fenômenos mentais anormais -que acompanham a experiência anterior da yoga - era comum e familiar, foi quando o árido trabalho de meditação tinha cessado facilmente e sem esforço. (O caminho secreto    , p. 23).

Brunton afirma que ele não apenas tinha praticado  yoga , mas que ele tinha experimentado os fenômenos anormais, ou  siddhis . Ele refere-se à experiência de estar aparentemente projetado no espaço como um ser incorpóreo. “O que eu omiti de dizer, e agora revelo, é que não foi nenhuma nova experiência, porque muitos anos antes de eu ter encontrado o santo yogue de Arunachala, eu tinha experimentado êxtases exatamente similares, repouso interior e intuições luminosas durante meu treinamento em meditação -. ( , O caminho secreto   p. 25).
 Brunton diz que Ramana apenas confirmou suas experiências anteriores: “Quando, mais tarde, me deparei com traduções de livros indianos sobre misticismo, eu percebi - para meu espanto - que os sotaques arcaicos de sua fraseologia formavam descrições familiares de minhas próprias experiências centrais e cardeais ... ( O caminho secreto  , p. 23).

Esta última afirmação é quase exatamente o que Ramana reivindicou para si mesmo: que sua experiência foi direta, e que os livros posteriores que ele leu foram apenas para "analisar e nomear o que eu tinha sentido intuitivamente sem análise ou nome." Brunton estava sendo honesto aqui? Ou ele inventou esta história de experiência anterior, em virtude de seu desencanto com Ramana? Surpreendentemente, uma gravação independente parece mostrar que Brunton pode estar dizendo a verdade. Há evidências de que Bruton tenha tido experiências anteriores. Um relato de 1931 do seu primeiro encontro com Ramana relata Brunton (então conhecido como Hurst)  dizendo a Ramana que ele já havia experimentado momentos de bem-aventurança. (41)

 Brunton diz que suas experiências com Ramana trouxe de volta essas experiências anteriores. Isso pode ser verdade, mas o que Brunton diz sobre seu primeiro livro,  Em Busca da Índia Secreta , deve ser motivo de grande preocupação no que se refere ao relato sobre Ramana. Brunton diz que ele usou a história de Ramana como um "peg"(pregador de roupas) no qual ele pendurou suas próprias teorias sobre meditação: “Assim, ficará claro para os leitores perspicazes que eu usei o seu nome e realizações como um “peg” conveniente sobre o qual pendurei um relato sobre o que a meditação significou para mim. A principal razão para este procedimento era de que se tratava de um artifício literário conveniente para garantir a atenção e manter o interesse dos leitores ocidentais, que dariam naturalmente consideração mais séria para o tal relato da "conversão" de um jornalista ocidental , cabeça dura e mentalmente crítico em relação à yoga. “(O caminho secreto   ) ,

 Deus como uma ilusão: Brunton também critica a visão de Ramana que até Deus é uma ilusão: “a declaração final que realmente me deixou de fora do advaita como um investigador Ocidental, veio mais tarde: era de que Deus também era uma ilusão, bastante irreal. Se não tivessem deixado por isso mesmo, mas se tivessem dado ao trabalho de explicar como e por que isso tudo era assim, eu poderia ter sido convencido desde o início. Mas ninguém o fez”.

Esta é uma crítica um pouco estranha, e reflete uma visão bastante ingênua do Vedanta. O próprio Bruton  muda posteriormente de uma visão pessoal, para uma visão do Absoluto-impessoal.

 Finalmente, Brunton parece criticar Ramana por falta de originalidade. Ele diz, "alguns anos depois de eu conhecer o Maharshi eu descobri em um antigo texto sânscrito o mesmo método “ Quem sou eu?" [ 101 ]. Esta é também uma crítica estranha, tendo em vista o fato de que Brunton não estava realmente interessado nas idéias de Ramana , exceto como um “peg” para suas próprias idéias. No entanto, há alguma razão para a crítica, pois os discípulos de Ramana muitas vezes assumiram mais originalidade em Ramana do que o justificado. Ramana se valeu de muitos trabalhos escritos anteriormente, incluindo algumas obras tântricas, como já mostrado no  Jivanmukta .

Parte -2
A Yoga Além do Caminho Secreto (1941)

 No   Ensino Oculto , Brunton muda a pergunta "Quem sou eu?" para "O que sou eu?" Ele diz que "Quem sou eu" era uma pergunta que emocionalmente pré-supunha que último "eu" do homem seria um ser pessoal, ao passo que " O que sou eu?" elevou a questão da investigaçao impessoal  a um nível racional e científico quanto a natureza final do 'eu' ( O caminho secreto   , 17).

Brunton teve muitos desentendimentos com Ramana . Um artigo no  The Maharshi  a seguinte razão para as divergências de Brunton com o  ashram . Ele diz que depois do sucesso de seu livro  “A Índia Secreta” Brunton publicou muitos livros sem reconhecer que Ramana era a fonte de suas idéias.

 Como vimos, há certamente um fundo de verdade na alegação de que Brunton não reconheceu suficientemente Ramana como a fonte de muitas de suas idéias. Chadwick diz que Brunton era "um plagiador de primeira linha" (Chadwick, 16). Mas também houve outros desentendimentos com Ramana, pelo menos, como foi observado por Brunton.

Brunton diz que com Ramana, ele experimentou intermitentes sensações de paz mental. Mas estas entraram em conflito com "um racionalismo inato e sempre questionador” (O caminho secreto    , 21). Ele tinha esperança de obter mais orientações de Ramana: “eu me segurei  com força na esperança de encontrar uma orientação clara do Maharishi. Mas a orientação nunca veio. Esperei pacientemente que o tempo pudesse tirar isso dele, mas eu esperei em vão. Aos poucos, foi ficando claro para mim que esta questão de obter o conhecimento mais elevado- que até então era central em minha mente- que ele nunca havia instruído qualquer outra pessoa nisso. A razão emergiu lentamente quando eu ponderei sobre a questão. Da minha longa amizade com ele, foi possível concluir  principalmente que este não era o seu caminho e que isto não lhe interessava muito. Sua imensa realização estava nos reinos do ascetismo e da meditação. Ele possuía um tremendo poder de concentrar a atenção interiormente,  perdendo-se em um arrebatado transe, de sentar-se calmo e impassível como uma árvore.”

Mas com todo o respeito e profundo carinho que sinto por ele, devo dizer que seu principal papel não era  o de ensinar sabiamente- porque ele era essencialmente um místico absorvido em si mesmo. Isso explica o porquê do seu desdém explícito para com os aspectos práticos da vida, seu desinteressado serviço para com os outros tinha levado seu ambiente externo imediato a conseqüências inevitáveis e decepcionantes . Foi, sem dúvida, mais do que suficiente para ele - e certamente para seus adoráveis seguidores - que ele tenha se aperfeiçoado na indiferença para com atrações mundanas e no controle da mente inquieta. Ele não queria mais que isso. A questão do significado do universo em que ele vivia não parecia incomodá-lo. O que realmente o incomodava era a questão do significado do ser humano e pra isso ele havia encontrado uma resposta que o satisfazia. (  O caminho secreto  , 16)

 Embora Brunton tenha deixado o ashram, e escrito publicamente sobre seus desentendimentos com Ramana, ele, no entanto, expressou sua "amorosa devoção e profunda reverência para com ele": “como escrevi em um jornal de Londres, quando ele morreu, em 1950: "Ele foi o místico indiano que mais me inspirou ... O contato telepático interior e a estreita afinidade espiritual entre nós permaneceu viva e intacta ... (O caminho secreto  , 33).

Note-se que, mesmo neste comentário apreciativo, Brunton está enfatizando poderes ocultos especiais, tais como a telepatia.

 Em seus cadernos, Brunton escreveu que ele se arrependeu de algumas coisas que disse sobre Ramana.Ele lamentou as críticas a Ramana, e diz que essas críticas foram ocasionadas "mais por eventos na história do ashram do que por ele próprio". [ 102 ] Mas, embora ele continuasse a admirar Ramana como um místico, Brunton não mudou seus pontos de vista sobre a importância da ética.

Esta resenha é de : O Guru de Meu Pai: Uma viagem através da espiritualidade e da desilusão (Paperback)  por BY   E. Verrillo

Eu peguei esse livro, não porque eu estava interessado em Paul Brunton (eu não sou esse tipo de garoto), mas porque eu estava intrigado com Jeffrey Masson. Depois de ler três  dos polêmicos livros de Jeffrey Masson em psicologia, eu queria saber o que o inspirou a desafiar uma das lendas do nosso tempo: Sigmund Freud. Este livro não só respondeu a essa pergunta, mas vários outras que eu não havia nem imaginado perguntar.

Este livro, ao contrário de outros de Masson, é um livro de memórias pessoais. Ele relata a estranha e longa relação que a família de Masson mantinha com o seu "guru", Paul Brunton. Por razões que não estão totalmente claras, embora irresistivelmente insinuem, o pai de Masson "adotou" Brunton, convidando-o para sua casa, tornando-se seu discípulo. Finalmente, todos os membros da família acabaram adotando o "Caminho da Iluminação" de Brunton. Por fim, a associação da família com Brunton provou-se  desastrosa, envolvendo perda financeira, uma partida precipitada ao Uruguai para evitar a "Terceira Guerra Mundial", e o afastamento permanente do tio de Masson, Bernard. Embora seja verdade que ter um guru vivo como Brunton,  não foi algo tão prejudicial como se juntar aos seguidores do reverendo Moon ou seguir Jim Jones para a América do Sul, Masson apontou algumas semelhanças.

Em seu epílogo, Masson escreve:.. "Ver profundamente a estrutura de uma tirania é entender algo básico sobre todas as formas de opressão: o totalitarismo. Como outros sistemas autoritários, que exige uma suspensão e supressão do questionamento crítico, este exige uma inquestionável submissão a uma estrutura hierárquica rígida, que gira em torno do culto à personalidade, e isso gera invasões pessoais e abuso ". Este foi o ponto de memórias de Masson, e explica completamente por que ele se juntou ao culto freudiano da  psicanálise, e por que –no final- acabou rejeitando-o. Em Freud, Masson viu um reflexo do apelo de Brunton, mas viu-se incapaz de suprimir as suas faculdades críticas mais uma vez. Um charlatão na vida de Masson foi suficiente.

 Nós podemos e devemos aplicar lição de Masson sempre que nos depararmos com alguém que exige de nós  a supressão do questionamento - seja ele um sacerdote ou um presidente. Esses "gurus", de acordo com Masson, sempre nos levam do caminho de rosas ao desastre. É uma lição importante para se ter em mente, e que a experiência pessoal de Masson demonstra tão amplamente.

 A Contribuição Paul Brunton é muito valiosa para o mundo buscador. Pessoas de todo o mundo há muito tempo que usam o livro de Paul Brunton  'A ÍNDIA SECRETA' , que foi fundamental para tornar Sri, Ramana Maharishi  alguém famoso, Meher Baba estremecer. 

Este livro foi na época o maior best-seller de todos os tempos e continua a vender ainda hoje.
Em 1940 e 1950, Brunton viveu com o autor americano e ex-psicanalista Jeffrey Masson -filho de um judeu americano, amigo de Brunton, [10] - os pais de Masson estavam entre o grupo de discípulos mais próximos de Brunton. Masson publicou um livro de memórias de sua infância, sob o título: “ O Guru do meu pai”. Inicialmente influenciado por Brunton, Masson gradualmente tornou-se desiludido com ele.  Segundo Masson, Brunton o escolheu como o herdeiro em potencial do seu reino espiritual. Em 1956, Brunton decidiu que uma terceira guerra mundial era iminente e os Massons mudaram-se para Montevidéu, pois este foi considerado um local seguro. Do Uruguai, Masson atendeu a solicitação de Brunton para ir estudar sânscrito em Harvard. Brunton não se mudou para a América do Sul, em vez disso, passou algum tempo vivendo na Nova Zelândia. [11]  Masson, posteriormente, tornou-se proficiente em sânscrito, e percebeu que Brunton não tinha a facilidade com o idioma que ele dizia ter. [12] wiki
Os livros de Paul Brunton ainda podem ser lidos com mérito, mas ninguém deve ignorar o que Masson expôs  apenas por aceitar a escrita de Brunton como uma vara de quintal em nossa busca pela verdade. Antes que qualquer coisa seja aceita  como verdade, tudo tem que ser verificado.C / N

 Tradução: (Alsibar)

Links do original em Inglês:

http://www.speakingtree.in/spiritual-blogs/seekers/philosophy/paul-brunton-s-criticisms-of-sri-ramana-maharshi

Fonte: http://sunthosh-formlesspath.blogspot.com

 Nota do tradutor: alguns trechos repetidos no original foram suprimidos para melhor síntese e compreensão do artigo.


 Fonte desta tradução: http://alsibar.blogspot.com

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

OS DOIS KRISHNAMURTIS- The two Krishnamurtis



   Nesse artigo, Peter Holleran faz uma síntese da trajetória dos dois Krishnamurtis e analisa aspectos polêmicos de suas vidas e ensinamentos. Apesar de não concordar ao todo com sua visão- principalmente quando cita  Ramana, Papaji e Paul Bruton como parâmetros para fundamentar sua opinião- considero-a bastante conciliadora e sensata. Vale a pena se abrir para ouvir algo novo- mesmo que esse novo possa abalar a imagem de dois dos mais influentes ícones da espiritualidade contemporânea.Boa leitura!


  J. Krishnamurti, UG Krishnamurti, Shree Atmananda, Papaji e Ramana Maharshi são todos exemplos de mestres espirituais -  considerados sábios por muitos - que tiveram, no início da vida, muitas experiências místicas, ióguicas e espirituais, mas que passaram a renegar o seu valor em favor da simples e silenciosa  percepção da consciência. Apenas Ramana geralmente  acolhia bem práticas diversas entre seus discípulos , além da  pura jnana ou auto-investigação, percebendo sua falta de preparação ou de afinidade com tal caminho, e também reconhecendo a eficácia de outros caminhos, como bhakti ou devoção. Não será verdade que todos esses professores se beneficiaram de suas experiências e práticas anteriores, mesmo que mais tarde tenham repudiado seu valor? Se não, mesmo que milhares de anos de ensino e interação guru-discípulo tenham sido de pouco valor, e os atuais não-dualistas estejam certos: tudo o que uma pessoa tem a fazer é compreender, sem a necessidade de nenhuma mudança, preparação ou qualquer tipo de purificação . As primeiras duas figuras citadas, negaram completamente a necessidade de um instrutor,  mesmo que tenham curiosamente assumido esta função por sua própria negação. Neste ensaio, vamos examinar a vida dos "dois Krishnamurtis" sob este foco, examinando o paradoxo e a contradição em prol  de nossa compreensão.

 Jiddu Krishnamurti (1896-1986) é ,de longe o mais conhecido dos dois, era um jovem sombrio e melancólico, quando, com a idade de doze anos, foi flagrado pelo teósofo Leadbeater que percebeu algum presságio  em sua aura. Leadbeater sugeriu ao pai de Krishnamurti (ele próprio um teósofo local) que seu filho poderia ser o novo messias e seria melhor educá-lo sob os cuidados de Emily Luytens (esposa do ilustre Edwin Luytens, o "arquiteto" do New Delhi), que se tornou sua nova "mãe". Sob os cuidados dos teosofistas (cuja  principal influência era de Leadbeater) Krishnamurti levou uma vida protegida e incomum. Ele não era particularmente inclinado à espiritualidade, mas tinha algo de romântico,  chegando a afirmar, muitas vezes, que ele era "meio apaixonado pela morte fácil." Com a perda precoce e inesperada de seu irmão (seu companheiro mais próximo, que também foi criado por Theosofistas juntamente com ele) Krishnamurti sofreu um terrível e esmagador golpe. Sua mente tomou um rumo sério, e ele passou a sentir que estava sendo usado pelos teosofistas para fins políticos. 

Aclamado por Annie Besant como a reencarnação de Jesus Cristo (um movimento que levou Rudolph Steiner a romper com ela e formar a Sociedade Antroposófica), Krishnamurti, em 1929, denunciou a reivindicação, dissolveu a "Ordem da Estrela", negou que era um guru, mestre espiritual, ou avatar, e desde então, até o fim de sua vida nunca admitiu ter discípulos. Em um comunicado, ele, então, escreveu anunciando que seu papel dali por diante seria ser um livre pensador, não um mestre, e que "a verdade é uma terra sem caminhos . "Embora ele tenha tido inúmeras experiências místicas / kundalini quando  estava com os teosofistas, ele aparentemente nunca se associou fisicamente com um verdadeiro mestre espiritual de maior calibre, e seu futuro repúdio da relação  entre mestre e discípulo – relação esta apoiada nas escrituras- parece ter sido -pelo menos em parte- uma reação às circunstâncias aberrantes de sua educação e sua associação moralmente duvidosa com Leadbeater . Na obra curta, mas poderosa, Aos Pés do Mestre (do qual Leadbeater pode ter sido o autor), ele respeitou a tradição da relação guru-discípulo (1), mas depois fez uma completa reviravolta e afirmou energicamente, com vários argumentos, que era desnecessário e até contra-produtivo,  se ter um guru ou mestre. 

Na verdade, Krishnamurti  teve instrutores, e até  usou esta posição em prol dos outros (apesar de seus protestos em contrário), mesmo assim, ele fez uma carreira com críticas baseadas naquilo que ele viu (não sem alguma razão) como uma insidiosa instituição oriental .  
Foi, sem dúvida, seu contato com certos recursos internos, no entanto, que  deu início em 17 de agosto de 1922- continuando até 1924 e por várias décadas depois disso- o que ele chamou de "o processo". Estes foram essencialmente anos de experiências místicas de transformações psíco-físicas, com aparente manifestação da kundalini , dor aguda na cabeça e na coluna (ver "A viagem pathless de Jiddu Kirshnamurti" para saber mais sobre essas experiências).   

As experiências de JK com mestres internos não terminou quando ele dissolveu a Ordem da Estrela e deixou a teosofia , como muitos podem supor, mas ambos: Aquilo e "o processo", continuaram ao longo de sua vida. Em 1948, quando ele tinha cerca de 53 anos de idade, Luytens escreve:   

"K havia saído para um passeio com elas, então ele disse que se sentiu mal e devia voltar para a casa. Ele pediu-lhes para ficar com ele e  que - acontecesse o que acontecesse-  não ficassem assustadas , e que  não chamassem  o médico . Ele disse que estava sentindo dor de cabeça. Depois de um tempo, disse que estava "saindo". Este 'saindo' era o que sempre acontecia no passado, durante o “ processo”. K deixava seu corpo sob o comando do que nós costumávamos chamar de “ elemental físico” -uma entidade infantil que tinha grande reverência e temor por K . Seu rosto estava cansado e cheio de dores. Ele perguntou-lhes quem eram e se elas conheciam Nitya (irmão de K, que morreu anos antes). Ele então falou de Nitya, contou-lhes que ele estava morto e que ele o amava e chorava por ele. Ele perguntou se elas estavam nervosas, mas de forma alguma  pareceu  interessado ​​na resposta. Ele mesmo parou de chamar para que Krishna  voltasse:. '. ele me disse para não chamá-lo.“Ele então, falou da morte. Disse que ela estava tão perto -" apenas um fio de linha' -  quão fácil teria sido para ele .. morrer, mas ele não queria porque tinha um trabalho a fazer. No final, ele disse: "Ele está voltando. Você vê todos aqueles com ele ? Impecáveis, intocados, com certeza - agora que estão aqui, ele virá . Estou tão cansado, mas ele é como um pássaro -  sempre fresco”  .
K. e Pupul Jayakar

"Na noite seguinte Pupul e Nandini novamente esperaram por ele em seu quarto enquanto ele foi para uma caminhada solitária. Quando retornou por volta das sete, ele estava "  estranho " ...., mais uma vez ele foi se deitar . Ele disse que se sentia queimando, queimando  tudo. Ele estava chorando  e então disse: 'sabe… eu descobri o que aconteceu naquela caminhada. “Ele” veio e tomou de conta totalmente, completamente. É por isso que eu faço.. . não sabia se eu voltaria- eu não sabia de nada.  Eles haviam me queimado de modo que  pudesse haver mais vazio. Eles querem ver o quanto “dele” podia vir. '. Posteriormente Krishnamurti comentou: " que aquela passou realmente de raspão. Aqueles sinos quase dobraram ante o meu funeral. "     

 Há uma boa quantidade de material como esse em toda a trilogia biográfica escrita por Luytens, com o objetivo de preparar e experimentar Krishnamurti para ser um "canal" para o "outro", presumivelmente Maitreya. Há também uma discussão sobre o que Krishnamurti pensava,  anos mais tarde , sobre esta ideia, e até mesmo uma história interessante, sugerindo que este era de fato "o outro". Infelizmente, Krishnamurti não teve professores em corpo físico para trabalhar com ele e confirmar ou prepará-lo ainda mais.  

Mais tarde, Krishnamurti, ou " K ", como ele preferia ser chamado,  pareceu negar a validade, a necessidade, ou a legitimidade dessas experiências (se referindo a elas como meros" incidentes ") e também, posteriormente, todo o processo de intermédio espiritual de um mestre autenticamente realizado. Se ele realmente sentia que suas experiências particulares foram necessárias e úteis para as fases mais maduras de seu próprio desenvolvimento espiritual, ele, no entanto, manteve seu argumento de que a submissão a um guru- ou recorrer ao mesmo para pedir ajuda- não eram importantes de modo algum. Aliás, o artigo no link acima  mencionado sugere que, depois das visões místicas em seus primeiros anos, os aspectos espirituais mais significativos na maior parte de sua vida, foram, para K. uma mente vazia e uma benigna, protetora e orientadora "sensação de presença" . Somente com a idade de oitenta e cinco anos ele realmente pareceu ter tido uma experiência mais profunda ou vislumbre com aquilo que Paul Brunton (PB) viria a chamar de “Eu Superior”, mas isso, na maneira como ele descrevia, não ficava claro. Durante os últimos anos de sua vida, ele disse que podia sentir a Presença o tempo todo com ele. 

Em suma, o estilo e a natureza do ensino avançado de Krishnamurti ao longo dos anos foi uma crítica útil em relação à Teosofia com seu misticismo- em geral- inferior e subjetivo. Mas pode-se argumentar que ele não fora longe o suficiente, e presumira uma capacidade em seus ouvintes que estava além de suas reais habilidades , de forma que não conseguiu a eficácia de levá-los à verdadeira realização. Ele teve uma influência purificadora sobre o ambiente espiritual e oculto de sua época, ainda que não tivesse um escopo abrangente. Seus alunos , em grande parte, foram levados para a prática do que ele chamou de "percepção sem escolha", geralmente limitada a uma disciplina intelectual ou cognitiva, mas não foram informados ou auxiliados para um verdadeiro progresso  através  dos estágios  avançados da prática espiritual. Naturalmente, esta é um coisa que Krishnamurti poderia alegar que estava tentando deliberadamente desencorajar:  a própria ideia de que não existe tal coisa como um progresso. Seu principal e honrado propósito era levar as pessoas  para além da faculdade conceitual da mente, além dos preconceitos e preconcepções, para  um estado de consciência mais perceptiva. Isso é valioso, sem dúvida, mas é apenas o começo, e em si mesmo passível de cair em uma "escola que apenas fala" de prática.   

O processo espiritual é considerado pela maioria dos santos e sábios uma provação ativa e a pessoa precisa de ajuda para isso.Num contraste gritante com a intensidade das experiências de sua juventude, e apesar dos esforços  para  criar uma prática espiritual somente na base dos seus argumentos, muitas pessoas adquiriram a visão- através de leituras de livros e frequentar palestras- que a contemplação e a intelectualização filosófica são práticas suficientes para a realização da Verdade. Para alguns poucos, com necessário background, isso pode realmente ser assim. No entanto, para muitos, infelizmente, não é. Por exemplo, a atitude de "testemunha" recomendada por ele é essencialmente o de uma personalidade presa-no- corpo que observa a si mesmo e a natureza, e não daquela consciência, que testemunha o eu, senhor do corpo-mente, numa fase madura da prática, tal como ensinada por Ramana Maharshi. Tal estágio avançado geralmente requer muitos meios de apoio para a sua realização. Mesmo assim, Krishnamurti teve o benefício de cedo ter despertado  a yoga (união) e isso, sem dúvida, lhe deu  energia e atenção de sobras para os exercícios contemplativos que advogou para a maioria dos seus seguidores. Mesmo assim, ele não ensinou como chegar a esse estágio. Assim Krishnamurti pode ser considerado como um pratyekabuddha , ou alguém que despertou, mas que não é realmente capaz de ensinar  aos outros ou orientá-los para a iluminação - por causa de sua própria falta de desenvolvimento, e também por que não passou através de todos  os estágios de desenvolvimento em uma única vida. Como PB escreveu:  

  "Há iluminados que não conseguem derrubar a ponte de onde estão para onde eles já estiveram uma vez, para que outros também possam atravessar. Eles não sabem ou não conseguem descrever em detalhes o caminho que os outros devem seguir para atingir a meta. Esses homens não são mestres do ensino, e não devem ser confundidos com eles ... O iluminado que nunca foi um aluno, que de repente ganhou seu estado pelo inexorável bom karma de vidas anteriores, é menos capaz de ensinar aos outros do que aqueles que de forma lenta e laboriosamente trabalharam  em seu caminho até alcançarem aquele estado - que recorda os ensaios, as armadilhas e dificuldades que tiveram de superar " (1a)
   
A verdadeira atitude de testemunha requer, tradicionalmente, uma libertação da atenção da natureza limitante dos cinco sheaths ou camadas sobre a alma e de sua ligação terrena que se origina na raiz do coração . Isso raramente é alcançado sem uma grande dose de maturidade e ajuda. Para liberar a mente conceitual  de sua reatividade para uma "consciência sem escolha" que leva à identificação com a “testemunha-transcendental” que é o “Eu”, apenas com a plena maturidade da prática, pois não é apenas um exercício mental, mas uma vida em que o corpo-mente é submetido ao que o-sustenta e o- transcende. Do contrário a tal "não-dualidade" é reduzida a mera conversa.   

Não é nossa intenção encontrar falhas nos mestres espirituais ou adeptos, pois tal tarefa é repleta de perigos. 
"Aquele que tenta distinguir um Santo de um Santo começa  a ir direto para o inferno." - Kirpal Singh (2) 
"A extensão da iluminação de qualquer outro homem não é facilmente mensurável, muito menos em casos em que o outro não está mais vivo ou se nunca fora  pessoalmente encontrado. " - Paul Brunton (3)   

Por outro lado, a discriminação é toda a proteção que temos, e deve ser utilizada em sua plena capacidade. Também foi dito: "Pelos seus frutos os conhecereis." Krishnamurti , quando da aproximação de sua morte, ligado a um gotejamento de morfina por causa de um câncer doloroso nível IV, lamentou que nenhum de seus alunos tenham entendido o que ele havia dito. De acordo com o livro, “Mil Luas” , o autor, Asit Chandmal, um amigo de Krishnamurti, pergunta: "Será que nem mesmo um único ser humano  foi transformado como resultado da aplicação de seu ensino? Krishnamurti respondeu: Esta questão me traz lágrimas aos olhos ... " Antes de morrer, ele disse em um gravador: "Até onde eu sei… ninguém entendeu."  
 Além disso, ele confessou o que eu acho bastante incomum à luz da natureza geral do seu ensino, que ele mesmo havia falhado no que ele considerava  ser essencial para o desenvolvimento espiritual : a transmutação das células cerebrais- algo que eu esperaria ouvir  mais de alguém como Sri Aurobindo do que de JK .   

Brunton era da opinião de que, enquanto Krishnamurti via muito de auto-engano e exploração na religião e misticismo, ele ainda estava lutando contra a verdade e não iria terminar o seu sadhana até que ele aceitasse um guia genuíno. (4) Por outro lado, ele também observou uma vez: que o que Krishnamurti ensinou foi absolutamente correto, mas relativamente inacessível para 99% dos seus seguidores. No entanto, ele, sem dúvida, ajudou muitas pessoas, e o Dalai Lama elogiou-o, dizendo: "Krishnamurti é um dos maiores filósofos da época." Sri Nisargadatta Maharaj foi mais longe ao dizer: "As pessoas que não entendem Krishnamurti não entendem a si mesmas." Ele era um iconoclasta e um indivíduo de extrema auto-confiança, este era o seu gênio, mas talvez também sua limitação. Para muitos ouvintes, a tal "consciência sem escolha", por si só leva facilmente a um esforço intelectual, ou mesmo nenhum esforço, o que torna sem prática e sem realização, um caminho vago, e o "caminho sem-caminho"- um conceito  em que ego pode facilmente se esconder dentro. O conselho para manter a mente "aberta", e sem nenhum esforço para controlá-la  tornando-a algo desinteressante, é um bom  - mas apenas para quem desenvolveu alguma habilidade preliminar para cultivar um centro de consciência. Simplesmente relaxar a mente como principal disciplina antes de ter desenvolvido mindfulness ou lembrança-de-si em um grau significativo, é arriscar definhar no subconsciente com pouco progresso real feito. É por isso que ninguém - ou muito poucos - 'compreenderam'.

 Uppaluri Gopala (UG) Krishnamurti (1918-2007) foi criado por seus avós maternos em Masulipatam, sul da Índia. Seu avô também era um teosofista e o garoto foi exposto aos ensinamentos de muitas filosofias, religiões, ocultistas, gurus e especialistas de sua infância. (Por um momento, apenas imagine o quão diferente era isto da maioria dos baby-boomers ( bebês nascidos no pós-guerra), que passaram os anos de sua formação principalmente assistindo TV!) . Nesse sentido, ele foi semelhante ao J. Krishnamurti (nenhuma relação). Entre as idades de quatorze e vinte e um anos ele praticou diferentes tipos de yoga, incluindo passar sete verões na companhia do renomado Swami Sivananda em seu ashram em Rishikesh, e experimentou muitas formas de estados de transe, mas sentiu que nenhum deles era o equivalente à libertação ou moksha. Isto em si mesmo é um surpreendente insight para alguém em uma idade tão jovem. Certa vez, ele conheceu o grande Ramana Maharshi e pediu ao sábio para "dar-lhe tudo o que tinha", mas Maharshi respondeu: "Eu posso te dar, mas você pode levar?" Isto chocou UG  e levou-o a questionar: "o que é isto que você tem, e por que eu não posso levar? ". Ele, então, sentiu que tinha de seguir o seu próprio" rumo desconhecido "e encontrar a resposta para esta pergunta”.  Ele deixou Ramana, embora mais tarde tenha admitido que o encontro mudou o curso da sua vida e colocou-o no "caminho certo". Isto é revelador daquilo que UG viria a argumentar depois que "ninguém poderia ajudar ninguém a perceber a Verdade" mas como ele podia saber se  a transmissão invisível de Ramana não fora o agente da graça em seu benefício ? Por que ele não ficou por lá por um tempo para ver?  

 Quando seu avô morreu UG herdou uma grande soma de dinheiro, o que lhe deu  relativa liberdade para continuar sua busca. Ele tornou-se ativo na Sociedade Teosófica e deu aulas por dez anos [Por quê? Foi apenas pelo dinheiro?- Pois tudo indica que UG não acreditava mais neste tipo de ensinamentos]. No final da década de 1940 começou a envolver-se com J. Krishnamurti (nos últimos anos viveu perto dele, na Suíça, e um divertido jogo começou com as pessoas indo de um Krishnamurti para outro) e ouviu JK por sete anos antes de realmente conhecê-lo pessoalmente. Depois de uma série de diálogos diários entre os dois, UG chegou à conclusão, para sua grande decepção, que o "outro Krishnamurti" não podia comunicar o que ele queria saber além  do  Ramana Maharshi já havia feito, e ele deixou-o também. Mais tarde, ele ridicularizou JK, referindo-se a ele como "a solteirona", vítima de um "pensamento distorcido", uma "fraude completa", e um " vitoriano que vive jorrando besteira pura."
  
Em seus vinte e poucos anos UG casou-se e, por fim, teve quatro filhos. Ele sentiu logo depois do dia da celebração que o casamento tinha sido um erro. Ele gastou a maior parte da fortuna que recebeu de seu avô com tratamento médico para seu filho mais velho, e garantiu a sua esposa um trabalho na World Book Encyclopedia para que ele pudesse seguir sozinho. Ele se mudou para Nova York, depois para  Londres, e depois Paris. Finalmente, falido e sozinho, ele se descreveu assim: 

  "Eu era como uma folha soprada por um vento inconstante, sem passado ou futuro, sem família, nem carreira, nem qualquer tipo de realização espiritual. Eu estava lentamente perdendo a minha força de vontade para fazer qualquer coisa. Eu não estava rejeitando ou renunciando ao mundo. Eu estava apenas se afastando de mim e eu me sentia incapaz e sem vontade de segurar-me " (5)   

Neste ponto UG entrou no consulado indiano em Genebra e se rendeu à sua misericórdia, pedindo para ser repatriado para a Índia. A secretária do Consulado, Valentine deKerven, sentiu solidariedade por UG , viveu com ele e o sustentou pelos próximos quatro anos. Durante este período UG não fazia nada: "Eu dormia, lia a revista Time, comia, e saia para passear com Valentine ou sozinho - e isso era tudo." Os dois viveram como emigrantes proprietários de casas , passando seus verões no vale suíço de Saanen, onde J.Krishnamurti mantinha conversações e reuniões.   

Desde a idade de trinta e cinco UG começou a ter fortes dores de cabeça e tomava grandes quantidades de café e aspirina para lidar com a dor. Segundo o biógrafo Terry Newland, UG começou a parecer mais jovem neste momento. Naquela época, ele tinha quarenta e nove anos mas parecia que tinha dezessete ou dezoito anos, depois disso ele envelheceu novamente. Ele começou a ter períodos que chamou de "Headlessness" (Sem cabeça) e desenvolveu várias habilidades ocultas, que ele chamou de "poderes e instintos naturais do homem." 
     Em seu  quadragésimo nono  ano, UG começou a sentir um upheavel ( comoção) dentro de si, que durou seis anos e terminou no que ele chamou de "calamidade". Ele descreveu isso como sendo um "simples definhamento da vontade", culminando em uma experiência de morte que posteriormente produziu mudanças físicas em seu sistema inteiro. Ironicamente, isso aconteceu enquanto ele ouvia uma palestra de J. Krishnamurti sobre o "homem livre" que aparentemente catalisou este evento final. Ele sentiu como se JK estivesse descrevendo ele ... Depois disso, ele pensou:  

"Eu procurei em todos os lugares para encontrar uma resposta para a minha pergunta: Existe iluminação? mas nunca questionei a própria busca. Porque eu assumi a meta- iluminação, existe!- eu tive que procurar, e a própria busca  foi me sufocando e me mantendo fora do meu estado natural. Não existe tal coisa como iluminação espiritual ou psicológica , porque não existe tal coisa como espírito ou alma- em absoluto. Tenho sido um tolo toda a minha vida, em busca de algo que não existe. Minha busca está terminada. " (6)   
  "Todos aqueles que procuram haverão de encontrar ", disse Cristo. Então UG procurou muito e encontrou a resposta- mas não foi o que ele estava esperando. Apesar disso, sua busca foi proveitosa. O aparente colapso da "estrutura" ou a identificação com um “eu” separado liberou grande energia no corpo de UG . 

  "Foi um prelúdio para a sua" morte clínica "em seu quadragésimo nono aniversário, e o início das mais incríveis mudanças corporais e experiências que iriam catapultá-lo a um estado que é difícil de entender dentro da nossa até então conhecida  iluminação tradicional ou mística . Suas experiências não foram as experiências felizes ou transcendentais que a maioria dos místicos falam, mas uma 'tortura física' desencadeada por uma explosão de energia em seu corpo que finalmente deixou-o no que ele chamou de "estado natural". 
  
 "Durante sete dias, o corpo de  UG  sofreu grandes mudanças. Toda a química do corpo, incluindo os cinco sentidos, foi transformada. Seus olhos pararam de piscar, sua pele ficou macia, e quando ele esfregava qualquer parte de seu corpo com a palma da mão, produzia uma espécie de cinzas. Ele desenvolveu uma mama feminina em seu lado esquerdo. Seus sentidos começaram a funcionar de forma independente e em seu pico de sensibilidade. E a glândula timo, que, segundo os médicos está ativa durante toda a infância e, em seguida, torna-se adormecida na puberdade, foi reativada. Todos os pensamentos do homem desde tempos imemoriais, todas as experiências, sejam boas ou ruins, felizes ou infelizes, ótimas ou horríveis, místicas ou comuns, experimentada pela humanidade desde os tempos primordiais (toda a 'consciência coletiva') foram jogadas para fora do seu sistema, e no sétimo dia, ele "morreu ", mas apenas para renascer em " consciência indivisível ".Foi uma viagem maravilhosa e um grande  e repentino salto  para o estado primordial intocado pelo pensamento. "(6a)  

Experiências kundalínicas ocorreram, e várias vezes ao dia, ele experimentou uma parada (shut-down) de todos os processos do corpo, em que a frequência cardíaca e a temperatura corporal diminuíram drasticamente e todo o seu corpo ficava rígido. Apenas quando o “desligamento” parecia estar quase completo  é que seu sistema voltava novamente até que tudo estivesse funcionando normalmente.   

 Um ano depois, UG não falou ou não podia falar, mas depois ele começou a falar incansavelmente. Ele insistia que a "calamidade" aconteceu sem a sua vontade e apesar de sua formação religiosa e espiritual [como ele sabia disso?], e que ele não podia ser usado como um modelo a ser repetido por outros. Devido às mudanças físicas em seu corpo, UG argumentou, por vezes, que a iluminação era um acontecimento mais fisiológico do que psicológico. De uma certa forma, nisto ele estava certo, uma vez que é a própria psique que é transcendida, mas a iluminação ou realização- se as escrituras e a confissão dos realizados puderem ser o nosso guia-não é apenas uma transformação física, mas uma total realização psico-físico e espiritual na e da consciência. Costuma-se dizer que é a realização da própria Consciência, com efeitos muitas vezes secundários no corpo-mente, que podem variar  de indivíduo para indivíduo. Como os estados Wei Wu Wei ( que é um aspecto importante a se notar, mas que ainda sentimos como sendo apenas parte de uma transformação total):  
 
 "Nada acontece...nada, nada é alterado, não há nenhum evento psico-somático- em absoluto; a mente não é afetada.É apenas a recuperação de uma visão clara. Não tem existência objetiva: é puramente um ajuste subjetivo. Não é fenomenal: ele não tem impacto direto sobre corpo-mente. É inteiramente numenal: sua existência é intemporal, e ele não se manifesta fenomenalmente.É essencialmente impessoal - a impersonalização de uma pseudo-psique individual. É um olhar na direção certa: é uma súbita compreensão de que não há “Eu” sujeito ao tempo. " (6-B)   

É um pouco difícil levar a sério a afirmação de UG , de que foi um processo completamente aleatório, sem ajuda de ninguém, incluindo mestres espirituais, santos ou sábios, a quem ele sentia, como JK, que eram fraudes em sua maioria. Quem sabe, no entanto, talvez a sua busca teria terminado muito mais cedo se ele tivesse ficado com Ramana Maharshi? Talvez não. Em qualquer caso, é óbvio que UG teve muita ajuda, incluindo aqueles que o instruíram no começo de suas práticas quando jovem. A graça de Deus na forma de seu avô, que lhe deixou uma boa soma de dinheiro, a simpática senhora do consulado que o apoiou durante anos, a presença de Maharshi e a influência do ensino de J.Krishnamurti. Mesmo assim UG declarou:

 . "Eu descobri sozinho e por mim mesmo que não há nenhum “eu” para se realizar – é esta a realização sobre a qual estou falando.Isto vem como um golpe devastador [talvez, se você não está esperando por isso]. Ele bate em você como um raio [talvez de novo, ou pode "cair como uma suave chuva do céu"]. Você investiu tudo em uma "cesta", auto- realização, e, no final, de repente, você descobre que não há nenhum “eu”  para descobrir, nenhum “eu” para realizar [nenhum “eu” sobre o qual você possa pensar ] - e você diz para si mesmo: 'O que diabos eu estava fazendo toda a minha vida ! Aquilo destrói você [mas "quem" diz isto? "Quem é destruído?]. 

    Todos os tipos de coisas aconteceram comigo - eu passei por isso, veja . [ novamente, 'quem' passou por isso?] A dor física era insuportável - é por isso que eu digo que você realmente não quer isso. Eu gostaria de poder lhe dar um vislumbre disso, um toque disso - então você não iria querer tocar nisso de forma alguma [que é a finalidade da prática, e , como disse Ramana Maharshi, da companhia do sábio, de modo que você vai gradualmente se acostumando com isso e não vai temer tal estado- que é a sua verdadeira natureza, o Eu, ou não-eu, faça sua escolha: a realidade] . O que você está buscando não existe,.. é um mito. Você não iria querer nada que tivesse a ver com isso!”

  "Meu interesse é apontar a absoluta impossibilidade de fazer o que quer que seja para atingir o estado natural … Para aqueles que chegam, porque seriamente desejam me entender, tudo o que posso dizer é que eu não tenho nada a dizer [parece que ele disse muito]. Eu não posso ajudar ninguém, e ninguém mais pode. Você não precisa de ajuda; pelo contrário, você precisa estar totalmente desamparado - e se você procurar alcançar esse desamparo com a minha ajuda, você estará perdido. "   

"É uma entrega total, jogando a toalha, jogando na esponja - e o que sai disso é jnana (sabedoria) ... Todos aqueles para quem esse tipo de coisa aconteceu realmente trabalharam muito duro [exatamente] , tocaram no fundo do poço, apostaram tudo. Isto não vem facilmente. Ele não é entregue a você numa bandeja de ouro por alguém " (7) [mas porque "apostar tudo" se é "algo que ninguém quer", e "não é atingível? UG não deixa nada -. ​​O que -supostamente- era sua intenção]   

É difícil não concordar com UG em certos pontos, e sua franqueza é refrescante. Duas coisas podem ser ditas, no entanto. Uma: se é como ele alegou que ninguém pode ajudá-lo, então por que ele se preocupou em ensinar? Além disso, se ninguém pode ajudá-lo, por que o seu encontro com Ramana Maharshi colocou-o "no caminho certo"? E por que seu despertar coincidiu de acontecer justamente durante uma palestra de J. Krishnamurti que parecia descrever seu próprio estado tão profundamente? UG parece ter sido desnecessariamente obscuro aqui, e isso pode ser simplesmente porque sua própria formação ( background) não preparou-o totalmente, nem ele estava purificado o suficiente para lidar com os acontecimentos de seu despertar sem grande comoção e trauma. Ou ele não compreendeu totalmente, a fim de ser capaz de ensinar aos outros de uma forma eficaz, em vez de enigmática. Já para Ramana não havia tanta agonia ou espanto. Além disso, as escrituras concordam que o ego deve perceber sua impotência , mas também que há certamente ajuda para tal revelação. Esforço e graça coincidem, e as tradições proclamam que a companhia de sábios iluminados -se alguém puder encontrar um- pode ser um agente da graça que ajuda na efetiva realização de um indivíduo preparado . Tal graça não funciona de um modo arbitrário, mas em uma divina  e espontânea sincronia, com muito mais  eficácia em níveis que são inconscientes para a  mente do praticante que está despertando.   

Todavia, é possível que o despertar da UG tenha sido resultado de um recepção tardia da transmissão do Maharshi. É verdade que ninguém pode ajudá-lo enquanto ego, mas argumentar que a ajuda divina não está disponível para minar o ego, ou que o Ser não se manifeste na auto- investigação, é injustificável. Tudo o que precisamos fazer é comparar o encontro de UG e Ramana, com o relato de Papaji sobre sua própria realização pela graça do Maharshi. [Papaji também teve muitas experiências místicas ao longo de sua juventude e praticou muitos sadhanas antes de vir até o sábio. Ele estava maduro. Sua mente tinha conseguido a devoção que aponta para o UM e ele podia ver a forma de seu ishta-guru Krishna à vontade. Ele, então, chegou ao estado de quietude mental, e recebeu um golpe final de Ramana que transformou totalmente o seu ser. É verdade que ele disse que se  tivesse ouvido falar da investigação de Ramana "Quem sou eu?" quando ele tinha seis anos de idade, isto teria lhe poupado anos passados ​​em devoção, mas quem sabe como isso aconteceria para outra pessoa?] Sim, ninguém torna-se iluminado. Como Adyashanti disse, apenas a iluminação torna-se iluminada. Ou, nas palavras de PB, a Mente Vazia conhece a si mesmo.Mas, será que mesmo isso é verdade? É dito que o ego morre no coração e o Self é realizado. No entanto, é o  Eu Absoluto que é realizado desta forma ou a alma? O despertar é paradoxal, mas não é tão desprovido de articulação como UG tenta fazer parecer. Milhares de pessoas já trilharam este caminho antes dele e deixaram o seu testemunho.

UG continua: "Eu não tenho mensagem para a humanidade, mas de uma coisa eu tenho certeza, eu não posso ajudá-lo, eu não posso ajudá-lo a resolver o seu dilema básico ou salvá-lo de seu auto-engano, e se eu não posso te ajudar, ninguém pode". (8)   

É claro que UG ou qualquer outra pessoa como um ego não pode ajudar a resolver o dilema básico de qualquer pessoa da falsa identificação, do sentir-se separado, mas o dilema pode ser revelado, isto se o discípulo estiver disposto  a permitir esta revelação, depois de chegar ao fim de suas forças, e com toda a ajuda disponível.   
Vemos que esses dois homens foram presenteados com um começo de vida rico em contato com fontes para  relembrar a verdade. Ambos também tiveram processos místicos e de yoga de natureza dramática surgidos ou espontaneamente ou por meio de práticas de um tipo ou de outro. Os dois finalmente chegaram ao ponto de ver jnana ou conhecimento verdadeiro como não sendo a posse ou a experiência do ego e da mente conceitual, e ambos também passaram a ensinar que a idéia de um professor era falso e, portanto, por inferência, alguém pode também supor que tudo é graça. A única conclusão que posso tirar de tudo isso é que sua compreensões, enquanto genuínas, e até mesmo úteis, era - no entanto- incompleto. O equilíbrio necessário é encontrado na obra de Paul Brunton no "Caminho longo" e o "Caminho Curto"- ambos os professores se beneficiaram do primeiro, mas depois de se graduar no último, denunciaram desnecessariamente o primeiro como falso, ao passo que as duas abordagens em conjunto são necessários na maioria dos casos.Veja The Long and Short of It neste site].  

Mesmo assim todos os professores são merecedores da nossa gratidão, e o testemunho e a companhia dos amigos espirituais em todos os lugares a nossa bênção. Há uma ajuda para ser encontrada em cada etapa. Como disse ainda Kirpal Singh  "há livros em riachos e sermões em pedras." Para dizer a verdade, eu até que gosto desses caras.


JK - Nirvana UG - O que você vai fazer com o Iluminismo? (1) Alguns acham que Aos Pés do Mestre foi escrito por Leadbeater, Krishnamurti se lembrava de nada sobre isso, de acordo com a SR Vas, em The Mind of Krishnamurti (Jaico Publishing, 1971) (1a) Paul Brunton, de referência deslocada (2) Kirpal Singh, Godman (Franklin, New Hampshire: Sáb Sandesh Books, 1971), p. 152 (3) Os Cadernos de Paul Brunton (Burdett, New York: Larson Publications, 1988), vol. 16, 3.399 (4) ibid, vol. 10, 2.511 (5). Terry Newland, ed, Mente é um Mito: Conversations inquietantes com o homem chamado UG (Goa, Índia: Dinesh Publications, 1988), p. 16 (6), Ibid, p. 20 (6) Mukunda Rao, um esboço Vida de UG Krishnamurti, corpo, mente e alma - que eles existem, O Enigma do Estado Natural, Anti-ensino:? Chamando-lhe como é, Rir com UG (pós-internet) (6b), Wei Wu Wei, Pergunte ao Desperto , 2002, p. 174-175 (7) Rodney Arms, a mística do Esclarecimento: As idéias unrational de um homem chamado UG (Goa, Índia: Dinesh Vaghela, 1982) (8) Newland, op. cit., p.23

Fonte em português :http://alsibar.blogspot.com.br/2013/12/os-dois-krishnamurtis-two-krishnamurtis.html

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