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domingo, 7 de agosto de 2011

DEUS, A CRIAÇÃO E O HOMEM SEGUNDO A GNOSE

GOD, THE CREATION AND THE MAN ACCORDING TO GNOSIS


Os cristãos gnósticos sustentavam que, no início, havia apenas Um. Esse Deus único era totalmente espírito, totalmente perfeito, impossível de ser descrito, muito além de atributos e qualidades. Esse Deus não é somente desconhecido dos seres humanos; ele é icognoscível. Os textos gnósticos não explicam porque isso acontece, exceto quando sugerem que ele é tão “outra coisa” que as explicações- as quais requerem tornar conhecível algo que não é conhecível comparando-o a algo mais- simplesmente não pode funcionar.
De acordo com os mais variados mitos gnósticos, esse Deus único icognoscível por alguma razão criou um reino divino a partir de si mesmo. Em alguns desses mitos, de algum modo as essências perfeitas desse Único tornam-se elas mesmas autoexistentes. Assim, por exemplo, esse Único passa a eternidade pensando. Ele pensa, é claro, somente em si mesmo pois ele é tudo que há. Seu próprio pensamento, porém, deve existir, pois ele pensa. Dessa forma, seu pensamento se torna uma entidade própria. Além disso, esse único sempre existe e, portanto, sua existência eterna, sua eternidade, existe, tornando-se uma entidade própria. Esse Único está vivo; na verdade, ele é Vida, e assim sua própria vida existe. A Vida então se torna uma entidade própria. E assim por diante.
Dessa forma, emergem desse Único outras entidades divinas, emanações do Um, camadas eons( Pensamento, Eternidade, Vida etc); além disso, alguns desses eons  produzem suas próprias entidades, até que haja um reino inteiro de eons divinos chamado às vezes de Totalidade ou, usando um termo grego, o Pleroma.
Os mitos gnósticos são desenvolvidos para mostrar não somente como esse Pleroma  veio a existir no passado da eternidade, mas também como o mundo em que vivemos veio  a existir e como nós mesmos chegamos aqui. O que esses mitos parecem ter em comum é a idéia de que há um tipo de movimento para baixo, dos espíritos para a matéria, e de que a matéria é uma degeneração da existência, o resultado de uma pertubação no Pleroma , uma catástrofe no cosmo. Em alguns desses sistemas, é o aeon   final o problema, um aeon chamado Sabedoria ou, usando o termo grego, Sofia. Os mitos têm modos diferentes de explicar como a “queda” da Sofia do Pleroma levou às terríveis consequências do mundo material. Um dos mitos mais familiares se encontra no Livro Secreto de João, um relato de uma revelação feita por Jesus a João, filho de Zebedeu, após a ressurr.eição. Esse livro foi um dos trabalhos descobertos (em várias versões) perto de Nag Hammadi, em 1945; uma versão desse mito pode ser encontrada nos resumos de Irineu. Neste mito gnóstico, Sofia decide gerar um ser divino sem a assistência de seu consorte masculino, levando a uma criação malformada e imperfeita. Temerosa de que seu ato incorreto fosse descoberto, ela retira sua criação do reino divino para uma esfera inferior onde ninguém possa vê-lo, deixando-o então, à sua própria sorte. Ela o chama de IALDABAÓ, um nome remininescente de  “Iavé o Senhor dos Sabás”, do velho testamento, pois esse ser divino malformado e imperfeito é o Deus judaico.
Adão e Eva no Éden
De acordo com essa forma de mito, Ialdabaó consegue, de alguma forma, roubar o poder divino de sua mãe. E se muda para bem longe dela e usa seu poder para criar outros seres divinos menores – as forças cósmicas malignas do mundo- e o próprio mundo material. Já que é o criador, ele é frequentemente chamado o Demiurgo ( em grego “aquele que faz” ) Ialdabaó é ignorante acerca do reino acima dele, e então declara tolamente : “ Eu sou Deus e não há outro Deus além de mim”. (Is 45:5-6). No entanto, é mostrada  a ele e aos auxiliares divinos , que o ajudaram a criar o mundo, uma visão do verdadeiro Deus único; eles, então, declaram entre si : “Criemos um homem à imagem e semelhança de Deus” ( isto é, do verdadeiro Deus que eles tinham acabado de ver –cf Gn 2;70. E assim eles fazem Adão. Mas Adão, não tendo nele um espírito, é completamente imóvel. O Deus único e verdadeiro então engana Ialdabaó transportando o poder de sua mãe para essa criatura inanimada, soprando nele o fôlego da vida, dessa forma transmitindo o poder de Sofia para os seres humanos, tornando-os animados e dando-lhes um poder ainda maior do que as forças cósmicas menores que Ialdabaó havia criado. Quando essas forças percebem que o homem criado é maior do que elas, atiram-no no reino da matéria. Entretanto, o Deus único e verdadeiro envia seu próprio Pensamento ao homem, para instruí-lo sobre sua verdadeira natureza divina, sobre o modo como desceu ao reino da matéria e sobre a maneira pela qual ele pode ascender novamente.
Outros mitos tem diferentes formas de descrever a criação do mundo material e a criação dos seres  humanos. O que eles compartilham é a noção de que a realidade em que vivemos não foi idéia ou criação do Deus único e verdadeiro, mas o resultado de um desastre cósmico, e que dentro de alguns seres humanos reside uma centelha do divino que precisa ser liberada a fim de retornar a seu verdadeiro lar.
O único modo pelo qual essa salvação pode ocorrer é através do aprendizado, por parte da centelha divina, do conhecimento secreto que pode trazer  a libertação de seu enclausuramento  no mundo da matéria. O conhecimento, portanto, é central para esses sistemas. Como Jesus indica a seu irmão, Judas Tomé, em um dos tratados de Nag Hammadi :
“ Enquanto me acompanhas, embora não compreendas, na verdade já chegaste a conhecer, e serás chamado ‘aquele que conhece a si mesmo’. Pois aquele que não conhece a si mesmo não conhece nada, mas aquele que conheceu a si mesmo já alcançou, ao mesmo tempo, o conhecimento sobre a profundidade do tudo” ( Livro de Tomé, o Contendor 2.138.14-18).
Extraído do livro “ Evangelhos Perdidos- de Bart D. Ehrman 185-187-Ed. Record)
MSN: alsibar1@hotmail.com

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O PODER DO “ EU SOU” - THE POWER OF "I AM", AUM

Cristo Interno- Eu Sou - Aum

(Você já percebeu quantas vezes a Bíblia cita a expressão “Eu Sou” tanto no antigo quanto no Novo Testamento? Qual seria o verdadeiro sentido do “Eu sou”? É possível entrarmos em contato com o “Eu sou”? Como fazê-lo? É o que analisaremos no texto abaixo.)

No antigo testamento, no livro de Êxodo , Moisés pergunta a Deus “ Qual o seu nome?”, e ele responde “ Eu Sou o que Sou. Disse mais : Assim dirás aos filhos de Israel : Eu Sou me enviou a vós outros.” (Ex. 3:14-15). No último livro da Bíblia, em Apocalípse, Jesus diz “ Eu Sou o Alfa e o Ômega, aquele que é, que era e que há de vir” Ap.1:8).Nos evangelhos, são inúmeras as passagens em que Jesus refere-se a si mesmo como o “EU SOU”:
·        Desde já vos digo, antes que aconteça, para que, quando acontecer creiais que EU SOU! (Jo. 13:19)
·         Quando levantardes o filho do homem, então sabereis que EU SOU! ( Jo. 8:28)
·        Se não crerdes  que “EU SOU” morrereis em pecado ( Jo. 8:24)
·         Em verdade, em verdade vos digo antes que Abrãao existisse EU SOU! (Jo. 8:58)
Além destas citações, são famosas as frases em que disse: “ Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida; Eu Sou a porta; Eu Sou o Bom Pastor; Eu Sou a Luz do Mundo: Eu Sou o Pão da Vida, Eu Sou a videira verdadeira” - dentre outras mais. Ou seja, a expressão “EU SOU” é usada na Bíblia com um significado especial, não é simplesmente um pronome pessoal de primeira pessoa  mais um verbo de ligação, é também um nome próprio e uma forma de expressar ou tentar definir o que é indefinível: Deus. 

Assim, sendo, conclui-se que Deus é o Absoluto: o que é, o que foi, e o que há de vir, e que a expressão EU SOU é apenas uma forma de definir este absoluto indefinível. Daí,  podemos inferir que, como Jesus  foi o Avatar ou Encarnação da Divindade Eterna, Última e Imensurável, ao referir-se àquela força Cósmica da qual ele foi sua manifestação visível, ele se autodenominava “EU SOU”. Ao insistir na expressão “EU SOU”, estava usando uma espécie de código para dizer “ EU SOU o verdadeiro Deus, o mesmo de Moisés, Abraão e dos profetas, aquele que é, que foi e sempre será”, de forma que não houvesse dúvidas nem naquele tempo, nem nos tempos vindouros , sobre sua real identidade, natureza e missão.
Ora, na tradição Védica, o Eu Sou, já era conhecido há milênios pelos hindus como o som original OM, ou AUM. Afirmam, inclusive, que Deus, por ser Absoluto, não difere de seus atributos, ou seja : ele é o NOME (AUM, EU SOU) e o referente ( O Inominável, o Desconhecido, o Impensável, Incognoscível);  é Criador e Criatura,  Observador e coisa observada;  é o Sujeito e o Objeto. Não nos espantemos, pois quando afirmamos isso pois a lógica é simples : ser  "o que é, o que foi e o que será " é o mesmo que dizer EU SOU TUDO,  EU SOU O ABSOLUTO. Se alguém ainda tem dúvida, veja o que Jesus disse, na sentença 77, do Evangelho de Tomé, o Dídimo: “
“ EU SOU a Luz que paira acima de todas as coisas. EU SOU O TODO. Tudo se originou de mim e através de mim tudo foi feito. Cortai um pedaço de madeira, eu estarei lá. Levantai a pedra lá me achareis”
Agora, o que este conhecimento pode nos revelar? É aí onde muita gente acaba se enganando e cometendo muitos erros.  Sair por aí repetindo “EU SOU” ou AUM, não vai te colocar em conexão com Deus, por mais que se tente. Não esqueçamos que a nossa linguagem é pobre e que nossa mente - limitada pelos pensamentos e condicionamentos- não consegue compreender o Infinito, o Ilimitado. Ao afirmarem que Deus é o “EU SOU” os avatares estavam apenas tentando comunicar, apontar algo que é essencialmente indescritível e incomunicável e como não há outra forma eles usam a linguagem. Todavia, isso não significa dizer que estas palavras tenham algum poder mágico ou algo especial.  
Ou seja, não tem utilidade nenhuma repetir palavras, que são apenas recursos comunicativos limitados, na ilusão de, ao fazê-lo, estarmos contatando Deus- o Ilimitado. "EU SOU" é a vibração criadora e mantenedora do Universo; é, talvez, em nossa linguagem, a melhor expressão para definir e expressar o que é DEUS ( digo “o quê”, pois não podemos reduzi-lo a uma pessoa).
Assim, o EU SOU, é a tradução em linguagem humana, do som, ou vibração universal que é a própria essência de toda criação, da matéria, da energia, dos átomos e partículas subatômicas. É o que mantém  vivo e coeso o cosmo que conhecemos. Mas, se Deus não é a palavra o que ele é? ELE É O QUE É. Todos os grandes e verdadeiros iluminados afirmaram isso, desde Jesus, passando por Buda, até Ramana Maharshi. Buda também acreditava em Deus? Acreditar não seria a palavra mais apropriada. Buda disse “ Mais alto que o céu, mais fundo que o inferno, além das mais longínquas estrelas, há um poder estável e divino, existente antes do princípio e que nunca terá fim. Eterno como o tempo, seguro como a certeza, que impele para o bem e é súdito de suas próprias leis” ( O evangelho de Buda –Yogi Kharishnanda).Os iluminados não acreditam em Deus, eles vivem Deus, eles o sentem, o veem em tudo o que existe, e compreendem que são parte dele. Desta forma, entendemos quando Krishnamurti diz que “ Perceber a Verdade é perceber “O que É”.
Mas, como perceber o que é? O eterno “EU SOU” do Universo? Pela meditação, pelo autoconhecimento, pelo perceber as ilusões criadas pela mente. Mas nunca repitam o “EU SOU” na ilusão de que estão meditando. Repetir “EU SOU”, ou “AUM” não liberta ninguém de nada. Ninguém chega a lugar nenhum por um ato voluntário da mente pensante ou EGO. Para que repetir verbalmente o EU SOU? O que pretendemos alcançar com esta prática mecânica e pueril? Ela apenas nos põe a dormir mais ainda, na ilusão de que estamos nos libertando ou entrando em contato com Deus. Deus está além das palavras. A palavra, e a linguagem são instrumentos de comunicação humana. Nada mais. O verdadeiro poder criador encontra-se na mudança de frequência, quae se realiza quando  passamos do pensamento para o não-pensamento, o que nos possibilita o encontro com a energia criadora do universo. Mas, não forceis o pensamento a não-pensar. É outro engano. O pensamento nunca pode parar, por ser, por definição, movimento. Além disso, cairíamos na ilusão da dualidade : entidade pensante versus pensamento. Esta divisão é ilusória, como já, alertou-nos Krishnamurti, Buda e Ramana Maharshi.
Mas  quando nada fazemos ( ZAZEN), e apenas percebemos “o que é” (Krishnamurti), quando nossa mente deixar de distorcer, de enganar, de criar ilusões. Quando a “consciência pura” se faz presente em nosso ser e nos tornamos apenas a testemunha (Ramana Maharish), neste repouso começa um movimento desconhecido    (“se vos perguntarem qual é o sinal do Pai em vós dizeis : é movimento e repouso- Jesus, Evangelho de Tomé). Começa, então, o agir pelo não agir dos Taoístas (wu-wei). E começamos a perceber que sempre fizemos parte do EU SOU universal e que nunca houve separação real. É a mesma relação da onda com o Oceano, ou da vela com o Sol – tudo é Oceano ou Luz.  Acreditar-se separado é viver em dor, conflito e sofrimento. Despertar para a Unidade é encontrar a verdadeira fonte da criação e do poder.
 Mas, esse poder, não pode ser manipulado ou usado por nós enquanto estivermos na ilusão do EGO. Somente no morrer é que há um renascer. Mas o que renasce não é a mesma coisa que morreu, é algo diferente, do qual o EGO não pode compreender, contatar ou perceber. O ego morre quando morremos para toda experiência, memória, passado, pensamentos, palavras e desejos de qualquer espécie. Não pode ser chamado de entrega, porquanto o ego não pode entregar nada – quando ele entrega há sempre um desejo por trás e, neste caso, é o desejo de perpetuação.  "Extinção " seria a melhor palavra para este processo.

 Então, extinto o ego, poderá nascer aquilo “que é , que foi e será”: o Eterno, o Atemporal, o Desconhecido.  Aquilo que, ao longo dos séculos, por pura necessidade de comunicação e por causa da  pobreza da nossa linguagem , foi  traduzido pela expressão  “EU SOU”.

AUTOR: ALSIBAR, (sob inspiração?)
http://alsibar.blogspot.com