Mostrando postagens com marcador ILUMINAÇÃO. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ILUMINAÇÃO. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de abril de 2021

O APEGO FUNCIONAL E A DESMISTIFICAÇÃO DA ILUMINAÇÃO

 


A Leia é, a meu ver, uma das poucas pessoas realmente iluminadas desse Brasil- no sentido dado por Krishnamurti. Faz apenas dois anos que ela começou sua busca espiritual e um ano que conversamos bastante sobre Krishnamurti e seus ensinamentos. Sempre que possível, trocamos ideias e ela me fala sobre seus insights. Nesse diálogo, conversamos sobre a questão do apego e também sobre a desmistificação da “ iluminação”. Vale a pena conferir!

 Alsibar -Olá Leia bom dia, tudo bem?

Leia-Tudo bem graças a Deus! Ontem tive um “insight” a respeito do apego, que vou compartilhar contigo: o que liberta a mente não é o desapegar da coisa apegada mas o entendimento, a compreensão do porquê  alguém se apega.  De fato, é o medo de “não ser". Medo do vazio. Isso me trouxe um relaxamento, um silêncio muito profundo!

 Alsibar -Lindo! É exatamente isso !

Leia - Engraçado que você só  observa que se apega e a luta termina.

Alsibar -Yes ! Cessa o conflito.

Leia -Eu achava que a libertação seria você estar desapegado de tudo, só que não é! É quando  você se conhece de verdade e não pode fazer nada a respeito!

Alsibar - Sim, porque cessa a luta.

Leia - Só que nisso está a grande mudança: a “não ação”! Jesus ! Um “vazio” imenso se abre sem luta.

Alsibar - A luta sustenta mais ainda aquilo do qual  você quer se livrar.

Leia - Simmm! Exatamente! Não tenho mais controle nem memória de nada... me perdendo de mim!

Alsibar - Leia... Você já mergulhou.... E assim como eu, Jesus, Krishnamurti, UG, Vimala, ou qualquer outra pessoa, você vai se aprofundando cada vez mais.Você vai chegar no estágio de completo desapego. E só terá o apego funcional. O que seria o apego funcional? O necessário pra você viver e lidar com as questões práticas da vida .

 Leia - Entendo sim: necessidade básica de sobrevivência.

 Alsibar - Exatamente! Foi essa a 'jogada de mestre' que JK fez com o Raja Gopal. Ele não esperava que K o processase para reaver seus bens e direitos. Você entende mais ou menos xadrez?

Leia - Não (rs)

 Alsibar - Tem a jogada do cavalo. É, tipo, uma jogada imprevisível e inesperada. O Raja nunca imaginou que JK fosse demonstrar apego às coisas materiais. E aí foi que ele quebrou a cara. Esse é o apego funcional. Ele tem uma razão , um sentido...

Leia - Humm...entendi! Acordei ontem pensando num vídeo do Krishnamurti em que  ele fala de religião e meditação e, à tarde,  assisti ele por três vezes. Parecia que algo dentro de mim queria repetir o vídeo até que a ficha “caiu”.

Alsibar- Então,  não é um simples apego... Mas um apego “necessário” em prol de uma razão maior.

Leia – Simm!

Leia -  Apego que não traz conflito, nem sofrimento! Muito diferente deste que falamos.

Alsibar- Isso mesmo! Não traz porque é movido por uma razão maior. Não é um simples capricho do ego.

Leia - Entendi.

Alsibar - Vou dar outro exemplo: o seu trabalho. Você precisa dele. Então tem que amá-lo e protegê-lo. Precisa ter esse 'link' com ele.

Leia - Sim! Amo minha vida ali. Fico um dia sem trabalhar hoje e já quero ir pra cozinha. rs

Alsibar - Porque  ele é uma fonte de prazer e sobrevivência.

Leia - Amo mesmo! Não é “trabalho”!

Alsibar- Leia,  a propósito, você tem noção de quanto tempo faz que nós conversamos?

Leia - Bom, comecei a busca faz 2 anos. Faz 1 ano que a gente começou a conversar. Antes completamente dormindo.

Alsibar - Sim! Foi a minha previsão também. Então... Mesmo contabilizando os dois anos...Pra algumas pessoas isso parece impossível! Mas defendo a tese de que isso é relativo e depende de cada um.

Leia- No meu caso, eu tinha uma intenção profunda. Reflexão dia e noite. Não parei um segundo até compreender.

Alsibar - Sim, eu também tinha. Mas  você levou dois anos pra chegar a uma compreensão que levei a vida toda rs.

Leia - Acho que essa intenção  vai abrindo as portas do entendimento.

 Alsibar - Então qual o diferencial? Tem gente que não acordará nessa vida por mais que pareça tentar. Outras levarão muitas...

Leia - Verdade! Talvez por serem muito fechados, no fundo não querem mudar. Quem quer mudar não desiste.

 Alsibar - Bom.... É isso também! Que é o que chamam de “carma”. Carma é o que você é: seus pensamentos, sentimentos e atitudes. Se você é arrogante, orgulhoso, duro.... Esse é o teu “carma”. Porque ele fecha os teus caminhos de crescimento. Ou seja, você MESMA se fecha . Mas aí tem um fator secundário, mas não menos importante: o LIXO DE CONHECIMENTO ACUMULADO!

Leia - Sim! A própria pessoa é seu carma. Ela cria sua própria  “caixa”.

Alsibar - Exatamente. Por exemplo, a minha “caixa” era pesada e cheia de tralhas. Levei anos pra limpá-la.

Leia - A de todos nós...

Alsibar - Mas  a sua tinha pouca coisa em comparação com a minha. A  sua só tinha o Joel Goldsmith que eu me lembre. E parece que teve contato com as coisas do Hélio Couto.

 Leia -Mas acho que tinha também porque foram dois anos doloridos... Não foi fácil... Tinha dias que a sensação era a de estar arrancando a pele.

 Alsibar- Mas estou me referindo especificamente às tralhas do “conhecimento”, das leituras nesse campo. Por exemplo, você não conhecia o Osho, nem o Advaita, ou o Gurdjieff. Esses conhecimentos que, a meu ver, mais atrapalham do que ajudam. Porque dão margem à interpretações equivocadas, inflam o ego  na medida em que fortalecem a ilusão do “saber”. Obviamente que você tinha suas questões pessoais a serem resolvidas. Mas não tinha a ilusão e a prepotência de que já sabia o caminho. Pelo menos, não tão forte como a maioria dos tais “espiritualistas” modernos.

Leia - Realmente não tinha. Não li ninguém. Nem um livro sequer. Só vi vídeos do JK e os seus. O K foi tudo!

Alsibar-Pois é disso que falo. Estou falando das tralhas do conhecimento livresco. Alguns confundem e até desvirtuam as pessoas.

Leia - Sim, egos guiando egos.

 Alsibar - Por isso continuo meu trabalho . Tentando esclarecê-las, avisá-las.Osho não é JK. Tolle não é JK. Zen não é JK. Advaita não é JK. Gurdjieff não é JK.

Leia - Não sei nada desses daí. Rsrs. Realmente  K é único. Fiquei só nele , ali já tinha tudo.

 Alsibar – Lamentavelmente , as pessoas tendem a botar tudo num saco só e acabam ficando perdidas. Que foi o que eu também fiz.

Leia- Sim ! K não escondia nada. Mandava a “real” na cara da gente. A verdade sobre o que realmente somos.

 Alsibar - Então, quando eu quebrava a cara com Osho, eu pedia a Deus uma luz.... E meu coração me levava ao K. Depois foi com o Gurdjieff... novamente Deus me apontou o “K”.

Leia - O primeiro vídeo do K me pegou de primeira...

 Alsibar - Porque você não tinha o lixo do “ conhecimento acumulado”.

Leia- Algumas pessoas me perguntaram : como  você consegue ouvir esse velho estranho?

Alsibar - Pois é, sua mente estava fresca, nova, não contaminada. Que é o estado mental que JK insistia que as pessoas estivessem ao ouvi-lo.

 Leia - Fui “direto ao ponto”, não tinha muita bagagem. Hoje percebo o “falso” facilmente.

Alsibar- Essa “bagagem” ao invés de ajudar, atrapalha. Ela é muuuuuuito pesada pra muitas pessoas e o pior  é que  elas se identificam com a bagagem e aí ficam confusas.

Leia - Porque a confusão aumenta o conflito.

Alsibar- Sim, mas por que elas se identificam? Porque isso lhes dá um sentido de superioridade e prazer. E não percebem que é o ego que está se fortalecendo nisso tudo.

Leia – Simm, muita coisa só alimenta o ego.

Alsibar - E o resultado final? Dor e sofrimento pois ficam presas em suas próprias teias egóicas.

 Leia - Graças a Deus agradeço por ter despertado um pouco pelo menos porque quando a gente se conhece, conhece o mundo. Na compreensão de como eu" funciono” compreendo o outro. A liberdade nada mais é do que parar de brigar com tudo o que sou.

Alsibar – Isso. O meu caso foi muito específico e às vezes procuro entender por que ele foi tão demorado e penoso. E aí me vem a resposta: como eu poderia fazer esses paralelos e esclarecer as pessoas sobre esses equívocos se eu mesmo não tivesse passado por eles?

Leia- A gente acha que vai se libertar primeiro e só depois sentir paz plenitude. Só que não. Sou “isso”. FIM! Mas é muito relaxante. É  o descansar, apaziguar a mente.

Alsibar - E aí, quando digo que conheço uma “iluminada” ninguém acredita. rs

Leia - (rsrs) Não me sinto assim! Estamos todos no mesmo barco. Só me compreendo um pouco mais e parei de “brigar” comigo mesma.

Alsibar - Óbvio que não sente. Se sentisse não seria. Por mais que dissessem a JK que ele era Iluminado ele não se sentia. O mesmo com o UG. O Iluminado nunca sente que seja. E essa é a marca das mentes Iluminadas. Isso quando o sentimento é sincero, óbvio.

 Leia - Acho que tem muita carga em cima desta palavra “iluminado” porque é só o fato da pessoa se auto conhecer, mais nada. As pessoas criam  a ilusão de que o iluminado é algo a mais que os outros. Há uma espécie de endeusamento. Apesar da luz do entendimento, continua tudo igual.

 Alsibar - Sim. Autoconhecimento é Iluminação. Essa palavra está muito carregada sim. E por isso que esse movimento iniciado por JK não pode terminar. Exatamente pra “desmistificar” o termo. E trazê-lo ao seu real sentido. Uma vez que ninguém se torna mais ou melhor do que ninguém. Apenas passa a sentir  paz, alegria, amor, compaixão, felicidade.

 Leia -Sim. Felicidade não produzida,  mas que surge espontaneamente da ausência do conflito. A paz sempre esteve ali. Quando cessa a “briga interna” ela toma espaço.

 Alsibar - Isso não torna ninguém um “santo”, superior ou melhor do que ninguém. Nem mesmo “autoridade” . Porque se ela se sentir autoridade, então a mutação não aconteceu.

Leia - Óbvio. Pois quem se conhece mesmo a fundo não vê ninguém diferente de si mesmo

Alsibar – Isso.

Leia - Lembra que uma vez te perguntei se conhecia algum iluminado no Brasiil? Naquela época eu ainda não tinha entendido nada.

 Alsibar- Ainda bem que eu não conhecia. A propósito, ontem vi um vídeo em que o Bohm pergunta ao K se o iluminado sente a dor e o caos do mundo. E ele responde, meio embaraçoso, : é claro que sim! Logo depois ele “tira de tempo” e fala de uma outra forma a mesma coisa.

 Leia - Sim, é verdade. O mesmo sofrimento meu é o do mundo, mas o mundo ainda luta. E a gente sente compaixão porque não há nada que possamos fazer.

Alsibar: Isso . Foi nessa mesma linha de raciocínio. Mas  o que você  pode você faz-dentro das suas capacidades e limitações.

Leia - Sim, porque quando alguém recebe a luz do entendimento já benefícia toda a consciência humana. Não é algo individual, só da pessoa.

 Alsibar : Isso mesmo! Algumas pessoas pensam na Iluminação como um estado de graça e perfeição....algo místico, etéreo e distante. Como se a pessoa fosse viver numa eterna bolha protetora, livre dos desafios e problemas práticos.

 Leia - Simm. Essa visão leva muita gente a buscar a iluminação nesse sentido aí.

Alsibar - Mas é exatamente no dia a dia que o Iluminado encontra a energia e o sentido da vida. Antes era só conflito, dor e confusão. Depois é paz, amor, alegria, êxtase e muitos desafios.

Leia - Verdade! As situações que antes causavam conflito passa ser simplesmente a vida acontecendo. Não ficam marcas depois!

Alsibar – Exatamente! Você resolve tudo o que pode ser resolvido. De uma forma que antes seria impossível de imaginar. As “graças”, as bençãos, a inteligência, os insights, as intuições e soluções que de repente chegam “do nada”, tornam a vida muito mais emocionante significativa e plena. E tudo vai fluindo como numa dança cósmica.

Leia –Sim, recebo tudo que vem como uma “graça”.

 Alsibar - E aí é só alegria de ver esse movimento divino acontecendo. E você se deixando levar... E também agindo quando precisar, claro.

Leia -  Sim, e tem esse silêncio que de repente tá ali e você não quer tocar pra não estragar (rs)

Alsibar - Exato . Você sabe que tem que deixar quieto porque se tocar ou até mesmo “olhar”- pode estragar,  ao criar uma “onda” de turbulência.

Leia – Verdade. Era a briga, a busca, o “vir-a-ser” que faziam barulho. Só isso  já maltrata demais neh? Como esse mundo sofre.

Alsibar – Sim, muito. Muito mesmo pois do conflito interior nascem todas as outras desgraças do mundo: depressão, angústia, raiva, violência, ambição, guerras de toda espécie. Porque sem paz não há amor, nem compaixão.

  Leia – Sim, por que a pessoa joga no mundo o que tem por dentro. Então o mundo sou eu.

 Alsibar – Isso! A paz interna marca o início da compaixão. Na paz o amor transborda!

 Leia - É o que sinto também por algumas pessoas. Muita compaixão porque entendo como elas funcionam. Por isso que Jesus deixou-se prender na cruz, sem luta. Essa é a “não-ação” que atua sobre  o mundo. Isso surge quando a gente entende todo esse processo.

Alsibar – Isso mesmo!

 Leia - Obrigada Alsibar, por tudo mesmo! Que a tua luz continue alcançando mais mentes!

 Alsibar : Ok, eu que agradeço pela conversa muito produtiva. Abcs!


Link do vídeo de Krishnamurti com David Bohm citado no diálogo

quinta-feira, 23 de abril de 2020

UM DIÁLOGO SOBRE O INSIGHT




Nesse diálogo, eu converso com o Juninho- um amigo e buscador sincero - sobre o tema do “insight”. Devido a importância e o  papel fundamental desse assunto para a  jornada espiritual,  resolvi disponibilizá-lo aqui para que todos os buscadores sinceros possam se beneficiar, ou tirarem algum proveito dele. Boa leitura e comentem à vontade!

 Juninho: Na sua experiência pessoal, existe algo que pode ser dito estando além da mente e do pensamento, um algo que não depende de esforço, nem de raciocínio, um algo presente por si só?

Alsibar: Sim, claro. Isso é dito desde Buda. E eu também vi por mim mesmo que isso existe. O “insight” é isso.

 J: Mas isso é passível de ser perdido ou depende das condições mentais? Há Algum momento que você não está nisso e no outro penetra nisso mediante alguma atitude mental?

 A: Isso não é "perdido", nem "achado” porque não é uma "coisa" - não é como um objeto que você pode achar ou perder. Não é possível afirmar que isso dependa das condições mentais ou não-  pois parece não depender de nada. Isso vem por si mesmo, e também se vai da mesma forma que veio. Vamos pensar numa analogia: o  insight é como um raio. Nem todo raio toca o chão, mas há aqueles que são tão poderosos que acabam causando danos  como incêndios e mortes. O insight é como um raio, ele vem e desaparece. Mas o que ele causa em você vai depender da intensidade do mesmo. Ele pode trazer uma compreensão parcial de algo- o que JK chamou de "insight parcial”- o que para ele não tinha muito valor. Mas os verdadeiros insights têm poder de destruir/transformar o  centro do eu, do ego- o que JK chamou de  “mutação”. O insight, assim como um raio,  vem e vai. Mas seus resultados ficam , permanecem, assim como o raio físico  que deixa seus rastros de destruição por onde passa.


 J: Quais os mecanismos pelos quais isso se vai?  Atenção  pode evidência-lo? Existem algumas características que podem trazer a percepção disso? Seria possível que isso se firmasse? Será que isso veio para JK e ficou?

A: Entenda:

1. o ego não pode controlar nem causar isso. É um movimento que se origina fora do tempo e espaço. Então não há "mecanismos" nem para trazer, nem para liberar isso.

2.Não tem nada a ver com a atenção da mente ordinária, nem do esforço, nem de prática nenhuma .

3. Não há certeza nenhuma nesse campo. É algo sagrado, como uma espécie de "graça". Ninguém sabe ao certo como ele funciona. Há apenas suposições pois é um grande mistério.

4. Não se firma, não é fixo, não é morto- é algo vivo.  Pode durar um instante, dias, meses ou anos.

5. Não. Não ficou em ninguém de forma permanente e constante. Pelo menos é o que se infere de todos os místicos que li- inclusive Jesus.

J: Mas se é assim então não é um algo que está sempre presente sempre disponível? Sempre experienciável? Como uma luz sempre acesa na qual as experiências acontecem?

 A: Não. Não é algo “experienciável” . Aquilo que se experimenta não é "isso". Só se pode “experimentar”  algo no campo do tempo,  do espaço, da memória e da mente. Aquilo que se pode “experimentar”- como alguém experimenta uma comida, um passeio, ou um carro- não é “isso”. “ Isso” não tem nada a ver com experiências. Nesse estado não ha experimentador, nem experiência. Toda divisão cessa. Isso já aconteceu a diversas pessoas. Mesmo àquelas não religiosas ou espirituais, que nunca leram, nem praticaram nenhum tipo de exercícios espirituais. Mas, por outro lado,
isso também aconteceu a muita gente que tinha sede pela Verdade. Buda, Jesus, Paulo de Tarso, Santo Agostinho, Padre Pio, UG Krishnamurti, Dogen, Joyce Collin Smith, Rodney Collin,  Vimala Tankar - são alguns desses exemplos.

J: Mas no momento que isso não está acontecendo, de alguma forma eu sou inferior ou menos luz e vida em relação ao estado de quando isso está acontecendo?

 A: Sim , claro. O que difere o insight que eu tive ano passado do de Jesus por exemplo ? A intensidade, a força, o poder.  O que difere os insights que eu tive na adolescência desse último? A mesma coisa : esse último, por ter sido mais forte, trouxe mudanças mais drásticas e profundas.Quanto mais intenso é o insight mais revelador e transformador ele será.

J: Acho que você está se contradizendo agora .

A: Por que?

 J: Você cita esses estados como bons, desejáveis, bem vindos, agradáveis. Mas você já me disse que o desejar esses estados causa prisão, apego... e agora?

A:  Ótima pergunta. Você não pode desejá-lo. Você só pode desejar uma coisa : conhecer a Verdade. Se desejar esse estado, provavelmente nunca o encontrará. Mas se desejar conhecer a Verdade certamente a encontrará. Todos que desejaram com toda sinceridade do coração conhecê-la, encontraram-na.  Todos que tenho conhecimento tais como :Buda, Jesus, Santo Agostinho, O Canal das Cartas de Cristo, UG Krishnamrti etc etc- dentre outros.

J:  Olha como são as coisas. O curioso é que Sua experiência é a mesma descrita no advaita * a forma que você explica é similar ao advaita, apenas não usa os mesmos termos.

A: Pois é, mas quando falo sobre isso, que essa compreensão é a verdadeira não-dualidade, ninguém acredita.  Por isso prefiro nem citar o advaita. Tem sempre um guru, ou um “especialista” pra discordar de mim. Também não dou muita importância a isso. Não estou aqui pra provar nada a ninguém e nem quero convencer ninguém de nada.

J: Eu acredito. E se você disse aquele dia que eu tenho algum entendimento de advaita. Eu declaro que você realizou aquilo que o advaita aponta.

A: Grato amigo! Fica na paz!

(Editado e revisado por Alsibar)

* Advaita quer dizer “não-dualidade” e se refere ao ramo do Vedanta que defende a não- dualidade como essência última da existência.

Repostagem permitida desde que seja dados os devidos créditos e o endereço eletrônico da postagem:

https://alsibar.blogspot.com/2020/04/um-dialogo-sobre-o-insight.html




sábado, 5 de outubro de 2019

QUAL O CAMINHO PARA A ILUMINAÇÃO? (What´s the way to the enlightment?)



Gostei muito desse diálogo entre mim e um amigo do Face, o Aramísio. Nele, falamos sobre  as técnicas de meditação do  "livro dos Segredos" do Osho, viagens astrais ,a natureza do ego e claro- iluminação. Achei-o bastante rico e esclarecedor  e , por isso,  resolvi transcrevê-lo e transformá-lo num texto para o Blog de forma que todos  possam se beneficiar com a discussão e reflexão. O texto final tem pouquíssimas alterações e  edições em relação ao diálogo original. Espero que gostem e retenham aquilo que lhes for benéfico e proveitoso. Ahhhh.... e fiquem à vontade para opinar. Boa leitura!

Aramísio: O que você acha da crença de que uma vez em viagem astral, pode se visitar no templo da sabedoria muito conhecimento em relação a tudo. Seria verdade?

Alsibar-Mentira.

P: O pior é que muita gente fala isso.

Als: Viagem. Fantasia. Alucinação. Mentira.O próprio Krishnamurti negou a  história de suas viagens astrais e supostos encontros com os mestres . Bom, a viagem em si existe. Só não é como as pessoas imaginam ou gostariam que fosse.

Ara: E as 102 técnicas do “Livro dos Segredos” do Osho, tem alguma que você recomendaria?
Als- Não estou me lembrando...

Ara: É o melhor material do Osho, são 6 volumes. É o melhor material que já li.Ele apresenta as 112  técnicas mais conhecidas da história, para a Iluminação.

Als- Ahhhhhhh.... sim. Li na adolescência. Não recomendo nenhuma . Nenhuma técnica pode lhe iluminar.

Ara-Então qual seria o melhor caminho, maneira ou forma?

Asb- Nenhuma. Repito: nenhuma.

Ara- Nem a do Ramana: a auto inquirição "Quem sou eu"?

Als: Você conhece alguém que se iluminou só praticando isso? Acha mesmo que uma simples técnica seria capaz de iluminar alguém?

Ara: Não conheço.Mas como no Brasil não há tanto!

Als: O "caminho" da iluminação não é fácil. Nem simples. Não é pizza. Não é fast food . Não está à venda no mercado e guru nenhum pode te dar ou vender. Os mestres apontam, indicam o caminho . Mas este é pessoal, individual e subjetivo. Técnicas como a do Ramana não fazem a menor diferença se não houver toda uma série de fatores em conjunto. Esses outros elementos são o que preparam a "vinda" - a técnica é apenas um meio para testar e fortalecer a fé, a vontade, a perseverança e a entrega do aspirante. Sei que reduzir a Auto-inquirição de Ramana a uma simples repetição é um equívoco, mas como o assunto principal aqui não é esse, então pra simplificar : tanto faz dizer “ Quem sou eu?” ou “ Eu sou”ou “Jesus Cristo” ou simplesmente prestar atenção à respiração ou apenas silenciar- não vai fazer a menor diferença.

Ara: Do caminho árduo, tenho experiencia pois estou nele há mais de 40 anos... Penso sinceramente que o maior problema é o ego.

Als: Com certeza. Mas um mestre habilidoso poderia até indicar a “receita” correta pra cada pessoa. Como eu disse certa vez: tá mais pra receita de médico do que de bolo. Porque cada pessoa é diferente e está em algum ponto ao longo do "caminho". Mas esse trabalho pode ser desgastante, complicado e até um fardo “pesado” . Além disso, é difícil encontrar um aluno com a disposição necessária  ao aprendizado e ao crescimento.  Em geral, o ego  não confia, se fecha e se autossabota.

Ou seja, mesmo o ego tem que ser inteligente e sábio no que diz respeito ao seu próprio papel e responsabilidade nesse processo. Ele não pode achar que o mestre o levará à iluminação sem que ele faça sua parte. O mestre é apenas uma bússola. Ele apenas coordena o trabalho, diz o que deve ser feito, mostra, aponta... mas é a própria pessoa que deve se virar para "caminhar".

Ara: Sim, o Osho falou muito disso; hoje, mesmo li sobre isso no 4ª volume do “Livro dos Segredos.” O caminho é difícil e longo sim e pode se estender por várias vidas.

Als: As pessoas não querem se iluminar amigo. Elas querem ser bem sucedidas. Alcançar um estado sublime de paz, felicidade e sabedoria. Isso não é iluminação.Tá mais pra ilusão.Elas veem o Osho naquela pose, mandando em tudo, sendo servido por todos, cheio de dinheiro, bajulação , atenção e fama e pensam: “ Uauuuuuuuuuuu! Quero isso pra mim também!”. Mas isso não é iluminação. E  é por esse e outros motivos que raramente alguém a alcança.

Ara: Verdade. Eu passei 40 anos dentro do evangelho buscando esta experiencia, mesmo sendo chamada por outro nome; mas a busca era a mesma. Só que dentro de uma religião e  eu atuando como pastor ficaria muito difícil.

Als: Sim .Todos procuram experiências. Mas Deus não é uma experiência. Não é algo que você experimenta.

Ara: O que fazer, então? Será que não existe um caminho mais definido?

Als: Tem sim. Mas ninguém chega lá com pressa, nem à força.Você tem que ajeitar sua casa interior primeiro. Depois, deixe a porta aberta. Mas não espere, não fique de vigia, não tenha expectativas. Deus é a Brisa Divina. Você não manda na brisa. Por isso, nem mesmo a espere. A verdade é que as pessoas querem coisas rápidas, resultados rápidos. Por isso, muitos se iludem e se apegam às esperanças e promessas de um guru qualquer que lhe  venda a ideia de uma iluminação “fast-food” .

Ara: Eu já li muita coisa sobre tudo isso, mas muito mesmo! Mas há muitas contradições entre os expoentes.

Als- Sim. Há mesmo . E este é mais um dos motivos que atrapalham o “florescimento”.

Ara: Como a última verdade está dentro de cada um de nós, o caminho tem que passar pelo auto conhecimento .Porque você é jogado de um lado pro outro e fica mais perdido ainda.

Alsi : Exatamente.Mas  quase ninguém sabe o que é autoconhecimento. Não é o autoconhecimento da psicanálise, portanto não é uma análise. A análise é apenas o começo do começo.

Ara: Quanto mais lemos, mais conhecimentos adquirimos, mas esse conhecimento passa a nos distanciar  mais ainda do alvo!

Als: Isso que você tá percebendo já é um bom sinal . Já é uma vela que se acende .O autoconhecimento fica nas camadas mais superficiais. Seria uma “prévia”, uma “preparação”. Mas chega um momento que mesmo o autoconhecimento como dualidade “sujeito x objeto” tem que ser superado sob o risco de tornar-se um estorvo .Vê como é complicado?

Ara: Sim, muito difícil! A nossa vida toda foi norteada na base da dualidade e  mesmo quando procuramos negá-la, ainda assim ela está arraigada na nossa base de compreensão.

Als: Isso. Por isso que é tão difícil superá- la  . Você tem que saber onde você está, se "situar" pra ela saber onde está... Precisa de uma auto análise inicial, porque é uma análise simples, conceitual, analítica. Esse  "situar-se" não é temporal, não é de distância física mas distância qualitativa, de perceber o quão distante se está  da sabedoria, do autoconhecimento . Por exemplo, pegue o seu caso:  essa sua percepção sobre as a limitação das leituras já mostra um certo avanço, uma certa maturidade em relação a quem ainda está na ilusão de que a leitura leva à iluminação.

Ara: Entendi. É como você disse: o começo do início.

Als- Isso... Então, iluminar-se é um processo de libertação das ilusões e da própria ignorância. Se você conseguisse se libertar dessas ilusões em um só golpe seria maravilhoso, mas na prática, isso é quase impossível.

Ara: Se eu pudesse, me ausentaria de tudo e focaria somente isso. Sei que não é o certo, mas não consigo ter prazer em nada mais a não ser nessa direção. Me sinto desnorteado e perdido.

Als: Todavia, é importante compreender que cada salto para o “próximo nível de compreensão”  se dá de forma abrupta... Sendo que nesse caso não há graduação.

Ara: E até inesperados.

Als: Sim. Mas você tem que preparar o terreno para que isso possa  acontecer, mas não há garantia nenhuma. Daí a necessidade da fé.

Ara: Mas é difícil até nessa preparação, nos perdemos!

Als: Verdade. Sempre há essa possibilidade de se “perder” ao longo de todas as etapas do processo de despertamento.

Ara: Sim...

Als: Você deve apenas fazer sua parte que é: preparar o solo. Adubá-lo. Lançar a semente...  Mas é Deus quem a faz florescer, crescer e dar frutos.

Ara: Verdade. Paciência e auto observação são imprescindíveis nesse processo...

Als: Depende amigo. Por isso que você tem que tentar “situar-se”. Explico: a paciência deve vir acompanhada de fé, gratidão, humildade, bondade, sinceridade, entrega, honestidade, vontade, devoção etc. Esse é o começo, a base de tudo, o arroz com feijão,  os alicerces da casa. Já a auto observação faz parte da etapa inicial do Autoconhecimento. Porque NO INÍCIO ela é realizada através da observação de si. Faz parte da etapa inicial do processo. Seria, por assim dizer, o primeiro nível do Autoconhecimento. Mas nos níveis mais profundos a auto-observação se torna um obstáculo porque perpetua a divisão “sujeito x objeto”.

Ara: Mas eu quero fazer uma observação .Você disse que: “Ou seja, mesmo o ego tem que ser inteligente e sábio no que diz respeito ao seu próprio papel e responsabilidade nesse processo”. Mas não é verdade que o ego tem que ser eliminado e que tudo que acontece na vida da pessoa antes da iluminação é consequência do Ego?

Alsi: Boa pergunta...Amigo quem elimina o ego? O próprio ego? Tudo que acontece de sofrimentos e conflitos antes da iluminação é consequência do ego, sim. Mas quem é o ego? Muita gente fala de ego mas não sabe exatamente ao que está se referindo.

O ego tem muitas faces, aspectos e dimensões.O que causa sofrimento são os aspectos doentios, negativos, ruins do ego.De fato, o ego é uma parte importante de nós.O problema é quando ele está no centro de comando do  ser.O ego são nossos desejos, nossas buscas, ilusões....O ego em seu aspecto de desejo é o eterno "vir-a-ser" ou a eterna insatisfação.Mas quando o ego, que é parte constituinte de cada um de nós, entende sua própria nulidade, ilusões e limitação o que acontece? Ele perde força, energia e vitalidade.

Em outras palavras : quando você mesmo em sua dimensão egóica percebe e realiza a compreensão de que seus desejos, ilusões, tempo, pensamentos etc - é o grande causador de todo o conflito, dor e sofrimento então o q acontece? Ele se "aquieta". Vai perdendo gás, força, energia, significância, centralidade... mas Ele não morre.Continua  a atuar na vida prática dentro de suas limitações.
O ego é necessário e útil e quando  compreendido e “aquietado” por conta própria, ele passa a ter uma função prática.

É o ego que te conecta com as coisas do mundo, do corpo, da matéria.É ele que te avisa das tuas obrigações sociais, profissionais e legais.É o ego que te faz pagar tuas contas pra tu não ter problemas e talvez ser processado e ir pra prisão. É ele que tem o senso da responsabilidade prática do dia a dia. É quem cuida da proteção do corpo, que o defende e que vai atrás de satisfazer as necessidades , que inclui o prazer- claro.É ele que pensa, que reflete e que analisa sobre os perigos e demandas  da vida,da sociedade e do dia-a-dia. 

O que seríamos sem a proteção e o trabalho importantíssimo do ego? Certamente morreríamos ou viveríamos criando problemas inúteis.
Enfim, como diz no Gita: o ego é um péssimo Senhor, mas um ótimo servidor.

Ara: Entendi

Alsib: Abcs!

(Meus agradecimentos ao Aramísio por ter autorizado a postagem do diálogo)
  •  
Parte superior do formulário
Parte inferior do formulário


terça-feira, 26 de março de 2019

ILUMINAÇÃO NÃO É RECEITA DE BOLO! by Alsibar




Não existe receita para a iluminação. Você pode ler mil livros sobre sabedoria Advaita Vedanta, Zen , UCEM , Taoísmo, Iluminação ou meditar, jejuar e orar a vida toda e continuar na dualidade, mergulhado na ignorância, dominado pela ilusão.

As experiências de Despertamento da Consciência são inúmeras e variadas. Cada uma com suas peculiaridades. Achar que a leitura de livros- mesmo de grandes mestres- seja o bastante para desenvolver a sabedoria é outro grande equívoco .

Não há sabedoria se não houver auto conhecimento, mergulho nas profundezas da consciência, simplicidade, humildade, perseverança, fé e paciência.

Pegar emprestado a verdade dos outros sem a correspondente percepção da mesma em si mesmo, revela não só incompetência como desonestidade .

Não repita o que os outros disseram- achando que compreendeu. Palavras sem vivência e sem experiência direta não passam de cadáveres.

Nisargadatta despertou sem ler nada, sem praticar nenhuma técnica especial de Meditação, sem seguir ninguém- pois seu mestre morreu logo depois que ele o conheceu.

Ele estava preparado e maduro. Seguiu uma dica simples de seu guru que funcionou. Mas porque funcionou para ele não significa que vai funcionar para você.

Iluminação não é receita de bolo. Tá mais para receita de médico : o que serve para um pode não ser exatamente o que serve para outro. Cada caso é um caso, uma vez que cada ser humano é único e única também é sua experiência com Deus- o Ser-o Pai- o Tao- Buda- o Eterno- A Consciência, enfim, o Desconhecido!

Fiquem com o testemunho de Nisargadatta Maharaj:

“Meu guru me ordenou que eu atentasse para o sentimento de “Eu Sou” e para não prestar atenção em nada mais. Eu não segui nenhum curso especial de respiração, ou meditação, ou sequer estudei as escrituras. O que quer que acontecesse, eu desviava minha atenção disso e permanecia com o sentimento de “Eu sou”. Pode parecer muito simples, e até mesmo crú. Minha única razão para fazer isso foi que meu guru me havia dito para fazer. E mesmo assim funcionou.”

Por isso Krishnamurti dizia que a Verdade é uma terra sem caminhos. Não existe métrica, nem meios, nem rotas para Aquilo que transcende ao pensamento, ao espaço e ao tempo.

Encontre, pois, sua própria verdade aqui agora. Tudo aquilo que você percebe como verdadeiro, mesmo que sejam seus defeitos, suas ilusões, sua ignorância, suas complexidades e limitações - essa é a sua verdade . É o que sua capacidade de percepção lhe permite ver e compreender no momento .

À medida que você for compreendendo a real natureza do que está próximo , sua visão vai se ampliando para poder perceber o que está distante.

O pequeno sapo pode falar com propriedade sobre a lagoa em que vive. Mas nunca sobre os picos altos das montanhas e dos mares no horizonte - coisas que ele apenas ouviu falar através do relato dos pássaros. 
By Alsibar

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

ACONTECEU UMA MUTAÇÃO - O "MEU DESPERTAR" (ALSIBAR)




( Diálogo real sobre um acontecimento pessoal)
Esse diálogo é a transcrição  fiel de uma conversa real que tive recentemente .  E  por ter sido espontânea, pareceu-me adequado registrá-la aqui no blog. Um amigo virtual de muitos anos, puxou o assunto a respeito de algo que aconteceu comigo . Experiência, fenômeno, despertar, iluminação, ou só uma forma diferente de ser, agir e perceber o mundo ? Use o termo que preferir. Vou apenas descrever o fenômeno e cada um faça seu próprio julgamento.

De antemão, quero dizer que não me tornei  mais santo, nem mais perfeito do que ninguém- mas também não me tornei "menos". Continuo sendo eu mesmo, mas parece ter havido uma mutação no funcionamento ordinário da mente. O fato é que o sentido do "pensamento-eu"  cessou seu constante fluxo. Com isso, não sinto mais o tempo como antes. Não há mais a dor do conflito psicológico. Penso que foi o despertar de uma condição natural da mente, mas que provocou uma mudança radical no "eu" e, consequentemente, causou mudanças profundas em mim.
Todo mundo tem uma singularidade. Algo em que se é peculiarmente bom. Uns são bons em matemática, outros em dançar, cantar, lutar, cozinhar, ganhar dinheiro, estudar, escrever... Eu gosto da espiritualidade e por isso me dediquei a vida toda ao seu estudo. Desde muito novo, ainda na puberdade, mergulhei em leituras, pesquisas, estudos e práticas diversas. Talvez tenha a ver com outras encarnações.
Penso que esse acontecimento incomum seja o coroamento de uma jornada que levou toda uma vida. Uma busca incessante pela Verdade com sinceridade e fé. Mas o que aconteceu exatamente?

Aconteceu uma mutação decorrente de algo que não pode ser detectado de forma objetiva e direta, mas pode ser inferido através de  sinais indiretos. Achei importante escrever sobre ela como forma de ajudar outras pessoas a encontrarem-na. Atualmente,  está muito difícil saber que rumo tomar. É raro encontrar alguém que possa nos indicar a direção certa para o verdadeiro Despertar . Afinal, hoje em dia, todo mundo é mestre,  guru ou iluminado.  A internet está lotada de informações nem sempre confiáveis. O que era para ser uma coisa boa tornou-se um grande problema, gerou muita confusão e dúvidas. É difícil para um buscador iniciante saber em quem confiar e quais orientações seguir.

Tudo está sob o controle da Inteligência Suprema. Não busco nem desejo nada mais. Não quero honras, nem glórias- até mesmo por que não mereço nenhuma. Estou aberto e disponível a ajudar outros caminhantes. Quero, no máximo, ser uma placa luminosa numa noite escura ajudando os  perdidos a encontrarem seu rumo. Agradeça pela placa mas siga seu caminho. Não se apegue a ela. Não a use como gaiola, nem muleta. Ela não é uma “tábua de salvação” pra você se agarrar .Caminhe com suas próprias pernas. Movimente-se por si mesmo. Assim como  "algo sagrado" aconteceu comigo também pode acontecer  com  você. Mas esqueça tudo o que você aprendeu sobre isso.  Pode ser que os livros estejam totalmente equivocados. Talvez isso não tenha nada a ver com o que você sabe ou imagina que sabe. Abandone suas idealizações. Penso que esse fenômeno é experimentado por cada pessoa de uma forma diferente. Todavia, há alguns elementos  comuns e universais.
A transcrição do diálogo abaixo nada mais é do que uma forma de ajudá-lo nessa sua jornada interior. Ela deve ser feita somente por você mesmo e por ninguém mais:
R-Passou por alguma experiência ultimamente? Aconteceu alguma coisa com você?

Seria legal  que você fizesse um relato do que aconteceu com você amigo. Servirá para outros buscadores.

A – É complicado falar sobre isso porque é muito pessoal e subjetivo.

R- Em que momento? O que você fez? Ou você não fez? É tipo uma entrega? Sim...então fale o que você puder

A-  Vou falar pra você porque é uma conversa... Já para escrever um texto sobre isso fica complicado. Um texto não pode ficar tão vago,  fugaz e subjetivo.
Aconteceu uma mudança . Tá tudo diferente. Mas eu não posso tocar nisso. A mente não pode se apropriar disso. Só se manifesta quando a mente não está lá observando. Posso até tentar falar sobre coisas tangenciais. Mas sobre o que está no centro do acontecimento , não.
Mudanças gerais de percepção. Mudança nos sonhos. Desapego, silêncio e muitos insights.
R- Tá tudo mais leve?
A- Muito mais leve. Eu diria:  totalmente leve.
R- E quanto a situações que criam raiva ou outros sentimentos?
A-Não criam mais. Eu ainda sinto mas não afetam a paz da mente. Não perturbam-na . Se eu fosse Advaita ( linha não-dualista da filosofia Vedanta) eu diria: nada atinge aquela presença  (risos)
R- Que mais?
A- Amor, compaixão, energia, intuição mais desenvolvida, desapego das coisas...
R- O que você diz sobre encontrar a Fonte dos pensamentos e a investigação?
A- Bobagem.
R- Ué?...  Li um relato seu sobre seu vislumbre . O que me chamou atenção foi que você usa as palavras humildade e entrega
A-Isso.
R-Isso foi fundamental?
A- Muito. Entregar tudo é um ato de humildade- interiormente falando.
R- Você diz que não tem a ver com anos de meditação
A- Penso que não tem.
R- Mas em algum momento você fez algo que desencadeou isso.
A- Sim, agradeci a Deus e depois larguei tudo.
R-Abandonou como? Através de oração? Entregou tudo ao Pai?
A- Deixei de ficar tentando como eu sempre fazia : tentando ficar atento. Tentando ficar consciente. Essas coisas.
R-Parece uma parada total , "total stop!"
A- Isso mesmo.
R- Para isso há uma renúncia de sua parte. Entregar nas mãos de Deus. Você deve ter entregado humildemente o seu coração a Deus e Ele fez o trabalho. Isso é muito bonito irmão. Ramana ensinava 2 caminhos :Vichara e a rendição a Deus . Que maravilha! Então quando estamos tentando fazer na verdade estamos bloqueando a ação de Deus? Você  vê isso?
A- Isso. Exatamente assim...Penso que é ação da "graça" . Você mesmo não pode fazer nada de forma direta...A única coisa que você pode "fazer" é deixar de fazer. Deixar de pelejar... De querer estar no controle...Porque até mesmo a observação, se houver um observador, é ainda o ego no controle. Na verdadeira observação não há consciência da própria observação. Talvez seja difícil de entender mas é assim mesmo. Até quando tentamos ficar conscientes... Ficar presentes ou  buscamos a tal "matriz" do pensamento... Ainda é você ( o ego) agindo. E é exatamente esse agir... Que é o obstáculo.
Por exemplo : quando você foca a atenção no presente, é uma ação do ego ainda. Sutil mas é. Eu também não acredito que a Vichara funcione. Porque há alguém ainda ali se auto questionando... E esperando uma resposta... Ou talvez... Esperando alcançar um estado de consciência... Se você largar tudo de uma vez o que resta? Nada. É o fim. É a extinção do Ego-ator... Ego-buscador... Ego-dor... Então... O que sobra?
Um silêncio... Mas que nem silêncio é porque não pode ser nomeado. É algo que a mente-pensamento não alcança . Não entende . Não toca . Não consegue ver. Descrever. Nem explicar.
R-E quanto aos pensamentos que surgem? Diminuíram?
A- Alguns continuam. Mas passam muito rápido. Raramente os percebo. Mas há sempre um sentido na mente de presença desse algo. E que os pensamentos não  conseguem alcançá-lo, nem abalá-lo, nem atingi-lo. Agora, quando estou raciocinando de forma proposital... Ponderando, refletindo  ou racionalizando  sobre algo...Então eles aparecem como se eu estivesse falando mentalmente. Mas depois...Volta aquele estado.
O silêncio está sempre lá... Mas raramente o percebo diretamente... O que há é uma percepção indireta. Sabe, quando você vê algo  sem olhar diretamente pra esse algo? Eu "percebo" mas não foco minha atenção lá. Em geral minha mente fica num estado de total liberdade, como  se eu não a tivesse mais. Sem barreiras. Sem limites, nem fronteiras.
Como se fosse uma bolha no mar... Cujas ondas não entram nem movem. Uma bolha estável. Tudo se movendo ao meu redor como ondas. Os acontecimentos , os problemas, stress, bagunça, barulho, caos...E a mente intocável, inabalável. inatingível.
Os sonhos são um capítulo à parte. Parecem muito reais e sempre transmitindo paz e luz. E pouquíssimo sono à noite. Acordo de madrugada sem sono mas o corpo está  com as energias totalmente restauradas. Sem cansaço mental, só físico.
R-Caramba cara... nunca vi isso.
A-Geralmente fico quieto... E fico num estado de sono... Mas acordado. O corpo totalmente relaxado. Mas a consciência desperta. Já durante o dia...
R-Isso . Isso...então é verdade... Ramana falava de estar na vigília mas dormindo...incrível.
A- ...Já durante o dia, eu estou tão relaxado que chego a roncar. Me peguei roncando várias vezes. Outras pessoas também perceberam e me chamaram a atenção para isso porque eu não percebia. Eu resolvi checar . E vi que era verdade. E o curioso... Algumas vezes não estou nem sentado ou descansando. Estou fazendo alguma coisa, por exemplo, lavando os pratos, cortando uma laranja. Outras vezes estou sentado : no computador, comendo, tomando café... De repente escuto meu ronco. Levei um susto na primeira vez que o ouvi.
R-Nossa!!! Você chegou lá mesmo.
A- Algumas pessoas ao meu redor estão admiradas com a minha calma. Mas é que fico sentindo uma sensação boa, de paz e total liberdade.
R- Confesso que até eu estou admirado com tudo isso. Eu queria que você falasse desta auto entrega e rendição.
A- Sim. Você simplesmente para de querer qualquer coisa, ou melhor, de desejar qualquer coisa. Incluindo o tal “despertar”, a iluminação, Deus...Daí em diante, onde quer que você esteja, você está feliz. Em qualquer situação. Você se pega cantando. Sorrindo. Vem ondas de alegria. Mas são sem motivos... é algo que flui independente de você. E nem sempre você percebe. Você simplesmente se deixa levar. Desiste de lutar, de buscar, de fazer, de querer, de desejar.
R- Mas isso parece não ser uma ação sua
A- Não é. Não é uma ação minha.
R- Algo intervém.
A- Isso. Não há mais nenhum tipo de ansiedade em relação a fazer qualquer coisa. Onde quer que eu esteja, me sinto bem. Completo, satisfeito, feliz e em paz.
R-Você falou que em algum momento você fez a rendição. De que forma?
A-Usei esse termo pra me referir à desistência de tudo. Rendição a esse silêncio. A essa “coisa”. Não é um termo muito exato. "Rendição" porque desisti de querer, de buscar, de desejar, de tentar, de fazer.. Não é  uma rendição a algo tangível, nem a uma ideia. Eu me rendi... Ou seja : desisti de tudo que eu achava que era certo e verdadeiro e que era a base, a raiz do meu fazer. E que criava o  "fazedor", o ator, o experimentador... O tempo, a dor... O ego enfim.
R-Parece que houve a morte do ego em você. Erase the ego.
A-Isso . Pelo menos desse ego-pensamento centrado na memória
R- Mas não foi uma atividade sua. Interessante isso tudo. Fico muito feliz amigo pela vitória.
A- Não foi. Nem poderia ser.
R- Deus te abençoe! 
A- Esse relato tá servindo pra mim também como uma forma de entender um pouco mais sobre isso.
R- Mais alguma coisa?
A-Outras coisas que percebi: aumento da fé . Mas não uma fé intelectual. É como se eu soubesse com certeza que Deus está no comando de tudo. Mas não tenho consciência da certeza. Apenas sei que é assim. Aumento da intuição e muitos insights. Além do aumento da capacidade de "penetração" em assuntos de ordem espiritual ou existencial. Às vezes falo coisas que nem sei de onde vem. Coisas que nunca pensei antes. Mas que vêm na hora da conversa, do diálogo. Acho que era o que Krishnamurti chamava de inteligência criadora . Penso que é só. ( risos)
Ahhh... Lembrei de outra coisa. Desapego do corpo e diminuição dos desejos. Tenho que me concentrar bastante pra me “trazer” de volta... Pro corpo. Essa parte tá sendo muito delicada.
R- Uma coisa que já me falaram é que JK não era realizado... ele tinha percepções...
A-Krishnamurti sempre foi uma polêmica. Desde que era um adolescente. Nunca será uma unanimidade porque ele foi um ser humano real, não uma imagem idealizada. Os conservadores nunca o aceitarão. Mas isso acontece  porque idealizamos os iluminados como seres perfeitos, sem erros, sem máculas e infalíveis. Mas não são. Nenhum foi. Só os mitos e as imagens são "perfeitos" porque não são humanos. Até Jesus Cristo teve seus momentos de fraqueza . Por isso que a sociedade da época resistiu tanto em aceitá-lo. Por que ele não parecia um ser humano "perfeito" como, em geral, idealizamos. Jesus bebia vinho. Adorava festas e banquetes. Era amigo dos ricos e prostitutas. Vestia roupas boas. Sentia raiva, tristeza, teve medo e desânimo. Ele era muito “humano” pra ser o Messias que eles esperavam- isso  era inaceitável para os padrões das pessoas daquela época  (até hoje é).
Falam coisas parecidas sobre Krishnamurti. Os conservadores querem colocar os iluminados em um molde pré-fabricado , em um padrão. Impossível. Um iluminado é um ser livre... Não tem que se encaixar em padrão nenhum.

R-“If that mind-free consciousness, which is at the meeting point of deep sleep and waking, somehow becomes continuous, then the state that then dawns is declared by sages to be the state of deliverance.”- Maharshi’s Gospel
( Se aquela consciência livre-da-mente, que está no ponto de encontro entre o sono profundo e a vigília, de alguma forma se torna contínua, então o estado que está nascendo é declarado pelos sábios como sendo o estado de libertação) - Evangelho de Ramana
A-Very interesting! ( Muito interessante)
R- Isso que você experimenta é o que os sábios também experimentam. Mesmo acordado na vigília está dormindo. E como é a sensação de estar dormindo então?
A- Muito boa, maravilhosa até. É um sono muito profundo e restaurador. Talvez, por isso, o corpo não precise dormir tanto.
R-Nossa! A gente lê uma porrada de livros, faz isso e aquilo e a coisa é diferente.
A- Isso.
R-E quanto aos pensamentos do passado que surgem?
A- Não os vejo.
R-Não?
A- Não. Ou quando aparecem... é como se não tivessem força sobre mim... são muito fracos, sem força nenhuma... logo esvanecem.
R-Incrível mesmo amigo. Me diz uma coisa para terminar, e aquela história de que não existem os outros, só existe você?
A- Nem os outros, nem você existe.
R- Como assim?
A- Se ainda existe o “você”, então ainda há dualidade. Você perde o sentido da separação. Psicologicamente falando, é claro.
R- Isso é o máximo!
A- Fisicamente há separação, óbvio. Você tem um corpo. Precisa cuidar dele. Mas internamente você não tem mais esse sentido.
R- Disseram que a consciência cria o corpo, tipo uma projeção.
A- Isso são conjecturas. Pode ser , pode não ser...Tá mais pra ser verdade isso. Mas não faz diferença saber sobre isso... Esses tipos de questões passam a não ter muita importância.
R- Importa o que os outros digam sobre seu novo estado? Existe uma certeza absoluta em você sobre isso?
A- Não. Nenhuma certeza. Muito menos absoluta... Se houvesse certeza seria da mente. Não posso ter certeza acerca disso. Não sinto certeza, nem dúvida. Algo aconteceu que não posso, não devo, nem tenho como dissecar isso com a mente- porque está fora do alcance dela.
R- Obrigado pela conversa então!
A- Disponha amigo!

Ps:Os fatos  narrados acima  começaram a acontecer no dia  28 de Outubro de 2018, entre 19:00 e 21:00 e seus efeitos duraram por mais ou menos dez meses. Sua intensidade foi diminuindo com o tempo mas deixou mudanças profundas e permanentes até hoje  07/06/2020.
( Transcrição feita por Alsibar)

Acesse nosso canal Despertares com Alsibar no You Tube e saiba mais sobre a mutação interior: 

https://www.youtube.com/channel/UCHPD3246MYTUENpcvdW6-DA?view_as=subscriber
#alsibarmutação
#alsibardespertar
#alsibarmeudespertar