quinta-feira, 15 de setembro de 2011

HUI-NENG E A ESSÊNCIA DO CONHECIMENTO


O corpo mumificado de Hui-Neng



Um resumo da história belíssima sobre a escolha de Hui-Neng, o sexto patriarca Zen
(638-713)

O sexto patriarca Zen iria ser escolhido. O mestre pediu que cada um escrevesse um verso que expressasse sua compreensão sobre a essência do verdadeiro conhecimento (Bodhi). Todos esperavam que o monge mais instruído do mosteiro se tornasse o sucessor. Ele então escreveu o seguinte verso:

"O Corpo é a árvore de Bodhi,
a mente é um espelho brilhante.
Devemos limpá-la continuamente,
sem deixar que o pó acumule".

                Todos estavam certos que ele ia ser escolhido. Mas o mestre leu o verso e o reprovou dizendo:“Ainda não compreendeste a real natureza do verdadeiro conhecimento (Bodhi)”. Havia no mosteiro um cozinheiro que era analfabeto. Quando ele ouviu aquele verso, pediu para fazer um também. Todos zombaram dele, mesmo assim alguém escreveu para ele na parede do mosteiro:
"Bodhi não é uma árvore
nem a mente um espelho brilhante
Já que a essência de tudo é vazia
como pode acumular pó?"

O mestre viu o verso e também o reprovou publicamente.  Mas à noite foi encontrar-se ocultamente com o cozinheito e passou-lhe o bastão e a escudela- símbolo da sucessão. O mestre sabia da inveja dos outros monges, por isso o escolhido teve que partir. O nome do cozinheiro era Hui-Neng, ele tornou-se o sexto e último patriarca. Seu nome ficou na Eternidade e seu corpo mumificado ainda pode ser visto no Templo de Nan Hua, em Shaoguan, China.
                                                                                                                        

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A CESSAÇÃO DO PENSAMENTO E O DESPERTAR - The cessation of thought and the awakening

Expansão da Consciência


Qual a importâcia da cessação do pensamento para o despertar? Como isso se processa? O controle e a repressão podem parar o pensamento? Qual a relação entre pensamento e sofrimento? O que é o Pensamento Funcional?Vamos refletir juntos sobre estas e outras questões?
Por que alguns   “espiritualistas” tem horror à idéia da cessação dos pensamentos como condição necessária ao DESPERTAR ? Já li alguns afirmarem que isso é uma espécie de “idéia absurda do oriente exótico”. Fico imaginando a satisfação do EGO ao afirmar isso.  “Pronto, está tudo dominado. Dificilmente este tolo se libertará ou despertará algum dia!”. Ora,  é  exatamente através do PENSAMENTO QUE O EGO DOMINA E APRISIONA A MENTE HUMANA. Foi “o pensamento que criou o pensador (ego) e não o contrário”– já dizia Krishnamurti. Quando os  iluminados pregam que o pensamento deve se cessar não estão advogando que os homens tornem-se tolos ou idiotas. Não. Tolos, idiotas e ignorantes somos todos nós em nossa atual condição de prisioneiros do Samsara, da Matrix, de Maya, do EGO.
Cessar os pensamentos não significa controlá-los ou prendê-los. Eles morrem naturalmente quando o homem se autoconhece. Isso não quer dizer que deixaremos  de  sentir, raciocinar, lembrar das coisas. Além disso, o pensamento não cessa de  uma hora para outra. NÃO. O que cessa é o PENSAMENTO REATIVO  AUTOMÁTICO INCONSCIENTE. O tagarelar incessante da mente – verdadeira tortura para os meditadores de plantão-continua por um certo tempo.  A maior tolice de um meditador é querer "parar" os pensamentos. Pensamento é movimento. É a natureza deles serem inquietos, instáveis e flutuantes.
O que acontece no instante da compreensão é que os pensamentos deixam de ter poder sobre nós. Ao compreender que os pensamentos são reativos, automáticos e condicionados - o meditador não mais se importará com eles. Ao fazer isso, apenas os observará sem considerá-los bons, ruins, errados ou certos. Nessa observação acontece paulatinamente a "quebra" de uma corrente que se mantém graças à inconsciência de si . Ora, esta cadeia inicia-se ainda na infância, quando começam a surgir os primeiros lampejos de pensamentos- não é assim? Aí vem : INCONSCIÊNCIA-AUTOMATISMO-PRISÃO-ILUSÃO-DOR-INCONSCIÊNCIA... E assim continua a roda do Samsara! 
 Lamentavelmente,  não somos ensinados a lidar corretamente com os pensamentos. Se tivéssemos uma formação que nos orientasse desde cedo a lidar  com eles, sofreríamos menos e certamente o mundo não seria tão caótico. Ninguém, nos ensina isso. Nem a escola, nem os pais, nem a família, nem os amigos  nos  dizem "olhe seus pensamentos! Observe-os, tenha cuidado para que eles não te dominem!". Ninguém. A verdade é que muita gente desconhece o perigo dos pensamentos reativos. Por isso, o senso comum prega que devemos ter "bons pensamentos". É um paradoxo. Todo pensamento reativo, automático e inconsciente- mesmo sendo bons- é pernicioso. Somente o pensamento, consciente , deliberado e funcional é realmente salutar e positivo. Você tagarela o dia inteiro? Não. Você só tagarela quando precisa- numa conversa, ou debate- mas você não tagarela sozinho (pode até conversar um pouco). Mas tem horas em que o tagarelar é absolutamente desnecessário . Então, por que a mente tem que tagarelar sempre e a todo instante? Por que não podemos usar os pensamentos como um instrumento  para ser utilizado com eficácia nas horas certas?
Na verdade, os mestres sempre pregaram  que o PENSAMENTO DEVE SER FUNCIONAL. Devemos usá-lo nas horas necessárias, mas quando não for necessário deve ser abandonado. Como fazemos com um computador, com um livro,  um carro, a linguagem, com as palavras, as roupas e  tudo mais nesta vida. Assim, faça esta experiência. No momento em que você olhar os pensamentos verá que a "cadeia" da dor começa a ser quebrada.  os pensamentos vão deixando de ter influência sobre nós pois começa o processo de DESINDENTIFICAÇÃO com os mesmos. Isso "mina" sua força pois passamos a percebê-los como fenômenos separados de nós e não como SENDO NÓS. Ao cessar a  IDENTIFICAÇÃO  então o que resta?
Resta a CONSCIÊNCIA e a TRANQUILIDADE. Por que não experimenta ao invés de ficar  aí só tagarelando?
ALSIBAR (inspirado)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

O AUTOCONHECIMENTO E O EGO



Quem sou eu?
 
Como se dá a relação “autoconhecimento” versus EGO? Como o autoconhecimento se realiza na prática? Quais os principais perigos, ilusões e erros que geralmente se comete? Vamos refletir juntos sobre este assunto?
O autoconhecimento é parte da vida e só pode ocorrer nas relações com as pessoas, coisas, pensamentos, sensações, emoções, reações e situações. Assim, a primeira coisa que precisamos ter em mente é a seguinte pergunta: existe o ANALISADOR que irá se autoanalisar ou se autoconhecer? Ora, sabemos que este “analisador” é parte daquilo que se está querendo analisar, sendo, portanto um equívoco separar os dois. O autoconhecimento só pode acontecer quando eu me percebo de uma maneira holística, total, englobando tanto o objeto de conhecimento- que sou eu , meus pensamentos, emoções, reações, desejos etc (EGO) e aquele que está querendo se autoconhecer, que percebe, analisa, faz comparações, julgamentos e conjecturas (EGO também).
Essa compreensão é pouco estudada, tanto nas escolas de mistérios, quanto nos meios acadêmicos. Na área da ciência, notadamente a física e a mecânica Quântica, sabe-se hoje que o observador influe no fenômeno observado, alterando, portanto a própria observação. No campo da psique, Krishnamurti foi o primeiro a ressaltar o perigo de tal processo. Antes dele, não percebíamos o perigo que da divisão “observador-coisa observada”. Quando o sujeito se autoanalisa, ou se autoavalia, o próprio observador “polui, altera, distorce” aquilo que ele observa. O resultado é a ilusão de que ele está se transformando, evoluindo, ou amadurecendo quando- na verdade- está se iludindo pois o centro, o observador, o EGO ainda continua na forma, justamente de “observador-analisador”.
Talvez isso explique porque há tantas competições e conflitos em todas as organizações sociais, políticas , religiosas e também no mundo virtual. O EGO é um câncer malígno e poderoso que penetra o espírito e a mente dos seres humanos impedindo que eles vejam a VERDADE e  LIBERTEM-SE. Na Índia é chamado de Maya- Ilusão. No Ocidente é mais conhecido como Satã ou Diabo. Mas, na verdade, somos NÓS MESMOS. É a nossa própria mente, são nossas autoimagens, nossos desejos, nossa insatisfação, nossa ambição, nossa inquietação, nosso vazio, nossa busca por poder e pelo “mais”. Nós mesmos criamos esse monstro, essa entidadade usurpadora, sutil e perigosa. Buda dizia que os homens que  protegem o EGO é semelhante a um homem tolo que cuida de uma cobra como se fosse um filho.
Temos dificuldade para aceitar o fato de que nós somos o EGO . Não conhecemos outra forma de ser, não conhecemos outra “entidade” além dele. A mente, em sua sagacidade separa-se do EGO e diz “ Sou EU SUPERIOR, sou a ALMA, o ÁTMAN!”. Será? Será que Átman,  Eu Superior estão na dimensão da minha mente? Será que posso afirmar tais coisas assim como afirmo sobre minha casa, profissão, nome ets? Será que quando  afirmo isso, não é o EGO quem fala?  Será que a “essência incondicionada, eterna, incriada, ilimitada , original e pura”  pertence à dimensão das palavras, do pensamento? Por isso, que muitos mestres preferem afirmar que o Átma é mais uma das criações de nossa mente estúpida. E, dependendo do ponto de vista, é mesmo. O EGO se “disfarça” de Átman e Eu Superior como forma de dar continuidade a si mesmo. É uma “armadilha” como disse uma amiga.  Átman é apenas uma palavra.  “Aquilo” , a essência, não é desta dimensão, nem pode ser  pensado, nem nomeado, nem definido, nem conhecido. Enquanto imaginarmos, sonharmos ou buscarmos o Átman como algo alcançável pelo nosso pensamento e desejo- o EGO subsistirá.
ALSIBAR (inspirado)


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

A CENSURA NOS BLOGS E O AUTOCONHECIMENTO



A Internet é um espaço livre para opiniões e pensamentos diversos? Você alguma vez já foi alvo de censura na Internet? Se um Blog se diz aberto às discussões, por que então não publica os comentários? Qual a relação entre estas atitudes e o autoconhecimento?Leia o artigo abaixo e reflitamos juntos sobre estas e outras questões.

É fato notório a quantidade de Blogs que proliferam na Internet. Muitos deles são sobre espiritualidade, autoconhecimento, canalizações, terapias, esoterismo, religiões e outros assuntos afins. O que mais me intriga em alguns desses blogs é a forma como eles censuram as opiniões que discordam da sua maneira particular de pensar. Sei que é um assunto polêmico, pois, teoricamente, o Blog é “dele”, todavia me espanta que estas censuras partam principalmente daqueles que se apresentam como espiritualistas. Ora, se não aceitam o contraditório, por que colocam na descrição do Blog expressões como “ discussão, reflexão, trocas de experiencias e idéias”? É, no mínimo, estranho.
Pouca gente sabe mas, eu criei este blog, depois que li  coisas absurdas sobre Krishnamurti em um desses blogs-ditos- espiritualistas . Ora, me senti no dever de, pelo menos, dar minha opinião sobre algumas afirmações que considerei errôneas e equivocadas. Qual não foi meu espanto ao constatar que meu comentário não fora publicado. Fiquei indignado pela desonestidade e covardia do blogueiro. É verdade que qualquer tem o direito de ser autoritário. Mas, estou falando dos blogueiros que na teoria demonstram serem abertos à discussão (na descrição do blog) e, na prática, revelam atitudes completamente contrárias ( ao não publicar a opinião discordante). Não estou me referindo a baixarias, ou comentários maliciosos- mas da opinião que, apesar de discordante, respeita o artigo do autor. Ou seja, pelo que me parece, são pessoas que não aceitam as críticas, como se fossem os donos da verdade. Agem como verdadeiros ditadores no  seu “espaço virtual” e, no entanto, posam de espiritualistas de mente aberta.
Isso me faz refletir sobre outras questões mais profundas. A verdade é que a visão que muita gente tem sobre espiritualidade está totalmente equivocada. Ainda acreditam que ser uma pessoa espiritualizada é conhecer muitos livros de ocultismo. Ou, fazer parte de organizações esotéricas para conhecer seus segredos e rituais . Não é à toa que Krishnamurti surgiu em uma das mais famosas escolas de mistério do mundo. É muito significativo isso, pois, é como se dissesse a eles- “vocês são tolos querendo conhecer os mistérios do Universo antes de conhecerem a si mesmos!”

O que pode surgir disso? Magos Negros? Homens arrogantes pelo seu conhecimento das forças ocultas? Do que vale tanto conhecimento? Ou , do que vale fazer viagens astrais, ler pensamentos, usar os poderes da mente – quando nos falta o principal- o conhecimento de si? Infelizmente, até mesmo a concepção de autoconhecimento está deturpada em alguns desses movimentos. Eles pregam o autoconhecimento dentro de uma perspectiva teórica confusa e equivocada. Há, inclusive,  práticas ritualísticas e disciplinas, que nada tem a ver com o verdadeiro conhecer-se. O  autoconhecer-se não é “saber que se é alma imortal” , ou  “conhecer seus erros e defeitos para poder trabalhá-los depois”. O verdadeiro autoconhecimento é poderosa força de libertação da ilusão do EGO. Essas práticas, apenas perpetuam-lo disfarçado de SELF ou EU SUPERIOR. Não é possível que o EGO analise o próprio EGO como se fosse algo diferenciado, separado de si mesmo.
Por isso que muitos “espiritualistas” não conseguem perceber sua próprias atitudes- como aquelas que citei sobre a censura nos blogs. Confundem sabedoria com conhecimentos livrescos e nem por um instante percebem o quanto o orgulho e o ego dominam seus espíritos. A atitude de censura nos blogs é apenas a ponta de um Iceberg. O problema por vezes é muito mais profundo. Como devem agir com seus subordinados, filhos e amigos ? Como devem tratar seus companheiros de viagem que discordam de suas opiniões? Será que com a mesma atitude autoritária? Mas como ele poderá perceber isso tudo? Quem vai acordá-lo desta ilusão? Como poderá despertar deste sono?
Não pode pois o EGO não deixa. Se for uma pessoa que tenha poder e posição, seja em casa, no trabalho ou numa organização- ninguém  terá coragem de dizer-lhe a verdade sobre suas atitudes- por puro temor. Mas, mesmo que dissessem, sua arrogância, seu ego, seu orgulho ferido, logo se voltaria contra esta pessoa e a esmagaria com todas as forças que tivesse. Lembrando que esta pessoa- hipotética é claro- se considera espiritualista. Só um grande choque poderá fazê-la refletir sobre suas próprias atitudes. O problema é que muita gente, ao passar pelo choque da crise ou resolver temporariamente o problema- logo, logo volta  a sua antiga arrogância e orgulho. Poucos, fazem a autorreflexão e procuram mudar. Alguns tentam mudar mas não conseguem e por quê? Simples: faltam-lhes o autoconhecimento. O único caminho que pode fazer uma pessoa realmente mudar, transformar-se  e evoluir.

Benditos são os que conseguem trilhar este caminho - pois não há outro.
ALSIBAR (inspirado)

domingo, 11 de setembro de 2011

KRISHNAMURTI , OS ESTEREÓTIPOS E A ILUMINAÇÃO – PARTE II


O sorriso do jovem Krishnamurti

(Continuação do texto : Krishnamurti e a imagem estereotipada do iluminado)
O principal problema com os estereótipos ou modelos, não é somente porque podem não corresponder à realidade, mas porque podem nos levar a falsas idealizações e expectativas. Ou seja, o buscador ou meditador pode começar a  “imaginar” o tipo de pessoa que ele vai ser quando  se  “iluminar”. Algo como: "tudo bem, agora sou uma pessoa vazia, carente, invejosa, impaciente, inconstante e angustiada, mas continuarei meditando e, um dia, serei uma pessoa plena, segura, calma, silenciosa e feliz". Cria-se assim um “ ideal” do tipo de pessoa que ele quer tornar-se no futuro, levando-o a trabalhar árduo no presente para obter êxito. Ou seja, ele usa a meditação como “caminho” para transformar-se no que ele pensa ser um “iluminado”. Desta forma, a pessoa corre grande risco de perder-se nas ilusões de suas próprias idealizações e imagens estereotipadas. Um iluminado, por definição, não segue modelos, nem padrões . Ele só “acontece” quando não existem mais nenhum paradigma pré-estabelecido. Sendo assim, é um erro, imaginarmos como deve ser um iluminado, como deve agir, o que deve dizer, que estilo de vida deve levar etc.
Obviamente que há sinais característicos que nos ajudam a reconhecer um iluminado, mas isso não tem nada a ver com imagens estereotipadas. Por exemplo, o próprio fato de não corresponder ou não querer parecer “iluminado” já é um sinal positivo. Mas não é suficiente. Como não há padrões que o prenda, ele pode também, de repente, agir dentro de um padrão por um motivo de ordem superior ou missão. Assim, o problema não está em ele parecer ou não “iluminado” pois isso é muito subjetivo e não nos compete julgar. O problema está em nossas expectativas e idealizações que podem frustrar-se tanto em relação ao suposto “iluminado” como em relação à idealização de nossa própria iluminação. 
Por exemplo , vejamos o caso de Krishnamurti, talvez o único iluminado cuja vida foi registrada e exposta ao público desde a infância até os últimos minutos de vida. Um caso realmente raro, se pensarmos que quase nada temos registrado sobre Buda e Jesus. E mesmo iluminados modernos, nenhum outro teve tanta exposição na mídia quanto ele. Existe algum outro caso com tantos  registros do “antes, durante e depois” da iluminação? Quem mais teve sua vida pública e particular  tão exposta ao público? Mas essa superexposição na mídia trouxe-lhe também grandes problemas. É verdade que a profusão de registros sobre um grande mestre  é algo positivo- principalmente para os pesquisadores e buscadores. Todavia, pode ser um grande problema tanto para o próprio iluminado, quanto para aqueles que idealizam um ser perfeito e sem mácula. Com o advento de Krishnamurti descobrimos que os iluminados podem não ser tão “perfeitos e santos” – principalmente quando estão na matéria, vivendo em um corpo carnal, sujeitos às leis e imperfeições próprias deste plano.
Krishnamurti com sua maneira tão humana de ser criou uma verdadeira polêmica que resultaram em calorosas discussões: ou ele era um iluminado e por isso não tinha defeitos, nem fraquezas humanas ou se tinha fraquezas e defeitos humanos não seria iluminado. Mas, se não era Iluminado como poderia  saber o que sabia? Como poderia ser respeitado pelas maiores autoridades no assunto? Como poderia ter influenciado toda uma geração de mestres, sábios, filósofos, pensadores e escritores? De onde vinha sua sabedoria? Dos livros não era, pois sabe-se que nunca leu filosofias. Além disso sua visão era totalmente nova e original. Então como ignorá-lo? Impossível!
O fato é que Krishnamurti nunca advogou perfeição ou iluminação para si mesmo. Nunca se autoentitulou nada. Aparentemente, era uma pessoa normal: tinha uma vida confortável, vestia roupas boas, era fã de bons carros, frequentava ótimos restaurantes e , ainda, não era celibatário. Mas ele nunca  defendeu tal condição. Oficialmente, sabe-se que ele teve um caso com a esposa de Raja Gopal - seu secretário particular . Esse caso rolou anos e anos na justiça e veio à tona depois que Krishnamurti morreu. Não cabe a mim julgar ou analisar estes fatos. Quem quiser mais detalhes leia o livro de Radha Sloss “Lives on the Shadows with Krishnamurti”* . A “missão” de defendê-lo coube a sua biógrafa Mary Lutyens no livro “Krishnamurti e os Raja Gopals”**. Muitos conservadores e hipócritas talvez tenham criticado ou rejeitado K. por causa disso. Uma atitude fácil, superficial e conveniente. Mas isso não resolve a questão. Além do mais, nada sabemos sobre outros iluminados. Jesus, por exemplo, vivia uma vida comum, comia bem, bebia vinho, frequentava festas e vivia cercado de mulheres e “pecadores”. Há inclusive pesquisadores que levantam a hipótese de que ele teria se casado com Maria Madalena. Infelizmente, não tínhamos mídia naquele tempo, para comprovar ou não a veracidade dos fatos. Além do mais, discutir esse tipo de questão, nada contribui para nosso crescimento e transformação. E  apenas reforça a imagem estereotipada do iluminado “santo” e “perfeito”.
A verdade é que não dá para descartar Krishnamurti, nem muito menos sua mensagem. Apesar de uma aparente “incoerência” não há, na verdade, contradição entre o que ele pregava e o que vivia- pois nunca defendeu  um ideal de moralidade ou castidade. Sua mensagem sempre foi no sentido de sermos naturais e espontâneos e repudiou toda forma de controle, repressão ou disciplina externa. Além do mais, ele   não fazia questão de agradar, ou  satisfazer as expectativas de ninguém. Se estava aborrecido, enfadado, cansado ou entediado, assim se mostrava. Isso estava em perfeita consonância com o que ensinava, pois nunca pregou  a respeitabilidade, a falsa moralidade ou até mesmo a superficial bondade, caridade ou humildade. Talvez por isso que muitos o rejeitaram. Mas Krishnamurti sempre dizia que não “importa o vaso e sim o  conteúdo”. E o conteúdo que Krishnamurti trazia e trouxe foram seus ensinamentos-  preciosíssimo tesouro para uma humanidade tão sofredora, confusa e iludida. Ninguém antes dele, enfocou o Dharma ou a Verdade Universal de uma forma tão original, corajosa , profunda e, ao mesmo tempo, tão “racional”, simples e direta.
Krishnamurti foi singular não apenas no que ensinou- mas também na forma em que viveu. Mesmo tradições como o Zen e Advaita - cujos ensinamentos muito se assemelham aos de K.- diferem drasticamente em alguns pontos cruciais . Acredito que não houve na história da humanidade nenhum outro com coragem de desafiar e questionar a autoridade das religiões, tradições, dos mestres, livros sagrados e até de si mesmo- Buda talvez. Mas, Krishnamurti era único porque não era monge, nem sanyasin (renunciante). Através de sua vida ele realizaou o que muitos mestres já ensinavam: que a espiritualidade nada tem a ver com práticas externas. Talvez, por isso, sua missão foi tão delicada. Cumpriu o que Jesus dizia “viver no mundo sem fazer parte dele”. O Gita já pregava que o verdadeiro iogue é o que “age sem apego aos frutos de sua ação e não se abala com os desejos que são como rios que desaguam no Oceano- mas se mantém estável e impertubável”. Lao Tsé e Buda fizeram afirmações parecidas.
Muitos na época de Jesus se escandalizaram com  ele por ter levado uma vida tão normal e parecer tão humano. Mas, hoje sabemos que a verdadeira realização é interna. Por isso não há problema se alguns querem usar tanga, fazer votos de castidade, ou renúncia- é um direito  que diz respeito à  missão particular de cada um. Outros, como Krishnamurti preferiram levar uma vida comum. Lahíri Mahasaya era casado e teve dois filhos- mesmo assim, tornou-se o ideal do iogue pai de família. Sri Yukteswar também fora casado e depois tornou-se sanyasin- vivia uma vida moderada, realizando o ideal Jnana – o Iogue da Sabedoria. Buda pregava o caminho do meio – o que escandalizou os ascetas da época. Ramana Maharshi usava uma tanga e vivia uma vida renunciada e reclusa- mas também escandalizou os tradicionalistas pois este sábio seguiu  um caminho próprio, independente das tradições e dos livros sagrados.
Mas será que o fato de Krishnamurti ter vivido uma vida burguesa e de ter sido uma pessoa normal, um indivíduo sujeito aos desejos e fraquezas humanas  tira seu valor e importância? Não será exatamente o contrário? Será que Deus, ou o Tao, ou os “Poderes Superiores do Universo” não estão nos dando uma grande lição? Será que Krishnamurti , através do seu exemplo, não inaugurou uma nova forma de conceber a espiritualidade ?  Será que a mensagem não é exatamente esta: A DE QUE TODOS NÓS PODEMOS ALCANÇAR O “DESPERTAR” INDEPENDENTE DO QUE SOMOS E FAZEMOS?
Penso que a humanidade já está madura a ponto de compreender a essência do Dharma (Verdade Universal), afinal já estamos no terceiro milênio. O Dharma é eterno e atemporal- mas a humanidade frequentemente a esquece. E não faz sentido dizer que a Verdade não pode ser vivida ou realizada- apesar de nossas imperfeições, desejos e defeitos. Por isso que Krishnamurti é IMPRESCINDÍVEL. Através dele compreendemos que não importam nossos defeitos, desejos ou ego. Não importa o quanto somos “atrasados” ou pecadores. Não importa se somos violentos, invejosos , medíocres, medrosos ou covardes. Não importa quantas encarnações já vivemos, ou se vamos renascer mais centenas mil vezes. Nada disso importa. O que importa é querermos realmente DESPERTAR! Importa sermos  “sérios”- como ele dizia. Importa vermos a VERDADE do agora, do que realmente somos e vivemos- seja o que for. Somente a VERDADE, “ O QUE É” pode nos libertar. E ver essa verdade independe de práticas, disciplinas, rituais, comportamento ou moralidade.
Ver “O QUE É” é libertar-se.  Isso não quer dizer que a pessoa torna-se perfeita, santa e pura da noite para o dia. Mas, no exato instante deste percebimento ela está livre da percepção ilusória do seu EGO e experimenta o estado de liberdade, em que não há dualidade, divisão ou conflito. Nesse momento a pessoa liberta-se do observador, do experimentador, também chamado de EGO, alcançando assim o estado de paz e harmonia interior. A partir de então, com esta compreensão, o que resta a fazer? NADA. Só perceber o vai-e-vem dos fenômenos, dos pensamentos, dos desejos, das emoções e reações. Então tudo flui naturalmente, desaparecendo neste silêncio, neste vazio-pleno. Onde está o EGO nestas horas? Sim, é claro que ele pode voltar em outras horas, mas ele vai morrendo aos poucos, pois sua principal fonte de alimento foi cortada- a saber : a INCONSCIÊNCIA.
 Aí está a essência do Dharma, ensinado por todos grandes mestres : BUDA, JESUS, KRISHNA, LAO TSÉ, SANKARA, MAHAVIR, RAMAKRISHNA, RAMANA MAHARISH, BABAJI e, por último,  KRISHNAMURTI. Mas ninguém deve acreditar, nem aceitar nada. Temos que experimentar por nós mesmos! Esqueçamos as discussões teóricas, os estereótipos, as concepções, imagens e idealizações mentais acerca da iluminação.
Quando, através da MEDITAÇÃO, compreendermos a VERDADE ,  veremos que nada disso faz sentido e apenas uma coisa realmente importa : o DESPERTAR e a LIBERTAÇÃO! E isto não depende de ninguém e está acessível a todos seres humanos- seja ele quem for- do contrário, que sentido teria isso tudo?
ALSIBAR (inspirado)

·        O livro escrito pela filha de Raja Gopal “Lives in the Shadows with Krishnamurti” pode ser adquirido através da Amazon.

·        A “defesa” de Krishnamurti  está no livro “Krishnamurti e os Rajagopals”  de Mary Lutyens que pode ser adquirido gratuitamente no Link abaixo:

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

KRISHNAMURTI E A IMAGEM ESTEREOTIPADA DO ILUMINADO- PARTE I Krishnamurti and the enlighted's stereotyped image


Como deve ser um iluminado? Como age, fala e anda? Como movimenta os olhos e como gesticula? O que sente e como sente? Em geral temos muitas imagens estereotipadas sobre como deve ser um iluminado mas será que correspondem à realidade? Vamos refletir sobre este assunto tendo como exemplo o caso de Krishnamurti.

Krishnamurti quebrou todos os estereótipos, padrões e paradigmas erigidos ao longo dos séculos pelas religiões e seus líderes medíocres.  Ele pode ser considerado, com propriedade, como o último grande iconoclasta religioso, comparável, neste ponto, a Buda e Jesus. Não é nada fácil ir contra toda uma tradição  dominante, que sustenta as estruturas de poder de muitos movimentos e instituições religiosas. Poderia ter sido assassinado  por algum fanático religioso. Mas não foi. Dizia ele que sentia a “proteção” de uma força desconhecida e abençoada. Segundo ele sua missão era  a de ensinar, pregar e libertar a humanidade das ilusões .  E assim o fez. Ele libertou a humanidade de vários conceitos errados, visões equivocadas e caminhos  enganosos. Muitos seguiam estes caminhos, na ilusão de estarem se libertando quando- na verdade- fortaleciam seus próprios grilhões.
Sem o advento de Krishnamurti ainda estaríamos ouvindo e seguindo os sadhus, os saniasyns, os gurus, os monges e suas visões conservadoras, tradicionais e equivocadas sobre religião. O inferno do conflito e da repressão ainda seria considerado a via dolorosa necessária para purificação da alma daqueles que almejam o céu ou nirvana. Estaríamos ainda iludidos  pela compreensão incorreta de conceitos no âmbito da espiritualidade tais como: renúncia, bondade, castidade, caridade, altruísmo etc. Hoje sabemos  que enquanto não nos libertarmos do EGO essas palavras nenhum significado tem para o verdadeiro despertar. Como perceberíamos isso se alguém não nos “alertasse”? É verdade que todos os grandes mestres falaram  nesta mesma linha mas, infelizmente, ao longo dos séculos, a essência de seus ensinamentos  se perdeu, e o que temos hoje são apenas ecos quase ininteligíveis de um ensinamento outrora  original e profundo.

Hoje sabemos que não há padrões que possam prender um iluminado- apesar de nossas expectativas em contrário. Mesmo assim, ainda há aqueles que pensam que um iluminado deve ser uma pessoa de fala calma, mansa e compassada. Talvez com um olhar vazio no infinito.  Se  posar de  casto, pobre e renunciante, melhor ainda. Outros acham que o iluminado, por ser “desperto”, tem que parecer uma pessoa “alerta” com olhos esbugalhados e gestos totalmente conscientes- sem o automatismo das pessoas comuns. Ainda há os que acreditam que o iluminado é aquele que fala bem e tem argumentos para tudo. Ou que faz malabarismos com as palavras, verdadeiras retóricas ao gosto do público consumista, mas que não toca no cerne da questão: a transformação interior. Afinal, o que importa é manter as pessoas hipnotizadas, do contrário, como poderão ser exploradas? Ele está ali como “garoto propaganda” de um movimento que na verdade é uma grande empresa e, como tal, tem que crescer e se expandir. Não foi este o caso de vários gurus das décadas passadas?
Mas, com Krishnamurti surgiu outra visão acerca do ser iluminado. Ele não fazia tipo, nem poses .Até mesmo suas roupas eram comuns, vestia-se de acordo com a cultura e o país. Era  “ele mesmo” o tempo todo, natural e espontâneo como uma criança. E por isso, algumas vezes parecia mal humorado ou impaciente. Mas, todos são unânimes em citar a poderosa atmosfera espiritual que o envolvia. O amor  e a doçura que por vezes demonstrava. A humildade com que agia, falava e tratava as pessoas ao seu redor independente de casta ou classe. Notável também era o seu amor e o respeito para com todas as criaturas vivas. A verdade é que Krishnamurti não tinha padrões pré-estabelecidos nem para consigo mesmo. Estava além dos padrões criados pelo nosso pensamento limitado. Por isso, todos que o descreveram pareciam falar de pessoas diferentes e não do mesmo K. Se compararmos as descrições de seu cozinheiro particular  Michael Krohnen com as de seu amigo de infância Sidney Field e também com as descrições do escritor Rom Landau, parece que eles falam de pessoas diferentes. Seus outros biógrafos e biógrafas também traçam perfis diferentes  sobre ele.  Como pode ser?
Há, ainda, outras curiosidades sobre K. Em alguns momentos ele poderia parecer “rude” como o fez após uma entrevista com o renomado escritor e apresentador  Huston Smith * . Após a entrevista, Krishnamurti não o saudou, levantou-se e foi embora, sem nem mesmo se despedir. Todavia, esse mesmo repórter  relatou anos depois, que  foi visitá-lo em sua casa anos mais tarde e que Krishnamurti lhe pareceu uma outra pessoa, de um amor, generosidade e doçura surpreendentes.
 Assim, conclui-se que  K. era simplesmente indefinível e livre dos padrões sociais impostos pela sociedade o que está de acordo com seus ensinamentos. O iluminado não está preso a padrões ou estereótipos mortos, ele se renova continuamente, morrendo para o passado e renascendo para o novo. Eles são como a vida: dinâmica, fluídica, imprevisível, em constante movimento e mutação.
 O Iluminado vive na dimensão do DESCONHECIDO que é indefinível, imprevisível, inclassificável e impensável. Quando nós mesmos penetrarmos nesta dimensão e nos tornarmos também Iluminados é que poderemos compreender este estado além das palavras e definições. O que existe lá? Não sabemos e, segundo Sócrates, Lao Tsé e Krishnamurti : “aquele que diz que sabe, não sabe”.

ALSIBAR ( inspirado)
Link da entrevista de Huston Smith sobre Krishnamurti :


terça-feira, 6 de setembro de 2011

PARA TODOS INJUSTIÇADOS E PERSEGUIDOS!

                    
Jesus de Salvador Dali

Ofereço esta tradução (que não é minha) do poema de Rudyard Kipling, a todos que são vítimas de perseguição e calúnia,  simplesmente  por lutarem pelo que é honesto, ético, justo,  e verdadeiro. A todos que não vendem sua alma, apesar de todas as pressões para que cedam ao mal e à corrupção. E a todos aqueles que não colocam seus "interesses pessoais acima dos seus princípios". Para eles, meu voto de apoio e incentivo, pois "bem-aventurados sois vós"- como disse o maior de todos mestres e o maior de todos injustiçados: Jesus. (Alsibar)


SE…
Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses, no entanto, achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem meu filho!
,

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise:
If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools:
If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: 'Hold on!'
If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!


sábado, 3 de setembro de 2011

MAGIA, PODER E PERIGO NO CAMINHO DO MEDITADOR- Magic, Power and Danger on the Meditator's Way

O iogue e a magia - http://alsibar.blogspot.com/

Você sabe como funciona a magia? Sabia que usamos esse poder naturalmente em nosso dia-a-a ? Qual a relação entre poder e meditação? Faça conosco uma viagem rumo ao universo da magia e do poder, refletindo sobre estas e outras questões.

O MAGO
A  magia negra esteve, durante muito tempo,  relacionada à idéia de rituais macabros, feitiços, porções,  maldições,  sacrifícios de animais etc. Mas, o  que pouca gente sabe é que a  magia trabalha com o domínio de forças da natureza, invisíveis , imperceptíveis e ignoradas pela grande massa. O mago aprende a identificar e dominar conscientemente essas energias, direcionando-as conforme sua vontade e desejo. A diferença entre um mago e uma pessoa comum é que enquanto o primeiro manipula essas forças de modo consciente,  o segundo não tem consciência de como estas forças atuam em suas vidas. Assim, além de não saberem direcionar essas forças para benefício próprio, tornam-se vítimas delas sendo, inclusive, usadas por elas. Essas forças atuam constantemente em nosso dia-a-dia e , muitas vezes não percebemos o estrago que elas nos causam. São muitas vezes responsáveis por discórdias, brigas, desentendimentos, separações e até tragédias,  refletindo também sobre nosso campo mental, espiritual e físico.
AS FORÇAS
Deixando um pouco de lado o clima de mistério, muitas dessas forças são bem conhecidas de todos nós pois são comuns em nossa vida. Pensamentos, desejos,  intenções, emoções e vontades- são poderosas forças do Universo.  Elas influenciam nossa vida, as pessoas e o meio em que vivemos. Pensamentos e sentimentos de ódio, fúria ou inveja são verdadeiras bombas energéticas que, quando detonadas, causam danos a si mesmo  e aos outros-incluindo o ambiente. Quem nunca se sentiu mal ao chegar em um local com atmosfera "pesada"? Ou não suportou a “energia” de uma pessoa? Estamos continuamente  usando ou manipulando essas energias em nossa vida diária.Por isso que a vigilância é tão importante.  Aqueles que se vigiam protegem tanto a si mesmo, quanto aos outros. Além disso, vigiar-se é uma forma eficaz de se autoproteger contra os ataques energéticos dos outros. É assim que em nossa vida diária atuamos  como verdadeiros magos, manipulando forças ou sendo manipulados por elas, mesmo que não saibamos ou não estejamos conscientes disto.
OS PODERES E A CONSCIÊNCIA PARCIAL
Todavia, há poderes  que só tem eficácia quando usados de forma consciente e proposital. São os poderes da mente, da vontade direcionada, do desejo intenso , da visualização, da palavra intencional, do pensamento controlado e da “mentalização”. Neste tipo de poder, a pessoa  está em um nível mais elevado de consciência mas ela ainda é limitada e parcial.  Daí o grande perigo. O problema é que, mesmo usando esses poderes de forma consciente o indivíduo ainda não está livre da ILUSÃO do EGO.  Isso me lembra aquelas cenas em que  os super-vilões vibram  quando tem em mãos  armas superpotentes  prontos para dominar o mundo. Assim também é o EGO quando descobre o grande poder que ele tem em mãos. Poder que pode controlar quase tudo. Ainda bem que é “quase”, já imaginou o estrago que um EGO  superpoderoso causar às pessoas, ao ambiente, ao mundo? A história está cheia de exemplos desses.
OS PERIGOS DO USO DOS PODERES
Devemos ter cautela ao usar estes poderes para realização de sonhos, objetivos e planos. Muitas pessoas,  por imaturidade, ingenuidade ou maldade mesmo, usam desses poderes para influenciar fatos, manipular, e prejudicar as pessoas. Obviamente, nem sempre são bem sucedidas . Mas, uma coisa é certa, a força que movemos para o bem ou para o mal retornam para nós com muito mais força. Mas mesmo aqueles que movem essas forças apenas para alcançar objetivos e realizar sonhos, que não estão causando mal a ninguém, correm um sério risco . Quando você se dedica a algo com bastante intensidade e energia, a chance de alcançá-lo é  grande. O problema é quando nos tornamos  excessivamente ambiciosos, materialistas, ou tiranos. O indivíduo torna-se totalmente cego, o que leva ao enfraquecimento das dimensões emocional, social, espiritual de sua vida. Quando se dá conta da gravidade da situação, muitas vezes já é tarde demais. É quando vem a doença, as tragédias ou até mesmo a morte. O filme “ O Advogado do Diabo” com Keanu Reeves e Al Pacino ilustra com maestria esse processo . Por isso que a meditação é tão necessária. Sem ela o homem caminha num limbo, perdido em meio à escuridão, sujeito às surpresas, ataques e perigos  de seu próprio EGO.
OS SIDHIS OU PODERES IÓGUICOS
Outro tipo de poder são os do iogues, místicos e santos. A tradição cristã tem vários casos e exemplos deste tipo em sua história, Francisco de Assis, Santo Expedito, Santo Antonio e muitos outros. A tradição hindu, ao longo dos séculos e milênios, produziu grandes iogues em sua história. Por isso, a tradição iogue  reconhece os poderes como eventos naturais no processo de evolução e desenvolvimento do ser. Os sidhis – como são conhecidos - são tratados por Patanjali, no Yoga Sutras, como resultado natural da meditação profunda ou Samadhi. No livro Autobiografia de um Iogue, de Paramahansa Yogananda, há vários relatos desse poderes fantásticos, tais como: telepatia, bilocação, materializações, curas, premonições, ressuscitamento, dentre outros. Mas o que pouca gente sabe é que mesmo um iogue pode se tornar um mago negro. Basta, para isso, que ele use seus poderes - geralmente alcançado após anos de prática de alguma técnica- passe a usá-los para fins unicamente pessoais e egoístas.
O IOGUE LADRÃO
Sri Yuktéswar, o mestre de Yogananda, contou  que conheceu “um muçulmano autor de prodígios”.  Este muçulmano, chamado Afizal Khan, aprendera uma técnica com um mestre iogue que lhe dava domínio sobre um dos reinos invisíveis. Após anos e anos de prática, ele finalmente alcançou o domínio completo do poder de materialização e teletransporte de objetos. Mas, lamentavelmente, passou a usá-lo para roubar as pessoas. Sri. Yukteswar contou que o viu fazer várias materializações. Não eram jóias pequenas, nem cinzas, nem objetos produzidos num palco de fundo preto. Ele viu um banquete inteiro ser produzido na sua frente saído do “nada”. Mas então porque ele roubava? A explicação  dada  foi a seguinte: os objetos astralmente produzidos tem pouca durabilidade, ou seja, desmaterializam-se rapidamente.  Ao contrário dos objetos do mundo material cuja durabilidade e consistência é bem maior. Por isso,  ele ambicionava as coisas produzidas pelo processo natural, por serem mais duráveis e, portanto , mais valiosas. Não contarei detalhes, nem o final desta história fascinante descrita no Autobiografia.  Citei esse caso aqui, apenas para mostrar que mesmo um iogue, ou meditador  corre também o risco de se perder ao longo do caminho- talvez até mais do que os outros . 
O CASO  FAMOSO DE UM SUPOSTO “ IOGUE” DO MAL
É importante registrar que a literatura  espiritualista já registra vários casos de iogues que passaram para o “outro lado”. Tudo indica que não resistiram à tentação dos poderes e passaram a usá-los de forma incorreta e egoísta. Se há egoísmo é porque ainda há EGO. O que demonstra que existe sim possibilidade dos poderes se desenvolverem mesmo que a pessoa não esteja ainda totalmente livre das ilusões. Quando isso acontece, o estrago é grande. Joyce Collin Smith, prestigiada escritora e pesquisadora britânica, no livro, “NÃO CHAME NINGUÉM DE MESTRE”*, cita o caso de um conhecido “iogue e guru” espiritual que fez muito sucesso nos anos 60. Por ter sido sua secretária particular durante muito tempo, ela testemunhou vários absurdos cometidos por este senhor e como ele usava seus poderes de telepatia e hipnotismo para alcançar seus objetivos. Segundo seu relato em primeira mão, este homem foi tornando-se cada vez mais estranho e arrogante, até trasnformar-se num completo e perigoso  “bruxo do mal”. Estes casos alertam-nos para os perigos ao longo do caminho do meditador . Todavia, não são apenas os meditadores e  iogues que podem tornar-se magos negro. Qualquer pessoa que não se vigie, pode, mesmo inconscientemente, atuar como um mago das trevas.
VIGILÂNCIA SEMPRE!
Por isso que a vigilãncia é tão  importante.  Àqueles que buscam apenas realizar seus objetivos através das famosas técnicas de desenvolvimento dos poderes da mente, tais como, mentalização, visualização, força de vontade etc. Cuidem-se ! Pois enquato o EGO ainda estiver atuando,  se ainda houver qualquer vestígio de desejo e ambição, o risco de problemas no presente e no futuro é grande. Para aqueles que meditam e buscam a libertação ou despertar, o cuidado deve ser  redobrado, pois quando os poderes despertam, a tentação de usá-los para fins pessoais é maior ainda. É bom lembrar que ao longo da nossa vida,  movemos e manipulamos forças desconhecidas e por isso devemos ter cautela, para não nos tornarmos presas fáceis de forças e energias negativas. Para que isso não aconteça, e não venhamos a sofrer as consequências do uso errado dessas forças, temos que vigiar nossos pensamentos, emoções e ações. Como se processa essa vigilância? Para que não haja mal entendidos vamos explicar melhor.  Para as  pessoas que não são meditadoras ou buscadoras, mas apenas querem ter uma vida “normal”, é importante vigiarem seus pensamentos , sentimentos, ações, palavras e emoções negativos, para que não atraiam coisas ruins para suas vidas. Lembrem-se o quanto essas coisas são poderosas e perigosas.Para aqueles que usam esses poderes conscientemente para realização de objetivos, devem cuidar ou vigiar, para não serem tragados pela ambição, autoritarismo, egoísmo, orgulho ou materialismo exacerbado. Faça autorreflexões periódicas, reze, ore ou medite, procure sempre manter o equilíbrio entre as diversas dimensões da vida.
A VIGILÂNCIA NÃO-DUAL DO MEDITADOR

Por último, se você é um  buscador ou meditador, fica uma importante advertência: tenham mais cuidado pois “ a quem mais foi dado, mais será pedido”.  Todavia, esta vigilância do buscador não se dá de forma dualística, como normalmente acontece com as outras  pessoas. A vigilância do meditador ocorre na Unidade, quando não há observador e objeto observado. Nesse estado de pura e simples observação, sem interferência ou qualquer tipo de ação direta por parte do meditador é que a verdadeira vigilância acontece.  Não há alguém vigiando, nem nada para ser vigiado. Há apenas o estado de VIGILÂNCIA ou ALERTA. Nesse estado de Unidade, Tranquilidade e Paz, o meditador não precisa temer o despertar dos poderes - contanto que permaneça um simples expectador dos mesmos. Aconteça o que acontecer deve continuar fixo na Unidade da Meditação ou Consciência Passiva, sem que o Ego interfira ou se utilize dos mesmos para seus propósitos egoístas. Esta  é, normalmente, a orientação de todos os sábios, iogues e iluminados, é o "movimento em repouso”- citado por Jesus no quinto evangelho.
“CHORO E RANGER DE DENTES”
Este é o caminho mais seguro para evitar que o meditador transforme-se num perigoso Mago Negro. É bom lembrar que todo aquele  que usar seus poderes, ocultos ou não, terá que prestar contas ao Universo. Caso tenha feito bom uso dos mesmos, terá sua recompensa , caso contrário, pagará caro  pela inconsequência e irresponsabilidade de seus atos. E aí “haverá choro e ranger de dentes”- como disse o grande mestre nazareno.
AUTOR: ALSIBAR (inspirado)
http://alsibar.blogspot.com
MSN: alsibar1@hotmail.com
*O livro  Não Chame Ninguém de Mestre de Joyce Collin Smith pode ser baixado gratuitamente no link abaixo:
http://www.4shared.com/document/umXCtaOe/Joyce_Collin-Smith_-_No_Chame_.htm%20

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

DEUS É UMA PESSOA? Reflexões sobre a visão antropomórfica de Deus- Is God a person? Reflecting on God's Anthropomorphic Vision

A Criação e o Caos
Como explicar o fato de uma criança inocente ser raptada durante uma missa e ser cruelmente assassinada? Como entender o fato de uma pessoa sofrer um acidente fatal ao fazer uma peregrinação  religiosa de agradecimento por ter sido salva de um acidente? Abaixo refletiremos sobre estas e outras questões que desafiam a  visão antropomórfica de Deus pregada pela maioria das religiões tradicionais.

FATOS QUE DESAFIAM A VISÃO ANTROPOMÓRFICA DE DEUS

Alguns fatos são tão intrigantes que põe em cheque a  lógica das religiões tradicionais, no que concerne à visão de Deus. Estes eventos sinistros, desafiam a nossa compreensão, o bom senso, e abalam a coerência  do discurso teológico tradicional. Será mesmo que Deus pode ser considerado um ser antropomórfico? ( forma e atributos humanos). Quando, diante de tragédias dolorosas, dizemos: “é a vontade de Deus!” não estamos tornando-o igual a nós e, consequentemente, reduzindo-o a nossa condição? Mas será que esta visão de um Deus pessoal é correta? Ora, se Deus é Onipotente, Onisciente e Onipresente e se tem vontades e emoções similares aos humanos por que permitiria tais acontecimentos ? Essa tese não tornaria Deus um ser sádico, cruel e omisso? Obviamente que isso não faz sentido. Então como poderemos lidar com tais questões de maneira, no mínimo, coerente?

COMO SABER QUAL É A VONTADE DE DEUS?

Há, certamente, muitas coisas além de nossa compreensão. Todavia , este argumento não pode ser usado sempre que nossas  crenças são desafiadas pelos fatos chocantes. O problema é que muitas religiões defendem a concepção de um deus antropomórfico somente quando assim lhe parece conveniente. Por exemplo, quando querem impor regras estritamente humanas , em nome de Deus.  Como alguém pode saber o que Deus quer ou não de nós? Alguns podem responder: “está nos livros sagrados”. Mas existem tantos e vários livros sagrados, tantas traduções e interpretações que não dá pra sabermos qual a mais verdadeira ou "autorizada".

A verdade é que, durante muito tempo, as religiões tradicionais usaram tais expedientes  para explorar, dominar e oprimir. A história já nos provou que este é um caminho perigoso , cujas consequências danosas a humanidade conhece muito bem. Quando edificamos uma “autoridade espiritual” o resultado são as divisões, os conflitos e as guerras. Não há religião, livro sagrado, ou intérpretes mais verdadeiro, sagrado ou autorizado do que o outro. Tais concepções fortalecem o fanatismo possibilitando a prática da crueldade em nome do Amor. No novo milênio, a humanidade precisa ultrapassar esse nível de compreensão puramente sectária, para uma visão mais essencial e universalista acerca da vontade divina.

 NÃO EXISTEM AUTORIDADES OU INTERMEDIÁRIOS

Temos  que entender uma coisa simples: ninguém é dono da verdade e ninguém é autoridade espiritual de nada. Aqueles que se autointitulam intermediários entre Deus e o Homem estão mentindo e explorando. Ninguém deveria aceitar como VERDADE concepções  radicadas no sectarismo,  na fé cega,  em teorias e especulações . A história nos mostra que muitas dessas visões e princípios  são impostas pelo poder estabelecido como forma de dominar as massas. Muitas delas, caíram, por terra com o passar dos anos diante da incontestabilidade dos fatos. Hitler pregava  a pureza e superioridade da raça ariana sobre outras "assim chamadas" sub-raças. A igreja católica pregava que o negro não tinha alma, que a Terra era o centro do Universo e que o papa era infalível. Dizia-se na antiguidade que o Império Romano era invencível e, mais recentemente, que o Titanic era o navio mais seguro da época.  Exemplos de crenças aceitas como verdade incontestável e que posteriormente provaram-se infundadas é o que não falta. Ou seja,  frequentemente nos vemos diante de situações que desafiam nossas crenças e certezas acerca da vida, levando-nos a reinventá-las ou repensá-las. Mas, infelizmente, muitos preferem continuam acreditando cegamente em algo - mesmo que seja totalmente sem fundamento.

NADA SABEMOS

Esses fatos apontam para uma coisa básica,  mas que teimamos em não aprender : NADA SABEMOS. Os cientistas vivem refazendo suas teorias e explicações acerca do Universo. Debruçam-se anos e anos à procura de fórmulas matemáticas e equações que consigam explicá-lo e não encontram. Assim também é na nossa vida. Como explicar a crueldade? As coincidências sinistras? As fatalidades? Devemos simplesmente fazer de conta que Deus  estava ausente ou estava “ocupado” demais e não viu  o que estava acontecendo? Sabemos que não  é assim. Uma concepção antropormófica de Deus  não se sustenta diante de tais fatos . Assim , não podemos considerar Deus uma pessoa, com sentimentos e emoções humanas pois, desta forma, ele perderia seus principais atributos: o de Amor,  Sabedoria e Poder Ilimitados e não seria, portanto, Deus. Infelizmente, é devido a concepções tradicionalistas como estas, que muita gente abandona a  espiritualidade para abraçar o ateísmo. Que nada mais é do que outra forma de crença. Isso é lamentável. Essas concepções equivocadas, ao invés de aproximar as pessoas de Deus , tem o poder de afastá-las.

SOMOS CO-CRIADORES DO UNIVERSO

Também é comum vermos alguns religiosos pregarem que se deve “exigir” coisas de Deus.  Alguns pedem, gritam, tentando impor suas vontades, como se Deus fosse alguém que cedesse às pressões humanas. Agimos com Ele como se fôssemos crianças choronas e teimosas  que pedem aos pais coisas que não podem ser atendidas. E, por incrível que pareça, boa parte dos desejos são atendidos ( não esqueçamos que a própria Bíblia diz que "somos deuses", portanto, co-criadores do Universo). Assim, quando pelejamos ou insistimos com Deus, muitas vezes somos atendidos. Mas isso não significa que essa seja “a vontade de Deus”- talvez seja a nossa própria vontade posta em ação.  Apesar de Jesus ter dito “pedi, pedi e dar-se-vos-á”, ele enfatizou várias vezes, que devemos nos resignar à Vontade do Pai que sabe, melhor que ninguém, o que é melhor pra nós. Não é à toa que na oração do Pai Nosso, ele  diz " Seja feita a tua Vontade assim na terra como no céu." 

SEJA FEITA A TUA VONTADE !

No Pai Nosso, Jesus diz : seja a feita a Tua Vontade.  Significando que não devemos pelejar contra a vontade de Deus. Mas, muitas vezes não ficamos satisfeitos. Vivemos reclamando ou infelizes e, muitas vezes, praguejando. O que se deve entender é que há momentos na vida para cada coisa. Há momentos de  ação e momentos de resignação. Aprender a diferenciar os dois é o começo da sabedoria.  Certa feita, Jesus disse : até o cabelo de vossas cabeças estão contados e não cai uma folha que não seja pela vontade do Pai. Eis então  o argumento perfeito para os ateus : se Deus é ilimitadamente poderoso e compassivo porque não age de forma a evitar calamidades, injustiças e crueldades? A resposta do senso comum  seria: ele é bom, mas é justo. Todavia, há centenas e milhares de casos em que crianças inocentes são vítimas de crueldade e injustiça. Sabemos que as religiões orientais, notadamente budismo e hinduísmo,  explica tudo isso através da crença na reencarnação e no carma. Mas será que essas explicações são capazes de nos trazer a paz e conforto? Para alguns, talvez sim. Todavia, não podemos considerar as crenças como sendo fatos. O fato é que são crenças. Será que não haveria uma outra forma de se considerar a questão, sem precisarmos recorrer às crenças?

 CONHECER A VERDADE PELA EXPERIÊNCIA DIRETA

Os verdadeiros místicos e sábios dizem que sim. Eles não defendem qualquer posição radicada na fé cega ou crenças. Em geral, são contra todo tipo de radicalismos e sectarismos, pois sabem  que tanto a crença quanto a descrença , impedem a experiência direta da Verdade ou Deus. Por isso defendem que o homem deve conhecer a Verdade diretamente. Sendo este o única caminho capaz de nos trazer a verdadeira paz e libertação da dor. 

A IDÉIA  ANTROPOMÓRFICA DE DEUS TRAZ DIVISÕES

Deus não pode ser reduzido às proporções humanas. Quando assim o fazemos, nós o destruímos . Como o Imensurável pode se encaixar dentro dos estreitos limites e medidas humanos? A idéia antropomórfica de Deus, torna-o mais próximo da gente mas, ao mesmo tempo, o distancia pois deixamos de vê-lo como a Essência de tudo que há no Universo. Essa centelha essencial se manifesta em todas as coisas, inclusive no homem. O deus antropomórfico, traz divisões e guerras pois as religiões dominantes  sempre brigam pela supremacia do seu deus, em detrimento dos outros "deuses". A verdade é que, as diversas formas e  imagens existentes sobre Deus refletem a cultura de um determinado povo, região e época. Talvez o Hinduísmo seja uma das poucas religiões tradicionais que aceitam a multiplicidade de manifestações divinas. Mesmo assim, ainda há grupos que discutem sobre qual é  a forma mais original, a mais poderosa ou suprema se é Brahma, Krishna, Shiva, Kali etc

DEUS É INFINITO, INCONCEBÍVEL E INCOGNOSCÍVEL

Os grandes místicos e sábios não se preocupam com tais dilemas. Suas experiências de Deus vão além de todo sectarismo . Assim, se entendemos que Deus é inconcebível, incognoscível, atemporal e ilimitado então resolvemos vários dilemas. Quando consideramos Deus como sendo "alguém"- no sentido humano, os fatos tomam aparência de crueldade e injustiça. Ora, se Deus é ILIMITADO e INFINITO, não podemos querer “abarcá-lo” ou “prendê-lo” nas garras da nossa lógica finita e limitada . Consciente disso é que o sábio reconhece sua própria limitação e lida com a questão de outra maneira  : se a vida no parece incompreensível isso se deve ao fato de atribuirmos a Deus  valores e medidas estritamente humanos. Então, concluímos que há coisas no Universo que nossa limitada capacidade nunca compreenderá. Ora, se não conseguimos compreender o simples universo visível, como compreenderemos o que é Invisível, Incondicionado, Atemporal e Infinito? Por isso, Lao Tsé dizia no Tao Te Ching: “o Inconcebível que se pode conceber não é o Inconcebível… o Sábio deve auscultá-lo no silêncio”. Posições bastante similares são compartilhadas por outros místicos e iluminados como Krishnamurti, Buda,  dentre outros.

RECONHECENDO NOSSAS LIMITAÇÕES

Desta forma, quanto mais tentamos entender as razões e o sentido das coisas, mais confusos e perturbados ficamos. Por isso é dito que o “sábio cala”. Não há nada a se falar ou discutir sobre Deus pois nunca teremos capacidade para compreendê-lo em sua magnitude e amplidão. Neste particular, os mitos e os símbolos exercem uma função  importante : são tentativas de comunicar de maneira simples e inteligível, concepções complexas e profundas. Como entender quando Krishna diz no Bhagavad- Gita: “ Eu sustento todo o Universo com apenas uma centelha do meu esplendor”? Como entender o Amor de Deus? Como entender a morte, a solidão, as perdas, as tragédias e o sofrimento que atingem a todos- muitas vezes sem   nenhum motivo aparente e de forma "injusta" pelos padrões humanos? Como entender o episódio que envolveu Hitler e sua escalada ao poder, permitindo assim, o Holocausto?  Só nos resta reconhecer nossas limitações e abandonarmos essa mania de querer entender as razões de tudo.

SOBRE A NECESSIDADE DAS CRENÇAS

Uma outra questão seria : será que as crenças  são necessárias a uma conduta ética e uma vida plena, equilibrada e saudável? Talvez para algumas pessoas a resposta seja sim. Todavia, algumas vezes, elas são verdadeiros empecilhos e até mesmo prejudiciais. Mas se tua crença não cria divisões, não incita ao ódio,  ou à ilusão, então não há problemas, desde que você esteja plenamente consciente de que  crenças não são a VERDADE. É algo que você escolhe confiar porque lhe parece razoável, ou lógico, ou porque lhe ensinaram assim. Mas temos que compreender que podem não ser exatamente como acreditamos que seja.  Então a questão sobre se Deus existe, qual sua aparência e quais suas "vontades e desejos"- nunca serão completamente respondidas. E qualquer que seja a conclusão que cheguemos, por mais confortadoras que sejam, não deixarão de ser crenças. Falando isso não estou afirmando que são falsas- as crenças podem ser verdadeiras ou não. Simplesmente não temos como comprová-las, se tivéssemos não seria crença. Mas, será possível irmos além das crenças? Sim, é possível.

INDO ALÉM DAS CRENÇAS E CONCEPÇÕES INTELECTUAIS

Para aqueles que não se satisfazem com as crenças, mas querem encontrar a Verdade, experimentá-la e vivê-la como uma experiência direta, então só resta um caminho : a MEDITAÇÃO. Todos os grandes mestres sem excepção, a ensinaram.  A meditação pode  transformar, iluminar, libertar  e unir os homens pois não está radicada em concepções teóricas,  mas na experiência direta e objetiva da verdade . A meditação pode libertar os homens das falsas concepções e fazê-los penetrar na dimensão do Desconhecido. Lá estão todas as respostas e o bálsamo para todas as dores. Quando o homem se liberta das limitações do pensamento, do tempo e do desejo passa ele a sintonizar-se com aquela Energia ilimitada, infinita e atemporal chamada Deus. Chegando aí o indivíduo não se questiona mais, não se confunde mais, nem exige, nem pede mais nada. Passa também a compreender que  Deus é simplesmente o Absoluto, sendo assim, é tudo o que existe: o perceptível  e o imperceptível,  o imanente e o transcendente; o que está dentro, fora, acima, abaixo e além.

HUMILDADE E FÉ DO HOMEM SÁBIO

Quando a mente questionadora silencia, não há mais espaço para sectarismos, radicalismos ou discussões teóricas acerca do transcendental. Ao  reconhecer suas limitações, o homem sábio demonstra humildade e fé no Absoluto. Também demonstra verdadeira confiança no Amor e na Proteção Divina pois não suplica ou impõe nada à Divindade. Se Deus é o criador e mantenedor Supremo, ele  nunca pode estar “ausente” ou “omisso”. Mas não compete a nós questionar suas atitudes e os movimentos do Destino Inexorável. Quando sentimos a existência de uma Força Superior do Universo, então qual o sentido da inquietação, medo ou preocupação? O sábio  relaxa pois sabe que Universo  existe por si mesmo e que sua vida não depende de sua medíocre e limitada vontade. Tudo que existe vive pela “vontade” do PAI. A "vontade do Pai" é apenas uma metáfora usada por Jesus  para expressar o fato de que o Universo é regido por Leis e Forças Superiores, matematicamente exatas, Infinitas, Inteligentes e Autocriadoras.

DEUS “É  O QUE É”

E se aceitamos que Deus  é o Absoluto Insondável, e portanto cria, destrói, comanda, sustenta e controla tudo no Universo, desde o pequeno átomo até as galáxias infinitas, então compreenderemos quando Ele afirma na Bíblia que “É O QUE É”.  E assim compreendemos quando os sábios afirmam que perceber  "o que é", é perceber a Verdade, o Desconhecido, Deus, enfim.

AUTOR : ALSIBAR (inspirado)

http://alsibar.blogspot.com