sexta-feira, 3 de dezembro de 2021
quinta-feira, 2 de dezembro de 2021
UMA MATRIX DENTRO DA MATRIX
Há uma
tendência entre os espiritualistas modernos a condenar as crenças tradicionais.
Deus, céu, salvação, fé, oração, virtude, etc. são, muitas vezes, vistos com
desdém. Para eles, acreditar nessas coisas é dormir o sono da Matrix, ou seja,
aquele sujeito ainda não "despertou" do sono da 3D.
Ao longo de
quase quarenta anos de pesquisas e investigações, cheguei à conclusão de que
esses espiritualistas, apesar de condenarem as crenças alheias, também têm suas
próprias prisões conceituais. Senão, vejamos:
A crença no
Deus tradicional, antropomórfico, foi substituída pela crença em uma
"Luz", algo abstrato, amorfo, indefinível, universal, eterno,
onipotente e onipresente. A crença na salvação foi substituída pela crença na
Iluminação - um estado de completa conexão com a luz divina que, quando
alcançado, tornará o sujeito rico, próspero, saudável, bem casado e eternamente
feliz. A crença no diabo medieval foi substituída pela crença na Matrix, em
Maya, nos Arcontes, nos reptilianos e nos iluminates. Os santos tradicionais
foram substituídos pelos gurus, espíritos de luz, deuses com quatro braços e
cabeça de animais, mestres ascencionados, etc.
Não estou
criticando as crenças de ninguém mas apenas apontando que nenhuma crença se
torna melhor do que a outra simplesmente por que uma foi abandonada e a outra
aceita como verdade absoluta; continua sendo crença.
Em suma:
tudo aquilo que não é vivenciado e experimentado é uma crença, seja o que for.
Sei que muitos podem contra-argumentar dizendo que viram os mestres, os ets,
que tiveram contato com eles em sonhos, viagens astrais, viram e ouviram tudo
aquilo que afirmam ser verdade. Mas os manicômios ainda estão cheios de gente
que veem, ouvem e interagem com um monte de coisas imaginárias. Assim, qual
seria a atitude mais sábia?
Não tenha
nada como uma verdade absoluta. E nunca ache que suas crenças são mais
verdadeiras do que as dos outros simplesmente por serem suas. Isso o protegerá
de suas próprias ilusões. Afinal de contas, você não tem como saber até que
ponto você mesmo, com suas crenças, não criou sua própria Matrix dentro da
grande e poderosa Matrix.
(Alsibar
Paz)
29/11/21
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sexta-feira, 26 de novembro de 2021
A UNIDADE DA CONSCIÊNCIA E A CONSCIÊNCIA DA UNIDADE
Uma reflexão sobre o texto do vídeo “CONSCIOUSNESS WITHOUT LIMITS” ( CONSCIÊNCIA
SEM LIMITES)
Acabei de assistir ao vídeo, “ Consciousness Without Limits” (Consciência Sem Limites) pela quarta vez. O vídeo é sem dúvidas muito bom e muito bem narrado, todavia, passa a impressão de ser o último palito de fósforo na escuridão da caverna da ilusão. Lamento decepcioná-lo mas não é. Apesar da boa intenção, das lindas figuras de linguagem, das belas imagens, do ótimo som e da narração primorosa, em termos de conteúdo não apresenta muita novidade. É o mesmo clichê das tradições e dos gurus, um pouco mais floreado, sem dúvidas. E, talvez, resida aí o seu grande perigo.
O vídeo começa criando um ambiente de expectativa ao afirmar que ele lhe proporcionará uma experiência única. Sim, como eu disse, é um vídeo muito bem produzido e, obviamente, que em casos assim, a experiência é bem diferente mesmo. Mas, insisto, aí reside mais um motivo de prudência e cuidado: apesar do vídeo proporcionar uma experiência bastante singular aos sentidos, ele pode criar a ilusão de que aquilo que é sentido ao longo da audição é uma pequena amostra do despertar. Não é. Explico: através dos diversos estímulos sensoriais, o vídeo cria uma experiência muito parecida com aquelas produzidas festas "raves" e tecno. É exatamente a mesma coisa: estimulação dos sentidos e nada mais. Todavia, no caso em questão, com uma roupagem mais “nobre” para dar um quê de espiritual.
Mas o conteúdo se supera em imprecisões e confusões ao misturar verdades profundas com afirmações duvidosas. Vamos analisar algumas:
1. Reconhecimento da Realidade
Esse é um dos maiores erros dos gurus e de seus seguidores. Por definição, a Realidade é sempre o Desconhecido, portanto, não pode ser re-conhecida. Como pode se ela é viva, sempre nova e se está sempre se renovando? Aquilo que é re-conhecido foi conhecido anteriormente e, se foi conhecido, NÃO é o verdadeiro Desconhecido. Sendo assim NÃO é a Verdade Atemporal.
2. A limitação da linguagem
O vídeo acerta quando fala da limitação da linguagem. Mas erra quando, contrariando sua própria premissa, adentra em um campo onde a linguagem não pode penetrar sob o risco de imprecisões e adulterações. Daí por que você só pode atuar dentro dos limites do conhecido e nunca tentar penetrar no Desconhecido. A linguagem pode apenas apontá-lo vagamente.
3. O limite entre o “eu” e o “não-eu”
O vídeo fala de uma forma como se houvesse realmente um limite, visto que esse seria o “primeiro limite que traçamos”. Logo depois ele afirma que não existe limite nenhum. Na verdade tanto o “eu”, quanto o “não-eu” e os “limites” são todos conceituais, tudo está no campo do eu, do conhecido. Ou seja, o próprio “não-eu” — enquanto conceito, ideia, percepção — é a continuidade do eu.
4. Quem tira o “limite primário”?
Outro equívoco importante; o vídeo diz: “ se tirarmos esse limite primário, todo o edifício se desmorona”. A pergunta é : quem tira? O próprio eu de quem estou tentando me libertar? Quem faz esse serviço? Se não existe eu, quem vai tirar o “limite primordial” do eu?
5. “Se conseguirmos ver através do limite primário a unidade não estará
longe”
Novamente, faço a pergunta: quem vê, para quê e por quê? Sutilmente, o vídeo cria um objetivo, um tempo, um “vir-a-ser”, uma condição: “se conseguirmos...” Automaticamente o sujeito pensa: se eu conseguir, estarei livre. Está inserido o fator tempo, o futuro psicológico que é, ele mesmo, a própria prisão da qual o eu tenta se libertar.
6. Entrar na “ Consciência da Unidade”?
Quem entra? Entra aonde? Não há lugar, nem ninguém, nem estado nenhum para se entrar. Caso haja, então não é a Unidade pois o “eu” estará lá “entrando”. E se o “eu” está lá conscientemente entrando na unidade, então, por definição, não é a unidade, já que “eu” e “unidade” são excludentes.
7. Nos comportamos como se o “eu” existisse
Exatamente, o vídeo acerta nesse ponto, mas não percebe que ele mesmo, o próprio autor do texto/vídeo está se comportando como se o “eu” fosse uma realidade, nos diversos pontos que já detalhei aqui.
8. “Quando formos em busca do “eu” primário, não descobriremos qualquer vestígio”.
O autor já revela o final da investigação. Ele já diz o que você vai encontrar: nada. Sim, parece correto. Mas esqueceu de apontar que ali ainda existe um “eu” procurando por si mesmo. E esse “eu” que procura e constata sua própria inexistência, ainda é a continuação sutil do “eu”. Falando de outra forma: quem faz essa constatação? Quem fica consciente de todo esse processo? Não é o próprio “limite primário? Ou seja, o “eu consciente de si”, sendo assim, ele continua ali, ou não?
9. Procurar a “sensação de um eu separado”
Vamos destrinchar essa afirmação. Quem busca a sensação do “eu separado”? Não é o próprio “eu separado”? Ou seja, o “eu separado” se distancia de si mesmo, para procurar a si mesmo. Faz algum sentido? Óbvio que não. O próprio “eu separado” ao buscar a si mesmo, continua se separando a si mesmo. O que, novamente, é um disparate.
10. O observador, a observação e o observado
Nessa altura do vídeo, temos a impressão que finalmente vai sair algo profundo, todavia, logo depois vem a decepção. Ele diz: o observador, a observação e o observado são aspectos de um mesmo processo e que “nunca, em tempo algum, um deles pode ser encontrado sem os outros”. Como assim? É uma outra confusão. Krishnamurti passou uma vida falando da ausência de separação entre observador e coisa observada. Ou seja, não existe a ‘separação” pois o observador é uma criação da mente. Só isso. Mas, a observação sem a divisão “observador versus coisa observada” existe, claro. Isso é um ponto chave dos ensinamentos de JK. E, particularmente, comprovei essa verdade por minha própria experiência. Sendo assim, você encontrará sim a “observação” sem o “observador”. Nesse ponto do vídeo, há um problema de tradução. E, aparentemente, o tradutor o fez exatamente porque ficaria contraditório e sem sentido. No original ele diz “ não existe o observador, o observado, nem o observar. São três aspectos que designam a experiência da observação.” Mas essa última parte foi traduzida assim: “são três aspectos que designam a experiência do testemunhar”. Ou seja, no original ele fala que há sim somente a observação.
11. A experiência: você não pode ouvir o próprio ouvinte
Como assim? Óbvio que pode, basta fazer algum barulho. Se o ouvinte está em silêncio, obviamente que ele não poderá ser ouvido. Como se vai ouvir algo que não faz barulho? Então, a afirmação: “você não pode ouvir o ouvinte dos sons” é inválida. Faça algum barulho que você ouvirá sim o ouvinte. Onde está o ouvinte? Ouvindo, oras. Novamente, o vídeo cria uma nova divisão: se você apenas ouvir os sons, não haverá nenhum problema, estará tudo certo. Mas quando ele diz para procurar o ouvinte, aí, nesse momento ele cria a divisão, ele cria a separação: ouvinte e som. Ou seja, o próprio texto cria uma nova separação, um problema onde, antes, não existia nenhum.
12. “Fundir-se com a totalidade de sons lá fora”
Quem se funde? O “eu” que o próprio vídeo afirma não existir? Novamente, a divisão, a separação é criada através de um suposto apontamento de unidade. A unidade já está aí, não existe nenhum “eu” pra fundir-se com nada. Simples.
13. “Quando ouvi o sino, havia apenas o som!”
Certíssimo, há apenas o ouvir, assim como há apenas o observar. A meu ver esse pequeno relato da iluminação do mestre zen foi o ponto máximo do vídeo. De forma simples, clara e objetiva o mestre foi mais conciso e preciso do que todo o palavreado do vídeo.
14. Ninguém jamais encontrou um “eu” separado da experiência.
É o tipo de afirmação vaga, parcial e, portanto, temerária. Toda a humanidade vive a experiência do “eu” separado. E ele pode sim ser encontrado; é isso o que o verdadeiro autoconhecimento faz: lhe aponta onde está o “eu separado” para que você possa identificá-lo, ver sua verdade e, assim dele se libertar.
15. Você não ouve o som do trovão, você é o som do trovão!
Ora, óbvio que você ouve. Para isso que existem os ouvidos. Mas só existe o escutar. Assim como disse o mestre zen citado pelo próprio autor: só existe o som. Ora, se o mestre não ouvisse o som do sino, como ele poderia percebê-lo e dizer que só existia o som do sino? Então, melhor do que dizer: “você é o som” seria dizer: “só existe o ouvir do som”. Ou seja, a ação, a experiência sem a entidade separada, sem o ouvinte.
16. Seu estado atual é de
consciência da unidade
Não. O estado atual é de separação. O “Estado de Unidade” pode acontecer caso haja uma percepção, um vislumbre dessa verdade não como uma teoria ou conceito, mas como uma vivência direta. E isso não pode ser feito pelo próprio “eu” pois o eu só pode atuar dentro do seu próprio campo de experiência. Ou seja, do conhecido, da fragmentação, da dualidade.
17. Não existe “alguém” que faça nada!
Ao final, ele fala sobre a ideia de “anatta”— não átman, não eu — do Budismo. Todavia, até chegar a essa compreensão profunda e transformadora, o eu continuará existindo como ilusão, como ignorância, como névoa, como miragem. E o indivíduo só se livrará dela se ele mesmo perceber e ver essa verdade. Até lá, ele não pode simplesmente acreditar que não é um “eu separado”. Muito pelo contrário, ele terá que ver o funcionamento do seu próprio “eu” em ação e de como sua mente cria o observador separado. Somente, aí, ao ver e constatar diretamente essa verdade é que ele pode realmente se libertar da separatividade. Até lá, todas essas afirmações não farão sentido nenhum pra ele pois o fato, a verdade para ele é a separação, não a unidade.
18. Quando nos desapegarmos da ideia de um “eu isolado”.
Novamente a pergunta: quem se desapega? O próprio eu que já é, por natureza, isolado? Separado?
19. Medite, olhe para dentro!
O vídeo termina reafirmando os clichês e as práticas milenarmente repetidas pelas religiões, tradições e gurus. Quem olha para dentro e por quê? Quem medita e por quê? São questões cruciais que todo aquele que anseia pela verdade deve se fazer caso queira realmente descobrir a verdade sobre si mesmo e sobre as questões apontadas nesse artigo e no vídeo.
20. Nós nos identificamos com nossa mente!
Pronto! Nos identificamos com as ideias, as crenças e os conceitos — como esses que o vídeo aponta. Então, é preciso questionar isso que o autor chama de “ Filosofia Perene”, mas que, a meu ver, é uma deturpação da mesma. Sendo assim, não se identifique com nada, nem com os supostos conceitos da filosofia perene, nem mesmo com os apontamentos desse texto. Investigue e descubra por si mesmo sua veracidade ou falsidade.
Por fim, quero dizer que a UNIDADE DA CONSCIÊNCIA não tem consciência de sua própria unidade. Se tiver, não será a verdadeira unidade e sim, mais uma ilusão.
P.S: Quero apenas fazer outra observação: ao longo do vídeo é claramente citado vários pontos chaves dos ensinamentos de Krishnamurti: observador e coisa observada, experimentador e experiência, pensador e pensamento, etc. todavia, em nenhum momento seu nome é citado, por que será? Uma pessoa que conhece Alan Watts, a tradição Zen, os ensinamentos de Buda, certamente deve ter conhecido os ensinamentos de JK. O curioso é que só seu nome foi excluído do vídeo, não suas ideias e ensinamentos. Muito estranho, não?
By Alsibar Paz
26/11/21
Link do vídeo: Consciousness Without Limits
quarta-feira, 24 de novembro de 2021
O LEGADO ( MALDITO) DO OSHO ( Bhagwan Shree Rajneesh)
Melanocetus johnsonii, mais conhecido como Peixe Diabo Negro, é uma espécie que vive nas profundezas oceânicas abissais onde não a luz não penetra. Ele atrai suas presas através de uma pequena “falsa luz” que é usada como isca para atrair peixes menores. Fascinados por aquela luz, as presas não têm chances contra a mordida e o veneno poderoso do Peixe Diabo Negro. Quando esse texto começou a ser gestado, logo de cara me veio a lembrança desse peixe como a imagem perfeita para simbolizar o Osho: uma falsa luz espiritual cujo único objetivo era prender aqueles que, por sorte ou azar, entravam em contato com ela. O veneno do Osho não era apenas viciante e paralisante, espiritualmente falando, ele era muito mais perigoso do que se imaginava.
![]() |
| Peixe Diabo Negro |
É inegável a contribuição do Osho para a libertação espiritual e sexual de toda uma geração de buscadores. É inegável o quanto ele ajudou a espalhar nomes de místicos, líderes e sábios famosos como Krishnamurti, Kabir, Ramana, UG Krishnamurti, Gurdjieff, mestres do budismo e do sufismo Zen, etc. Ninguém pode negar também que muitos dos seus ensinamentos são belos, poéticos, sábios e , por que não, profundos?
Mas, o que pouca gente sabe, principalmente aqueles que não viveram na época em que o mesmo estava vivo, é que todos esses aspectos positivos do fenômeno Osho tinha um endereço certo, uma clara intenção por trás: fazer adeptos, criar uma nova religião, criar um séquito de fanáticos seguidores, criar uma comuna poderosa e autossustentável, fundar uma cidade com o nome do Rajneesh, dominar tudo o que estivesse pela frente, passar por cima de todos, etc. o objetivo final parece trama de filme de ficção : dominar o mundo ou, pelo menos, uma boa parte dele. Muita gente despertou a tempo desse pesadelo — eu mesmo fui um deles. Quando ele morreu, havia uma sensação de que finalmente, o maldito Osho deixaria de fazer suas vítimas ao redor do mundo. Ledo engano!
Recentemente recebi um vídeo de um ex-sanyasin do Osho em que ele dizia que não estava nem aí para o que Osho fazia, pois sua presença era o que havia de mais importante nele. É desse tipo de coisa que falo: Osho se foi, mas deixou um séquito de seguidores cegos que estão dando continuidade ao seu projeto malicioso. Ao redor de todo o mundo e, principalmente, no Brasil pessoas ávidas por poder espiritual estão ocupando o espaço vazio deixado pelo Osho. Não é um fenômeno isolado e também não é algo novo. O próprio Michel Holly Hell da Netflix já usava as mesmas técnicas do Osho para enganar e explorar sexualmente os jovens. Basta assistir ao documentário Holly Hell para ver as incontestáveis semelhanças entre os dois: gestos, técnicas, termos, linguagem, abordagem, etc. Os sociopatas viram no Osho a receita infalível para conseguirem alcançar a excelência no campo da manipulação e controle mental usando a espiritualidade como pano de fundo. E o resultado?
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| Michel Holly Hell ou Andreas |
Não há uma pesquisa séria nesse campo pois é um assunto
delicado e tabu, afinal, estamos falando de liberdade religiosa que, no Brasil,
é sagrada e intocável. Não é à toa que João de Deus passou uma vida estuprando,
enganando e explorando as pessoas sem nunca ter acontecido nada com ele —
apesar das várias denúncias ao longo do tempo. Se não tivesse sido a
repercussão nacional trazida pelas reportagens da TV, com certeza, ele ainda estaria
fazendo vítimas.
No caso dos imitadores do Osho, muitos ainda estão em começo
de carreira, suas vítimas ainda são poucas e muitos das suas nefastas atitudes
não podem ser tipificadas como crimes ou ilegalidades. Em geral, são pequenos
deslizes: exploração da fé, preços exorbitantes por uma sessão, lavagem
cerebral, hipnotismo, mentiras, ameaças veladas e desonestidade. Coisas
realmente tão subjetivas que fica difícil tipificar e provar seu caráter
perigoso e ilegal. Alguns desses gurus procuram se prevenir juridicamente,
fazendo com que a vítima assine um termo em que exime o guru e sua organização
de toda e qualquer responsabilidade por qualquer dano, financeiro, psicológico
ou emocional que a vítima venha eventualmente a sofrer . Um total absurdo.
Ao longo desse meu contato com as redes sociais, tenho conhecido muitos gurus ou protótipos de gurus: pessoas que sonham em se tornar tão famosos, ricos e poderosos quanto o mestre. Alguns estão seguindo direitinho a cartilha maligna deixada pelo seu líder: minta, engane, explore, afague, hipnotize, controle. Use palavras bonitas, verdadeiras e tocantes: mesmo que não sejam suas, não precisa dar os créditos. Apenas fale as palavras que as pessoas querem ouvir. Denuncie os gurus, diga que não é guru, mas, na prática, seja seu líder e guru supremo. Faça seu marketing em cima da imagem de um homem sábio, iluminado e autorrealizado. Manipule de forma sutil para que as pessoas não percebam que estão sendo manipuladas. Fale, sempre que possível, palavras sem nexo. Quando a mente está dominada, não importa o que você fala nem o que você faz. E, assim, aos poucos vá fazendo sua carreira de guru de sucesso.
Osho se foi, mas deixou um legado maldito que sem dúvidas
repercutirá por muitos anos e, talvez, séculos através daqueles que estão copiando
seus métodos nocivos de controle mental. Muitos desses candidatos a Bhagwan
brasileiro usam a imagem de outros gurus mais populares e menos polêmicos: uma
forma de penetrarem mais facilmente na mente das pessoas sem grandes resistências.
Afinal, se apresentassem o Osho como mestre, a resistência seria bem maior por
motivos óbvios. Mas, logo se vê que seu modus
operandi é exatamente igual ao do Osho, não do outro guru que ele apresenta
ao público como sendo seu mestre.
Frequentemente, escuto notícias de alguém que foi vítima
desses gurus, alguns chegaram, inclusive, a me procurar — totalmente arrasados
e destruídos: espiritualmente, emocionalmente e financeiramente. Não penso que
quem causa essas coisas, de forma consciente e intencional, se livrará do carma
que estão acumulando para si. Lamentavelmente, a droga do poder e do sucesso,
não os permite enxergar que não estão agindo como iluminados, mas como
monstros. A ilusão de maya ataca a
todos, inclusive aos supostos gurus. Em sua sanha por poder, fama e dinheiro,
usam de tradições espirituais sérias e da imagem de gurus autênticos para
satisfazer seus intenções megalomaníacas. O estrago que fazem na psique das
pessoas é incomensurável. Até onde isso vai dar?
Enfim, pouco ou nada posso fazer. O que posso estou fazendo:
esclarecendo, avisando as pessoas para não caírem nesses golpes. Para ficarem
atentas contra os perigos e armadilhas nesse campo da espiritualidade. A falsa
luz é uma realidade, um fato. Pesquise, analise, questione, duvide, não siga,
não obedeça, investigue por si mesmo, seja seu próprio mestre. Não entregue sua
vida nas mãos de ninguém. Não se deixe atrair pela falsa luz. E, aos que estão
fazendo isso, mesmo sabendo o mal que estão causando, fica aqui o recado de
Jesus, o mestre dos mestres: “ a quem mais foi dado, mais será pedido!”
By Alsibar Paz
24/11/21
sexta-feira, 19 de novembro de 2021
sexta-feira, 12 de novembro de 2021
MEU DEUS NÃO É O DE SPINOZA
O Deus de Spinoza' é no mínimo estranho e contraditório. Ao mesmo tempo que desautoriza os Mandamentos, ao longo do texto, não faz outra coisa a não ser mandar. Manda a pessoa parar de rezar e ir desfrutar a vida, como se as duas coisas fossem excludentes. Não dá pra rezar e, ao mesmo tempo, aproveitar a vida?
O Deus de Spinoza me parece bastante neurótico. Ao mesmo tempo que ele diz que não se incomoda com nada, ele passa o texto todo falando exatamente das coisas que não quer e que, portanto, parece incomodá-lo sim. Se incomoda com as rezas, as escrituras e até com os louvores.
O Deus de Spinoza ao mesmo tempo que diz estar nas montanhas, nos rios, nas praias, também diz para pararmos de procurá-lo fora. Realmente, me parece uma imagem muito mais neurótica do que aquela apresentada pelas religiões tradicionais.
Meu Deus não é o deus de Spinoza. Meu Deus é amoroso, compassivo e compreensivo com nossos erros, falhas e limitações.
Meu Deus é o Deus de Krishna que diz: ' Aquele que me oferecer, com amor e devoção, uma folha, uma flor, frutas ou água, Eu as aceitarei.'
Meu Deus é o Deus de Yogananda que diz: eu estou em todas os lugares e em todos os templos onde quer que haja um coração sincero e devocional, independente de crenças e tradição religiosa.
Meu Deus é puro amor e, por amor, ele faz a justiça, não para castigar ninguém mas porque é através das leis divinas que as entidades vivas aprendem, amadurecem e evoluem espiritualmente.
Meu Deus está tanto dentro quanto fora de mim. E se ele está em tudo, então os cânticos, rituais, símbolos e orações - quando feitos com sinceridade e amor - são meios limitados, mas legítimos, de se buscar uma aproximação com o Sagrado.
O meu Deus aceita sim o perdão como meio de cura, mas nunca o sentimento de culpa. O perdão é um artifício útil para elevar a consciência daquele que, por ignorância, cometeu algum ato leviano e imprudente. Nem todos precisam do perdão, mas alguns sim: tanto para si mesmos, quanto para com os outros.
Sim, não existe o inferno enquanto lugar ou uma região específica. Mas existe o inferno da consciência, da dor do conflito, do sofrimento mental. É impossível dizer quanto tempo durará, anos, séculos, vidas? Vai depender da dureza do coração de cada um. Deus não castiga ninguém, é o próprio homem quem se castiga através de suas atitudes, pensamentos e sentimentos.
Deus não é contra as crenças, se o fosse, não teria feito o homem com o poder de criá-las. Cada pessoa acessa Deus conforme suas condições e entendimento. Algumas pessoas precisam da crença para lhes dar força, motivação e esperança. O nível das crenças é como o 'leite' do Apóstolo Paulo, o nível do 'místico' é como a carne. O alimento Espiritual é dado conforme a capacidade e limitação de cada um.
Deus não rejeita ninguém pois é pura fonte de Amor e Compaixão. Apesar disso, suas Leis são perfeitas, eternas e imutáveis. E se ele está em um amanhecer, no anoitecer e na Natureza, ele também está em todos os objetos, inclusive nos livros sagrados. E mesmo que elas tenham sido deturpadas pelos homens, é possível extrair-lhes o tesouro do Dharma, quando o coração se abre à Verdade. Dizer que Deus está em tudo e em todos não o exclui, obviamente, das escrituras, da literatura, da música, da arquitetura, da dança, da pintura e das Artes em geral.
Esse é o meu Deus. Que não é meu, mas de todo mundo, inclusive de crentes e ateus.
By Alsibar Paz
quarta-feira, 10 de novembro de 2021
CORRA, ANTES QUE VOCÊ MORRA!
De uns tempos desses para cá, talvez por conta do advento da
internet e a facilidade de acesso às informações, tem aumentado o
questionamento acerca da natureza da realidade tangível. Afinal, essa dimensão
na qual nascemos, crescemos, vivemos e morremos é real ou tudo não passa de um
sonho? Há muito tempo que cientistas, gurus, religiosos, místicos, estudiosos,
sábios, filósofos, ateus e pessoas comuns debatem essas questões em seus
artigos, escritos, conversas, ensinamentos e, agora, nas páginas, grupos, cursos
da internet e whatsapp. E eu fico pensando: que diferença faz quem está certo
ou errado nessa questão? O que vai mudar? O sofrimento diminui no sonho ou, ao
contrário, aumenta? O que muda na vida da pessoa se ela acreditar em uma coisa
ou noutra?
A meu ver é um debate totalmente inútil. Fico tentando descobrir algo mais útil: por
que as pessoas se debruçam sobre tais questões cuja resposta nunca saberão com
certeza? Desde o tempo de Sidarta Gautama, o Buda, já havia calorosos debates
sobre tais assuntos. Buda evitava respondê-las pois sabia que a resposta não
iria fazer diferença nenhuma na vida do sujeito . Certa vez ele contou a
parábola de um homem que fora atingido por uma flecha e que dizia que só
permitiria que lhe tirassem a flecha depois que soubesse sua origem, quem a
atirou, porquê, qual casta etc etc. Então, Buda perguntou aos discípulos: o que
provavelmente aconteceria a este homem? Os discípulos responderam: certamente
morreria. Então, ele disse: da mesma forma, não se preocupem com esses tipos de
questões por que elas são inúteis. Tratem de tirar a flecha causadora do
sofrimento, caso contrário morrerão antes de encontrar as respostas.
Particularmente, acredito que há níveis de realidade. O sonho
é um nível de realidade, a vida que vivemos nesse mundo é um nível de realidade
mais concreto em relação ao mundo onírico; o despertar é um nível mais real em
comparação ao estado mental ordinário; depois que morrermos iremos para outro nível de realidade e assim por diante. Mas, repito, que diferença faz você concordar ou
discordar de mim? Ou ao contrário, se eu concordar ou discordar de você? Por
que não tentamos ser mais práticos e inteligentes? Qual é o fato? O fato é que sofremos
e criamos todo tipo de artifícios para fugir da nossa realidade – seja ela de
que natureza for.
Mais recentemente, Krishnamurti, um buda moderno, afirmava
que a casa está em chamas e quando você percebe esse fato, o que você faz? Vai
ficar se perguntando se é realidade ou um pesadelo ou vai tentar sair
imediatamente da casa? Como você saberá se é sonho ou não? Você vai ficar
esperando encontrar as respostas para só depois tomar as providências necessárias? Penso que
essa é uma atitude, no mínimo, imprudente.
Se sua casa interna arde no fogo do sofrimento esse é o fato,
o que é. Em meio ao incêndio, a própria mente se torna confusa e sem clareza
para responder corretamente a tais questões. Além do mais, não há tempo. O
tempo está passando, gaste suas energias e foque sua atenção no que realmente
importa: salvar sua vida. Se for só um sonho, você acorda. Se for real, você se
livra da morte. Se percebeu que o prédio está caindo desça e saia
imediatamente. Se o barco está afundando, coloque logo um salva-vidas - sua
vida pode depender de uma ação rápida e enérgica. E se começar um incêndio em
sua casa, apague-o, saia ou chame os bombeiros. É totalmente tolo, inútil e
imprudente ficar se perguntando se a tragédia que está acontecendo diante da
sua cara é sonho ou realidade.
A nossa casa interior está sendo consumida pelo fogo do sofrimento.
O conflito e a ansiedade estão diariamente fazendo vítimas fatais. Mesmo que a
vida nesse plano seja uma ilusão, o sofrimento que se vive é bem real. Negar a
realidade não nos livrará das consequências de nossas ilusões, fugas e imprudências.
É necessário assumir o protagonismo da nossa vida e agir no sentido de evitarmos,
dentro das nossas possibilidades, mais sofrimentos além daqueles que a vida nos
impõe. Aja, antes que seja tarde demais.
Tire a flecha ou corra, antes que você morra!
sexta-feira, 29 de outubro de 2021
terça-feira, 26 de outubro de 2021
O NEO-ADVAITA E A DESUMANIZAÇÃO PELA INSENSIBILIZAÇÃO
Quando os grandes mestres autorrealizados como Sankara,
Ramana, Nisargadata dentre outros, proferem sentenças como essas, eles partem
de uma percepção muito avançada acerca da natureza essencial do “eu”. Ou seja, eles se movem da experiência para o
discurso e não o contrário. Isso significa que eles falam de uma experiência real,
direta e objetiva e não do que os outros disseram ou do que leram. Foi essa
vivência que os fez perceber que por
trás da aparência visível da realidade,
existe “ Algo” maior que alguns chamam de Luz, Consciência, Deus, Fonte, Amor,
Imensurável, etc. Até mesmo os
cientistas já reconhecem que a natureza da matéria não é sólida, que tudo é
feito de pequeníssimas partículas de energia, luz e, mais profundamente, espaço
e vazio. Então, não há nada de novo nos discursos dos gurus neo-advaitas. O que há de novo é a má
interpretação que estão fazendo desse conhecimento, gerando um fenômeno perigoso
entre seus adeptos: a desumanização do homem através da insensibilização.
De acordo com essas pessoas, o sentir está ligado ao corpo e,
portanto, não devem sentir pois eles são a “ Consciência” e a consciência não
sente, não muda, não se apega, não se identifica. Desta forma, criam um estado de
completa abstração da realidade para se refugiarem em um estado mental idealizado
em que se sentem seguros e protegidos. Para eles, quanto maior a insensibilidade,
maior a espiritualidade. É claro que não estou dizendo que todos fazem isso,
mas que há uma tendência, por parte de alguns, em confundir insensibilização
com elevação espiritual. O resultado é a temerária construção de um estado mental em que o ser humano é reduzido a coisa, pois
se se lhe tira a sensibilidade, tira-se também sua humanidade.
Ora, Jesus — para alguns, o maior de todos os iluminados —
nunca defendeu tal tese. Pelo contrário, o que se vê nele é uma vida de muita
emoção, sensibilidade, compaixão e paixão. Krishnamurti, um iluminado moderno,
por várias vezes enfatizou a importância da sensibilidade, de sentir o vento,
os cheiros, as cores, a beleza da natureza, etc. Isso nos leva a refletir o
seguinte: embora algumas correntes religiosas conservadoras condenem os
sentidos ensinando, inclusive, a controlá-los, essa atitude pode não passar de
um grande equívoco. De acordo com Krishnamurti o controlador é o controlado e, sendo assim, o controle é
uma ilusão pois cria mais conflito e sofrimento. Outros iluminados de outras
correntes como Yogananda, Sri Yuktéswar, Lahiri Mahasaya e até Babaji, em
nenhum momento deram a entender que a realização espiritual significaria a
extinção total das emoções e dos sentimentos. Então, tudo leva a crer que está
havendo uma espécie de “ilusão de ótica coletiva” nisso tudo.
O problema é o seguinte: cada pessoa só pode falar daquilo
que vivencia. O ideal de Ramana de uma vida ascética, apartada do corpo, das
emoções e da realidade sensorial era verdadeiro para ele que escolheu o caminho
da renúncia. Por ser uma alma elevada,
sua mente mergulhava naturalmente em profundo êxtase, alcançando com facilidade
estados elevados de consciência. Todavia, quando uma pessoa comum, com a mente
inquieta e cheia de conflitos, fica apenas tentando imitá-lo, não é a mesma coisa.
Ao invés de realização espiritual passa a ser invenção mental. Em suma, o que
acontece é que a mente começa a condicionar a si mesma, criando para si um
mundo ideal em que se exclui tudo aquilo que possa significar dor.
Infelizmente, isso não é advaita mas sim uma deturpação do advaita. Quando a mente
se divide em “Personagem e Ser”, ou quando ela resiste a qualquer emoção que possa perturbar
sua suposta paz, ela não está sendo não-dualista. Pelo contrário, ela está
criando resistência pela não identificação, o que constitui uma fuga da
realidade. É uma forma esperta que a mente encontra de evitar a dor e, de
quebra, ainda ganhar o status de “Desperto”.
Mas, a verdade é que isso não funciona por muito tempo. Se a cada desafio,
problema ou situação difícil, houver, por parte do sujeito, apenas uma negação
mental do fato, sob a justificativa de
“não ser real”, o que ele faz
não é muito diferente daqueles que usam drogas , bebem ou tomam remédios
para esquecer dos problemas. Certamente que tal atitude não demonstra lucidez
espiritual, mas fraqueza, imaturidade e covardia.
Grandes mestres como Jesus, Krishnamurti, Sri. Yuktéswar e
Nisargadata não fugiram da vida, não a negaram. Pelo contrário, vivenciaram-na
em todas as suas nuances, desde o prazer de um bom vinho, uma boa comida, uma
boa companhia até a dor de uma crucificação, da traição ou de um câncer mortal.
Não há vida sem sentimentos ou emoção. Jesus nunca seria um grande mestre se
não tivesse sentido em si mesmo a dor dos sofredores e oprimidos. Sendo assim,
se você está começando a estudar o advaita através desses gurus ocidentais
modernos, tenha muito cuidado não só com aquilo que eles lhe transmitem, mas
também com a sua própria interpretação. Não se deixe impressionar pela beleza
dos seus discursos e tenha o máximo de
cautela com aquilo que eles ensinam. Não se deixe levar tão facilmente por suas
palavras e mantenha-se atento para perceber as sutilezas do discurso que podem
levá-lo à desumanização. Mantenha o "desconfiômetro" ligado pois, embarcar numa
ilusão como sendo realidade pode até ser bom no começo, mas, no final, pode
custar-lhe muito mais caro do que você imagina.
By Alsibar Paz
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domingo, 24 de outubro de 2021
SOBRE KRISHNAMURTI E YOGANANDA
Recentemente, houve no grupo de mentoria
que oriento, uma discussão acerca da validade de ensinamentos espirituais
diferentes daquele apontado por Krishnamurti e no caso específico, o caminho de
Yogananda. É inevitável que haja um choque entre essas duas visões tendo em
vista que ambos apontam caminhos diversos para o mesmo objetivo. Mas quem está
correto? Por que essas duas correntes, aparentemente verdadeiras, são tão
diferentes entre si?
Paramahansa Yogananda e seus
mestres estão inseridos no contexto da tradição religiosa hindu. Mesmo que sua
mensagem seja universal, não tem como se desprender da influência da tradição,
sociedade e cultura em que viviam. Isso aconteceu com todos os grandes mestres.
Buda dialogou com o Brahmanismo, a corrente hindu predominante na sua época.
Seus ensinamentos e visão estão recheados de termos e expressões dessa
tradição, seja afirmando, refutando ou simplesmente referenciando. Jesus,
apesar de ter vivido a experiência do Despertar como um fenômeno Universal, Eterno e Humano, não
teve como se livrar do peso da cultura e da sociedade em que estava inserido.
Os elementos de seu discurso e ensinamentos, tais como: termos, linguagem,
exemplos e expressões foram inevitavelmente tirados do seu próprio background,
do contexto em que ele vivia e fora criado. O discurso é um fenômeno social,
influenciado e condicionado pelo meio em que se vive. No caso de Krishnamurti,
por mais que tenha se livrado do peso da sua educação e cultura em que crescera,
e por mais universalista que se tentasse ser, era inevitável falar sobre
mestres, tradições, religiões, condicionamentos, organizações, meditação,
iluminação, etc. —até mesmo como forma de refletir sobre suas influências e limitações
em nossas vidas. A questão, portanto, não é se livrar totalmente dessas
influências, mas saber até que ponto ela atrapalha e altera nossa percepção da Verdade, daquilo que é
verdadeiro.
Yogananda não lutou contra o
seu meio, condicionamento e tradições — pelo contrário, ao reafirmar e
confirmar seus valores e crenças, tornou-se ele mesmo uma peça fundamental para
sua legitimização e validação. É preciso ter o discernimento para saber onde
termina o campo puramente social, cultural e religioso e começa a experiência
pura da verdade universal. Os elementos puramente culturais são, por definição,
superficiais e convencionais. Servem para comunicar, dentro de suas limitações,
a experiência que está além de toda linguagem. Por isso que JK sempre
enfatizava que a experiência não é palavra, a coisa não é o objeto, a palavra
não é a coisa. A “coisa” está muito além de toda expressão, mas a linguagem é
fundamental para poder transmiti-la aos outros. Consciente dessa questão e
vendo que, muitas vezes, as pessoas se apegam ao meio e esquecem o fim, adoram
o dedo mas esquecem a Lua, JK enfatizou essa problemática de uma maneira
radical, como nem mesmo o Zen o fez. Assim fazendo evitou, dentro dos limites
do possível, usar palavras e expressões com significados estabelecidos pelas
tradições religiosas. Muitas vezes, perdia quase uma hora tentando explicar os
novos sentidos que estava dando a cada palavra e expressão. Assim, termos como
: observação, atenção, inteligência, meditação, verdade, ordem, tempo, Deus, ação, religião, etc. foram todos ressignificados.
Yogananda e seus mestres não foram por essa direção. Ao contrário, tentaram
trazer para a humanidade um novo impulso, um novo ânimo e esperança dentro da
própria tradição. Conseguiram? Talvez sim, talvez não.
O caminho de Yogananda e
seus mestres se apresenta como uma nova perspectiva dentro do caminho milenar
da Yoga Tradicional. Sua Kriya Yoga nada mais é do que a releitura do caminho
dos grandes mestres do passado, os Rishis ou grandes sábios da Índia antiga. Ao
apresentar ao mundo a existência de grandes almas iluminadas (Yogues) vivendo
nesse mundo, alguns deles, como seu próprio mestre, a poucas quadras de sua
casa, ele ajudou a tirar o iluminado do pedestal de distanciamento e
sacralidade presente no imaginário popular. O próprio Yogananda, talvez
influenciado por essa perspectiva idealizada, duvidou da iluminação de seu
próprio mestre e o abandonou, indo em busca de um Yogue distante, recluso e
renunciante. Ora, por que será que Yogananda abandonou seu mestre? Claro que
ele não fala. Todavia, é óbvio que de alguma forma ele não estava satisfazendo
suas expectativas e aspirações. O fato é que Sri. Yuktéswar era um homem
inserido na sociedade e foi
caracterizado no livro como um mestre rígido, às vezes imaturo, às vezes
infantil — quando, por exemplo, não cumprimentou Babaji mostrando-se ressentido por ele não
ter lhe esperado no Kumb Mela — e muito emotivo ( por exemplo, quando Yogananda
foi para o Ocidente ele caiu em prantos). Ou seja, talvez ele fosse, “humano
demais” para os padrões de Yogananda. Mas, ficou a grande lição que aponta na
mesma direção de Krishnamurti: somos todos seres humanos sujeitos a falhas,
erros e imperfeições.
Krishnamurti e Yogananda são
muito diferentes, por certo. Seus ensinamentos não têm nada a ver um com o
outro exatamente porque um segue a tradição e o outro a nega. Enquanto
Yogananda diz que há um caminho científico para Deus, Krishnamurti, por sua
vez, o nega radicalmente. Ambos, têm lá suas razões. Particularmente, acredito
que o sucesso de Yogananda se deve à presença física dos mestres. Como descrito
por ele mesmo, os próprios mestres intervinham de forma direta na evolução
espiritual do discípulo. Um fenômeno realmente raro, mas que nem sempre dava
certo. O próprio Yogananda descreve que vivia pedindo a seu mestre pela experiência
da Consciência Divina ou Samadhi e este, por sua vez, lhe dissera várias vezes
que ele não estava preparado. Mas, o certo é que só o Samadhi em si não é o
bastante para revelar Deus. A pessoa precisa estar também preparada para
entender seu significado profundo e estar madura o bastante para que aquela
experiência cause uma transformação positiva em sua vida. Além disso, um
Samadhi muito intenso, ou na hora errada, pode trazer grandes problemas na
psique do sujeito. Daí o cuidado e a cautela do seu mestre. Samadhi por
Samadhi, o chá está aí para quem quiser, mas quantos se iluminaram através de um
Samadhi artificialmente provocado? Ou até mesmo por um Samadhi acidental?
Ninguém. Muitos ficaram com sérios problemas psicológicos.
Em Krishnamurti não existem
mestres, nem métodos, nem organizações. Os mestres da tradição de Yogananda já
se foram. E o que começou como um movimento vivo de almas espiritualmente elevadas, agora tornou-se
mais um movimento religioso nos moldes das religiões tradicionais. O dedo
sobrepujou-se à Lua. Atualmente, não há
apenas uma organização da tradição iniciada por Babají, há diversas, sem falar nas brigas
jurídicas em torno da verdadeira “Kriya Yoga “, da verdadeira tradição e dos
direitos autorais do legado deixado por esses grandes mestres que, diga-se de
passagem, não estavam nem aí para isso. A história se repete, os mesmos erros
do passado se repetem. E aí fica mais claro entender por que Krishnamurti
evitou com todas suas forças criar uma nova organização religiosa.
Se por um lado as organizações são importantes para perpetuar a memória e
preservar os ensinamentos dos grandes mestres, por outro lado elas se tornam
fator de divisão e conflito.
Por fim, cada um siga o
caminho que mais lhe apetece e com o qual mais se identifica. Independente do
caminho de Yogananda estar certo ou não, não é isso que vai iluminar ou impedir
a iluminação daqueles que realmente estão preparados para ela. Ramana Maharshi
nunca praticou nada, não seguiu método nenhum e não teve mestres, mesmo assim, naturalmente, a Verdade despertou dentro dele. Já Nisargadatta Maharaj
teve um guru que lhe ensinou um método que ele seguiu e em poucos anos se
iluminou. Como disse UG, não há regras, não há meios, ninguém sabe como isso
acontece. De repente, “por um golpe de sorte você tropeça nisso”. Mas, sinceramente acredito que tanto Yogananda quanto Krishnamurti têm sua validade.
Aquilo que falta em Krishamurti - uma abertura maior ao misticismo mesmo que seja
apartado da tradição convencional- pode ser encontrado em Yogananda. E o que
falta em Yogananda - essa percepção de que Deus/a Verdade não pode ser
subjugada, nem alcançada por nenhum método direto - pode ser encontrada em Krishnamurti.
Na dúvida, duvide de ambos e descubra por você mesmo a verdade acerca dessa
questão.
By Alsibar Paz
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