quarta-feira, 13 de outubro de 2021

O DEUS DO ANTIGO TESTAMENTO É O VERDADEIRO DEUS?

 



Muita gente criou uma certa ojeriza ao Deus do Antigo Testamento pelo seu “comportamento” por demais humano uma vez que, amiúde, demonstrava sentimentos de raiva, vingança, violência, etc. Embora seja difícil de aceitar, vou explicar, ao longo deste artigo, por que eu acredito que o Deus dos Judeus é sim o mesmo Deus dos hindus, budistas, taoístas  e de todos os grandes místicos — inclusive os impersonalistas— ou seja, o verdadeiro e único Deus.

 Quando somos crianças, nossos pais nos dão palmadas porque não compreendemos ainda o que é certo ou errado. Quando minha filhinha era mais nova, tive que dar umas palmadas fortes nela por que ela não parava de mexer na tomada da energia. Por mais que eu lhe dissesse para não mexer lá, pois era perigoso, ela continuava mexendo. Obviamente, que ela não conseguia entender o que era “perigo” pois  não tinha ainda estrutura cognitiva para isso. Então, a saída emergencial que encontrei foi dar uma boa palmada na mão dela. Depois disso, ela nunca mais mexeu nas tomadas. Olhava e passava adiante. Em suma, foi uma forma de protegê-la de um grande problema.

Essa analogia  serve para ilustrar o meu pensamento. Os antigos judeus, como está demonstrado na própria Bíblia, eram povos com uma mentalidade ainda muito primitiva. Seu comportamento, em geral teimoso e belicoso, mostra que eles dificilmente conseguiriam ter uma noção de Deus que não fosse aquela que lhes foi apresentada pelos antigos profetas. Em suma, eles precisavam sentir medo do castigo, para poderem “entrar na linha”. Isso é confirmado nas Cartas de Cristo na primeira conversa que ele teve com sua mãe, Maria, logo após a sua iluminação que lhe revelou a Verdade. A reação de sua amada genitora foi típica de um judeu conservador. Como que não há condenação eterna? Como que não é necessário sacrifícios? Como o homem iria obedecer às leis se não fosse através do castigo? Ela simplesmente não conseguia entender a sua mensagem.

Todavia, o que demonstra que o Deus “ Pai” de Jesus é o mesmo de Moisés e Abraão é exatamente por que Jesus é aquele que fora anunciado pelos Antigos Profetas. Ao longo do tempo, o próprio Deus, através das profecias foi preparando o povo judeu para uma mensagem mais avançada em relação à espiritualidade. Enquanto com Moisés o que vigorou foi a Lei do castigo, com Jesus ele trouxe a nova lição: a Lei do Amor. Enquanto no Antigo testamento o Reino de Deus era visto como um acontecimento utópico no futuro, ou como uma realização histórica com o restabelecimento da glória do povo de Israel, Jesus veio falar sobre o Reino que já mora dentro de cada um. Em suma, é a mesma coisa que acontece em uma escola. Nas primeiras séries, você tem as lições mais básicas. Depois, os alunos recebem novas lições à medida que vão crescendo e amadurecendo.

Como sei que o Deus de Jesus e de Moisés é o verdadeiro Deus? Por algumas “chaves secretas” que são universais, a saber:

 Quando Moisés perguntou o nome de Deus, como era de praxe na época, pois todas as coisas e deuses tinham nomes, Ele não lhe deu um nome. Ao contrário, expressou-se como sendo o “sem nome”, aquele que está além de todos os nomes: “E disse Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: EU SOU me enviou a vós. (Êxodo 3:14) . Essa sentença é uma espécie de senha universal presente em todas as grandes tradições e que serve para identificar o aspecto Insondável, Incognoscível de Deus. Ele está tanto na fala de Moisés, na de Jesus e também no Apocalípse — como se quisesse comprovar que é a mesma consciência eterna, o EU SOU universal, presente em todas as culturas e grandes religiões. O curioso é que mesmo "impersonalistas" como Jiddu Krishnamurti, frequentemente, falava sobre a percepção  de “ O Que é” identificando esse “ o que é “ como sendo a Verdade, a Realidade ( Deus).

Outros elementos que reforçam minha tese, são algumas sentenças do Antigo Testamento que, por serem tão avançadas não dá para imaginar que não tenham vindo de uma fonte realmente elevadíssima. Até hoje, a sentença de Jesus: amai ao próximo como a ti mesmo, é considerada válida por todos grandes místicos inclusive de outras religiões. Essa sentença já existia no Antigo Testamento só que Jesus a retoma e lhe dá a devida visibilidade e importância. A sentença: “Aquietai-vos e sabei que sou Deus” foi considerada pelo grande sábio hindu, Ramana Maharshi como sendo a essência da sabedoria universal. E, a última, não menos perturbadora e inquietante: quando Deus diz no Antigo Testamento: “Sois deuses, sois todos filhos do Altíssimo”. Ele já dizia aquilo que todos os grandes místicos distantes no tempo e espaço já afirmavam através de suas próprias experiências. Essas sentenças tinham como objetivo elevar a consciência dos povos em questão e, por isso, eram tão elevadas para a época.

Então, quando for ler o Antigo Testamento,  é bom  levar em consideração esses pontos que apontei. Além disso, é óbvio que algumas coisas podem ter sido interpretadas ou “captadas” de forma errônea ou imprecisa por alguns profetas. Suas mentes e pensamentos podem ter  interferido na receptação da mensagem. Apesar disso, é importante ressaltar que a Verdade Universal não muda, mas as pessoas sim. 

Em outras palavras, não é que a Verdade esteja mudando, afinal, ela é eterna. Todavia, ela é ampla e muito vasta. E assim como dois mais dois continua sendo quatro desde a alfabetização até o doutorado, a Verdade não está evoluindo, o que evolui é a consciência humana e quanto mais evoluída, maior sua capacidade para entender e aceitar verdades profundas, abstratas, complexas e, muitas vezes, difíceis de serem apreendidas. Vide por exemplo, Krishnamurti que, apesar de usar uma linguagem moderna para transmitir essa mesma Verdade essencial, até hoje sua mensagem não foi devidamente compreendida. Se na antiguidade as pessoas não conseguiram entender uma sentença relativamente simples como a que diz que o Reino de Deus está dentro de nós,  imagina se lhes fosse apresentada a questão sobre o “o observador e a coisa observada”.

Alsibar Paz

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segunda-feira, 11 de outubro de 2021

SAMADHI: O GOZO CELESTIAL


Também chamado de  "êxtase espiritual" , o Samadhi é o 'sonho de consumo" de nove entre dez buscadores espirituais. É um fenômeno psicofísico que emerge com a subida da Kundalini, despertando os chakras e causando diversas sensações e impressões, tais como: êxtase, paz, lucidez, intuições, insights, explosões de  energia  alegria sem causa, alteração do sentido do tempo e fenômenos extrafísicos  como : telepatia, clarividência, sonhos lúcidos, etc.

Ao contrário dos 'samadhis' artificiais causados por drogas ,chás e técnicas de meditação, o samadhi que ocorre naturalmente causa uma transformação profunda na consciência. O samadhi confunde-se com a própria iluminação em si porque é ele que inicia o processo de transformação profunda do 'eu'. 

Assim sendo, nem todo samadhi é Iluminação, mas toda iluminação é introduzida por um Samadhi. A diferença entre os dois é que a iluminação é um fenômeno mais amplo que inclui desde o êxtase, passando pela compreensão do 'eu'  até a transformação permanente da psique.

A grande questão que todo mundo quer saber é: como alcançar o Samadhi? 

Primeiramente : o verdadeiro samadhi é um acontecimento de ordem sagrada, transcendente ao pensamento. Os samadhis provocados por técnicas de meditação, jejuns, chás, drogas, mantras e autossugestâo são apenas vagas imitações do verdadeiro êxtase. Sendo assim, não há como provocá-lo de forma direta. A única coisa que o sujeito pode fazer é preparar a mente, criando as condições ideais para a manifestação do fenômeno. Isso inclui desde o autoconhecimento que desenvolve a sabedoria até o cultivo natural das virtudes e valores universais tais como: amor, humildade, respeito, gratidão, fé, entrega, generosidade, tolerância, serenidade, temperança, paciência, etc.

Além disso, o Samadhi, semelhante ao orgasmo físico, diminui e passa depois do clímax, já a iluminação não. Pode ser que depois de um episódio de Samadhi o indivíduo passe anos sem ter um segundo. Há pessoas que morrem sem nunca terem vivenciado nenhum   samadhi ao longo da vida.  Outras, chegam a ter alguns episódios apesar do grande intervalo de anos  entre um e outro. A maioria dos espiritualistas vivenciam esse fenômeno por alguns instantes, horas ou dias. Todavia, quem o experimenta nunca mais o esquece. O livro ' O diário de Krishnamurti"  descreve os fenômenos e impressões diárias provocados pelo Samadhi que   Krishnamurti vivenciou ao longo de quase um ano.

Não existe apenas um tipo de samadhi. Há vários tipos e níveis . O que caracteriza um verdadeiro samadhi não é o que ocorre durante o fenômeno, mas sim o que fica quando ele termina pois é impossível continuar sendo a mesma pessoa, ou vivendo a mesma vida,  depois de experimentar um verdadeiro e profundo Samadhi.

Alsibar Paz

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domingo, 10 de outubro de 2021

O CONFLITO DE PAULO

 



 "Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero esse eu faço' (Romanos 7:15)

 

O conflito está em  querer fazer uma coisa, mas fazer outra. Ou seja, quero praticar o bem, mas não consigo. Não quero cometer  o mal, mas acabo cometendo. Ou seja, há uma luta entre o desejo e o fato. Pois o que desejo não se realiza.

Em linguagem ' Krishnamurtiana': Qual é o fato? O fato é que  está havendo uma contradição entre o que quero fazer e o que realmente faço. O observador, observa suas ações e percebe que elas não estão conforme suas intenções. Essa contradição é o conflito. E o conflito cria o sofrimento.

Como se libertar dessa contradição (conflito)?

Vamos pegar um exemplo: sou invejoso, mas não quero sê-lo. Mas quanto mais luto contra a inveja mais forte ela fica. Há então um 'observador' que vê a inveja e quer se livrar dela. Mas a inveja é parte de mim, não sou separado dela. Ou seja eu ( o observador) sou a inveja (observado)

Qual o caminho para se libertar dessa luta inútil e desgastante?

Ao ver a inveja eu não tento controlá-la. Eu nem a chamo de inveja ; apenas a observo em ação com a mente livre da memória, da condenação e do julgamento. Quando observo diretamente  aquilo que chamo de inveja e a vejo em ação, sem condenação, sem nem mesmo nomeá-la o que acontece?

Passo a ver a 'coisa' como ela realmente é. E então, pela compreensão do fato, que é aquela energia pura em ação, o fato sofre uma transformação. Ou seja, a inveja deixa de ser fortalecida pela palavra, pela condenação, pela divisão, pela memória e pela própria luta. E por não ser alimentada ela enfraquece e morre com o tempo. Em suma, o próprio conflito estava fortalecendo e perpetuando a inveja.

 

Sendo assim, eu apenas olho o fato que está acontecendo (o sentimento da inveja em ação). Dessa forma não há mais uma entidade separada da inveja, condenando a inveja. Destarte, não só dou fim ao conflito como também me liberto daquilo que sempre condenei porque não compreendia, não via claramente a sua natureza.

Isso é o processo de Autoconhecimento. O que vale pra inveja, vale pra ambição,  para a tristeza, raiva, agressividade,, egoísmo, ciúmes, solidão, compulsões diversas,  etc. O processo de compreensão e libertação é o mesmo.

Alsibar Paz!

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sábado, 9 de outubro de 2021

KRISHNAMURTI: O FINDAR DO CONFLITO!

 


Durante muito tempo, o ser humano entendeu a palavra conflito como sendo a luta entre o bem e o mal, entre a carne o espírito, guerras e disputas entre países e pessoas. Com Krishnamurti, esse termo ganhou uma acepção mais ampla passando a significar não apenas a luta em si, mas a própria ausência de paz interior. Sendo assim, conflito tornou-se sinônimo de ansiedade, agitação, inquietação, sofrimento psíquico.

Ao longo de sua vida, JK explicou, muitas vezes, como este estado de libertação pode nascer na consciência. Note, que não falei do “como alcançar” esse estado porque, na verdade, ele não pode ser alcançado como quem alcança o topo de uma montanha. Ele surge por si mesmo. De forma direta, não há nada a ser feito. Mas, de forma indireta, muita coisa pode ser feita. A primeira coisa é compreender o conflito, o que ele é, como surge e se é possível o seu findar. Embora seja uma compreensão puramente intelectual, ela funciona como um “start” para vivência direta desse processo.

O problema é que mesmo a simples compreensão intelectual que , por definição, é superficial, para muitas pessoas é dificílima. Mas, sem penetrar nesse primeiro nível da compreensão, fica quase impossível a sua concretização. Por isso, tentarei, dentro das minhas possibilidades e com as minhas palavras, explicar a mecânica do conflito. Quem sabe, assim, possa contribuir para a compreensão de um assunto tão importante.

O conflito surge da divisão “ observador e coisa observada”. Destarte, enquanto não houver a compreensão prática do que isso realmente significa, será impossível ir adiante. Toda vez que observo algo em mim e tento modificá-lo, aí estará o observador lutando contra a coisa observada; aí estará a divisão e o conflito. Além do observador normal, comum a todo mundo — que é aquele impulso para mudar as coisas que não gosto em mim — os gurus criaram mais um “observador” que chamo de “observador sutil”. É aquele esforço que se faz para estar sempre observando tudo de forma atenta e “presente”. É o tal “estado de presença”.

Toda vez que você se esforça ou tenta ficar consciente do agora, surge o “observador” . E o conflito surge por que a pessoa, ao se distrair, saindo do tal “estado de presença”, sente-se culpada e frustrada por sua “desatenção”. Isso mostra que os gurus, em sua grande maioria, substituíram um conflito por outro. Por isso que JK não defendia a prática da observação. Observação praticada é conflito porque é uma ação da mente em busca de um estado especial de consciência. De fato, o observador se fortalece toda a vez que alguém pratica o tal “estado de presença” ou “observação ao presente”. Em suma, as pessoas estão perpetuando o conflito, na ilusão de que estão se libertando dele.

Quando não há observador separado da coisa observada não há “estado de presença” consciente. Apesar de poder surgir, vez ou outra, de forma natural. Todavia, o próprio observador não tem consciência da observação. Ele não está consciente de estar consciente. Quando ele olha para algo, como estou olhando agora para a tela desse computador, é uma ação natural, “inconsciente”. Se houver uma entidade consciente — fora de seu estado natural de relaxamento e quietude— então não é o verdadeiro estado original. Se o sujeito ainda precisa, de instante a instante, trazer a atenção para o “agora”, isso continua sendo conflito, pois é o “observador” que percebe sua própria distração e diz para si mesmo: preciso ficar atento. A constante oscilação entre “distração” e “ atenção” comprova claramente que a luta e o esforço continuam.

Mas quando não há observador, nem coisa observada não há luta por que a entidade que criaria o conflito está ausente. Há apenas o “corpo” , com sua inteligência natural, em consonância com os eventos da vida em ação. Não há ninguém consciente do corpo, nem dos sentimento, emoções, reações, nada. Tudo acontece nesse estado de consciência de forma espontânea e impessoal. E, exatamente por isso, não existe mais conflito porque para havê-lo teria que haver a separação da entidade que percebe o fato e se esforça para controlar ou alterar aquilo que é percebido.

Em suma, quando Krishnamurti aponta para o estado de ausência do conflito, pode parecer, à primeira vista, algo simples e banal mas não é. É um estado difícil de ser compreendido e mais difícil ainda de ser “realizado”. Sendo assim, da próxima vez que você ouvir JK falar sobre o findar do conflito, preste muita atenção pois é algo realmente precioso e raro. Enquanto houver conflito não haverá paz, nem plenitude, tampouco haverá amor. Mas, quem teve a sorte ou “graça” de vivenciar esse estado sabe que ele é o ponto de partida para a grande viagem rumo ao Desconhecido!

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sexta-feira, 24 de setembro de 2021

RESUMO DA VIDA E ENSINAMENTOS DE UG KRISHNAMURTI

 




UMA NOTA DE INÍCIO 

Se você acha que pode ler e entender este livro, pode estar bastante equivocado. "Qualquer pessoa que vem e me escuta e tenta entender o que estou tentando transmitir está perdendo seu tempo, porque não há como ouvir qualquer coisa sem interpretação", diz U.G. Krishnamurti. Segundo ele, quando deixamos a audição em paz tudo o que existe é a vibração dos sons. Essas vibrações são captadas pelo tímpano, transferidas para os nervos que vão para o cérebro e são interpretadas de acordo com o que ele chama de "nosso ponto de referência". Assim, ouvimos nossas próprias traduções das vibrações. Diz U.G.: "Tudo bem para um relacionamento com alguém no nível de 'Aqui está algum dinheiro; dê-me meio quilo de cenouras'; mas esse é o limite do seu relacionamento, da sua comunicação com qualquer pessoa." Quer você concorde ou não com tudo o que ele diz, vale a pena tentar ouvi-lo. As palavras que saem dele são como granadas lançadas em nosso 'ponto de referência', ameaçando arrancar tudo em que acreditamos. Suas declarações são devastadoras, ainda mais para pessoas que ouviram J. Krishnamurti, Osho Rajneesh e outros que são nutridos em uma atmosfera religiosa.

 U.G. também pode discutir a física quântica e os buracos negros, “eros e thanatos”. U.G. diz: "Não pretendo ter um insight especial sobre a natureza das coisas ou que entendo o funcionamento da natureza mais do que qualquer outra pessoa. Mas isso é o que descobri por mim mesmo. Não me importa se você aceita o que eu estou dizendo ou não. Isso se levanta ou cai por si mesmo. " Suas declarações têm um tom sólido de autenticidade e parecem brotar de uma fonte diferente do pensamento. O que ele diz abala os próprios alicerces do pensamento humano. É outra questão que seus comentários sobre temas como Deus, amor, iluminação, mente, meditação, morte e reencarnação muitas vezes cheiram a blasfêmia e beiram a heresia. A história de U.G. Krishnamurti tem todos os ingredientes de um thriller. Um episódio de sua vida leva a outro sem sequência sistemática. Quando ele atingiu a idade de 49 anos, houve uma mudança repentina nos acontecimentos. Algo aconteceu com ele que ele chamou de 'calamidade' (para ajudar nosso entendimento), quando ele “tropeçou” em um 'estado natural', no qual, em suas palavras, "tudo que o homem disse, sentiu ou viu, de fato,  toda a herança da humanidade foi expulsa do meu sistema. " Mas, de acordo com U.G., não era isso que ele desejava. Ele estava procurando por uma terra de sonhos espiritual tornada eloqüente pelos homens santos - tanto fraudulentos quanto genuínos. A atmosfera religiosa fazia parte de sua formação. U.G. nasceu em 1918 em uma família brâmane de classe média em Andrah Pradesh. Sua mãe morreu logo após o parto. Em seu leito de morte, ela disse que seu filho foi feito para algo "incomensuravelmente alto". O avô de U.G. levou as palavras dela a sério e o preparou em uma atmosfera ascética.

 Um pequeno episódio, no entanto, foi um ponto de viragem na vida do U.G. Certa vez, seu avô estava meditando de manhã cedo quando foi perturbado pelo choro de uma criança. O velho ficou com tanta raiva que bateu na criança até ela ficar roxa. A incongruência e a brutalidade da cena tiveram um impacto traumático na terna sensibilidade de U.G. Ele disse a si mesmo: "Se é disso que se trata a meditação, ela não tem valor". Ele jogou fora seu rosário sagrado e ameaçou sair de casa. A vida de U.G. daí em diante foi uma experiência com a verdade. Uma fome insaciável tomou conta dele para descobrir se havia algo por trás dos pronunciamentos abstratos dos chamados homens espirituais. Ele conheceu vários mestres, incluindo J. Krishnamurti e Ramana Maharshi, e praticou meditações tradicionais. Ele exauriu todos os meios possíveis para alcançar a 'terra prometida' e, no final, ficou sem esperança e em total desespero.

Em seu quadragésimo nono aniversário, ele estava sentado em um banco com vista para o vale verde e os picos escarpados de Oberland, na Suíça. De repente, ocorreu-lhe: "Procurei em todos os lugares para encontrar uma resposta para a minha pergunta, 'Há iluminação?' mas nunca questionei a busca em si, porque presumi que a iluminação existe e que tive que buscá-la. No entanto, é a própria busca que tem me sufocado e me mantido fora do meu estado natural. " Ele disse a si mesmo: "Não existe iluminação espiritual ou psicológica, porque não existe tal coisa como espírito ou psique. Fui um idiota ao longo de toda a minha vida, procurando por algo que não existe. Minha busca está no fim. "

  Sua fome voraz de descobrir o ‘país das maravilhas” prometido pelos profetas e mestres espirituais se extinguiu. A ocorrência teve efeitos reveladores em seu corpo. Muitas mudanças físicas ocorreram dentro dele, as quais confundiram os médicos e amigos ao seu redor. Daí em diante, sua vida tornou-se uma vida em que "não havia pensamento para o dia seguinte, nem tristeza pelo passado". De acordo com U.G., tristeza e alegria existem apenas no reino da mente. O corpo não está interessado em nada. Seu único interesse é sobreviver aos desafios do dia-a-dia que encontra de momento a momento. As declarações de U.G. são enigmáticas e, se ouvidas ou lidas fora de sua presença, podem ser interpretadas como produto de um intelecto supremo ou como uma ladainha de um louco. Suas palavras desafiam a estrutura lógica a que estamos acostumados. U.G. descarta a possibilidade de qualquer experiência, exceto por meio do conhecimento. Segundo ele, é o conhecimento que cria uma experiência e é a experiência que, por sua vez, fortalece o conhecimento. 'Conhecimento' não tem qualquer conotação metafísica ou epistemológica. É simplesmente que algo é uma cadeira ou uma mesa, ou que alguma sensação é prazerosa ou dolorosa. Na verdade, mesmo o processo de reconhecimento e nomeação de algo faz parte do conhecimento. A operação total é designada 'pensamento'. O que nos distingue de U.G. é que este conhecimento — que opera através do processo de pensamento —  está em um estado descomplicado em U.G., enquanto que há uma corrente subterrânea constante de atividade de pensamento dentro de nós, gostemos ou não. Nossa mente está constantemente produzindo pensamento após pensamento em várias formas, cores e tamanhos.

 U.G. diz que é por meio desse pensamento constante que estamos mantendo a continuidade do que chamamos de 'ego' ou 'eu'. Em U.G. a continuidade do pensamento foi rompida. Os pensamentos vêm a ele de uma maneira desconexa, sem qualquer ligação. Ele pensa apenas quando há demanda por experiência. Caso contrário, o que existe é apenas a atividade simples dos sentidos - o continuum de estímulo e resposta. Uma vez que é a atividade de pensamento contínuo que dá a ilusão do 'ego' ou 'eu', não há nenhum sentimento de 'ego' ou 'eu' dentro dele. U.G. diz que o estrangulamento sobre o organismo físico daquilo que é chamado de conhecimento tem a potência de milhões de anos. O conhecimento que opera na forma de pensamento estabeleceu um império paralelo próprio, em oposição aos caminhos da natureza. Mas o pensamento 'conhece' sutilmente sua natureza efêmera, e o medo de sua existência fugaz o impulsiona a erguer uma estrutura maravilhosa de cultura, civilização, religião, política, as várias instituições e valores que governam nossas vidas, e, na verdade, tudo o que podemos conceber. Todas essas facetas da vida humana nada mais são do que adereços por meio dos quais o pensamento tenta se entronizar na permanência. Em outras palavras, o que chamamos de 'eu' ou 'você' é o pensamento que busca a permanência em inúmeras atividades. U.G. diz que somente quando, por algum milagre ou estranho acaso, o organismo vivo é libertado do estrangulamento do império criado pelo pensamento, o corpo, com sua inteligência extraordinária, pode libertar o ser humano para que ele possa 'cair' em seu ' Estado natural'.

 Mas, de acordo com U.G., não se pode usar a própria vontade ou passar por qualquer disciplina rigorosa para chegar ao estado natural. Tal estado está além do campo da experiência. U.G. freqüentemente descreve sua situação assim: "Como tudo aconteceu? Não sei. O que é que aconteceu? Não sei. Aconteceu alguma coisa?" Ele diz que o que aconteceu com ele é tal que não pode ser compartilhado por ninguém e que o estado natural não pode ser expresso ou contido no pensamento. Portanto, "nenhuma comunicação é possível e nenhum diálogo é necessário". Para que serve o chamado 'estado natural' para pessoas que não estão funcionando nele? Afinal, a pergunta é feita de uma perspectiva de estado não natural por mortais que procuram uma panaceia para todos os seus problemas. Paz e felicidade são o que todos nós buscamos, e o 'estado natural' do U.G. não nos oferece experiência de nada parecido. Então, o que nos resta são nossos pontos de vista sobre a pessoa, dependendo de nossos preconceitos e condicionamentos. Chame-o de uma fraude ou de uma aberração da natureza, mas quando você está em qualquer lugar perto do vórtice da presença do U.G., você fica perplexo. Suas expectativas e opiniões são destruídas. Você fica se perguntando qual é a fonte de onde brotam suas declarações. Abaixo de sua aparente forma humana existe algo que desafia qualquer descrição.

Frank Norohna 21/88 Lodi Colony Nova Delhi
 
Do livro “ Thought is Your Enemy” - SOWMYA PUBLISHERS -1991
 
 

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

LIVRE-ARBÍTRIO VERSUS DETERMINISMO

 



                    O  livre-arbítrio é um dos assuntos mais complexos e difíceis de serem abordados. Dizer que não existe livre-arbítrio seria o equivalente a dizer que somos todos joguetes de forças superiores — tais como bonecos — o que significaria  tirar a responsabilidade por nossas ações. Por outro lado, afirmar que existe um livre-arbítrio incondicional e absoluto seria, da mesma forma, negar as forças reguladoras do equilíbrio universal abrindo caminho para o caos. Assim sendo, como entender essa questão?

                   Jesus disse certa vez: “ Até o cabelo de vossas cabeças estão contados”. O que aponta para a ideia de que existe uma força suprema controlando/coordenando tudo do macrocosmo ao microcosmo. E, de fato, não é difícil perceber que em todo o universo há um princípio inteligente que parece coordenar e manter todas as coisas através de leis matemáticas perfeitas e exatas. O sábio Ramana Maharshi disse certa vez que “ Aquilo que não estiver destinado a acontecer, não acontecerá— não importa o quanto você tente. E aquilo que estiver destinado a acontecer, acontecerá  não importa o quanto você faça para evitar”. Na tradição hindu, essa Lei é chamada de carma. Então, se tudo, de uma certa forma já está programado para acontecer ou não acontecer, onde fica livre-arbítrio?

                   Como eu já citei, o livre-arbítrio total e absoluto não existe. O que existe é uma “margem de liberdade”, por exemplo, quando precisamos fazer algumas escolhas. Apesar de acreditarmos que escolhemos livremente, nossas vontades estão condicionadas por uma cadeia de causas e efeitos. É através dessas escolhas  que a vida nos testa, impulsionando ou não o processo evolutivo. É como quem vai por uma estrada que de repente se divide em duas e você tem que escolher por qual delas seguirá. Nem sempre escolhemos a certa — mas mesmo a “errada” servirá para nós como uma importante lição no futuro. Mas, ao contrário, quando escolhemos a “certa” então nossa vida pega um novo impulso rumo ao despertar. Sendo assim, quando não tomamos uma atitude que lá no fundo sabemos ser a correta, por medo ou covardia, por exemplo, é como se traíssemos  nossa alma e , lá na frente, veremos o quanto fomos tolos. Em suma, as nossas escolhas são “pré-determinadas” por forças cármicas que nós mesmos colocamos em ação.

                  Vou usar meu próprio exemplo para ilustrar essa questão. Quando completei oito anos de casado, em um casamento desgastante e sem sentido, vi que tudo que eu estava vivendo tinha sido resultado de meus próprios desejos imaturos. Eu mesmo operei aquelas forças que se voltavam contra mim em forma de dor, angústia e infelicidade. Diante de situações como essa, cada um reage de uma forma diferente: alguns se acomodam, outros piram, adoecem, cometem besteiras, etc. Mas eu me voltei para um poder maior que eu sabia existir e que era o único que poderia me livrar daquela escravidão. Então, pedi a Deus com todo o fervor e sinceridade do meu coração para que me libertasse daquela situação dolorosa. E , assim aconteceu. No outro dia, eu estava me sentindo forte o bastante para me desfazer daquele casamento infeliz. Ou seja, o carma não é uma lei irredutível. Há forças mais poderosas do que ele que o homem precisa aprender como “controlá-las”. Na verdade, ninguém controla nada, mas você aprende como usar uma força maior para anular a ação de uma lei menor.

                    O carma não pré-determina as ações, ele apenas as condiciona. Se tudo já fosse determinado de antemão não haveria chances de salvação — todos estariam condenados para sempre. Afinal, em uma corrente fixa de causas e efeitos não há possibilidade de libertação. A realidade, porém, é outra: causas e efeitos podem ser transformados pela intervenção de forças superiores ao carma. De fato, quando o homem se conecta com sua luz interna — seja através da oração, meditação, compreensão, ação, etc. — ele atua nas raízes profundas do carma e, então, sua vida começa a mudar. No entanto, caso o sujeito não busque meios para mudar a si mesmo, o carma não mudará e , assim, os efeitos também não mudarão, levando o sujeito a viver preso em uma cadeia de fenômenos recorrentes e repetitivos.

                     No fundo,  precisamos ter a ilusão do livre arbítrio pois, sem ela, não amadureceríamos como seres humanos. É através do sentido do livre-arbítrio que desenvolvemos valores como razão, prudência, responsabilidade, discernimento, compaixão, etc. Além disso, quanto maior a liberdade, maior a responsabilidade. Aprender a equilibrar esses dois é um dos maiores desafios da escalada humana rumo ao despertar. Essas virtudes precisam de liberdade para serem desenvolvidas. Do contrário, não terão os alicerces que lhe dão vitalidade e sentido. Em outras palavras, as pessoas precisam acreditar que são livres para que possam fazer o uso correto e responsável dessa liberdade e, assim, evoluírem espiritualmente. Mas nada está totalmente solto e ao acaso.

                    Pouca gente sabe, mas Krishnamurti tinha um forte sentido de proteção de que nada, nenhum tipo de mal poderia atingi-lo. E, de fato,  ao longo de sua história sabe-se de, pelo menos, três vezes que tentaram matá-lo — sem sucesso. Em suma, lá no fundo, ele sentia que era protegido por forças superiores que cuidavam para que sua missão pudesse ser cumprida com êxito.

                    Mas, Jesus, ao contrário, já sentia o que viria pela frente e que, por mais que tentasse, não iria se livrar do destino que o aguardava. Além disso, tentaram pegá-lo várias  vezes antes de “sua hora” mas forças desconhecidas o protegiam da cólera violenta dos seus algozes. Ao chegar  sua hora, no entanto, qualquer  esforço no sentido contrário seria em vão.

                    O livre-arbítrio, portanto, está atrelado à outras forças como carma, dharma, etc. Em suma,  você tem o livre-arbítrio, mas ele é limitado e comandado por leis que estão muito além de nossa compreensão. Ou seja, o livre-arbítrio incondicional é apenas uma ilusão. Sem essa ilusão, o ser humano não daria vazão aos seus extintos e impulsos primitivos pois não se sentiria livre para fazê-lo. Já, com a ilusão da liberdade, ele , equivocadamente, considera que pode fazer o que quiser, com quem quiser e que isso não lhe trará consequências. Todavia, ele só faz aquilo que lhe é permitido fazer. Já aquilo que não lhe for permitido,  ele não faz . Entretanto, o próprio sujeito não percebe esse jogo e, por isso, sofre. E enquanto não se der conta de que sua vida e ações estão sendo comandadas pelas forças internas ocultas e desconhecidas do inconsciente ( carma) — ele não encontrará  a paz e a verdadeira liberdade.

                      Mas, ao contrário, ao compreender que ele mesmo é sua prisão, então ele começa a se libertar dos condicionamentos do passado, do nascimento, da genética, das experiências e  de outras encarnações — caso haja — que criam as tais “vássanas” ou tendências  inatas. E, assim, ao começar o processo de libertação dessas forças limitantes, o homem  vai se conectando com os poderes da luz dentro de si. Dessa forma, ele liberta-se das forças opressoras do carma e se conecta com um Poder Maior, que Jesus chamava de Pai e que Krishnamurti chamava de Suprema Inteligência. É nessa mudança profunda de paradigma que o homem finalmente se liberta dos seus algozes internos. 

O homem livre é aquele que libertou-se das garras do seu próprio ego. Dai por diante, haverá total harmonia e equilíbrio em sua vida e um sentido de liberdade cujas palavras não podem exprimir.

( Alsibar Paz)

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terça-feira, 21 de setembro de 2021

A ILUSÃO DA ' AUTORREALIZAÇÃO'

 



A primeira vez  que ouvi essa expressão foi através de um livro dos Hare-krishnas intitulado 'A Ciência da Autorrealização'. Era um pequeno livro com a imagem de Vishnu na capa. Foi incrível o impacto que aquele título teve sobre mim na época.

Os livrinhos dos hares eram fininhos e baratos. Mas, mesmo assim, eu não tinha dinheiro para comprá-lo. Juntei minhas economias e , na primeira oportunidade que tive, comprei-o. Lembro-me da emoção ao começar sua leitura, emoção essa que foi, aos poucos, tornando-se decepção. Todas as minhas expectativas foram por água abaixo. O livro era filosoficamente fraco e, para ser sincero, não falava nada sobre autorrealização. Mesmo assim, aquela ideia ficou  impregnada de tal forma na minha mente que, dali por diante, fui procurar caminhos que me levassem à realização espiritual.

Hoje, passados algumas dezenas de anos, vejo que há grandes problemas com esse termo.

A palavra autorrealização passa a falsa ideia de que existe um 'objetivo' ( a realização de si mesmo).  E, para alcançá-lo é necessário um meio - sadhanas, técnicas e práticas espirituais. E, o mais grave, reforça a ilusão de que existe um 'eu' não realizado que precisa se realizar no futuro. Ou seja, três equívocos que fazem a pessoa se perder casa vez mais, ao invés de encontrar-se.

Mas qual é o fato? Qual a verdade?

A verdade é que o eu não existe. Se ele não existe, não pode ser aperfeiçoado. Se não pode se aperfeiçoar, então não há nenhum objetivo. E se não há objetivo, não  há necessidade de sadhanas, técnicas, meditações e práticas espirituais.

Compreender todo esse processo de nascimento do sentido do 'eu' é o que mais se aproxima da ideia de autorrealização. Mas por que ele é tão difícil de ser visto e compreendido?

É simples: a palavra autorrealização tem um forte apelo sobre a mente por reforçar o ego, ao invés de enfraquece-lo. Sentir-se uma pessoa autorrealizada dá um enorme prazer pelo sentimento de superioridade que  tudo isso provoca.

Porém, o verdadeiro sábio 'autorrealizado' é aquele que percebeu que não há um "eu" para se realizar. Não havendo um 'eu' cessam todos os esforços e sem esforço cessa o tempo. Até que, finalmente, tudo se reduz a nada. É nesse sentido de ser  'nada' que tudo se realiza.

No entanto, como ninguém quer ser reduzido a 'nada',  as pessoas fogem daqeles que pregam a verdade preferindo seguir caminhos que lhes dêem respaldo para sentirem que são alguma coisa - mesmo que isso não passe de uma grande ilusão.

(Alsibar Paz)

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sexta-feira, 17 de setembro de 2021

A TERCEIRA VIA ESPIRITUAL

 



Ao longo da minha caminhada, eu me deparei com diversas visões sobre a espiritualidade. Havia sempre duas correntes predominantes: uma mais conservadora e a outra mais liberal. A conservadora era marcada pela disciplina, controle dos sentidos e distanciamento dos prazeres sensoriais. Segundo essa visão, ninguém chegaria até Deus se não houvesse um completo e absoluto controle da mente e de si mesmo.

Por outro lado, havia a outra corrente encabeçada por gurus liberais como Osho. Essa via não exigia nada de controle ou disciplina. A ordem era fluir, observar, estar presente, ser completo e permitir tudo que se apresentasse. Percorri os dois caminhos dando o melhor de mim. Mas nenhum dos dois lados me trouxe a paz que eu tanto procurava.

Intuitivamente, havia em mim uma certeza íntima de que existia uma terceira via distante tanto do controle quanto da  permissividade. Um caminho livre  tanto da angústia do esforço, quanto da ilusão da facilidade. Essa intuição me levou a confiar no direcionamento dado por Krishnamurti.

Krishnamurti aponta o mesmo caminho de grandes mestres como Buda, Jesus e Lao Tsé. Todavia, sem os penduricalhos culturais e religiosos. Jesus, por exemplo, enfatiza a oração como caminho para o 'Pai'. Apesar de JK não falar sobre a oração, ela não contraria seus ensinamentos na medida em que lhe aproxime da Verdade.

A terceira via, portanto, é um caminho de investigação e experimentação daquilo que é verdadeiro, bom e útil. Não é um caminho de obediência cega, mas de autodescobrimento contínuo em que o sujeito é seu próprio protagonista.

Nesse contexto, os mestres servem muito mais de referenciais do que de juízes e fiscais.

À primeira vista, a terceira via pode parecer fácil  mas não é, uma vez que, o ego estará sempre sendo testado e confrontado em suas próprias ilusões e limitações.

Caminho do Meio, Jnana Yoga,  Caminho do Homem Astuto, etc. são alguns dos nomes usados ao longo do tempo para nomear essa terceira via  que tem na compreensão sua principal característica. Apesar desse caminho não exigir esforços sobre-humanos, ele demanda do indivíduo uma constante e apaixonada busca pela verdade acerca da natureza dos fenômenos, de si mesmo  e dos conceitos tidos como verdades absolutas.

Para isso, a reflexão, a meditação e a investigação imparcial  são os grandes instrumentos usados pelo buscador na sua viagem até o seu objetivo. A terceira via é uma busca constante pelo equilíbrio e, por isso, o ego a evita já que, no equilíbrio, ele perde sua centralidade e poder.

Sim, minha intuição estava certa:  existe uma terceira opção que não é nem fácil, nem difícil - tudo depende da força ego. Quanto mais poderoso ele for, maior será a dificuldade. Mas, quando o ego desperta para o fato de que ele mesmo é seu maior obstáculo, então o caminho se torna  leve, natural e prazeroso. Todavia, não é fácil perceber isso pois o ego não consegue aceitar que exista vida além de suas fronteiras e fora do controle de sua jurisdição

By Alsibar

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