domingo, 27 de maio de 2018


O DRAMA DE PERLA E SUAS LIÇÕES


Acabei de assistir ao drama da cantora Perla na tv. Depois de uma fase de muita fama, juventude, beleza e dinheiro - veio a depressão e a mania de acumular coisas . Ela guarda tudo : vestidos, objetos antigos, peças de roupas de mais de 30, 40, 50 anos. Resultado: sua casa virou um lixão de coisas imprestáveis. É tanta tralha que ela mal consegue andar em sua própria casa. Um axioma antigo diz o seguinte: o exterior expressa o interior. 

Uma mente desarrumada acaba desarrumando tudo e a casa cheia de coisas antigas e inúteis, é o reflexo disso. A pessoa não consegue se libertar do passado, nem daquilo que o representa pois cada objeto está ligado a um episódio importante do passado que acabou . No fundo, a mente continua presa a um tempo glorioso que nunca mais voltará. Apesar de ser o drama pessoal de uma personagem famosa da mídia - com certeza não é a única. E se cada um de nós não cuidarmos da nossa casa mental, poderemos certamente, cairmos na mesma situação-ou pior .


São casos emblemáticos como esses que nos fazem ver a importância da MEDITAÇÃO em nossas vidas pois ela nos treina para a renovação, a fluidez, o desapego. Ao desapegar-nos de nossos pensamentos - que forma o "eu" e que se alimenta do lixo do passado- começamos um trabalho de limpeza e renovação interior, impedindo o acúmulo de lembranças e a consequente fixação do ego.


A meditação nos limpa. É como a água que remove todas as impurezas - mesmo as mais difíceis. É dessa faxina interna diária que precisamos para prevenir e impedir de chegarmos ao mesmo ponto em que Perla chegou . Afinal, lixo acumulado, dentro ou fora, atrai coisas ruins.


Comecemos, então, a nossa faxina interna através da prática da meditação para que possamos manter não só a casa limpa, mas principalmente a nossa casa interna saudável, organizada e equilibrada. Que a Perla consiga finalmente harmonizar sua casa exterior e interior. Mas que seu caso nos sirva de lição para não deixarmos para amanhã o que deve ser feito com urgência. O tempo é agora. 


(Alsibar)

quinta-feira, 15 de junho de 2017

“ A QUEM FOI DADO, MAIS SERÁ EXIGIDO” ( by Alsibar)



Hoje é dia de Corpus Christi, por coincidência, ontem vi uma postagem no Facebook sobre a supracitada máxima de Jesus. Resolvi me posicionar no post e isso gerou uma série de controvérsias e comentários. Felizmente,  a conversa se revelou muito frutífera no final: além de fazer novos amigos, pediram-me autorização pra usar o diálogo  em um grupo de estudos- o que foi uma honra pra mim . Hoje cedinho, durante minha caminhada meditativa, me veio uma grande vontade  de escrever alguns artigos sobre as máximas mais “intrigantes” de Jesus com o intuito de ajudar aqueles que  sinceramente buscam entender melhor as misteriosas palavras do Mestre Nazareno. Boa leitura e aprendizado!

“ Mas àquele a quem muito foi dado , muito lhe será exigido;  e  àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Lucas 12:48)

Essa afirmação foi dita por Jesus Cristo no final da parábola do Servo Vigilante e considero-a  uma das frases mais verdadeiras, profundas e intrigantes que eu já tive a oportunidade de ler. Pra entendê-la melhor, é necessário compreender uma peculiaridade da parábola: ela tem vários níveis de entendimento e compreensão.

Em um nível mais superficial, fica-se com a impressão de que Deus é uma espécie de Senhor exigente , durão e carrasco. Esse tipo de compreensão superficial atende à mentalidade mediana das massas em geral. Eles entenderão que Deus exige vigilância constante dos seus servos em relação à obediência dos seus preceitos e ensinamentos- do contrário poderão ser “pegos” de surpresa, numa morte súbita ou na vinda repentina do Apocalipse. Nesse nível de compreensão, o medo funciona como freio de más condutas  e negligência.  Há pessoas que só entendem a linguagem do medo, precisam dele como freio para impor-lhes os devidos limites.

Todavia, em um nível mais profundo a parábola revela outras nuances e significados que dispensam o medo. É ai que percebe-se:  Jesus não está falando de coisas materiais, nem mesmo de regras de conduta moral ou religiosa- mas sim de vigilância no sentido da meditação  que leva ao conhecimento e faz surgir a sabedoria. A   parábola usa termos como  Vigilância , Conhecimento , Saber... constituindo, portanto, as chaves que revelam o sentido oculto e mais profundo da mesma.

Os servos relapsos e imprudentes são todos aqueles que conhecem a Verdade sobre si mesmas ou sobre o Universo- independente de religião- mas não a vive, nem se beneficiam dela. Os servos prudentes são todos aqueles que empreenderam a viagem interior através da oração e da meditação ( Orai e Vigiai) e lá encontraram o Reino de Deus , podendo, assim, usufruir de uma vida plena e abundante pelo conhecimento da Verdade. Quando ele diz no final: "a quem mais foi dado, muito lhe será exigido" Ele está falando do verdadeiro conhecimento, da consciência, do autoconhecimento. Em outras palavras : aquele que tem mais conhecimento, maior é o seu dever e sua responsabilidade para consigo mesmo- sua própria consciência iluminada- e para com os demais.

Obviamente, aquele que tem menos conhecimento- de si mesmo, das leis da natureza, de Deus etc etc... - Não se pode exigir muito. Por exemplo, uma pessoa criada em um meio religioso  de valores e regras ultrapassadas ou absurdas- que não teve chances de conhecer outros valores mais nobres, certamente lhe será dado um desconto. É como uma criança que comete uma travessura a
primeira vez. Os pais sensatos e prudentes, devem dar  um desconto,  afinal, ela- a criança-  não tinha como saber que o que fez era uma travessura perigosa , arriscada ou danosa. Agora, depois que ela foi ensinada e lhe foi mostrado que  ela não pode, por exemplo, derramar o xampu, ou jogar água no papel higiênico, ou botar o dedo na tomada... Se depois de conhecer o que é certo, ela escolher fazer o errado- aí sim, é possível e justo cobrar e punir. O tipo de punição deve levar em conta sempre a gravidade da travessura e o lado pedagógico- do contrário- não fará sentido.

Ou seja, só posso cobrar de quem tem o conhecimento do certo e do errado. E quanto maior for esse conhecimento, maior a responsabilidade, e, portanto, a "cobrança" . Sei disso com propriedade pois tenho uma filha de três anos e uso desse critério pra decidir se a travessura é passível de punição ou não. Me questiono: ela sabia o que estava fazendo? Tinha consciência do erro? Eu já havia mostrado e ensinado a ela que este ou aquele comportamento era “errado”? Só então é possível avaliar se é cabível ou não uma “punição” com valor pedagógico ou educativo- ou não. E se sim, o tipo e a extensão dessa punição. Algumas pessoas defendem a palmada, outras não. Eu acho que a palmada só em casos extremos, quando, por exemplo, a criança tem a mania de querer meter o dedo na tomada. É melhor uma palmada, não acha?

Por outro lado, aqueles que tem o conhecimento da verdade, e que de alguma forma tiveram acesso a esse conhecimento, seja através de leituras, pelas orientações dos mestres e familiares,  pela sabedoria adquirida ao longo da vida, pelas experiências, pelo autoconhecimento, pela Meditação etc. - esses tem uma responsabilidade muito maior diante do trono de sua própria consciência. Estes, certamente, serão devidamente cobrados, na medida de seus conhecimentos.

"A quem mais foi dado, mais será exigido"- não por um Deus cruel e soberano que fica em seu trono esperando maquiavelicamente a hora de julgar e punir, mas pela sua própria consciência expandida pelo acesso a conhecimentos cada vez mais profundos e valiosos. Quem começa a trilhar o caminho da meditação e do autoconhecimento  não pode esquecer que conhecer é poder. E que, quanto maior for o poder, maior será a responsabilidade e a cobrança.

Namastê!

Alsibar 

Repostagem autorizada, desde que devidamente referenciada com nome do autor, fonte e endereço eletrônico.
All Rights Reserveds by Alsibar, Fortaleza, Ceará , Brazil- 2017


sexta-feira, 2 de junho de 2017

A CASTANHOLA E A CONSCIÊNCIA


O que tem a ver uma castanhola com a Consciência ?  À primeira vista, nada. Mas antes de começar meu relato deixe-me falar aos leitores que talvez não conheçam deste fruto, para situá-los melhor.  Aqui no Ceará tem uma árvore muito comum conhecida pelo nome de castanhola. Ela é frondosa, alta e o fruto de um sabor muito peculiar. O Juazeiro do Norte de antigamente era rico em “pés de castanhola”. Havia muitos em cada rua, cada quarteirão, talvez  por ser frondosa e sua sombra convidativa ajudando, assim, a amenizar  os efeitos do Sol escaldante e do clima  quente.

As crianças faziam a festa comendo desses frutos já os adultos em geral não fazem questão. Quantas vezes não sentávamos no chão, pernas abertas com uma bacia cheia de castanholas entre elas- comendo até se “empanturrar”. Atualmente nem me lembro mais do seu sabor. Mas veio-me à mente um fato crucial na minha infância relacionado à castanhola que marcou para sempre a minha vida.

Não lembro qual idade eu tinha. Mas com certeza era menos de nove . Talvez uns sete ou oito. Éramos um grupo de três: eu, minha prima Ivana Lígia e meu primo Júlio, a quem chamávamos de Neto. Estávamos andando os três na avenida Padre Cícero quando, de repente caiu uma  castanhola próximo a gente. Um de nós correu para pegá-la. Era só uma castanhola que tinha que ser dividida pra três . Eu sempre fui muito matreiro. Convenci-os a comer a minha parte primeiro. O problema é que comi a castanhola quase toda. Não deixando quase nada pros outros dois. Naquela época, meus instintos eram muito apurados, principalmente os da gula. Eu era famoso na família por comer bastante de tal forma que me chamavam de “ Esmeril” ( instrumento de afiar ferramentas).

Minha prima olhou para a castanhola quase toda comida, fitou-me  furiosa e fez uma pergunta num tom de voz que  até hoje ecoa nos meus ouvidos :

- Menino , tu não tem consciência não?????

Ora, eu lá sabia o que era aquilo. Mas aquela palavra deu um estalo na minha mente. Foi a partir daquele momento que eu aprendi que havia algo chamado "consciência" que até então eu não sabia. Obviamente, o sentido que ela usou foi de “ ter ciência, conhecimento do que é justo”. Ou seja, um sentido interno de justiça para agir da forma correta em determinadas situações. No caso específico: a partilha do fruto da castanhola para os três . Eu me lembro que na hora fiquei confuso , me sentindo muito mal pelo meu erro. Mas, daí por diante , aquela palavra não saiu mais da minha cabeça. A palavra “consciência” virou um mote, um mantra  que passou a fazer parte do meu repertório linguístico desde então.

Não é que deixei de ser danado , comilão ou passei a ter "consciência" de uma hora pra outra. Mas aquela palavra me deu algo novo que até então eu não conhecia: a de que  você deve fazer o certo independente dos outros ou do medo da punição.  É entender que  o certo deve ser feito independente de alguém estar olhando ou não .Isso é a tal da consciência.

Daí por diante essa palavra fez morada na minha mente e no meu coração. E ao longo dos anos foi tomando novas nuances  e sentidos. Hoje sei  da importância de se ter uma consciência ética e moral bem formada.  Não estou dizendo que já tenho esse sentido perfeitamente desenvolvido em mim,  mas busco fortalecê-lo  e aplicá-lo no meu dia-a-dia. Nem sempre consigo , todavia, eu tento. Mas também tenho consciência de que nem  sempre consigo obedecer a essa "consciência".

O outro sentido da palavra consciência- e que foi fundamental pra mim- é o de " estar consciente", alerta, vigilante, totalmente atento ao presente, ao que acontece no aqui agora. É a mesma palavra que ouvi da minha prima na infância, mas com o sentido ampliado. Estar consciente ou ter consciência de si é o caminho para se alcançar uma Consciência maior, ou Consciência Suprema também chamada de  Deus.

Agradeço à minha família, meu avô, avó , tias e tios e também aos meus primos e primas que tanto contribuíram para que eu tomasse consciência do mundo e de mim mesmo. Eles ajudaram a regar o meu jardim, jogando sementes  que mais tarde brotariam e me fariam ser quem eu sou hoje : crítico, consciente- mas humano e falho como todos os outros. 

Nessa perspectiva da jornada interior, de ampliação e amadurecimento da consciência  , minha prima foi usada por Deus pra me dar meu primeiro "choque de consciência" , sendo assim foi, de uma certa forma, minha primeira Mestra.
Júlio, Lígia , Eu (topete) e nossa amada tia Yesus Barbosa 

Obrigado! Muito Obrigado!

Alsibar
2017






sábado, 16 de janeiro de 2016

JOHN MAIN - O PADRE "ADVAITA" * E O RESGATE DA MEDITAÇÃO CRISTÃ



“Somente na união conhecemos plenamente o que somos. A tarefa central de nossa vida, na visão cristã, consiste em nos inserirmos na união, em entrarmos em comunhão. Colocar isso dentro do ponto de vista do qual nós, na maioria, partimos, significa superar todo dualismo, toda divisão dentro de nós mesmos e superar a alienação que nos separa dos outros. Foi o dualismo que caracterizou as heresias, heresias que ameaçaram destruir a delicada centralidade, o equilíbrio sadio da perspectiva cristã. É o dualismo, igualmente, que cria para cada um de nós, a alternativa impossível e irrealista do “ou isso ou aquilo”, que provoca tanta angústia desnecessária: Deus ou o homem, amor a si próprio ou ao próximo, claustro ou praça pública." John Main OSB


Confesso que não conhecia nada sobre  Meditação Cristã até meados do ano de 2014. Mas pelos caminhos aparentemente casuais do destino, começamos - eu e meu amigo Eugênio Aquino- um grupo de meditação sem grandes pretensões ou expectativas. Pouco tempo depois, participamos de um curso de Meditação com o Padre Domingos e lá soubemos da existência da meditação cristã e de um padre católico que deu início a um movimento mundial  de meditação : John Main. O que realmente me intrigou foi o fato de nunca ter ouvido falar sobre meditação na tradição cristã. Eu fui católico até a minha adolescência e nunca ouvi nenhum religioso citar a palavra meditação. O fato é que raras pessoas sabem dessa tradição. Nem mesmo no meio espiritualista mais progressista - do qual participei ativamente- fala-se sobre essa tradição. Algo realmente perturbador e intrigante. 

John Main é considerado um grande mestre espiritual, não somente por seus discípulos e admiradores, mas por líderes de várias outras religiões. Seu movimento fez ressurgir no seio do catolicismo uma  corrente de espiritualidade mais contemplativa e mística- inspirada no exemplo dos Padres e Madres do Deserto. Ao fundar vários grupos de meditação cristã no mundo todo, ele contribuiu para fortalecer a tolerância, o respeito e a interação entre as religiões que comungam com esta prática milenar. A meditação une os praticantes de diversas religiões por respeitar as diferenças, preservar as peculiaridades e proporcionar a comunhão entre  pessoas de diversas raças, credos e nacionalidades. Em seus diversos centros espalhados ao redor do mundo,  budistas, hindus, taoístas, católicos , protestantes e até ateus, reúnem-se em torno dessa  prática comum e universal. É isso que explica, em parte, o sucesso dos grupos de meditação cristã no mundo todo.

Desde suas raízes históricas, que remontam ao judaísmo, passando por Jesus, continuando  com os Padres e Madres do Deserto , sem esquecer os grandes místicos como Santa Tereza D´ávila, São João da Cruz , São Francisco de Assis e Padre Pio- a meditação cristã chega até John Main através de um monge hindu que lhe ensinou a meditar. Main reconhece, anos mais tarde, a meditação como parte integrante e fundamental da tradição cristã.   Hoje, este movimento está sob a coordenação de seu discípulo direto : Laurence Freeman.

Laurence Freeman
A meditação cristã parece simples, mas tem vários níveis de interiorização e complexidade- assim como  as  práticas  orientais . À primeira vista, pode parecer uma abordagem superficial, mas à medida em que nos aprofundamos, percebemos que não é bem assim. John Main foi iniciado em meditação por um monge hindu da tradição Ramakrishna : Swami Satyavanda. Que lhe ensinou uma técnica simples de meditação com o uso de um mantra cristão quando ele estava na Malásia, em Koala Lumpur. Ao retornar para a Inglaterra, fora repreendido pelo chefe de noviços e orientado a parar com aquela prática considerada "não cristã" . Por obediência, ele parou de meditar, período em que mergulhou em uma espécie de "deserto espiritual". Anos mais tarde, ao fazer estudos sobre  as Crônicas de Cassiano ele identificou a meditação como uma prática comum entre os Padres do Deserto. A chamada "oração contínua", "oração dos pobres" ou "oração silenciosa" era, fundamentalmente, a mesma prática que o swami  lhe havia ensinado anos antes na Malásia. Daí por diante, fundou vários grupos de meditação cristã em vários países,  escreveu vários livros sobre o tema e tornou-se a maior referência mundial em meditação cristã. 
Realmente, as semelhanças entre a meditação cristã e as práticas orientais são impressionantes. Todavia, coube a John Main sistematizar essas semelhanças e estabelecer alguns limites. Assim,  a jaculatória cristã equivale  aos mantras orientais. Conceitos como paz interior, silêncio, quietude e autoconhecimento são abundantes em toda a tradição católico-cristã. Mesmo

estados sutis e profundos, muito comuns na tradição oriental, são abordados como parte integrante das orientações 
meditativas cristãs. Um  exemplo, é a tal da  “pausa” na respiração- um estado raro descrito pelos grandes iogues, mas facilmente perceptível em meditação profunda. Esta seria uma “ amostra grátis da Eternidade” como cita o Padre Domingos Cunha- uma das maiores referências em meditação cristã no Brasil. Ou seja, todos os elementos fundamentais das grandes tradições meditativas- Hindu, Budista e Taoísta- estão presentes na Meditação Cristã, não deixando nada a desejar.

Abaixo, deixo o link da biografia resumida desse grande mestre espiritual, John Main, para que todos o conheçam e, caso se identifiquem com esse caminho- possam trilhá-lo- assim como eu fiz ao longo de quatro anos. No site da comunidade mundial de meditação cristã você encontra endereços e contatos de grupos, além de orientações básicas sobre meditação ( adicionei no final as orientações básicas, retiradas do site da comunidade).Caso não exista um grupo próximo a sua casa, você mesmo pode organizar um.
A meu ver, a meditação cristã representa um caminho seguro para quem quer vivenciar uma espiritualidade mais voltada para a comunhão mística e íntima com Deus- sem precisar sair da sua própria religião. Os caminhos são muitos, assim como suas fases. Cada pessoa deve encontrar aquele caminho mais adequado ao seu perfil e nível de espiritualidade. E que Deus ilumine e oriente a cada um em sua caminhada de Retorno ao Pai.
by Alsibar

Glossário:

* Advaita- vem de a(não) dvaita ( dualismo), ou seja : não-dualista, que prega o caminho da união, comunhão, superação da dualidade.
*Swami- monge de uma ordem religiosa da tradição hindu
*Mantra- "tra" instrumento, "man" mente- seria um instrumento de controle mental, conhecido como "jaculatória" na tradição cristã.

Como meditar?

Sente-se com a coluna ereta em quietude.

Feche seus olhos levemente.

Fique na posição sentada relaxadamente, mas alerta.

Silenciosa e interiormente, comece a repetir uma oração de uma única palavra.

Recomendamos a palavra oração "Maranatha".

Recite-a como quatro sílabas de igual duração.

Ouça-a enquanto a vai repetindo com suavidade, mas continuamente.

Não pense ou imagine nada - mesmo que seja de ordem espiritual.

Se vierem pensamentos ou imagens, considere-os apenas como distrações no período da meditação, e então volte apenas a repetir a sua palavra.

Medite a cada manhã e a cada fim de tarde por cerca de vinte a trinta minutos.


Oração de John Main para a Abertura do período da Meditação:

 Divino Pai, ajudai-me a discernir a

silenciosa presença de Vosso Filho em meu coração

Conduzi-me àquele misterioso silêncio,

onde vosso amor é revelado a todos que O procuram.”

Maranatha. Vinde Senhor Jesus!

 

​(www.wccm.org)

 

Obras de John Main:

 A palavra que leva ao silêncio - Paulus Editora

Momento de Cristo -  São Paulo, Paulus Editora

O caminho do Não Conhecimento - Petrópolis Editora Vozes 2009


                                                               

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

PARA ENTENDER A "ATENÇÃO SEM ESCOLHA" DE KRISHNAMURTI!


https://www.youtube.com/watch?v=7BzNggnfASc

Existe um tipo de atenção que é desconhecida de quase todos. De tão sagrada e sutil, as pessoas têm grande dificuldade em entendê-la e encontrá-la - mesmo quando  descrita em detalhes.  As grandes religiões, os grandes mestres- notadamente o Zen-budismo e o Taoismo- sempre falaram dela. Mas quem a encontrou? Quem a descobriu? Quem a viveu?

Este estado de “atenção especial”  é tradicionalmente conhecido como Meditação. Todavia, são tantas as definições, visões e métodos que tornou-se quase impossível descobrir o que ela realmente é, por isso, preferi usar hoje o termo “atenção” . Este estado especial de atenção não é a mesma  do aluno em sala de aula, ou do motorista no trânsito, ou a do pai que repreende o filho, ou a de alguém assistindo a um filme , partida de futebol, ou estudando. Não. Esta atenção é especial. Talvez você nunca a tenha experimentado. Ela é de difícil alcance, definição e percepção.

Resolvi falar sobre ela, não como um “mestre” que encontrou a Iluminação. Mas como uma pessoa comum que teve a “graça” de amanhecer nesse estado sublime. Ontem, dormi ouvindo o áudio-livro de J. Krishnamurti: a arte da meditação ( link no final do artigo). Não tenho dúvidas que isso motivou o surgimento desse estado pela manhã. Daí, vem a primeira grande questão: como surge esse estado? Como praticá-lo? Como "produzi-lo"?

Já falei sobre isso várias vezes. A meditação,que se pratica em tempo e horário marcados, é um tipo de prática importante para a saúde física, mental e espiritual. Mas esse “outro” estado de atenção não pode ser praticado. É como se, de repente, você acordasse dentro de um sonho e percebesse que está dormindo em sua cama- mesmo sonhando. Alguns fatores parecem desencadear isso: o ouvir , ler, conversar sobre o assunto- mas nada é garantido. Já dormi várias vezes ouvindo Krishnamurti e isso nunca havia acontecido antes. E Krishnamurti sempre fala sobre meditação, mesmo quando está abordando  outros assuntos como, por exemplo, amor ou sexo.

Então qual é a diferença?

Passei boa parte da minha vida tentando entender esse estado, tanto para benefício dos outros quanto para meu próprio. Mas ele sempre me escapava. É fácil esquecê-lo e perdê-lo. Quase ninguém o conhece , alguns nem  mesmo ouviram falar. E mesmo dos que ouviram, poucos os que o vivenciaram. Mas eu digo: ele existe. E não se parece com nada do que ensinam os tais “gurus internéticos”.

Nesse estado há um silêncio- não forçado, nem absoluto- mas uma qualidade de silêncio, mesmo em meio ao barulho do pensamento. É como se nada pudesse atingi-lo ou tocá-lo, nem mesmo os pensamentos. Há também uma qualidade de relaxamento, de descanso, de não-esforço. O que remonta aos ensinamentos dos mestres taoístas e advaitas (não-dualistas). É fugaz  e ao mesmo tempo sólido, profundo, insondável. Foge a menor e mais leve tentativa da mente de dissecá-lo, entende-lo ou prendê-lo para uso posterior.

J. Krishnamurti passou uma vida falando somente sobre isso, mas muita gente não entendeu. O que, a meu ver, demonstra o quanto a humanidade está deficiente em termos de “atenção”- Ele a chamava de “atenção sem escolha”. Mas mesmo esse termo é confuso. Um amigo meu do Face achava que não poderia mais escolher entre o carro branco ou cinza metálico. Entre um sedan e um hatch. E quantos  não devem pensar assim?

Vou tentar explicar como entendi. Por que “atenção sem escolha”? Por que, quando você está nesse estado, não há direcionamento, o foco de sua atenção não pode ser direcionado, controlado. Você não vai escolher “prestar atenção” nisso ou aquilo. Quando se direciona, controla, ou escolhe, nesse momento, você reforça o centro que decide o que vai olhar, observar. Ora, mas não é esse o próprio centro de que se busca a libertação? Não é ele o “ego”, o divisor, criador do conflito? Por isso , é um estado integrador, sem direcionamento, sem recusa, nem aceitação.

Ele não é introspecção. Não é um “mergulho no interior”, pois quem vai mergulhar? Novamente a divisão. Quanto maior o esforço para “produzi-lo” menor as chances de encontrá-lo. Pois o “produtor de esforços”, que JK chamou de “experimentador/observador”, deve cessar para que “Aquilo” possa emergir, manifestar-se. Não há medidas. Não se pode dizer: é um estado profundo. Pois, quem irá dizer? Não está dentro, nem está fora. É algo sutil, depende muito mais de sensibilidade do que de conhecimento.

É um estado de Paz? Digamos que sim.  Talvez seja a palavra mais próxima, mas mesmo ela é imprecisa. Nessa atenção não existe  a dualidade paz e conflito. Está além. Por isso é tão sublime e sagrado.

Não é à toa que JK sempre falava sobre a atenção de diversas formas, meios, linguagens, perspectivas. Hoje o entendo. E penso que raríssimas pessoas – mesmo os verdadeiros mestres- conseguiriam expressar a sutileza desse estado. Acho que todos eles se esforçaram. Palavras como Paz, Meditação, Nirvana, Atenção Plena, Wu-wei ( ação pela não-ação) foram esforços tremendos para expressar algo que realmente extrapola os limites da comunicação e da linguagem.

E o que resta ao buscador comum, sincero que deseja encontrar algo além da mente? Um emaranhado de gurus, livros, definições, conceitos que mais confundem do que esclarecem. Que mais prendem do que libertam. Que pesam em nossas mentes impedindo a leveza e a liberdade.

Talvez por isso,   acordei  hoje com a clara sensação de que deveria escrever sobre esse estado, sobre minha experiência com “isso”.

JK dizia que isso não pode ser praticado. E vejo que ele estava certo. Tentar praticar ou provocar isso resultará inevitavelmente ao fracasso. O que fazer então?

Mantenha-se tranquilo e aberto. Procure manter-se em paz e feliz, sem conflitos, desejos, expectativas ou ansiedades. Sonde sempre duas coisas: sua atenção e sensibilidade. Na atenção há sensibilidade. Ser sensível  aos seus pensamentos, às emoções, às impressões auditivas, olfativas e visuais . Não se tranque em si mesmo. Mantenha-se livre desde o começo. Talvez um dos maiores erros dos meditadores seja a ideia de que precisam se fechar, se isolar do mundo pra encontrar a paz. Essa paz que se isola me parece superficial e ilusória. A atenção é um estado de plena liberdade e harmonia entre o exterior e o interior. Sem divisões.

E por último: como está a qualidade de sua atenção? Esqueça os livros e gurus. Foque-se na qualidade de sua atenção. Sua mente está atenta? Como saber? Na atenção existe silêncio , liberdade e sensibilidade. Na atenção existe paz- além das definições- mesmo daquelas ensinadas pelos mestres.

E se um dia estiveres perdido, confuso e sem rumo... Experimente perguntar a si mesmo: como está minha atenção? Como está minha mente? Há silêncio, paz, sensibilidade e liberdade nela?

Se não houver, procure... até encontrar. Um dia, quando menos esperar, ela estará ali. Mas você tem que estar preparado para percebê-la. A bem da verdade, ela sempre está ali. Mas como percebê-la se vivemos eternamente ansiosos, buscando no tempo aquilo que está além dele?

JK costumava dar um exemplo fabuloso: a meditação é como brisa que entra pela janela. Você não pode provocar a brisa. Mas para senti-la tem que deixar a janela aberta e ficar atento para não perdê-la quando ela soprar.

Que nesse ano de 2016 você possa sentir a brisa da paz divina em seu ser. Não desejo que ela seja perene pois, se assim fosse, não seria a brisa do Eterno. O próprio desejo de mantê-la ou continuá-la faz cessá-la. Apenas deixe sua mente aquietar-se por si mesma. Na verdade, ela em seu centro, é quieta, imóvel. Você só precisa estar atento ao seu próprio movimento. Quando ela estiver inquieta- não faça nada. Apenas constate o fato e espere- sem ansiedades. Ela ira acalmar-se. E quando estiver calma- novamente não faça nada. Apenas constate e deixe ela à vontade. É nesse movimento de inquietude e quietude que você vai aprendendo a lidar com ela.

Trabalhe. Faça o bem. Encontre a felicidade na paz. E fique atento-sempre que se lembrar – uma atenção simples, serena, tranquila. Nada de atenção forçada. Esta não leva a muita coisa. O resto deixe por conta da Vida, de Deus, do Universo!

Feliz 2016 a todos os leitores, amigos e visitantes do Blog. Fecho 2015 com a sensação do dever cumprido .

Até a próxima!

Namastê!

Alsibar
Link para o audio livro: a arte da meditação de J. Krishnamurti

domingo, 25 de outubro de 2015

O Caminho Direto (Vichara Marga) de Sri Atmananda Krishna Menon




Muitos consideram que Atmananda Krishna Menon foi um dos três titãs do ensinamento advaita do século XX, uma pequena lista na que também se incluem a Ramana Maharshi e Nisargadatta Maharaj.

Krishna Menon nasceu em 1883 em Peringara, próximo de Tiruvalla no estado de Travancore (agora parte do atual Kerala). Com a idade de 10 anos, Krishna Menon foi visitado por um sábio, um sannyasin que lhe deu japa, uma iniciação em forma de mantra ioga. Praticou durante vários anos sem êxito, regressou à escola e, enquanto permanecia na cama desperto pelas noites atormentado pela necessidade de Deus, de repente se encontrou com o mesmo sannyasin que havia conhecido quando era criança e lhe disse que logo encontraria a um mahatma.
Depois de completar seus estudos de leis, se converteu em advogado do governo e inspetor de polícia.

Se diz que Krishna Menon rezou intensamente durante muito tempo para encontrar a um verdadeiro sat-guru, um autêntico mestre ou rishi/santo iluminando. Finalmente, isto conduziu ao seu primeiro encontro em Calcutá com um Swami Yogananda, que não deve confundir-se com Paramahansa Yogananda, o guru que tornou conhecido a muitos ocidentais o Kriya Ioga e a meditação.
Seu encontro durou somente uma noite, porém alterou o curso de sua vida. Depois deste encontro começou a praticar Bhakti Ioga e Raja Ioga, assim como jnana ioga, o caminho do conhecimento, Krishna Menon realizou o Ser em 1923, chegando a ser conhecido como Sri Atmananda. Mais tarde, depois de começar a ensinar, ele utilizou unicamente o jnana ioga, criticando abertamente os iogas Bhakti e Raja.

Ele dizia que sua carreira profissional lhe auxiliou a descobrir a Verdade, já que uma profissão dentro da polícia ou o exército oferece uma base ideal para uma prática espiritual, porque esta profissão oferece em particular o máximo de obstáculos e tentações. Isto é particularmente importante para os estudantes ocidentais, que vivem numa cultura moderna de distração e tentação que não tem comparação.

Sri Atmananda Krishna Menon influenciou profundamente muitos ocidentais, incluindo a John Levy, que escreveu A Natureza do Homem Segundo o Vedanta relacionado com o enfoque de Atmananda, e Wolter Keers, o estudante holandês de Sri Atmananda e Ramana Maharshi. Ananda Wood, um discípulo direto de Sri Atmananda Krishna Menon, também escreveu extensamente sobre ele.
Sri Atmananda foi uma importante influência para Jean Klein e, através dele, para seus estudantes, incluindo a Francis Lucille. Francis Lucille por sua vez influenciou Rupert Spira.

Alguns ensinamentos de Sri Atmananda Krishna Menon

"Como podem pensamentos que nascem e somem em mim, ser diferente de Eu mesmo? Quando há pensamentos, eu estou Me vendo mesmo; quando não há pensamentos, estou permanecendo na Minha própria glória."

"A Verdade é aqui e agora. Assim é em toda parte. Se não for encontrada, em primeiro lugar, aqui e agora, ela não será encontrada em nenhum outro lugar e em nenhuma outra hora."

"Por mais que você possa tentar matar o eu, ele só vai se tornar mais forte. Então você tem que abordá-lo do outro lado. Todo mundo entende, apesar do eu. A verdade é que o eu morre automaticamente quando você entende alguma coisa. Você nunca terá sucesso em trazer à luz para dentro, se você insistir em retirar toda a escuridão de seu quarto, antes! Por isso, simplesmente ignore o eu e tente entender, e o entendimento em si vai remover o eu."

"O mundo bilha por causa da Minha luz: sem Eu, nada é. Eu Sou a luz na percepção do mundo."
"O esforço humano consiste em criar escravidão para si, se agarrando bem forte a ela, e querendo se tornar livre, sem abandonar a escravidão em si."

"Você é um ser humano? Defina um ser humano. Um ser humano é uma mistura incongruente de corpo, sentidos e mente, junto com o 'Eu'-Princípio. Todos, exceto o 'Eu'-Princípio estão mudando em cada momento. Mas você vai admitir que você é este 'Eu'-Princípio. Como o 'Eu"-Princípio, você fica como o fundo permanente que liga todas essas mudanças que vêm e vão. Este 'Eu'-Princípio é diferente e separado do corpo, dos sentidos e da mente, quais estão em fluxo contínuo. Aonde está o ser humano, durante o sono profundo, quando você não tem corpo, sentidos ou mente? Certamente em lugar nenhum. Ainda assim, Você está lá como aquele 'Eu'-Princípio. Portanto, você não é um ser humano, mas um princípio - imutável e permanente. Como tal, você pode entender a Verdade além de tudo."

"Deus é apenas um conceito, embora seja o (conceito) mais alto que a mente humana pode criar. Mas você não é um conceito."

"Vichara-marga (o caminho direto), é a remoção da mentira por argumentos - deixando, apenas, a Verdade Absoluta como o Eu Real."

"Para a alma individual (eu) tudo está no exterior. Para Deus, tudo está dentro. Para o Sábio (Jnanin), não existe nem dentro nem fora. Ele está além de ambos."

"Quando você olha minuciosamente, você vai achar que ele não estava lá. O executor não estava lá; o pensador não estava lá, o observador não estava lá; o desfrutador não estava lá; o sofredor não estava lá, mas tudo está no fundo; na fonte."

"Ao falar sobre a Verdade, você (o eu) deve deixar de falar, e permitir Ele (a Verdade ou o Eu Real) falar, ou se expressar, em sua própria língua."

"Todos os métodos dos Upanishads tentam separá-Lo do Anatma e estabelecê-Lo no Atma. Mas aqui, de acordo com o método direto, é mostrado que você nunca pode fugir nem da sua própria sombra, nem da sua realidade. Peço só para vocês olharem profundamente ao que vocês chamam de Anatma, e ver além de qualquer dúvida, que isso é apenas o próprio Atma, a Realidade."

"Será que eu sou o corpo, os sentidos ou a mente? Não. Se eu proclamar de ser 'alguma coisa', aquilo deve ser comigo onde quer que eu vá. Fazer, pensar, perceber e sentir não vão comigo onde quer que eu vá. Apenas 'Sabendo' é sempre comigo. Então, eu estou o Saber da Consciência sem igual. Eu sou aquilo sempre, e eu sou desprendido. Eu posso ser apenas aquilo o que permanece quando o objeto ou parte ativa está separada do percebedor, da percepção, ou do percebido."


Fontes: Advaita Vision, Advaita Info e o livro Notes on Spiritual Discourses of Shri Atmananda

Saiba mais no link : https://www.facebook.com/VicharaMarga

sexta-feira, 3 de abril de 2015

O DESAFIO MAIOR


O maior desafio da espiritualidade “advaita” -ou de qualquer outra-                
   não é a renúncia, não é o tal “trabalho”-que nada mais é do que um meio de autopromoção e status. Não é falar bonito, não é a tal “compreensão” , não é a tal “iluminação”, nem mesmo o tal “despertar”. O maior desafio do sábio  é ser uma pessoa normal e comum. Afinal, aceitar os desafios diários, as limitações e dificuldades de uma vida “normal”  não é algo que atraia o ego.

Mas o que se vê hoje em dia são pessoas que usam da espiritualidade advaita para autopromoção, status e respeitabilidade. Arrotam suposta sabedoria ao defender aquilo “que é”, mas tudo o que menos querem é ser o que são. Querem ser famosos, especiais, bajulados e adorados. O maior desafio do aspirante advaita é o anonimato e  a invisibilidade Isso sim seria um duro golpe no Ego.

Aceitar o que é- pela própria definição- significa aceitar sua vida como ela é, as pessoas como elas são,  seu ser como ele é, seus pensamentos como eles são com todas as limitações e deficiências.  É perceber-se pequeno, insignificante e inútil diante do Incomensurável e nisso descansar, sumir, aquietar-se… observando o vai e vem  dos fenômenos dentro e fora de você.            
                                                                                      
Aquietar não é acomodar. É participar ativamentee do jogo da vida como sendo um outsider, sabendo a hora de agir e de não-agir, reconhecendo-se a si mesmo como parte de todo esse complexo sistema onde todos cumprem um papel e ninguém é mais importante ou superior a ninguém.
É importante que cada um questione a si mesmo qual seus objetivos na senda da espiritualidade. O que realmente querem? Fama, dinheiro, poder? Status? Um meio de ganhar dinheiro no mole? Uma forma de curar traumas da infância infeliz tornando-se alguém admirado, amado e respeitado? Uma fuga à própria insignificância? É preciso muita maturidade e coragem para admitir isso para si mesmo.
O caminho do meio é o caminho mais difícil .  
         
                  Tornar-se monge é relativamente fácil. Ser um escapista é até mesmo glamouroso. Todos admiram e respeitam quem abdica da própria vida para tornar-se monge ou sanyasin (renunciante)- isso é –em muitos casos- um alimento para o ego. 
Mas quem admira o homem comum – “ The fool on the hill”- poeticamente e fielmente retratado na música dos Beatles?

Grandes mestres como Jesus Cristo, Lahiri Mahasaya, Sri Yukteswar, Krishnamurti , Papaji etc deram exemplos de uma vida equilibrada. O ideal cristão de “viver no mundo sem fazer parte dele”, o “caminho do meio” pregado por Buda, a “aceitação do que é” de Krishnamurti e mestres advaitas, o “agir pelo não-agir” de Lao Tsé, “ O agir sem apegar-se aos frutos da ação” de Krishna- tem a mesma natureza semântica, o mesmo significado, o mesmo sentido.            
Em suma, encontrar o ponto de equilíbrio entre a vida espiritual (quietude) e a vida social (ativa) é o maior de todos os desafios.

Alsibar

alsibar.blogstpot.com

domingo, 31 de agosto de 2014

ADVAITA E O NEO/PSEUDO ADVAITA OCIDENTAL




( Quando encontrei este texto em Inglês senti-me no dever de traduzi-lo , pois ele  é um daqueles artigos que nenhum buscador espiritual sério pode deixar de ler. O autor- Alan Jacobs- faz uma análise profunda do movimento neo-advaita (não-dualista) liderado pelos auto-proclamados gurus ocidentais. Depois de ler este artigo, você  poderá finalmente compreender a diferença  que há entre os ensinamentos dos verdadeiros mestres como, por exemplo,  Ramana Maharshi- e estes que se passam por seus seguidores e se dizem mestres, mas que na verdade não são. Como diz o autor do artigo , citando Jesus: são “ cegos guiando outros cegos”. Também coloquei um glossário básico dos termos sânscritos mais difíceis no final do artigo. Boa leitura!- Alsibar)

ADVAITA E NEO-ADVAITA OCIDENTAL
POR ALAN JACOBS
O artigo seguinte foi escrito para a edição de outono de 2004  da revista  "The Mountain Path ', do Sri Ramanasramam, por Alan Jacobs. Ele combina uma análise do 'The Book of One' com uma avaliação das diferenças entre o ensino de Advaita tradicional e dos assim chamados Neo-advaitas ocidentais modernos.
(Note que isso não é especificamente um tema do livro. )

Você pode encomendá-lo a partir de Amazon.com ou Amazon.co.uk

The Book Of One, ( O Livro do Um) o caminho espiritual  Advaita por Dennis Waite, publicado pela S Livros, A Cabana, Deershot Lodge, Park Lane, Ropley, Hampshire SO24 OBE, Reino Unido, 288 páginas, papel back, £ 9,99 ou US $ 17,95.

Não pode haver dúvida de que Dennis Waite, autor do 'The Book Of One', é uma introdução válida  ao antigo ensinamento do Advaita. De uma maneira clara e erudita, ele resume os principais pontos desta grande filosofia e ensinamentos espirituais. O livro está em seções com capítulos subsidiários elucidando os  princípios principais . Os títulos da seção principal são os seguintes: O ilusório, o caminho espiritual, e o Real. Os 18 capítulos subsidiários  dentro dessas secções abrangem, dentre outros, temas como “O que Eu Não sou, a Natureza do Homem, O que Achamos que Podemos Saber, Meditação, Aparência e Realidade, a Consciência, a Natureza do Ser, Realização, e o Caminho Direto, etc 

Dennis Waite é um membro respeitado da Fundação Ramana  do Reino Unido, e há muitas referências úteis aos ensinamentos do Maharshi no texto. Ele tem estudado o assunto há mais de 15 anos e tem um conhecimento prático do sânscrito. O livro deve, definitivamente,  ser recomendado para aqueles que precisam de uma visão sucinta de todo o ensinamento em um volume de médio porte. É fácil de ler e analisa a filosofia  com competência  e de uma forma imparcial. Esta parte do livro pode bem ser considerado como uma introdução  segura e valiosa para todo o campo.
Há, porém, um longo apêndice de 24 páginas repleto de informações sobre  as atuais Organizações Ocidentais  Advaitas,  Sites Internacionais da Internet e uma lista de leitura. Esta parte do livro levanta uma questão interessante e intrigante : o que está  exatamente acontecendo com o sagrado e reverenciado  ensino do Advaita no Mundo Ocidental?

Hoje, muitos devotos  sérios de Sri Ramana Maharshi  denominam justamente esse fenômeno ocidental como "Neo-Advaita '. O termo é cuidadosamente selecionado porque "neo" significa "uma nova  forma ou revivida". E essa nova forma não é o Advaita clássico que entendemos ter sido ensinado por Adi Shankara e Ramana Maharshi- ambos  Grandes Sábios Auto Realizados. Ele pode até mesmo ser chamado de "pseudo" porque, ao apresentar o ensino de uma forma muito atenuada, pode ser descrito como pretendendo ser Advaita, mas  não sendo efetivamente , de verdade, no sentido mais completo da palavra. Neste enfraquecimento das verdades essenciais, forjado em um estilo palatável , aceitável e atraente para a mente contemporânea ocidental, é um ensino enganoso.

Vamos examinar essa tese com mais detalhes. Há um grande número dos , assim chamados , Instrutores Advaitas ou “Não-duais” , tanto na Europa, América e Austrália. Dennis Waite lista numerosas organizações, sites da Internet e livros modernos, muitos dos quais se enquadram nesta categoria. Novos instrutores que se autodenominam "Despertos" aparecem com freqüência. Um ou outro. Eles são, muitas vezes, ex- alunos de longa data do falecido Rajneesh, ou pessoas que visitaram Lucknow com HWL Poonja ( Papaji) .

Obviamente estilos, personalidades, ênfases, delineamentos e conteúdo variam consideravelmente. Mas há pontos em comum suficientes para identificar essa tendência como "Neo-Advaita '. Primeiro de tudo, o ensino é apresentada principalmente através de perguntas e respostas em reuniões chamadas "Satsangs '. O instrutor convida as perguntas e as responde à sua maneira particular. Não há visão geral dos princípios básicos do Advaita. Portanto, aqueles que assistem são deixados sem  a plena compreensão das bases completas em que o ensino se fundamenta. A pessoa fica dependente do que é dito lá e então, depois de muitas visitas, pelas quais se deve pagar, pode-se apreciar o que o auto-proclamado mestre está tentando "transmitir '. Os livros  publicados  tratam  apenas e principalmente  de transcrições editadas desses satsangs ',  que  também são incompletos.

Não há dúvida de que muitos desses homens e mulheres são, na maioria dos casos, bonitos,  talentosos e tem o dom da  comunicação . Eles têm muitas vezes um certo carisma , inteligência e perspicácia. Sabem lidar com conceitos do ponto de vista intelectual com destreza e são, frequentemente,  particularmente divertidos. Muitos candidatos desenvolvem uma dependência psicológica para com seu instrutor favorito, outros  se mudam de um para outro na esperança de receber um pouco da verdade, que irá ajudá-los em sua jornada. Mas estes satsangs tendem a ser fragmentados,  são tantos professores e reuniões  para serem  visitados  que isso pode levar a confusão. Geralmente, há uma falta de compreensão experimental do Ser Real e seu Poder  como,  Silêncio Profundo,  Amor Incondicional etc .. Quando os vasanas são fortes e rajássicas, mesmo tais vislumbres raros, pode não acontecer.

Dito resumidamente, o que tem acontecido é que o vislumbre de um ensino avançado, normalmente dado ao Sadhak  ( discípulo) por um Guru totalmente Realizado,  um Jivan Mukta ou Jnani (sábio),  que foi recebido como um passo preliminar,  é agora dado de forma fragmentada à qualquer novo adepto. A sugestão de que nenhum esforço é necessário só é indicado quando o Sadhak atingiu o ponto em que o esforço não é mais possível. A marca do verdadeiro Guru é aquela Paz, o Amor e o Silêncio que são palpavelmente sentidos em sua presença. Na verdade, o  que o Neo-Advaita dá, se resume à fórmula sedutora  de que "não há nada que você possa fazer ou precise fazer, tudo que você precisa saber é que não há ninguém aí." Que a mente é um conjunto de pensamentos e que não existe uma entidade chamada 'eu' é  um antigo ensinamento dos Upanishads, e não uma nova revelação como alguns supõem. Paradoxalmente, e por uma razão difícil de explicar, todos os principais instrutores  Neo-Advaitas Internacionais, se envolveram em práticas espirituais de um tipo ou outro, às vezes por um longo período, mas eles negam essa necessidade aos seus alunos.

A sugestão dos Neo-Advaitans de que esse esforço constrói o Ego, dando-lhe um sentimento de orgulho na sua capacidade de meditar, etc só é verdade em alguns casos excêntricos. Na verdade, o esforço para desenvolver um propósito único que leve à Auto Investigação a fim de descobrir a fonte do 'fantasma eu', a raiz de todos os pensamentos e sentimentos, enfraquece este recalcitrante "fantasma egoísta '. O esforço pode dar uma pitada de controle necessário sobre a mente , e uma atenção direcionada . Por desprezar a Auto Investigação e tratá-la como uma idéia, em vez de uma prática junto com Devoção e as práticas auxiliares à Auto Investigação, o aluno fica em uma  confortável  zona mental, conceitual, onde afirma confortavelmente que "não há nada a fazer e nenhum lugar para ir '. Alguém pode estacionar nesse espaço sempre, vindo uma vez por mês e pagando por  mais satsangas, na esperança de  que a Graça  desça. 

É como tentar ganhar um grande prêmio de loteria, sem nunca ter comprado o bilhete. Em vez de se voltar profundamente e persistentemente para dentro e investigar a origem do 'fantasma Eu'.  Frequentemente, amizades são  feitas e é desenvolvido um estilo de vida – o que é psicologicamente gratificante. Retiros e cursos intensivos são oferecidos. A cobrança  é feita nesse esforço  de se tentar "conseguir algo" e, portanto, suspeito como proveniente do 'eu'. Na verdade, o "fantasma do Eu 'realmente não existe como uma entidade, isso é verdade, mas a noção do " falso eu "é muito poderosa, alimentada subconscientemente pela vontade  egoísta e agravado pela força vital. Ele tem que ser diligentemente investigado até ser destruído. O Maharshi diz enfaticamente que a nossa única liberdade como ajnani ( não-realizado) é se voltar para dentro. Não é tentar "conseguir algo", mas   tentar se "livrar-se de algo", a sensação de separação, ou seja, a identificação com os pensamentos, a mente e os sentimentos.

Caso contrário, existe uma permanente oclusão, o Granthi Knot, ( Grande Nó) permanentemente separado do tremendo poder do Eu Real, que é a  Consciência Absoluta Imortal e Não-Nascida , Deus, Amor Incondicional, Silêncio Dinâmico e Unidade. Em vez disso, o aluno Neo-Advaita apenas se deleita em sua Consciência Reflexiva,  configurado como "tudo o que existe é perfeito, o que quer que se manifesta". Não é feita uma distinção clara entre o Absoluto e a consciência Relativa e, possivelmente, pode até não ser conhecida.

Em resumo, a principal falácia Neo Advaita ignora o fato de que há uma oclusão ou véu formado pelas vasanas, samskaras, invólucros corporais e vrittis, e há um Granthi Knot formando uma identificação entre Ser e a mente que tem que ser cortado. Se não fosse este o caso, então toda a humanidade estaria vivendo da Consciência Absoluta. Mas como a humanidade ainda vive da Consciência Reflexiva, incluindo  aí o instrutor  Neo Advaita  com seus vasanas ativos, ainda identificados com a mente.

Com efeito, Neo Advaita dá  ao ego uma licença, sem atenuação, para viver sob a justificativa de um  sedutor argumento hedonista . O remédio do Maharshi para toda essa armadilha é a persistente  e eficaz Auto Investigação e / ou a Rendição Completa e Incondicional do 'ego fantasma' ao “ Si Mesmo” ou Deus, até  que o Granthi Knot seja cortado, os Vasanas, Samskaras e Vrittis se manifestem, e  se rendam inofensivamente scomo uma corda queimada. Práticas de apoio e orientações são dadas para aqueles que acham a Auto Investigação muito difícil no começo. Renúncia parcial é possível para todos, levando à rendição completa através da Graça , como consequência dos esforços feitos através de um sério propósito único. Em seu Ensaio Básico, Auto Investigação { Collected Works) Bhagavan desenha claramente um diagrama que mostra como o Ego composto por pensamentos corporais  arraigados e tendências, etc, formam um espelho que reflete a Consciência Absoluta Pura através da porta dos sentidos para o mundo como Consciência Reflexiva.

O Neo Advaitan sempre diz , um pouco ironicamente, que “ Despertar”  é muito comum e nada de especial. Obviamente ele parecerá "cinzento" se vasanas ainda estiverem ativos. Como viver em Sahaja samadhi e da Consciência Absoluta com amor incondicional, grande paz e silêncio dinâmico abundante,  pode ser chamado de "comum"?  Para o instrutor  Neo-Advaitan há um processo inteligente de desconstrução intelectual do "sentido de fazedor" ou da "falsa sensação do eu 'ou' ego fantasma", que pode, se realizado de forma intensiva, levar a uma experiência, geralmente temporária, de que  “não há ninguém aí" e até mesmo tornar o sentido de fazedor temporariamente disfuncional.  Isto é, então, chamado de "um despertar que  aconteceu 'ou alguma outra hipérbole e o aspirante repousa contente e pode até desenvolver um desejo de ensinar a mesma técnica para os outros.

A parte sutil do ego acredita estar 'iluminada', mas os vasanas ainda estão ativos, de modo que o despertar é conceitual, e possivelmente imaginado, um pouco parecido com a experiência  do "nascer de novo"  do cristianismo evangélico. Nenhum Jnani (sábio) jamais afirma ser iluminado. O reconhecimento de suas qualidades fica a cargo dos outros. Dizer 'Eu sou iluminado' é uma contradição, pois o “eu”, que faria tal afirmação é o "eu" que tem de ser destruído antes da Iluminação  acontecer. O instrutor Neo Advaita ainda está falando da mente , da Consciência Reflexiva não a partir da "não mente".  Ao proclamar que  conseguiu despertar os outros 'prematuramente’, mesmo nesta forma preliminar, torna-se depois  uma prova da habilidade do instrutor. Isso cria uma falsa sensação de expectativa na mente dos adeptos ingênuos e crédulos de que eles podem , se tiverem sorte, se tornar despertos também.

Isso, então, torna-se uma vocação, e em muitos casos, uma forma garantida  de se ganhar a vida. Alunos gravitam em torno do instrutor com esse tipo de programa que confirma o que ele ou ela quer acreditar, que não é necessário nenhum esforço. O resultado é que o instrutor, que ainda vive da mente comum, com vasanas ativos, nunca poderá voltar atrás na promessa de que ele está "desperto" , pois perderá o direito de ensinar. Que os vasanas foram acumulados e consolidados numa "vida de sonhos ' anterior não é examinado, e se tais questões forem levantadas, os ensinamentos sobre ' samsara ',' Maya ', jiva, karma e renascimento são muitas vezes considerados demasiadamente metafísico para explicar ou abarcar. Eles são invariavelmente descartado como superstições antigas. Ensinar do  " estado de não mente" ou "o silêncio do Sábio 'nunca pode acontecer enquanto os poderosos  vasanas estiverem ativos. Eles têm que morrer  e tornar-se inofensivos, e isso significa auto-investigação e entrega até que a mente, através da Graça, quando o Eu Real reconhece a Jiva com uma mente unificada, volta-se totalmente  para dentro. O sistema nervoso foi preparado e o “Self”  arrasta então a mente para o coração totalmente aberto. Isto é a Auto Realização.
           
Muitos desses instrutores proclamam Ramana Maharshi como sua linhagem, frequentemente exibem  sua foto prestigiosamente, mas não são totalmente eruditos em seu ensino. Muitas vezes, o ensino é despojado de seu conteúdo devocional. Alguns simplesmente passam por cima dele e se contentam em ser a única autoridade. Dar 'satsang' em Arunachala confere a alguns instrutores mais credibilidade. Como essa falácia acontece - e por que é tão atraente para a maioria jovens ocidentais contemporâneos, que se contentam em  passar pela Auto Investigação, Devoção e Rendição do "falso eu" ou "ego" para o Eu real ou Deus, e assim entregam todos os cuidados e responsabilidades de suas vidas, com grande fé, antes de entrar na vida espiritual?

Este ensinamento avançado da "não necessidade do esforço" retirado do Advaita  Avançado e  do Cha'na ( Zen) Budista [a Escola do Despertar Repentino] caiu como a principal dica do Neo Advaita.

Fica então fácil para a mente radicalmente cética do Ocidental, aceitar esta forma preguiçosa- em nossa micro onda cultural- de querer a satisfação imediata no agora, em vez de ter que trabalhar , estudando o ensinamento das grande Fontes do  Advaita  Contemporâneo  Renascido: Sri Bhagavan Ramana Maharshi, Adi Shankara e outros grandes sábios. Também não precisam desenvolver nenhum poder de atenção e concentração. Aterminologia hindu também não tem que ser compreendida, nem a linguagem tradicional assimilada, mesmo em sua tradução. Isso exige estudo e esforço. O fazer esforço pode surgir sem um senso de fazedor pessoal, assim como se faz esforços na vida espontaneamente, quando necessário, a partir da energia vital. Diz-se que estamos totalmente desamparados e não há nada que possamos fazer, mas isso ignora o todo poderoso Ser e a Graça que começa a fluir como uma resposta ao esforço inicial e persistente da Auto Inquirição e Rendição.

A idéia de que este "despertar" pode não vir de imediato não apela para o  atual desejo  de satisfação materialista instantânea. Hedonismo, sem dor, domina a cultura Ocidental, os valores religiosos estão em baixa, e um ensino humanista é muito mais atraente. Além disso, ele deixa o instrutor à vontade. Ele pode dispensar totalmente a recomendação de Sadhana . Paz e tranquilidade é preferível a Sadhana como pré-requisito para a iluminação. Isto tem um valor terapêutico. Além disso, a idéia de um "Mestre vivo" é atraente. Não se entende que o Guru Supremo, o Jivan Mukti, que deixou o corpo,  ainda está disponível tanto no coração como o Sat-Guru interno, quanto como Consciência Absoluta, o Imortal Não-nascido Self, além da mente. Mas para chegar ao Sat-Guru interior precisa do esforço de se voltar para dentro, e esta não é uma palavra popular para se usar, embora o esforço seja aplicável em todas as outras esferas da vida.

Os neo-Advaitans afirmam que não há ninguém lá para fazer qualquer esforço. Isso é um absurdo. A energia para o desejo de libertação surge e a parte inteligente do 'ego fantasma' começa a Auto Investigação e suas práticas auxiliares conduzem a um objetivo único. Se não há “ninguém aí”  para fazer  esforço, como é que qualquer trabalho é realizado neste planeta afinal?

Auto Investigação precisa de preparação, como David Frawley apontou em seus  excelentes livros sobre Advaita e os artigos da Mountain Path. Auto Inquirição  pode não produzir um resultado perceptível imediato. Começa um processo gracioso de remover o obstáculo do obscurecimento para a realização do Ser Real. Pegando emprestado metáforas dos Evangelhos: o Reino dos Céus interno é a pérola de grande valor. Ele tem de ser conquistada através da investigação séria e rendição. O verdadeiro propósito da vida neste nascimento não é meramente "divertir-se" no prazer sensual, mas fazer o esforço necessário para remover o sentido do ego fantasma da separação e identificação com a mente, os pensamentos, sentimentos e corpo. "Se um cego guiar outro cego, ambos cairão na vala." É realmente uma maravilha de Maya que alguns instrutores  Neo-Advaitas possam afirmar visões pessoais que sugerem que seu conhecimento é mais profundo do que a do Maharshi.

Deve ser dito que este ensaio é uma generalização baseada em visitas aos muitos instrutores Neo-Advaitas que vêm ou que residem em Londres, e assistindo a vídeos de outros nos EUA e em outros lugares. Minhas críticas não se aplicam igualmente a todos. Cada um tem suas próprias ênfases, angulações e delimitações, mas a idéia básica de minhas considerações são geralmente aplicáveis.

No entanto, Neo-Advaita -não importa o quão deficiente e incompleta- tem uma notável vantagem . Ela pode servir como uma introdução para o verdadeiro Ensino Advaita. Apesar de falho , o Neo-Advaita , depois de vários satsangs,  pode – pelo menos- enfraquecer "o ego fantasma 'intelectualmente. Na melhor das hipóteses, é uma entrega parcial, mas sem conteúdo devocional completo e, portanto, não pode levar a uma entrega total quando a oclusão mental é absorvido no coração. Só podemos aceitar que o movimento Neo-Advaitan com sua proliferação de instrutores e  sites florescentes veio para ficar, embora alguns tenham profetizado que a maré está começando a virar e que muitos estão agora começando a investigar seriamente o Ensino de Ramana. No entanto, Neo-Advaita é uma parte necessária de "o que é" e como um aspecto do plano divino tem o seu lugar como uma introdução preliminar. É, portanto,  um trampolim válido, apesar de imperfeito , para aqueles que estão prontos e maduros o suficiente para se dirigirem ao verdadeiro Advaita, em vez  ​​reclinarem-se na metade do caminho para o Monte de Arunachala.

Permita a Sri Bhagavan  ter a última palavra sobre esta questão: "Deve haver esforço humano para descartá-las [vasanas] .... como Deus poderia vir a ser favorável para você sem o seu empenho por isso? '" [Letters pg 151] .

Devemos ser gratos a Dennis Waite e seu excelente livro, com seu apêndice, por trazer fortemente toda nossa atenção para  essa questão.

Fontes do original em Inglês:



Glossário:
Neo-advaitas : Supostos praticantes da antiga filosofia védica do Não-dualismo ensinado e revivido por Shankara e Ramana- mas que no fundo não são.
Sanskara: O samskara é o conjunto das tendências subconscientes, de caráter inato e hereditário, causa dos condicionamentos. O termo samskara significa literalmente 'ativador'. Isso sugere que as impressões subconscientes não são apenas resquícios inertes de pensamentos e ações passados, mas são forças ativas que continuam determinando os conteúdos da vida psíquica, impelindo continuamente a consciência para assumir novas formas que, por sua vez, darão lugar a novas ações. Fonte: http://www.humaniversidade.com.br/boletins/como_funciona_samskara.html
Satsangas- originalmente : “ encontro com a Verdade”- Mas , no ocidente designa reuniões ou encontros entre o suposto “mestre” e os discípulos e que são geralmente pagas.
Vassanas-  As vasanas são os desejos subliminares que funcionam como força motriz dos pensamentos e ações do indivíduo. São marcas sutis, porém indeléveis que as experiências deixam na mente subconsciente.
Vritti : Vritti (índole,modo de ser, temperamento, caráter, tendência, disposição, ou comportamento, etc.), dado que não se trata de uma mera aptidão, mas Vritti faz com que uma pessoa se torne propensa à alguma coisa ou faz com que a sua atenção se volte para algo. Não sei se existe uma palavra na língua inglesa que corresponda exatamente à Vritti (em português a palavra "índole" talvez seja a que a defina melhor). Fonte: http://sahaj-az-pt.blogspot.com.br/2011/11/vritti-e-atencao.html

Rajássicos- proveniente de Rajas, os três gunas :“Originalmente, atmosfera, ar, firmamento: Gera actividade. Este tipo de actividade é explicado pelo termo yogakshem. Yogakshem é composto por duas palavras: yoga e kshem. Yoga, neste contexto, significa adquirir algo que não se possui. Kshem significa perder algo que já se tem. Rajas é a força que cria desejos para adquirir coisas novas e temores de perder aquilo que já se tem. Estes desejos e medos conduzem à actividade. (Rajas não tem qualquer relação etimológica com a palavra raja.) As pessoas com tendências rajásicas são muito dinâmicas, egocêntricas, consumistas, ambiciosas, vaidosas, sempre preocupadas e inquietas, com fome de poder, riqueza e prestígio.” http://pt.wikipedia.org/wiki/Guna

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