quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Quem mais se aproxima das trevas : a esquerda ou a direita?


Depois de ler um post no Facebook em que o autor usa o Gita para fundamentar sua posição contra o candidato Jair Bolsonaro resolvi escrever esse pequeno artigo como contraponto ao mesmo. Não sou nenhum erudito ou estudioso profundo do Gita. Mas, como percebi que a análise em questão, apesar de ser de autoria de um professor em filosofia e lógica, revela-se absurda, simplória e superficial, senti-me confiante em fazer uma breve análise demonstrando exatamente o contrário do que o mesmo tenta demonstrar.
A começar pela própria história que serve de pano de fundo para o Gita: uma guerra (batalha de Kuruksetra) contra os usurpadores do Reino. De um lado estão os Pandavas, assessorados por Krishna e Arjuna, que representam respectivamente a Luz e a dúvida, e do outro lado está o exército de   Kauravas que representam as trevas, o mal, a ignorância. Ora, Arjuna não quer lutar, porque vê do outro lado seus parentes, tios e primos. Fica em dúvida e esmorece. Ao ver isso, Krishna, a Luz da Suprema Sabedoria, lhe diz para que ele pegue sua arma e  lute. Os defensores do desarmamento talvez não entendam essa atitude de Krishna, todavia, deve-se lembrar que o dever de um guerreiro é lutar. Um dos pilares do Gita é exatamente o cumprimento do dever de cada um, sem apego. Ora, é dever do Estado e direito do cidadão assegurar-lhe a segurança, mas na falta do primeiro o cidadão tem sim o dever de defender sua família e propriedade, mas sem apego e sem se considerar proprietário de nada, pois tudo pertence a Deus. Mas cada pessoa tem seu dever e segundo  o Gita, este deve ser cumprido.
Vejamos alguns trechos desse comecinho do Gita:
“Quando a irreligião predomina na família, ó Krishna, as mulheres da família se corrompem, e da degradação das mulheres, ó descendente de Vrisn vem progênie não desejada. Quando há aumento de população não desejada, cria-se uma situação infernal tanto para a família como para aqueles que destroem a tradição familiar. Em tais famílias corruptas, não há oferecimento de oblações de alimento e água para os ancestrais.”
Nas primeiras falas de Arjuna, vê-se a importância que o mesmo dá a família, a tradição e como ele ataca a corrupção. Esse zelo pela família e tradição é próprio das pautas políticas de direita mais conservadora. Ao contrário dos socialistas de esquerda-cuja pauta prega a ideologia de gênero e a destruição da célula familiar , como preconiza o filósofo comunista  Antonio Gramsci que defende a destruição da família, da religião e da moral como forma de dominar a sociedade- é a famosa “ revolução cultural”, ensinada por ele e tão bem aprendida pelos esquerdistas tupiniquins.
E mais a frente ele diz :
Devido aos atos malévolos dos destruidores das tradições familiares, todos os tipos de projetos de comunidades e atividades para o bem-estar da família são devastados.”. Ó , mantenedor das pessoas, eu ouvi através da sucessão discipular que aqueles que destroem as tradições familiares residem sempre no inferno”
Esse verso reforça a tese da defesa das tradições familiares como central na visão de Arjuna neste momento. Visão essa totalmente alinhada com a posição do candidato Bolsonaro, ao contrário de seu adversário, com seu famoso “kit-gay” para as escolas, a ausência de Deus, e o materialismo Marxista. Não é à toa que nos países socialistas ou comunistas a religião é proibida e o culto a Deus é substituído pelo culto ao Líder Político do país, ou o culto à personalidade.
Os críticos podem argumentar que Krishna logo depois o repreende por se lamentar por algo que não é “digno de pesar”. Mas, logo depois ele se explica, demonstrando que ninguém “mata nem morre” porque a Alma é imortal. E que ele, Arjuna, deve lutar sim pois é esse o seu dever. Quando alguém com a mente equânime, cumpre seu dever, sem se importar com derrota ou vitória, esta pessoa está iluminada pela consciência divina. Ou seja, Krishna não refuta o argumento em si de Arjuna sobre a importância da família, tradição e religião. Apenas diz que ele não pode usar esse argumento para justificar sua fraqueza e covardia e que ele deve  lutar pois esse é seu dever divino ( Darma).
“Considerando seu dever específico como ksatriya, você deve saber que não há melhor ocupação para você do que lutar sob os princípios religiosos; e por isso não há necessidade de hesitação.”
Nesse trecho o próprio Krishna defende a importância da religião e dos princípios religiosos. Basta uma olhada rápida nos movimentos de esquerda para ver que esse povo, em sua maioria e boa parte dos seus líderes, não se importam com a religião, nem a respeitam. Há casos de manifestações públicas de uso de espaços e símbolos religiosos de forma profana e desrespeitosa. Novamente, vemos que o posicionamento conservador, de defesa da ordem , da lei e da religião , está muito mais alinhado com o Gita do que o posicionamento subversivo da esquerda.
Bolsonaro não é nenhum santo. É um ser humano. Mas ele já deu várias entrevistas em que se considera numa missão divina. E que se  for da vontade de Deus ele chegará lá. Bolsonaro, ao reconhecer que está à serviço do Senhor Deus, se aproxima muito mais do Gita, do que seus rivais esquerdistas. O falso ego é aquele que se considera mais do que Deus. O “ Eu Iluminado” é aquele que se submete à vontade do Senhor:
“Só uma pessoa que tenha renunciado a todos os desejos para gratificação dos sentidos, que vive livre de desejos, que renunciou a todo o sentido de propriedade e está desprovida de falso ego - pode alcançar a paz verdadeira. Portanto, sem se apegar aos frutos das atividades, deve-se agir por uma questão de dever; pois trabalhando sem apego a pessoa alcança o Supremo.”
Krishna, O Senhor Supremo, abomina os canalhas. E ele mesmo renasce para restabelecer a ordem de tempos em tempos. Canalhas são todos aqueles que enganam, roubam, usurpam o povo. Ora, quer alguém mais canalha do que um sujeito mentiroso e corrupto?  Então afirma Krishna:
“Sempre e onde quer que haja um declínio na prática religiosa, ó descendente de Bharata, e uma ascensão predominante de irreligião -ai então Eu próprio descendo. Para salvar os piedosos e aniquilar os canalhas bem como para restabelecer os princípios da religião, Eu próprio advenho milênio após milênio.”
Sobre a questão das mulheres, o autor do texto argumenta que Bolsonaro não trata as mulheres igualmente- e que isso contraria o Gita- que prega a equanimidade. Quando Krishna fala de mente equânime é um estado de completa unidade com o Todo- em que a diferença “observador e coisa observada” deixa de existir. Ou seja, a vitória sobre dualidade . A mente nesse estado está iluminada, em paz e harmonia. Não quer dizer com isso que, em termos sociais, as diferenças deixam de existir. Ora, a sociedade é diversa. A própria Índia tinha seu sistema de castas- não para privilegiar alguns em detrimento de outros- mas para demonstrar que as pessoas são diferentes conforme sua natureza- obviamente- se todos fossem tivessem vocação para soldado como ficariam os médicos, professores, veterinários, cantores, atores, mecânicos etc? Então o próprio Krishna diz que ele mesmo criou as divisões sociais.  Uma mente equânime não quer dizer que a pessoa não saiba a distinção entre uma cobra e um peixe, ou entre uma pedra e um pão-isso seria idiotice.  Samadi é o estado de união profunda em que a mente está completamente integrada , harmoniosa , una e em paz. Em suma, é uma “ uma mente estável”, controlada, silenciosa , quieta e, ao mesmo tempo, alerta.
“As quatro divisões da sociedade humana foram criadas por Mim, de acordo com os três modos da natureza material e o trabalho atribuído a eles. E, embora Eu seja o criador deste sistema de trabalho, você deve saber que Eu, sendo imutável, não trabalho. Aquele que se satisfaz com os ganhos que vêm por si mesmos, que está livre da dualidade e não inveja, que é estável tanto no êxito como no fracasso, nunca se envolve, embora execute ações.
Outra ponto a ser considerado é o respeito às escrituras sagradas. Como o próprio Krishna diz que desce ou envia seus enviados , quando necessário, as escrituras cristãs, hindus ou budistas devem ser respeitadas. Os socialistas não respeitam religião, nem muito menos as escrituras, óbvio. Para eles, apenas Marx, Gramsci e seus seguidores valem a pena ser lidos e venerados. Quando Bolsonaro bota Deus acima de todos, ele está claramente reconhecendo a autoridade divina que nos fala através das escrituras, nesse caso específico, a cristã.
“Mas as pessoas ignorantes e infiéis que duvidam das escrituras reveladas, não alcançam a consciência de Deus. Para a alma que dúvida não há felicidade nem neste mundo nem no próximo. A pessoa que trabalha com devoção, que é uma alma pura e que controla sua mente e sentidos, é querida por todos, e todos são queridos por ela. Embora sempre trabalhe, tal homem nunca se envolve.”
Todos sabem que Marx e Gramsci eram ateus. Que os líderes comunistas são ateus .Vide a China , Coreia do Norte e outros países comunistas/socialistas/esquerdistas. E compare com esse verso do Gita:
“Os canalhas que são grosseiramente tolos, os mais baixos da humanidade, cujo conhecimento é roubado pela ilusão e que participam da natureza ateísta dos demônios, não se rendem a Mim.”
O posicionamento de Bolsonaro em relação a Deus e à religião é muito claro. Sua fé em Deus e nos valores religiosos e morais são inegavelmente características que se opõe à ideologia materialista comunista.
“Aqueles que estão assim confundidos são atraídos pelas visões demoníacas e ateistas. Nesta condição iludida, suas esperanças de liberação, suas atividades fruitivas e seu cultivo de conhecimento são totalmente frustrados.”
Por fim, vejam o que diz Krishna sobre os homens demoníacos:
“Os homens demoníacos, refugiando-se na luxúria insaciável, no orgulho e no falso prestígio, e encontrando-se assim iludidos, estão sempre entregues a trabalhos sujos, atraídos pelo que não é permanente. Eles acreditam que gratificar os sentidos até o fim da vida é a necessidade primordial da civilização humana. Desse modo, não há fim para sua ansiedade. Estando atados por centenas e milhares de desejos, por luxúria e ira, eles acumulam dinheiro através de meios ilegais para gratificação dos sentidos.”
O grifo é meu. Aqui fica claro a posição do Gita em relação aos corruptos, aqueles que “ acumulam dinheiro através de meios ilegais”. É público e notório os escândalos e roubos dos petistas desde o Mensalão até o Petrolão e outras dezenas de escândalos. Sem falar no seu próprio Guru,  o Lula, que além de ter sido condenado e estar preso, ainda responde a vários outros processos por corrupção e lavagem de dinheiro.
Esse é um pequeno artigo sem muita pretensão feito apenas para demonstrar que a tese que afirma o Gita vai contra as posições políticas do candidato Bolsonaro é uma falácia e não se sustenta. Bolsonaro representa a religião, os bons costumes, a família, o conservadorismo , a honestidade-mas nunca a perfeição- pois é humano e , como tal, tem seus defeitos e imperfeições. Quem vota nele sabe que ele não está envolvido em nenhum esquema de corrupção e que ele representa a esperança de um novo capítulo na política e na sociedade brasileira. Nesse momento, ele traz de volta o respeito às instituições, à ordem e à religião- ao contrário dos seus opositores, que pregam e estimulam a destruição de todos os valores religiosos, morais e tradicionais.
Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!
Alsibar


domingo, 27 de maio de 2018


O DRAMA DE PERLA E SUAS LIÇÕES


Acabei de assistir ao drama da cantora Perla na tv. Depois de uma fase de muita fama, juventude, beleza e dinheiro - veio a depressão e a mania de acumular coisas . Ela guarda tudo : vestidos, objetos antigos, peças de roupas de mais de 30, 40, 50 anos. Resultado: sua casa virou um lixão de coisas imprestáveis. É tanta tralha que ela mal consegue andar em sua própria casa. Um axioma antigo diz o seguinte: o exterior expressa o interior. 

Uma mente desarrumada acaba desarrumando tudo e a casa cheia de coisas antigas e inúteis, é o reflexo disso. A pessoa não consegue se libertar do passado, nem daquilo que o representa pois cada objeto está ligado a um episódio importante do passado que acabou . No fundo, a mente continua presa a um tempo glorioso que nunca mais voltará. Apesar de ser o drama pessoal de uma personagem famosa da mídia - com certeza não é a única. E se cada um de nós não cuidarmos da nossa casa mental, poderemos certamente, cairmos na mesma situação-ou pior .


São casos emblemáticos como esses que nos fazem ver a importância da MEDITAÇÃO em nossas vidas pois ela nos treina para a renovação, a fluidez, o desapego. Ao desapegar-nos de nossos pensamentos - que forma o "eu" e que se alimenta do lixo do passado- começamos um trabalho de limpeza e renovação interior, impedindo o acúmulo de lembranças e a consequente fixação do ego.


A meditação nos limpa. É como a água que remove todas as impurezas - mesmo as mais difíceis. É dessa faxina interna diária que precisamos para prevenir e impedir de chegarmos ao mesmo ponto em que Perla chegou . Afinal, lixo acumulado, dentro ou fora, atrai coisas ruins.


Comecemos, então, a nossa faxina interna através da prática da meditação para que possamos manter não só a casa limpa, mas principalmente a nossa casa interna saudável, organizada e equilibrada. Que a Perla consiga finalmente harmonizar sua casa exterior e interior. Mas que seu caso nos sirva de lição para não deixarmos para amanhã o que deve ser feito com urgência. O tempo é agora. 


(Alsibar)

quinta-feira, 15 de junho de 2017

“ A QUEM FOI DADO, MAIS SERÁ EXIGIDO” ( by Alsibar)



Hoje é dia de Corpus Christi, por coincidência, ontem vi uma postagem no Facebook sobre a supracitada máxima de Jesus. Resolvi me posicionar no post e isso gerou uma série de controvérsias e comentários. Felizmente,  a conversa se revelou muito frutífera no final: além de fazer novos amigos, pediram-me autorização pra usar o diálogo  em um grupo de estudos- o que foi uma honra pra mim . Hoje cedinho, durante minha caminhada meditativa, me veio uma grande vontade  de escrever alguns artigos sobre as máximas mais “intrigantes” de Jesus com o intuito de ajudar aqueles que  sinceramente buscam entender melhor as misteriosas palavras do Mestre Nazareno. Boa leitura e aprendizado!

“ Mas àquele a quem muito foi dado , muito lhe será exigido;  e  àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Lucas 12:48)

Essa afirmação foi dita por Jesus Cristo no final da parábola do Servo Vigilante e considero-a  uma das frases mais verdadeiras, profundas e intrigantes que eu já tive a oportunidade de ler. Pra entendê-la melhor, é necessário compreender uma peculiaridade da parábola: ela tem vários níveis de entendimento e compreensão.

Em um nível mais superficial, fica-se com a impressão de que Deus é uma espécie de Senhor exigente , durão e carrasco. Esse tipo de compreensão superficial atende à mentalidade mediana das massas em geral. Eles entenderão que Deus exige vigilância constante dos seus servos em relação à obediência dos seus preceitos e ensinamentos- do contrário poderão ser “pegos” de surpresa, numa morte súbita ou na vinda repentina do Apocalipse. Nesse nível de compreensão, o medo funciona como freio de más condutas  e negligência.  Há pessoas que só entendem a linguagem do medo, precisam dele como freio para impor-lhes os devidos limites.

Todavia, em um nível mais profundo a parábola revela outras nuances e significados que dispensam o medo. É ai que percebe-se:  Jesus não está falando de coisas materiais, nem mesmo de regras de conduta moral ou religiosa- mas sim de vigilância no sentido da meditação  que leva ao conhecimento e faz surgir a sabedoria. A   parábola usa termos como  Vigilância , Conhecimento , Saber... constituindo, portanto, as chaves que revelam o sentido oculto e mais profundo da mesma.

Os servos relapsos e imprudentes são todos aqueles que conhecem a Verdade sobre si mesmas ou sobre o Universo- independente de religião- mas não a vive, nem se beneficiam dela. Os servos prudentes são todos aqueles que empreenderam a viagem interior através da oração e da meditação ( Orai e Vigiai) e lá encontraram o Reino de Deus , podendo, assim, usufruir de uma vida plena e abundante pelo conhecimento da Verdade. Quando ele diz no final: "a quem mais foi dado, muito lhe será exigido" Ele está falando do verdadeiro conhecimento, da consciência, do autoconhecimento. Em outras palavras : aquele que tem mais conhecimento, maior é o seu dever e sua responsabilidade para consigo mesmo- sua própria consciência iluminada- e para com os demais.

Obviamente, aquele que tem menos conhecimento- de si mesmo, das leis da natureza, de Deus etc etc... - Não se pode exigir muito. Por exemplo, uma pessoa criada em um meio religioso  de valores e regras ultrapassadas ou absurdas- que não teve chances de conhecer outros valores mais nobres, certamente lhe será dado um desconto. É como uma criança que comete uma travessura a
primeira vez. Os pais sensatos e prudentes, devem dar  um desconto,  afinal, ela- a criança-  não tinha como saber que o que fez era uma travessura perigosa , arriscada ou danosa. Agora, depois que ela foi ensinada e lhe foi mostrado que  ela não pode, por exemplo, derramar o xampu, ou jogar água no papel higiênico, ou botar o dedo na tomada... Se depois de conhecer o que é certo, ela escolher fazer o errado- aí sim, é possível e justo cobrar e punir. O tipo de punição deve levar em conta sempre a gravidade da travessura e o lado pedagógico- do contrário- não fará sentido.

Ou seja, só posso cobrar de quem tem o conhecimento do certo e do errado. E quanto maior for esse conhecimento, maior a responsabilidade, e, portanto, a "cobrança" . Sei disso com propriedade pois tenho uma filha de três anos e uso desse critério pra decidir se a travessura é passível de punição ou não. Me questiono: ela sabia o que estava fazendo? Tinha consciência do erro? Eu já havia mostrado e ensinado a ela que este ou aquele comportamento era “errado”? Só então é possível avaliar se é cabível ou não uma “punição” com valor pedagógico ou educativo- ou não. E se sim, o tipo e a extensão dessa punição. Algumas pessoas defendem a palmada, outras não. Eu acho que a palmada só em casos extremos, quando, por exemplo, a criança tem a mania de querer meter o dedo na tomada. É melhor uma palmada, não acha?

Por outro lado, aqueles que tem o conhecimento da verdade, e que de alguma forma tiveram acesso a esse conhecimento, seja através de leituras, pelas orientações dos mestres e familiares,  pela sabedoria adquirida ao longo da vida, pelas experiências, pelo autoconhecimento, pela Meditação etc. - esses tem uma responsabilidade muito maior diante do trono de sua própria consciência. Estes, certamente, serão devidamente cobrados, na medida de seus conhecimentos.

"A quem mais foi dado, mais será exigido"- não por um Deus cruel e soberano que fica em seu trono esperando maquiavelicamente a hora de julgar e punir, mas pela sua própria consciência expandida pelo acesso a conhecimentos cada vez mais profundos e valiosos. Quem começa a trilhar o caminho da meditação e do autoconhecimento  não pode esquecer que conhecer é poder. E que, quanto maior for o poder, maior será a responsabilidade e a cobrança.

Namastê!

Alsibar 

Repostagem autorizada, desde que devidamente referenciada com nome do autor, fonte e endereço eletrônico.
All Rights Reserveds by Alsibar, Fortaleza, Ceará , Brazil- 2017


sexta-feira, 2 de junho de 2017

A CASTANHOLA E A CONSCIÊNCIA


O que tem a ver uma castanhola com a Consciência ?  À primeira vista, nada. Mas antes de começar meu relato deixe-me falar aos leitores que talvez não conheçam deste fruto, para situá-los melhor.  Aqui no Ceará tem uma árvore muito comum conhecida pelo nome de castanhola. Ela é frondosa, alta e o fruto de um sabor muito peculiar. O Juazeiro do Norte de antigamente era rico em “pés de castanhola”. Havia muitos em cada rua, cada quarteirão, talvez  por ser frondosa e sua sombra convidativa ajudando, assim, a amenizar  os efeitos do Sol escaldante e do clima  quente.

As crianças faziam a festa comendo desses frutos já os adultos em geral não fazem questão. Quantas vezes não sentávamos no chão, pernas abertas com uma bacia cheia de castanholas entre elas- comendo até se “empanturrar”. Atualmente nem me lembro mais do seu sabor. Mas veio-me à mente um fato crucial na minha infância relacionado à castanhola que marcou para sempre a minha vida.

Não lembro qual idade eu tinha. Mas com certeza era menos de nove . Talvez uns sete ou oito. Éramos um grupo de três: eu, minha prima Ivana Lígia e meu primo Júlio, a quem chamávamos de Neto. Estávamos andando os três na avenida Padre Cícero quando, de repente caiu uma  castanhola próximo a gente. Um de nós correu para pegá-la. Era só uma castanhola que tinha que ser dividida pra três . Eu sempre fui muito matreiro. Convenci-os a comer a minha parte primeiro. O problema é que comi a castanhola quase toda. Não deixando quase nada pros outros dois. Naquela época, meus instintos eram muito apurados, principalmente os da gula. Eu era famoso na família por comer bastante de tal forma que me chamavam de “ Esmeril” ( instrumento de afiar ferramentas).

Minha prima olhou para a castanhola quase toda comida, fitou-me  furiosa e fez uma pergunta num tom de voz que  até hoje ecoa nos meus ouvidos :

- Menino , tu não tem consciência não?????

Ora, eu lá sabia o que era aquilo. Mas aquela palavra deu um estalo na minha mente. Foi a partir daquele momento que eu aprendi que havia algo chamado "consciência" que até então eu não sabia. Obviamente, o sentido que ela usou foi de “ ter ciência, conhecimento do que é justo”. Ou seja, um sentido interno de justiça para agir da forma correta em determinadas situações. No caso específico: a partilha do fruto da castanhola para os três . Eu me lembro que na hora fiquei confuso , me sentindo muito mal pelo meu erro. Mas, daí por diante , aquela palavra não saiu mais da minha cabeça. A palavra “consciência” virou um mote, um mantra  que passou a fazer parte do meu repertório linguístico desde então.

Não é que deixei de ser danado , comilão ou passei a ter "consciência" de uma hora pra outra. Mas aquela palavra me deu algo novo que até então eu não conhecia: a de que  você deve fazer o certo independente dos outros ou do medo da punição.  É entender que  o certo deve ser feito independente de alguém estar olhando ou não .Isso é a tal da consciência.

Daí por diante essa palavra fez morada na minha mente e no meu coração. E ao longo dos anos foi tomando novas nuances  e sentidos. Hoje sei  da importância de se ter uma consciência ética e moral bem formada.  Não estou dizendo que já tenho esse sentido perfeitamente desenvolvido em mim,  mas busco fortalecê-lo  e aplicá-lo no meu dia-a-dia. Nem sempre consigo , todavia, eu tento. Mas também tenho consciência de que nem  sempre consigo obedecer a essa "consciência".

O outro sentido da palavra consciência- e que foi fundamental pra mim- é o de " estar consciente", alerta, vigilante, totalmente atento ao presente, ao que acontece no aqui agora. É a mesma palavra que ouvi da minha prima na infância, mas com o sentido ampliado. Estar consciente ou ter consciência de si é o caminho para se alcançar uma Consciência maior, ou Consciência Suprema também chamada de  Deus.

Agradeço à minha família, meu avô, avó , tias e tios e também aos meus primos e primas que tanto contribuíram para que eu tomasse consciência do mundo e de mim mesmo. Eles ajudaram a regar o meu jardim, jogando sementes  que mais tarde brotariam e me fariam ser quem eu sou hoje : crítico, consciente- mas humano e falho como todos os outros. 

Nessa perspectiva da jornada interior, de ampliação e amadurecimento da consciência  , minha prima foi usada por Deus pra me dar meu primeiro "choque de consciência" , sendo assim foi, de uma certa forma, minha primeira Mestra.
Júlio, Lígia , Eu (topete) e nossa amada tia Yesus Barbosa 

Obrigado! Muito Obrigado!

Alsibar
2017






sábado, 16 de janeiro de 2016

JOHN MAIN - O PADRE "ADVAITA" * E O RESGATE DA MEDITAÇÃO CRISTÃ



“Somente na união conhecemos plenamente o que somos. A tarefa central de nossa vida, na visão cristã, consiste em nos inserirmos na união, em entrarmos em comunhão. Colocar isso dentro do ponto de vista do qual nós, na maioria, partimos, significa superar todo dualismo, toda divisão dentro de nós mesmos e superar a alienação que nos separa dos outros. Foi o dualismo que caracterizou as heresias, heresias que ameaçaram destruir a delicada centralidade, o equilíbrio sadio da perspectiva cristã. É o dualismo, igualmente, que cria para cada um de nós, a alternativa impossível e irrealista do “ou isso ou aquilo”, que provoca tanta angústia desnecessária: Deus ou o homem, amor a si próprio ou ao próximo, claustro ou praça pública." John Main OSB


Confesso que não conhecia nada sobre  Meditação Cristã até meados do ano de 2014. Mas pelos caminhos aparentemente casuais do destino, começamos - eu e meu amigo Eugênio Aquino- um grupo de meditação sem grandes pretensões ou expectativas. Pouco tempo depois, participamos de um curso de Meditação com o Padre Domingos e lá soubemos da existência da meditação cristã e de um padre católico que deu início a um movimento mundial  de meditação : John Main. O que realmente me intrigou foi o fato de nunca ter ouvido falar sobre meditação na tradição cristã. Eu fui católico até a minha adolescência e nunca ouvi nenhum religioso citar a palavra meditação. O fato é que raras pessoas sabem dessa tradição. Nem mesmo no meio espiritualista mais progressista - do qual participei ativamente- fala-se sobre essa tradição. Algo realmente perturbador e intrigante. 

John Main é considerado um grande mestre espiritual, não somente por seus discípulos e admiradores, mas por líderes de várias outras religiões. Seu movimento fez ressurgir no seio do catolicismo uma  corrente de espiritualidade mais contemplativa e mística- inspirada no exemplo dos Padres e Madres do Deserto. Ao fundar vários grupos de meditação cristã no mundo todo, ele contribuiu para fortalecer a tolerância, o respeito e a interação entre as religiões que comungam com esta prática milenar. A meditação une os praticantes de diversas religiões por respeitar as diferenças, preservar as peculiaridades e proporcionar a comunhão entre  pessoas de diversas raças, credos e nacionalidades. Em seus diversos centros espalhados ao redor do mundo,  budistas, hindus, taoístas, católicos , protestantes e até ateus, reúnem-se em torno dessa  prática comum e universal. É isso que explica, em parte, o sucesso dos grupos de meditação cristã no mundo todo.

Desde suas raízes históricas, que remontam ao judaísmo, passando por Jesus, continuando  com os Padres e Madres do Deserto , sem esquecer os grandes místicos como Santa Tereza D´ávila, São João da Cruz , São Francisco de Assis e Padre Pio- a meditação cristã chega até John Main através de um monge hindu que lhe ensinou a meditar. Main reconhece, anos mais tarde, a meditação como parte integrante e fundamental da tradição cristã.   Hoje, este movimento está sob a coordenação de seu discípulo direto : Laurence Freeman.

Laurence Freeman
A meditação cristã parece simples, mas tem vários níveis de interiorização e complexidade- assim como  as  práticas  orientais . À primeira vista, pode parecer uma abordagem superficial, mas à medida em que nos aprofundamos, percebemos que não é bem assim. John Main foi iniciado em meditação por um monge hindu da tradição Ramakrishna : Swami Satyavanda. Que lhe ensinou uma técnica simples de meditação com o uso de um mantra cristão quando ele estava na Malásia, em Koala Lumpur. Ao retornar para a Inglaterra, fora repreendido pelo chefe de noviços e orientado a parar com aquela prática considerada "não cristã" . Por obediência, ele parou de meditar, período em que mergulhou em uma espécie de "deserto espiritual". Anos mais tarde, ao fazer estudos sobre  as Crônicas de Cassiano ele identificou a meditação como uma prática comum entre os Padres do Deserto. A chamada "oração contínua", "oração dos pobres" ou "oração silenciosa" era, fundamentalmente, a mesma prática que o swami  lhe havia ensinado anos antes na Malásia. Daí por diante, fundou vários grupos de meditação cristã em vários países,  escreveu vários livros sobre o tema e tornou-se a maior referência mundial em meditação cristã. 
Realmente, as semelhanças entre a meditação cristã e as práticas orientais são impressionantes. Todavia, coube a John Main sistematizar essas semelhanças e estabelecer alguns limites. Assim,  a jaculatória cristã equivale  aos mantras orientais. Conceitos como paz interior, silêncio, quietude e autoconhecimento são abundantes em toda a tradição católico-cristã. Mesmo

estados sutis e profundos, muito comuns na tradição oriental, são abordados como parte integrante das orientações 
meditativas cristãs. Um  exemplo, é a tal da  “pausa” na respiração- um estado raro descrito pelos grandes iogues, mas facilmente perceptível em meditação profunda. Esta seria uma “ amostra grátis da Eternidade” como cita o Padre Domingos Cunha- uma das maiores referências em meditação cristã no Brasil. Ou seja, todos os elementos fundamentais das grandes tradições meditativas- Hindu, Budista e Taoísta- estão presentes na Meditação Cristã, não deixando nada a desejar.

Abaixo, deixo o link da biografia resumida desse grande mestre espiritual, John Main, para que todos o conheçam e, caso se identifiquem com esse caminho- possam trilhá-lo- assim como eu fiz ao longo de quatro anos. No site da comunidade mundial de meditação cristã você encontra endereços e contatos de grupos, além de orientações básicas sobre meditação ( adicionei no final as orientações básicas, retiradas do site da comunidade).Caso não exista um grupo próximo a sua casa, você mesmo pode organizar um.
A meu ver, a meditação cristã representa um caminho seguro para quem quer vivenciar uma espiritualidade mais voltada para a comunhão mística e íntima com Deus- sem precisar sair da sua própria religião. Os caminhos são muitos, assim como suas fases. Cada pessoa deve encontrar aquele caminho mais adequado ao seu perfil e nível de espiritualidade. E que Deus ilumine e oriente a cada um em sua caminhada de Retorno ao Pai.
by Alsibar

Glossário:

* Advaita- vem de a(não) dvaita ( dualismo), ou seja : não-dualista, que prega o caminho da união, comunhão, superação da dualidade.
*Swami- monge de uma ordem religiosa da tradição hindu
*Mantra- "tra" instrumento, "man" mente- seria um instrumento de controle mental, conhecido como "jaculatória" na tradição cristã.

Como meditar?

Sente-se com a coluna ereta em quietude.

Feche seus olhos levemente.

Fique na posição sentada relaxadamente, mas alerta.

Silenciosa e interiormente, comece a repetir uma oração de uma única palavra.

Recomendamos a palavra oração "Maranatha".

Recite-a como quatro sílabas de igual duração.

Ouça-a enquanto a vai repetindo com suavidade, mas continuamente.

Não pense ou imagine nada - mesmo que seja de ordem espiritual.

Se vierem pensamentos ou imagens, considere-os apenas como distrações no período da meditação, e então volte apenas a repetir a sua palavra.

Medite a cada manhã e a cada fim de tarde por cerca de vinte a trinta minutos.


Oração de John Main para a Abertura do período da Meditação:

 Divino Pai, ajudai-me a discernir a

silenciosa presença de Vosso Filho em meu coração

Conduzi-me àquele misterioso silêncio,

onde vosso amor é revelado a todos que O procuram.”

Maranatha. Vinde Senhor Jesus!

 

​(www.wccm.org)

 

Obras de John Main:

 A palavra que leva ao silêncio - Paulus Editora

Momento de Cristo -  São Paulo, Paulus Editora

O caminho do Não Conhecimento - Petrópolis Editora Vozes 2009


                                                               

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

PARA ENTENDER A "ATENÇÃO SEM ESCOLHA" DE KRISHNAMURTI!


https://www.youtube.com/watch?v=7BzNggnfASc

Existe um tipo de atenção que é desconhecida de quase todos. De tão sagrada e sutil, as pessoas têm grande dificuldade em entendê-la e encontrá-la - mesmo quando  descrita em detalhes.  As grandes religiões, os grandes mestres- notadamente o Zen-budismo e o Taoismo- sempre falaram dela. Mas quem a encontrou? Quem a descobriu? Quem a viveu?

Este estado de “atenção especial”  é tradicionalmente conhecido como Meditação. Todavia, são tantas as definições, visões e métodos que tornou-se quase impossível descobrir o que ela realmente é, por isso, preferi usar hoje o termo “atenção” . Este estado especial de atenção não é a mesma  do aluno em sala de aula, ou do motorista no trânsito, ou a do pai que repreende o filho, ou a de alguém assistindo a um filme , partida de futebol, ou estudando. Não. Esta atenção é especial. Talvez você nunca a tenha experimentado. Ela é de difícil alcance, definição e percepção.

Resolvi falar sobre ela, não como um “mestre” que encontrou a Iluminação. Mas como uma pessoa comum que teve a “graça” de amanhecer nesse estado sublime. Ontem, dormi ouvindo o áudio-livro de J. Krishnamurti: a arte da meditação ( link no final do artigo). Não tenho dúvidas que isso motivou o surgimento desse estado pela manhã. Daí, vem a primeira grande questão: como surge esse estado? Como praticá-lo? Como "produzi-lo"?

Já falei sobre isso várias vezes. A meditação,que se pratica em tempo e horário marcados, é um tipo de prática importante para a saúde física, mental e espiritual. Mas esse “outro” estado de atenção não pode ser praticado. É como se, de repente, você acordasse dentro de um sonho e percebesse que está dormindo em sua cama- mesmo sonhando. Alguns fatores parecem desencadear isso: o ouvir , ler, conversar sobre o assunto- mas nada é garantido. Já dormi várias vezes ouvindo Krishnamurti e isso nunca havia acontecido antes. E Krishnamurti sempre fala sobre meditação, mesmo quando está abordando  outros assuntos como, por exemplo, amor ou sexo.

Então qual é a diferença?

Passei boa parte da minha vida tentando entender esse estado, tanto para benefício dos outros quanto para meu próprio. Mas ele sempre me escapava. É fácil esquecê-lo e perdê-lo. Quase ninguém o conhece , alguns nem  mesmo ouviram falar. E mesmo dos que ouviram, poucos os que o vivenciaram. Mas eu digo: ele existe. E não se parece com nada do que ensinam os tais “gurus internéticos”.

Nesse estado há um silêncio- não forçado, nem absoluto- mas uma qualidade de silêncio, mesmo em meio ao barulho do pensamento. É como se nada pudesse atingi-lo ou tocá-lo, nem mesmo os pensamentos. Há também uma qualidade de relaxamento, de descanso, de não-esforço. O que remonta aos ensinamentos dos mestres taoístas e advaitas (não-dualistas). É fugaz  e ao mesmo tempo sólido, profundo, insondável. Foge a menor e mais leve tentativa da mente de dissecá-lo, entende-lo ou prendê-lo para uso posterior.

J. Krishnamurti passou uma vida falando somente sobre isso, mas muita gente não entendeu. O que, a meu ver, demonstra o quanto a humanidade está deficiente em termos de “atenção”- Ele a chamava de “atenção sem escolha”. Mas mesmo esse termo é confuso. Um amigo meu do Face achava que não poderia mais escolher entre o carro branco ou cinza metálico. Entre um sedan e um hatch. E quantos  não devem pensar assim?

Vou tentar explicar como entendi. Por que “atenção sem escolha”? Por que, quando você está nesse estado, não há direcionamento, o foco de sua atenção não pode ser direcionado, controlado. Você não vai escolher “prestar atenção” nisso ou aquilo. Quando se direciona, controla, ou escolhe, nesse momento, você reforça o centro que decide o que vai olhar, observar. Ora, mas não é esse o próprio centro de que se busca a libertação? Não é ele o “ego”, o divisor, criador do conflito? Por isso , é um estado integrador, sem direcionamento, sem recusa, nem aceitação.

Ele não é introspecção. Não é um “mergulho no interior”, pois quem vai mergulhar? Novamente a divisão. Quanto maior o esforço para “produzi-lo” menor as chances de encontrá-lo. Pois o “produtor de esforços”, que JK chamou de “experimentador/observador”, deve cessar para que “Aquilo” possa emergir, manifestar-se. Não há medidas. Não se pode dizer: é um estado profundo. Pois, quem irá dizer? Não está dentro, nem está fora. É algo sutil, depende muito mais de sensibilidade do que de conhecimento.

É um estado de Paz? Digamos que sim.  Talvez seja a palavra mais próxima, mas mesmo ela é imprecisa. Nessa atenção não existe  a dualidade paz e conflito. Está além. Por isso é tão sublime e sagrado.

Não é à toa que JK sempre falava sobre a atenção de diversas formas, meios, linguagens, perspectivas. Hoje o entendo. E penso que raríssimas pessoas – mesmo os verdadeiros mestres- conseguiriam expressar a sutileza desse estado. Acho que todos eles se esforçaram. Palavras como Paz, Meditação, Nirvana, Atenção Plena, Wu-wei ( ação pela não-ação) foram esforços tremendos para expressar algo que realmente extrapola os limites da comunicação e da linguagem.

E o que resta ao buscador comum, sincero que deseja encontrar algo além da mente? Um emaranhado de gurus, livros, definições, conceitos que mais confundem do que esclarecem. Que mais prendem do que libertam. Que pesam em nossas mentes impedindo a leveza e a liberdade.

Talvez por isso,   acordei  hoje com a clara sensação de que deveria escrever sobre esse estado, sobre minha experiência com “isso”.

JK dizia que isso não pode ser praticado. E vejo que ele estava certo. Tentar praticar ou provocar isso resultará inevitavelmente ao fracasso. O que fazer então?

Mantenha-se tranquilo e aberto. Procure manter-se em paz e feliz, sem conflitos, desejos, expectativas ou ansiedades. Sonde sempre duas coisas: sua atenção e sensibilidade. Na atenção há sensibilidade. Ser sensível  aos seus pensamentos, às emoções, às impressões auditivas, olfativas e visuais . Não se tranque em si mesmo. Mantenha-se livre desde o começo. Talvez um dos maiores erros dos meditadores seja a ideia de que precisam se fechar, se isolar do mundo pra encontrar a paz. Essa paz que se isola me parece superficial e ilusória. A atenção é um estado de plena liberdade e harmonia entre o exterior e o interior. Sem divisões.

E por último: como está a qualidade de sua atenção? Esqueça os livros e gurus. Foque-se na qualidade de sua atenção. Sua mente está atenta? Como saber? Na atenção existe silêncio , liberdade e sensibilidade. Na atenção existe paz- além das definições- mesmo daquelas ensinadas pelos mestres.

E se um dia estiveres perdido, confuso e sem rumo... Experimente perguntar a si mesmo: como está minha atenção? Como está minha mente? Há silêncio, paz, sensibilidade e liberdade nela?

Se não houver, procure... até encontrar. Um dia, quando menos esperar, ela estará ali. Mas você tem que estar preparado para percebê-la. A bem da verdade, ela sempre está ali. Mas como percebê-la se vivemos eternamente ansiosos, buscando no tempo aquilo que está além dele?

JK costumava dar um exemplo fabuloso: a meditação é como brisa que entra pela janela. Você não pode provocar a brisa. Mas para senti-la tem que deixar a janela aberta e ficar atento para não perdê-la quando ela soprar.

Que nesse ano de 2016 você possa sentir a brisa da paz divina em seu ser. Não desejo que ela seja perene pois, se assim fosse, não seria a brisa do Eterno. O próprio desejo de mantê-la ou continuá-la faz cessá-la. Apenas deixe sua mente aquietar-se por si mesma. Na verdade, ela em seu centro, é quieta, imóvel. Você só precisa estar atento ao seu próprio movimento. Quando ela estiver inquieta- não faça nada. Apenas constate o fato e espere- sem ansiedades. Ela ira acalmar-se. E quando estiver calma- novamente não faça nada. Apenas constate e deixe ela à vontade. É nesse movimento de inquietude e quietude que você vai aprendendo a lidar com ela.

Trabalhe. Faça o bem. Encontre a felicidade na paz. E fique atento-sempre que se lembrar – uma atenção simples, serena, tranquila. Nada de atenção forçada. Esta não leva a muita coisa. O resto deixe por conta da Vida, de Deus, do Universo!

Feliz 2016 a todos os leitores, amigos e visitantes do Blog. Fecho 2015 com a sensação do dever cumprido .

Até a próxima!

Namastê!

Alsibar
Link para o audio livro: a arte da meditação de J. Krishnamurti