quinta-feira, 26 de março de 2020
sábado, 14 de março de 2020
Ramana Maharshi: sobre a “consciência sem escolha” de Krishanmurti
(Encontrei esse raro relato
em Inglês e resolvi repostá-lo aqui.
Apesar de não concordar nem com a pergunta – que afirma que Krishnamurti ensina
um “método”- nem com a resposta de Ramana- que defende a importância do esforço
na meditação, além do que, pelo que me parece, noutras conversas o próprio Maharshi
dispensa o “esforço” da meditação- fica aí o registro dessa conversa, no
mínimo, inusitada- Alsibar)
Um jovem de Colombo, no Ceilão, disse a Bhagavan:
J. Krishnamurti ensina
o “método” da consciência sem esforço e sem escolha como distinto do da
concentração deliberada. Sri Bhagavan ficaria satisfeito em explicar como
praticar melhor a meditação e qual a forma que o objeto da meditação deve
assumir?
Ramana Maharshi: A consciência sem esforço e sem escolha é a
nossa natureza real . Se pudermos atingir esse estado e permanecer nele, tudo
bem. Mas não se pode alcançá-lo sem esforço, o esforço da meditação deliberada.
Todas as vásanas antigas (tendências
inerentes) voltam a mente para objetos externos. Todos esses pensamentos devem
ser abandonados e a mente voltada para dentro e isso, para a maioria das
pessoas, exige esforço. Obviamente, todo professor e todo livro diz ao
aspirante que fique quieto, mas não é fácil fazê-lo. É por isso que todo esse
esforço é necessário.
Mesmo que encontremos alguém que tenha alcançado esse estado
supremo de quietude, você pode considerar que o esforço necessário já havia
sido feito em uma vida anterior. Portanto, a “consciência sem esforço e sem
escolha” só é alcançada após a meditação deliberada. Essa meditação pode
assumir qualquer forma que mais lhe agrade. Veja o que ajuda você a afastar
todos os outros pensamentos e adote isso para sua meditação.
segunda-feira, 9 de março de 2020
KRISHNAMURTI FALA SOBRE GURDJIEFF
O LÍDER ESPIRITUAL
Disse que seu guru era um homem grande demais para ser descrito, e que tinha sido seu discípulo por muitos anos. Este
instrutor —
prosseguiu — transmitia seus ensinamentos por meio de
choques brutais,
linguagem grosseira, insultos e ações contraditórias;
e, acrescentou,
muita gente importante se contava no número dos
seus discípulos.
A própria rudeza dos seus métodos compelia as
pessoas a
pensar, obrigando-as a ficar acordadas e a refletir, o que
considerava necessário, pois a
maioria das pessoas estão dormindo
e precisam ser sacudidas. Este
instrutor dizia coisas terríveis a
respeito de Deus, e parece que seus discípulos tinham de beber
muito, porque ele próprio bebia excessivamente às refeições.
Seu ensino, entretanto, era
profundo; durante algum tempo fora
mantido secreto; mas agora estava
sendo posto ao alcance de todos.
O sol daquele fim de outono
entrava pela janela junto com o
barulho da rua movimentada. As
folhas das árvores brilhavam na sua
palidez mortal e o ar era frio e
cortante. Como acontece em todas
as cidades, reinava uma atmosfera
de depressão e indizível tristeza,
em contraste com a luz
crepuscular; e a alegria artificial era, por isso
mesmo, mais triste ainda.
Parecemos ter esquecido o que é ser
natural, o que é sorrir
francamente; nossos semblantes mostram-se
fechados pelas preocupações e
ansiedades. Mas as folhas cintilavam
ao sol, e uma nuvem ia passando.
Até nos chamados movimentos
espirituais são mantidas as divisões
sociais. Com quanta solicitude é recebida uma pessoa importante,
e se lhe cede o melhor lugar!
Como os seguidores se quedam extáticos
ao redor dos famosos! Que fome
nós temos de distinções e
rótulos! Esta ânsia de distinção
se torna o que chamamos de evolução
espiritual: os que estão perto e
os que estão longe, a divisão hierárquica
de Mestre, iniciado, discípulo,
noviço. Esta ânsia é natural e
compreensível na vida ordinária;
mas, quando esta mesma atitude
é transportada para um mundo onde
estas distinções estúpidas nada
significam, isso revela o quanto estamos profundamente condicionados
pelas nossas ânsias e apetites.
Sem a compreensão destas ânsias, é totalmente
inútil procurar ficar livre do
orgulho.
“Mas” — prosseguiu ele — “
necessitamos de guias, gurus, Mestres.
Podeis estar acima desta
necessidade, mas nós, pessoas comuns,
precisamos deles pois, do
contrário, seremos como ovelhas desgarradas.”
Escolhemos os nossos guias- políticos ou espirituais- a partir da
nossa confusão, e, por
conseguinte, eles também estão confusos. Queremos
ser persuadidos e confortados,
estimulados e lisonjeados, e por
isso, escolhemos um Instrutor para
nos dar o que
desejamos com tanta ânsia. Não queremos
investigar a Realidade, mas andamos atrás
da satisfação e da sensação. É essencialmente por autoglorificação que criamos
o instrutor, o Mestre; e sentimo-nos
completamente desorientados,
confusos e ansiosos quando o eu é negado. Se não
tendes nenhum instrutor físico direto,
inventais um Mestre secreto e misterioso que está muito distante. O primeiro depende de
várias influências físicas e emocionais,
e o segundo é uma autoprojeção,
um ideal criado por vós mesmos;
ambos, porém, são
resultados de vossa escolha, e a
escolha se baseia,
invariavelmente, no preconceito, na discriminação. É
provável que prefirais dar um nome
mais respeitável e mais confortável
ao vosso preconceito, mas é por
causa da vossa confusão e dos vossos
apetites que escolheis. Se
buscais satisfação, achareis naturalmente o
que desejais, mas não chameis isto de verdade.
A verdade desponta depois que se
acaba o desejo de satisfação, o desejo de sensação.
“Não me convencestes de que não
necessito de um Mestre” —
disse ele.
A verdade não é uma questão de
argumentos e convicção; não
é produto de opinião.
“Mas o Mestre me ajuda a vencer a
ambição, a inveja” —
insistiu.
Pode um outro, por maior que
seja, ajudar-vos a operar uma
transformação em vós mesmo? Se
pode, não ficais transformado;
ficais apenas dominado,
influenciado. Esta influência poderá durar
muito tempo — mas transformado
não estais. Fostes conquistado,
e, quer tenhais sido conquistado
pela inveja ou por uma influência
supostamente nobre, continuais a
ser escravo e não um homem livre.
( gostamos de ser servis, de ser
dominados por alguém, um Mestre ou
qualquer outro, porque achamos
segurança neste estado. O Mestre
se torna o nosso refúgio. Dominar é ser dominado; entretanto, dominação
não é libertação da ambição.
“Eu tenho que resistir à ambição” —
dizia — “ tenho que lutar com
veemência, fazer todos os esforços para
destruí-la, pois só então ela desaparecerá.”
Pelo que dizeis, deveis estar em
conflito com a ambição há muitos
anos e, no entanto, não estais
liberto dela. Não afirmeis que
isto é por não haverdes lutado,
ainda, com a necessária energia —
que é a resposta obvia. Pode-se
compreender alguma coisa por meio
do conflito? Vencer não é compreender. Uma coisa que se vence
tem de ser vencida de novo,
repetidamente, mas a que se compreende
completamente, desta ficamos
livres. Para compreender, é necessário
o percebimento do processo da
resistência. Resistir e muito mais
fácil do que compreender; e, além
do mais, somos educados para
resistir. Na resistência não há necessidade de observação, de reflexão,
de comunhão; a resistência é um
indício do estado de embotamento da
mente. A mente que resiste é egocêntrica e, portanto, incapaz de sensibilidade,
de compreensão. Compreender a
resistência e seu modo de
operar, é muito mais importante do
que nos livrarmos da ambição.
Na realidade, não estais
escutando o que estou a dizer; estais pensando
nos muitos compromissos
resultantes de todos estes anos de luta e
resistência. Estais comprometido
e, em torno dos vossos compromissos
— a respeito dos quais
provavelmente já tendes feito conferências
e publicado muitos
escritos — tendes granjeado amigos;
“investiste vosso capital” no
vosso Mestre que vos tem ajudado a
resistir. Por esta razão o
passado vos impede de escutar o que se
está dizendo.
“Concordo e discordo de vós” —
observou.
O que demonstra que não estais
escutando. Estais confrontando o que se diz com
os vossos compromissos, e isto não é escutar. Tendes
medo de escutar e, por isso, estais
em conflito, concordando e discordando
ao mesmo tempo.
“Talvez tenhais razão” — disse
ele — “ no entanto, não posso largar
tudo o que juntei — amigos,
conhecimentos, experiência. Sei que
tenho de fazê-lo, mas
simplesmente não o posso- aí está.”
O conflito existente dentro deste
homem continuará agora maior
do que nunca; se, depois de ficar
cônscia do "que é", embora relutantemente,
uma pessoa o nega por causa dos
seus compromissos, começa
a operar uma contradição
profunda. Esta contradição é dualidade.
Não se pode lançar uma ponte
entre desejos opostos e, se esta ponte
é criada, é resistência, ou seja,
conformidade. Só na compreensão do
que é, encontra-se a
libertação do que é.
É um fato singular este: os
seguidores gostam de ser intimidados
e dirigidos, suavemente ou com
rudeza. Acham que o tratamento
rude faz parte de seu treinamento
— treinamento para o sucesso
espiritual. O desejo de ser
maltratado, sacudido rudemente, faz parte
do prazer de maltratar; e esta
mútua degradação do guia e do
seguidor é produto do desejo de
sensação. É por desejardes mais
sensações que quereis seguir,
e portanto criais um guia, um guru; e
por causa desta nova satisfação
fareis sacrifícios, suportareis desconfortos,
insultos e desencorajamentos. Tudo
isto pertence à exploração
mútua, não tem nada a ver com a
Realidade, e jamais conduzirá à
felicidade.
Do livro “ Comentaries on living Series 1- página 98”
(Revisão da tradução feita por Alsibar)
domingo, 8 de março de 2020
domingo, 1 de março de 2020
sábado, 29 de fevereiro de 2020
NÃO SEJA UM KRISHNAMURTIANO! (Artigo)
Krishnamurti foi um fenômeno único na história da
espiritualidade humana. Enquanto sobre Cristo e Buda quase não há registros confiáveis e fidedignos,
sobre Krishnamurti- um iluminado moderno- não faltam registros de toda sua vida, desde a infância até a idade avançada tudo foi
gravado e documentado, suas milhares de palestras, diálogos, seu
dia-a-dia, suas viagens, seus êxtases , sua própria mente, seus relacionamentos e até
sua vida íntima. Como se não bastasse uma biografia singularíssima, some-se a
isso uma mensagem única e revolucionária, no conteúdo , na abordagem,
na linguagem e até no novo sentido que deu à própria palavra “ensinamento”. Há
vídeos em que JK diz não ter ensinamentos. Mesmo assim, pouco antes de morrer, ele cita a importância fundamental de se vivê-los. A aparente contradição é
explicada pelo fato de que o sentido da palavra
“ensinamento” tinha, para ele, uma
conotação diferente .
No passado, o
hábito de memorizar e repetir as palavras e as histórias dos grandes mestres
teve sua importância. Antes de serem escritos,
os ensinamentos eram memorizados e repetidos.Tanto no Budismo, no Cristianismo,
quanto no Hinduísmo, a tradição oral foi fundamental para a preservação de parte da mensagem dos sábios do
passado . Todavia, com a chegada de invenções como a imprensa, o gravador e o vídeo-cassete, que registravam e preservavam
os acontecimentos , a repetição não se fez mais necessária. Hoje em dia, com a
informatização e a chegada da Internet , qualquer pessoa pode ter acesso a
vídeos , áudios e documentos que retratam fielmente as palavras e a vida de figuras importantes do mundo
moderno.
O problema é que a
mente humana passou tanto tempo valorizando a memorização como forma ideal de
aprendizagem que tornou-se viciada nela.
A questão é que este artifício se tornou desnecessário e até um impedimento à
compreensão. É tanto que , no começo, Krishnamurti
costumava advertir as pessoas para não tomarem notas. Sua intenção era que elas
aprendessem uma nova forma de aprender: através da captação imediata do sentido daquilo que
estava sendo transmitido. E, para isso, seria necessário um tipo de atenção especial que o “tomar notas”
certamente atrapalharia .
No universo krishnamurtiano, a memorização não ajuda- pelo contrário- atrapalha. O caminho do aprendizado apontado por
Krishnamurti é a investigação atenta, séria , sincera, honesta e livre do
passado, ou seja, o contrário da memorização. Nessa nova maneira de aprender
não há espaço para citações vazias, repetições mecânicas, memorizações ineficazes e informações de
segunda mão. JK não deixou espaço para a mente se apoderar, manipular e
distorcer suas palavras . Infelizmente,
muitas pessoas não estão acostumadas com essa forma inovadora de aprendizado.
Ora, como a mente fora acostumada ao longo de séculos a
receber tudo pronto e mastigado ela se tornou preguiçosa . As tradições,
religiões e gurus não ensinaram as
pessoas a investigarem e compreenderem as coisas por si mesmas. Por muito
tempo, elas foram ensinadas a aceitarem
aquilo que lhes era repassado- sem questionamentos, nem nenhum esforço cognitivo especial . E o
resultado foi que a mente tornou-se obtusa, incapaz de penetração, investigação e
apreensão . O que Krishnamurti tentou ao longo de toda sua vida foi despertar
nas pessoas a confiança de que elas
mesmas poderiam ter acesso à Verdade independente dos livros, gurus, líderes, tradições e religiões –enfim- do
conhecimento acumulado do passado.
Infelizmente, por incapacidade ou até má fé, muita gente tem
memorizado o conhecimento repassado por Krishnamurti, fruto de sua percepção
direta daquilo que estava sendo por ele investigado,
e tem usado isso não como um meio de libertação mas como mais um fardo para a mente já entulhada de conhecimentos . É essa
repetição memorizada das palavras e ensinamentos de Krishnamurti que faz nascer
o tal do “krishnamurtiano”. Aquele
sujeito que tenta “seguir” seus ensinamentos não através da vivência mas através
da memorização, como se estes pudessem ter o mesmo tratamento que os religiosos
tradicionais dão às palavras de Cristo, Buda e Krishna- por exemplo. Para
Krishnamurti, suas palavras não deviam
ser memorizadas mas percebidas como uma realidade na própria pessoa e pela própria pessoa. Ele
era apenas uma espécie de espelho. Sendo assim, não há compreensão de
Krishnamurti sem que haja conhecimento de si mesmo- essas duas instâncias são
indissociáveis.
Algumas pessoas me acusam de interpretar os ensinamentos de Krishnamurti através dos
meus artigos e vídeos. Eu não seria maluco de fazer uma coisa dessas- além de ser
uma grande estupidez. Krishnamurti não precisa de interpretes . Além disso, há
centenas de livros, vídeos e áudios para quem quiser acessá-los de forma direta. Mas, exatamente por não ser um
“krishnamurtiano” é que sou livre para fazer meu próprio caminho sem precisar
obedecê-lo, afinal, não sou seu discípulo. Mas, ao falar sobre Krishnamurti e
seus ensinamentos, procuro mostrar que a Verdade daquilo que ele apontou está
acessível a todos. Krishnamurti é como um astrônomo que usa um telescópio para
lhe mostrar as estrelas: ele aponta o que viu
e você também poderá ver se tiver
o equipamento correto e olhar na direção correta. Se você as vir, então você
se habilitará a falar por conta própria sobre elas- antes disso não.
Sim, o que Krishnamurti ensinou não pode
ser repetido- a não ser que você mesmo tenha compreendido e então aquela
compreensão passa a ser parte da sua própria experiência pessoal. Do contrário, será alguém falando sobre algo que
nunca viu, nem experimentou- o que não tem validade nenhuma.
Krishnamurti apontou
a existência de um estado sublime dentro do próprio homem. Repetir o que ele
falou, sem ter encontrado tal estado, nada mais é do que se auto enganar e
enganar os outros. Eu passei mais de trinta anos estudando, pesquisando e
investigando em mim mesmo aquilo que JK ensinou, e se cheguei a alguma
compreensão real- não foi por mérito meu- repito- não foi mérito meu. E estou
dizendo isso apenas como forma de motivá-lo, não para engrandecimento próprio
pois me lembro de mim mesmo, de minha luta e sofrimento e o quanto muitas vezes
eu quis desistir dessa jornada interior em direção à verdadeira libertação.
Meus artigos e vídeos querem apenas mostra a você que a Liberdade está
acessível a todos- e não apenas a raríssimos escolhidos.
Para terminar, quero dizer que você deve continuar sua busca pela compreensão das verdades que ele
apontou até que você as compreenda também e
isso torne-se parte de você. Substituir a investigação e a compreensão por memorização e repetição é
assinar um certificado de incapacidade cognitiva e pobreza espiritual. Por isso, não ceda à tentação de tornar-se um
mero repetidor da mensagem libertadora de JK. Viva-a! Experimente-a! Não seja apenas mais um “krishnamurtiano” dentre tantos
outros que existem por aí!
By Alsibar
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020
domingo, 23 de fevereiro de 2020
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020
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