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| Satsang e o comércio da Verdade- http://alsibar.blogspot.com |
Aproxima-se o carnaval -o maior e mais esperado feriadão do ano. Um período
para viajar, curtir, dançar e beber… Ou, se preferir, passear, descansar ou participar
de um “satsang”. Como??? Não sabe o que é um satsang? Então leia o artigo e
aprenda mais sobre esta prática espiritual milenar que , na era moderna, enfrenta o problema da
exploração comercial por parte de supostos gurus autorrealizados.
Satsang é uma palavra de
fácil compreensão. Etmologicamente ela é formada por dois vocábulos “sat” que
significa “ verdade” e “sang” que significa encontro -“Encontro com a Verdade”.
Em outras palavras, é uma reunião ou um
encontro de pessoas – discípulos ou não- em torno de um mestre iluminado ou
guru. Em sua presença, eles podem ouvir
a Verdade direto da fonte. Todavia, há
fontes e “fontes”. Uma mais puras, outras menos. Há inclusive as que aparentam
ser cristalinas e potáveis, mas são poluídas e perigosas. Algumas chegam a ser venenosas podendo levar a óbito.
Como se prevenir dos perigos de um falso satsang – entendido aqui como um “encontro
com a ilusão”? É o que vamos refletir juntos.
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| Satsang significa "encontro com a Verdade" |
Uma rápida busca pela
Internet poderá lhe assustar. Há
“satsangs” de todo preço e para todo gosto. O mercado parece estar em alta. Você
pode escolher um mestre que lhe “caia bem”- na consciência e no bolso. No Brasil, há de
vários tipos: tem o sorridente e charmoso “quarentão
boa pinta”; o moreno sedutor com aparência e voz de pastor ; o famoso paulista barbadão com cara de indiano (apesar de estar mais para Paulo Freire). Além dos internacionais: o rastafari, a
coroa loira, o careca com pinta de monge zen, o jovem bonitão com pose de
modelo etc. Não importa. Se você procurar, encontrará um guru e um
satsang pertinho de você. Só há um pré-requisito que talvez lhe desqualifique
para esta experiência “inesquecível” : ser liso! Caso você não tenha dinheiro as
portas do Nirvana estarão provavelmente fechadas para você. Isso porque nenhum
dos satsangs que pesquisei é de graça- com exceção daqueles em que o mestre
está morto ou ausente. Nestes casos, o satsang é feito através de uma foto ou
estátua do guru . Esse tipo de satsang, ou retiro espiritual, é o mais comum .
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| Há fontes e "fontes", como diferenciá-las? |
Mas o foco desse artigo não são os retiros espirituais em que organizadores e coordenadores cobram honestamente pelos custos com estadia, alimentação, transporte , aluguel etc. Aqui refletimos especialmente sobre o satsang comercial. Aquele cuja presença do "guru-deus" é a principal -e mais cara- atração.A grande diferença entre um satsang
e um retiro espiritual comum é justamente a presença física do "mestre". É a
oportunidade de estar diante de um “mega-star espiritual”- alguém que chegou ao
pico máximo da realização humana, também chamado de Moksha ou Libertação. Um
guru é considerado na tradição indiana a manifestação de Deus em forma
humana. Para muitos devotos não há diferença entre o guru e Deus.
Talvez por causa desta crença milenar, alguns comerciantes de
satsangs gostam de alardear os benefícios que uma reunião com o “mestre”
pode trazer. Apresentam-na como uma panaceia
para todos os males. Há sites que falam
até mesmo da cura de distúrbios psicológicos e psiquiátricos. Assim, qualquer
problema que lhes forem apresentados, de qualquer espécie ou natureza, a
receita é uma sessão de satsang. Dizem com orgulho que psicólogos, terapeutas ,
psiquiatras nada sabem e para nada servem. Basta sentar-se aos pés do guru para que a libertação aconteça. Como num passe de mágica, todos os males físicos, mentais e espirituais desaparecem apenas por olhar nos olhos do " Desperto". Caso não aconteça na primeira vez, é porque precisa de mais sessões de
satsangs. Quanto mais, melhor. Quem manda é o seu bolso.
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| Guru é profissão? |
Pelo que se percebe, muitos
gurus atuais estão atuando profissionalmente. Muitos dependem
completamente desse ofício para se manter seu estilo de vida- muitas vezes caro e luxuoso. A questão que se coloca é exatamente essa: existe a profissão de
guru? Um padre ou um pastor, por exemplo, são profissionais graduados que
estudaram, investiram tempo e dinheiro para terem uma formação e assim poderem
atuar profissionalmente. E o curioso é que, mesmo estes, não cobram por suas
pregações, conselhos ou atendimentos. Vivem, em geral, de dízimos, doações, outros projetos ou outras profissões como, por exemplo, professor , psicólogo etc para não dependerem da boa vontade dos outros.
Alguém pode então
questionar: você está defendendo a tese de que o guru deva ser um mendicante, um mendigo?
Não necessariamente. Ele pode trabalhar como qualquer pessoa. Ou ter outras fontes de renda que o sustentem- o que não deve ser muito pois se é um mestre espiritual deveria, em tese, dar exemplo de renúncia e desapego material. Mas, pelo que me parece, os gurus modernos não dispensam um luxo. Querem ser tratados como reis e bajulados como deuses.
Por isso é importante uma reflexão mais aprofundada sobre a questão dos satsangs comerciais. O que o guru vende quando ele cobra por um satsang? O privilégio de estar em sua presença física ? Ou seria, o direito de ouvir a "verdade" diretamente dos seus lábios “sagrados”? E a Verdade pode ser vendida? Ou aquilo que se vende, mesmo que seja verdade, passa a ser mentira pois é usado com fins comerciais? O guru não é um profissional
comum. Estamos falando de alguém que se apresenta como a manifestação de Deus na
terra e, no entanto, comercializa esse
mesmo Deus. Ora, mas Deus pode ser vendido?
E qual seria o seu preço? Qual o preço da Vida, do ar, do corpo, da saúde, do amor, da
paz, da felicidade? Alguém, ou alguma entidade espiritual já lhe cobrou por
isso? Não. E sabe por que? Porque estas coisas não se vendem, nem se compram. O que é verdadeiro,
real e essencial não tem preço. Apenas o que é superficial, artificial e
ilusório tem valor pecuniário e, por isso, pode ser vendido.
Como saberemos o critério? O
grande mestre Jesus afirmou certa vez:
“dai de graça o que de graça recebestes”. Assim, este é o parâmetro: o que a
Graça nos dá de graça, deve também ser dado de graça. Se cobro por aquilo que Deus me deu gratuitamente
estou agindo como um ladrão salteador. E
então vem a segunda questão: o que o
guru recebeu de Deus foi de graça ou foi pago? Alguém já comprou a Iluminação,
a Autorrealização, o Reino de Deus? Historicamente sabemos que algumas
organizações religiosas já venderam um pedaço do céu. Mas alguém já conseguiu comprar a iluminação? Pelo que eu saiba não. Se fosse assim, não haveria tantos
milionários insatisfeitos, depressivos ou infelizes. Deus é a Paz, o Amor, a Bem-Aventurança- o que há de mais sagrado e puro neste universo. Deus ou a Verdade é "aquilo" que não tem preço e , consequentemente, não pode ser vendido. Mas mesmo assim, tem "D-espertos" vendendo, e tolos comprando.
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| Os verdadeiros mestres nunca cobraram por seus ensinamentos, nem presença |
Os verdadeiros mestres iluminados
nunca cobraram por seus ensinamentos ou atendimentos espirituais. Em geral, ou trabalhavam ou possuíam alguma outra fonte de renda
alternativa. Talvez, porque já tinham bastante sabedoria e elevada
espiritualidade- o que parece não acontecer com os gurus da atuais . Seus
anúncios e propagandas visam claramente a expansão mercadológica de suas
organizações- exatamente como qualquer empresa
que precisa lucrar e expandir . Virou
realmente uma babel- não dá mais pra diferenciar ou discernir o que é espiritual
do que é comercial. Será que a prática de se cobrar ingressos para o Reino de
Deus está renascendo da Idade Média? E, infelizmente, a mente da sociedade moderna está tão
dominada pela lógica do mercado que vê isso como algo natural.
Não podemos esquecer de
uma coisa: o sentido da vida encontra-se
nas coisas que não tem preço. Valores como Amor, Paz, Felicidade, Sabedoria,
Iluminação não são mercadorias. São estas preciosidades espirituais que nos elevam da
medíocre condição humana à condição
divina. Na dúvida , mire-se no exemplo
dos verdadeiros mestres iluminados e veja se não há algo de
errado com os gurus da Nova Era de Exploração:
Lahíri Mahasaya- o grande mestre-iogue trabalhou a vida
toda como contador numa empresa ferroviária inglesa. Trabalhava durante o dia e dava
satsangs à noite GRATUITAMENTE . Detalhe: tinha esposa e filhos para sustentar.
Sri Yuktéswar- o grande jnana iogue, mestre de Yogananda
vivia dos negócios e propriedades deixado por seus antepassados. Não cobrava
por seus atendimentos ou satsangs.
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| Ramana- exemplo de humildade e renúncia |
Ramana Maharshi- o maha-iogue era um sanyasin, um
renunciante. Sua vida era modestíssima - possuía apenas uma tanga. Nunca cobrou por satsangs, ou pela Graça
de sua Presença. Tudo no ashram era gratuito, inclusive alimentação- como é de praxe na Índia- e ele não
aprovava nenhum privilégio para com sua pessoa.
Nisargadatta Maharaj- famoso iogue advaita ( não-dualista),
possuía uma pequena loja de fumo onde trabalhava durante o dia. Os visitantes
eram atendidos à noite de forma totalmente gratuita.
Jiddu Krishnamurti- as palestras e os atendimentos individuais
eram totalmente gratuitos. Quando as conferências eram
realizadas em espaços alugados
cobrava-se uma taxa como forma de cobrir os custos. Em um vídeo sobre K. vi uma mocinha com uma caixinha na mão, no portão de saída, recolhendo doações voluntárias.
Por fim, quero deixar bem
claro que não sou contra satsangs. Todavia, penso que deveria haver menos exploração comercial. As pessoas poderiam pagar um valor voluntário, ou os preços deveriam ser mais populares. Além disso, se o guru é a manifestação de
Deus na Terra, não havendo diferença entre “Deus, Guru e o SER” –como disse
Ramana Maharshi -então ele deve “ser
perfeito como vosso Pai Celestial é perfeito”. Caso contrário, há um grande
risco de ser uma roubada. E o tal "guru", talvez, não seja tão iluminado assim. Podendo, inclusive, ser um grande charlatão, explorador e hipnotizador.
Felizmente, temos os exemplos dos verdadeiros mestres ou gurus. Estes, mesmo
enfrentando as dificuldades da sociedade capitalista moderna, fizeram questão
de ser os primeiros a dar exemplo de renúncia, trabalho honesto e vida moderada.
Então, da próxima vez que
for a um satsang, leve em consideração essas reflexões. E analise se vale a pena pagar pela "graça divina" ou pela presença do "guru". Depois siga
sua consciência , afinal a vida é sua e o dinheiro é todo seu.
Namastê!
Alsibar
http://alsibar.blogspot.com
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