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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

MINHA BUSCA PELO DESPERTAR - My search for the awakening


Uma infância vivida dentro de rígidos preceitos católicos e cristãos. Família do Juazeiro do Norte, no Ceará, desde muito cedo  ensinaram-me a ver no Padre Cícero um verdadeiro Avatar do Sertão. Avós católicos praticantes, repetiam-nos com frequência a máxima áurea: "um domingo sem missa, uma semana sem Deus!" Mas, ainda muito jovem, comecei a desconfiar da autoridade  da religião católica.  Aos poucos fui ficando enfastiado de todas aquelas exigências, rituais e imposições da minha religião natal.

 Ainda na pré-adolescência, questionei a pretensa autoridade celestial  da igreja. Minhas reflexões me levaram a não aceitar como "verdades" certas crenças dominantes entre seus adeptos. Foi então que saí de lá e, depois , não parei mais. Vieram os grandes conflitos, as crises existenciais e as perguntas básicas sobre o significado da vida, do sofrimento e das dores do mundo. Foi neste período que entrei em contato com o budismo através do livro “O Pensamento Vivo de Buda” que, por sinal, ainda  tenho até hoje,  verdadeira relíquia .

Vieram depois as buscas pelo ocultismo, ovinis e religiões orientais. Devorei tudo, desde teosofia, passando pela psicologia transpessoal de Jung, até o misticismo do famoso guru Bhagwan Shree Rajneesh. Eu lia de tudo com grande voracidade e entusiasmo. Era comum ficar sentado em algum canto do quintal, meditando, ou pelo menos, tentando meditar. Sentia que me afastava das religiões mas não de Deus.  Andei por várias  movimentos e organizações religiosas : espiritismo, Hare Krishna – onde conheci a Bhakti-Yoga e Krishna- o movimento Messiânico,  a Sei-cho-no-ie, o Budismo Nichiren Daishoni, Perfect Liberty e, finalmente, o Zen-budismo. Após minha ida a um mosteiro Zen, percebi que esta seria  minha última parada pelo caminho das organizações.  Depois de visitá-lo, convenci-me de que nunca encontraria o que procurava nas religiões organizadas.  Voltei para casa e continuei minha vida normal.

Outro marco na minha trajetória espiritual foi, sem dúvida,  a leitura do livro Autobiografia de um Yogue de Paramahansa Yogananda. Novamente brilhou a esperança do despertar, através da leitura de um livro tão singular e fascinante. Mas, apesar de ter entrado em contato com a Self-Realization Fellowship nos Estados Unidos, nunca tive coragem de me inscrever nos cursos por correspondência de Kriya Yoga . Não sentia-me seguro sobre a validade de tais práticas.

 Algum tempo depois, tomei conhecimento do livro “O segredo” e novamente minha vida deu outra guinada. Esqueci a espiritualidade, a busca pelo despertar, e entrei de cara na exploração dessa nova dimensão que o livro prenunciava. É verdade que conquistei muitas coisas materiais.  Mas elas não foram capazes de me dar a paz, a sabedoria e a fortaleza interior de que eu tanto precisava. Vieram então as crises em todas as áreas da minha vida : saúde, profissional, pessoal e por fim, existencial. Toda minha "fortaleza" interna desabou, senti-me desestruturado, fragmentado e fragilizado. Fiquei entre a loucura, a depressão e o suicídio.

Mas, em uma dessas crises. Deparei-me com o seguinte livro “As Ilusões da Mente” de Jiddu  Krishnamurti. Nele eu vi a descrição dos erros cometidos em toda  minha trajetória de vida. Era como se ele estivesse me dizendo exatamente onde falhei e porque eu havia chegado ao fundo do poço. Eu já havia lido vários livros de JK , mas nenhum outro teve tanto significado em um momento tão crucial da minha vida. Ao perceber minhas ilusões, restou-me apenas estabelecer um novo paradigma. Tive que  refazer meus conceitos e redirecionar minhas energias. Sentia que havia algo na mensagem de  Krishnamurti que poderia me ajudar  e, assim, comecei a ler e reler tudo que eu tinha sobre ele. Devorei tudo que estava ao meu alcance, procurando a “chave” que pudesse abrir a porta da Matrix , a Máquina das Ilusões – eu já sabia que ela encontrava-se dentro de mim, mas como abri-la? Como ter acesso a ela?

Confesso que cheguei a duvidar de Krishnamurti em certos momentos . Comecei a pensar que, talvez, K. - como era chamado- não estivesse tão certo assim. Eu tinha várias hipóteses : talvez K estivesse em um patamar de elevação espiritual tão alto que não conseguia estabelecer uma comunicação  que fosse acessível e compreensível para nós-pobres seres, escravos da "realidade ilusória da Matrix". Seríamos tão atrasados e condicionados assim? Ou, talvez, ele mesmo não tivesse a "habilidade" de fazer-se compreensível para nós - míseros mortais, atrasados e ignorantes. Ou , ainda, faltava-lhe a empatia necessária,  para compreender  nossa condição de fragilidade e impotência diante de nós mesmos - nossa mente, defeitos e imperfeições. Dúvidas, dúvidas, muitas dúvidas me assolaram nesta fase, mas não desisti. Continuei procurando, lendo , relendo, meditando (tentando) e refletindo sobre tudo.  Meu coração estava em um grande conflito – e de uma certa forma- aflito. Se K. não estivesse certo, quem estaria? Eu havia perdido alguma coisa, alguma compreensão me escapava. Mas não conseguia ver o que era. Foi então que comecei a saber que isso não tinha acontecido só comigo, mas com boa parte dos  leitores e até mesmo com aqueles que conviveram com K. pessoal e intimamente.

A questão principal era a seguinte : se Krishnamurti era um verdadeiro iluminado, ele tinha a chave, a chave mestra que revelaria a compreensão não só de seus próprios ensinamentos como dos ensinamentos de Buda, Cristo e Krishna. Mas não só isso, essa chave também revelaria a compreensão de mim mesmo, da minha vida e do universo, podendo, enfim, levar-me à libertação da Matrix. Algo me dizia que ele conhecia a  saída desta  Máquina poderosa e opressora. Mas eu não conseguia entender onde e nem como chegar lá, pois ele nunca dizia o “como”. “ Não há como!”- repetiu ele centenas de vezes. "Não há como? Como pode ser? Tudo tem um como, uma maneira, uma forma" – minha mente recusava-se a aceitar esta proposição - a meu ver, absurda e infundada.

Mas,  um dia, de súbito,  a compreensão chispou em minha mente feito um raio de luz, um  verdadeiro insight, um  "satori" como diz o Zen. E foi então que compreendi. De repente entendi. A chave estava lá. Sempre esteve lá, mas não sei porquê não conseguia vê-la, como se estivesse velada, na escuridão da minha ignorância. Lembrei-me então de um episódio que aconteceu comigo, uma vez, no natal:  eu estava na casa de um amigo e, de repente, faltou energia. Ele começou a procurar angustiado pela chave da porta, pois eu precisava ir para casa. Acendeu uma vela e saiu procurando pela chave em todos os lugares e, depois de muita procura, percebeu que ela já estava na porta. Rimos muito de nossa estupidez. A chave estava lá, entende? Sempre esteve lá.  Mas, não sei porquê- não conseguíamos encontrá-la. Talvez pelo desespero, pela ansiedade, pelo pensamento de que ela "devia estar em algum canto desconhecido da casa". Mas ela nunca havia saído do lugar mais óbvio : a fechadura.  Por fim, rimos muito.

Talvez , por isso, Mahakashiapa riu, quando Buda , chamou solenemente todos seus discípulos, para revelar a essência de seus ensinamentos. Todos ficaram ansiosos, na expectativa de ouvir as valiosas palavras do grande mestre. Mas ele chegou, pegou uma flor e ficou sentado em silêncio.O tempo ia passando e o Desperto não falava nada, nenhuma palavra. As pessoas começaram a ficar inquietas : aquela situação de silêncio insuportável. Elas não conseguiam entender o que estava acontecendo.  O que Buda estava querendo transmitir com aquela atitude? Ninguém parecia entender. Até que, de repente, ouviu-se uma gargalhada. Era Mahakashiapa. Ele entendeu, e então, Buda chamou-o e entregou-lhe a flor.  Por que Mahakashiapa riu? A piada era simples - não há nada a ser ensinado, nem buscado, tudo já está aí. A partir daquele momento, iniciou-se  o Zen, não a organização, mas sua essência, seu espírito - livre de todas as crenças,  organizações, rituais, práticas, disciplina. Além das palavras, definições ou tradições.

Assim também é a chave do despertar - está sempre aqui. Na verdade, como Buda insinuou, não há nenhuma "chave secreta". Basta abrir os olhos, acender a luz e ver : "a distância entre nós e o 'despertar' é apenas de um pensamento"- diz-nos a sabedoria advaita. Ora, se não há chave, também não há "COMO".  Então Krishnamurti estava certo. Daí sua insistência em ressaltar a inutilidade das técnicas, práticas ou métodos.  Diante de tal questão,  K. costumava fazer perguntas enigmáticas , como se fosse um Koan Zen: "Qual o estado da mente que, de repente, percebe que não há 'como'? Não precisa responder! Experimentai! Ficai neste estado. Não faças nada, não forces nada - este estado é o próprio Atemporal!" Ou seja, permanecei aí!  Apenas fica neste estado e observa-o. E de repente, você sente uma sensação de liberdade e paz que nunca sentiu antes. Mas aí sua mente se intromete de novo e pergunta:

- Tem certeza que é isso mesmo? Só isso? Não preciso fazer, nem praticar nada? E se não for só isso?

 Então começa tudo de novo: o medo, a dúvida, os pensamentos a inquietação, a confusão, a dor e a tristeza.

Vamos pensar numa ilustração muito conhecida, mas que cabe bem, no que estamos tentando explicar. Imagine um peixe que, de repente, houve falar em um "deus" chamado Oceano. É dito que ele é tão imenso, vasto e profundo, que é Infinito etc etc. Ora, este peixe, decide então procurar por esse deus. Não seria uma tolice? O peixe já vive e respira nele e por mais que ele queira ver a extensão do Oceano nunca o verá. Precisa apenas perceber que o Oceano já vive nele e que ele vive no Oceano. Precisa compreender que não há nada a se buscar, nem nenhum lugar para se ir . Para encontrá-lo, basta compreender o fato óbvio : que ele já faz parte dele. O Oceano é tudo no universo aquático do pequeno peixe: está  acima, abaixo, dentro e fora dele.

Sei que é difícil compreender que a prática, o “como”, o método,  apenas perpetua a  prisão da Matrix. Isso porque já estamos tão dominados pela ideia do "fazer" que não conseguimos aceitar outra forma de se conceber as coisas, a vida, o Universo. Mas, sendo bem objetivo, não seria isso uma tolice? Observe as coisas simples do dia-a-dia. Nada é feito por nós. A grama cresce independente de nós.  O movimento dos astros, a vida de nossas células, tudo, tudo... existe e se mantém não graças a nós, mas INDEPENDENTE e APESAR de nós. Quando o homem faz ou realiza algo no Mundo, na verdade ele está sendo apenas INSTRUMENTO da ação de forças superiores. Na verdade, ela, a ação, não foi feita POR ele, mas através dele. JESUS nunca advogou para si a origem de seus poderes, Francisco de Assis pedia a Deus para ser um  Instrumento da Paz, Ghandi nunca teria conseguido a vitória contra o Império Inglês se uma força maior não o guiasse. Assim também aconteceu com todos os grandes Reformadores  e Bem-feitores da humanidade. Da mesma forma, o esforço para se alcançar Deus é ilusório, assim como todas as práticas propositais ou disciplinas que alegam poder levar-nos ao  Eterno, Atemporal.

Ao compreender isso, parei de buscar. E então... surgiu a dimensão onde as palavras não entram e as definições são impotentes. A busca terminou e se você me perguntar: você encontrou? Não posso lhe responder. Esta pergunta é errada pois pressupõe um "Eu" buscador (EGO) e um "Objeto" de busca (DEUS) . Há um estado em que esta noção dualística desaparece totalmente. Não só isso, toda noção de tempo e busca também. E o que resta? Só vivenciando para saber. Eu não me atreveria a  responder. Posso apenas afirmar que  não tenho nenhum mérito, nem me arvoro em nada. Minha vida continua normal- mas há um movimento diferente. Uma nova energia, um sabor diferente em tudo que faço, pratico, vejo ou sinto. Aí você me diz : "Ahá! Te peguei! Você disse que pratica!" Mas- como diria?- a prática acontece mas não há um Eu (EGO) praticando. As ações "acontecem" apesar e independente do "MIM". Continuo vivendo, fazendo quase "tudo" que fazia antes, mas tudo sob uma  perspectiva de impessoalidade: não sou Eu quem faz ou deixa de fazer. Se ação está lá eu a observo. Se a sensação está lá eu simplesmente a  observo. Se ela não está - nada muda- a observação continua. Há apenas a OBSERVAÇÃO sem o OBSERVADOR. Aquele centro  que julga, compara, deseja, comenta, nomeia, altera, critica, está ausente na maior parte do tempo .

Quero agradecer-lhe se você conseguiu chegar até o final deste texto. Espero, com este relato, não me engrandecer ou supor coisa nenhuma sobre mim, mas ajudar aqueles que, por ventura, estejam PERDIDOS, confusos e desesperados procurando por uma Luz no "final do túnel"- exatamente como eu já estive um dia.

Para terminar, uma última consideração- talvez a principal: sem humildade não chegaremos a lugar nenhum. Humildade e coragem são essenciais nestes momentos de crise . Temos que assumir nossa própria nulidade e impotência. Por isso o autoconhecimento é tão importante. Não de acordo com "ideais" e projeções fantasiosas. De nada vale dizer : Eu sou a Luz, Eu sou o Átman (Alma). Isso apenas fortalece e enrijece no EGO- é ele quem afirma essas coisas.
O que somos? Olhe e veja. Somos um amontoado de memórias, desejos em conflito,  pensamentos reativos, resíduos do passado, sonhos e projeções infindáveis - somos a eterna busca de perpetuação através de uma entidade falsa e usurpadora da verdadeira essência. Quem terá coragem de ver a "verdade" sobre si mesmo? É preciso muita coragem e humildade para dizer : " Eu não sou nada, não sei de nada, nem posso nada. Preciso de ajuda!"- Esta atitude é um duro golpe no Ego. É o primeiro passo no caminho da LIBERDADE, da LUZ , da Paz e Sabedoria. Sem abandonarmos o Ego, nunca sairemos da  Matrix e nunca nos livraremos de suas Ilusões. Fixe-se na percepção clara do "Que é " - tanto dentro quanto fora de você.  Este estado de percepção é Atemporal, Eterno e livre dos tentáculos do nosso EGO.

 LIBERTAR-NOS DAS ILUSÕES CAUSADORAS DO SOFRIMENTO PSICOLÓGICO foi, e continua sendo, o objetivo primordial  de  todos os Avatares, Yogues, Iluminados e sábios que viveram sobre esta terra ! 
Então, o que está esperando?
MEDITE!

MSN: alsibar1@hotmail.com