sábado, 17 de agosto de 2013

“ ALCANCEI A ILUMINAÇÃO!!!” - I REACHED THE ENLIGHTMENT!


Recentemente, me deparei com tal afirmação em um post no Facebook – e não era brincadeira. O sujeito realmente afirma que alcançou a iluminação. Fiquei intrigado. Por definição,  a iluminação seria um estado de “não-eu”, então quem é esse que diz “alcancei”?  Além disso, por que alguém bradaria tal fato em uma rede social? Seria uma maneira de angariar seguidores, admiradores e fama? E, em caso afirmativo, isso seria mesmo a tal “iluminação”? Talvez não seja. Ora, para saber o que não é iluminação, deve-se saber o que ela é. Este pequeno artigo se propõe a fazer uma reflexão sobre o fenômeno da iluminação em si, baseado em falas e testemunhos de iluminados autênticos . Quero deixar bem claro que não estou analisando ou julgando a pessoa que afirmou isso, mas as características do próprio fenômeno em si.

Um leitor escreveu certa vez em meu blog que não acreditava que Krishnamurti era iluminado. Fiquei pensando nas seguintes hipóteses : será por que Krishnamurti nunca se classificou ou se auto-denominou como tal? Ou será por que K. não organizou nenhum movimento religioso em torno do seu nome? Ou será por que K. era uma pessoa de aparência comum, não lembrando em nada os gurus clássicos? E não será exatamente essa maneira comum, sem poses ou afetação, um dos sinais de que a pessoa é Iluminada? Senão, vejamos.
Na tradição budista e taoista o “ser comum” é exatamente uma das características dos maiores mestres iluminados. Na tradição judaico-cristão, a Bíblia diz que Jesus era tão comum que “nem seus irmãos acreditavam nele”(Jo, 7:5). Em nada ele lembrava um grande
avatar. A mesma coisa se pode dizer de Sri. Yuktéswar – o mestre de Yogananda. Segundo este último- poucos o reconheceram como um grande mestre ainda em vida.  Apenas após a morte do corpo físico e com o grande sucesso do Autobiografia, foi que ele se tornou conhecido como um grande iogue. Yogananda encontrou vários iogues iluminados que moravam no mesmo bairro que ele - na esquina. E que ele só soube que eram iluminados, por circunstâncias muito especiais. O próprio Yogananda era um iluminado, mas não sabia que o era. É significativa a conversa que ele teve certo dia com seu mestre:
- Mestre quando encontrarei Deus?
- Ohhh… você já o encontrou!
Ele não tinha consciência que já havia “alcançado” o estado de União Divina. Em suma, o iluminado é o último a saber que o é, pelo simples fato de que não há  mais ali o sentido do ego pra dizer “eu alcancei”. Não há mais passado, presente ou o futuro formadores do “eu”. Esta é a dimensão do eterno presente em que TUDO JÁ É . A fronteira dos limites do tempo e do espaço- a Eternidade, o Atemporal. Onde está então aquele que alcançou alguma coisa já que não existe passado, nem futuro? 
Um iluminado não sabe que o é. Se sabe- não é. Obviamente ele tem consciência de que algo lhe aconteceu, mas esse algo não pode ser expresso, nem comunicado . A iluminação é um termo muito amplo, que pode significar desde o despertar dos chakras até o simples estado de presença, ou atenção consciente permanente- sem abalos ou oscilações. Isso já foi dito por grandes mestres do passado como Dogen, Lao Tsé e da modernidade como Jiddu Krishnamurti , U.G.  , Ramana etc. Mas ainda há pessoas que insistem em tratar os dois estados como algo bem dividido e demarcado. Um caracterizado pela bem-aventurança, êxtase intenso, amor, perfeição moral e ética , conhecimento universal, luzes, sensações, poderes etc. E o outro  é o estado de sofrimento, ilusão e ignorância em que a maioria da humanidade vive. Mas será que existe mesmo tal linha demarcatória? Será mesmo que esses estados são tão diferenciados e estanques? Ou será que eles são dinâmicos e interconectados?
Uma das coisas mais estranhas pra quem começa a meditar é se imaginar que um dia de repente, deixará de ser um simples reles mortal ignorante e agonizante, para, de uma hora pra outra, tornar-se um ser bem-aventurado e celestial, cheio de sabedoria e atributos especiais.  Ele fica meditando, na expectativa, na esperança que um dia isso aconteça. E provavelmente morrerá sem que nada aconteça. Quem poderá nos esclarecer sobre essa questão ? Ora, as palavras de Buda e outros grandes mestres do passado- devido a distância do tempo e espaço- podem estar deturpada, descontextualizada, mal interpretada, e sofrido alterações ao longo das inúmeras traduções e compilações. A nossa sorte é que existem Budas modernos que podem nos dar uma luz. Para os dois Krishnamurtis e Ramana- por exemplo, tudo já é aqui-agora. Não há nada pra se alcançar. E isso não é algo que se realiza no final de uma jornada de esforços e práticas- mas no começo. Para J. Krishnamurti, não há caminhos, nem jornada, e nem espaço separando os fins dos meios- os meios e os fins formam um todo integrado. Não há um “passo a passo” que culmina com um acontecimento, pois isso criaria o futuro psicológico que é o próprio centro do “eu”. O que seria, por si mesmo um obstáculo à libertação.
Talvez os mitos e lendas em torno da história de Buda tenham contribuído  para essa ideia de que a Iluminação é um grande acontecimento datado no tempo e espaço.  Pode ser que o que  realmente aconteceu, não tenha nada a ver com o que a tradição nos conta. É possível que Buda  já viesse numa longa jornada de interiorização e compreensão que foi aos poucos se aprofundando, se expandindo, se ampliando. Não necessariamente num processo gradativo e definitivo- como comumente se pensa. Um dia ele compreendeu uma coisa, noutro outra… a formação do EU, a natureza do desejo, o encadeamento das causas e efeitos, até que chegou a compreensão do sofrimento e sua consequente extinção. Isso tudo pode ter levado anos, em termos de tempo cronológico. Em termos psicológicos é impossível dizer se houve um marco demarcatório,  como alguns querem crer e fazer crer.
A iluminação pode ser algo totalmente subjetivo e pessoal. Enquanto U.G. chamava seu estado de “calamidade” e que provavelmente se as pessoas soubessem como era “aquilo” não iriam desejar tal coisa. Krishnamurti fala de bençãos e ondas de êxtases em seu diário.  Cada dia era algo diferente, difícil de relatar, difícil de expressar. Sobre os tais poderes e sensações- são elementos que podem ou não acontecer. No universo místico de Ramana quase ninguém relata a existência de poderes e milagres- sua presença bastava, pra trazer paz e luz aos corações. Já no universo mágico descrito por Yogananda no seu Autobiografia, não faltam relatos de milagres e feitos maravilhosos que aconteciam no entorno dos mestres que ele conheceu.
Isso nos leva a concluir que essas coisas podem acontecer- mas não necessariamente. Elas são como sinais de que a consciência individual está “avançando” na conscientização de sua identidade universal. Mas isso não significa que houve um marco delimitando que dali por diante, a pessoa mudou, elevou seu estado de consciência de “não-iluminado” para iluminado de forma abrupta, permanente e eterna. Quando se diz que Buda “alcançou” a iluminação é para expressar uma percepção, uma compreensão, um entendimento, um insight- repentino e intuitivo-  sobre algum problema ou questão existencial.
Assim, pode-se dizer que a Iluminação é um estado de claridade, percepção, sabedoria, bem-aventurança que tanto pode ser a causa como o efeito. Ao compreender a si mesmo- seu próprio processo de formação, manutenção e dissolução do ego- de forma direta
e objetiva o sujeito se abre para novas possibilidades e insights. E esses mesmos insights o fazem avançar em sua sabedoria e percepção, o que resulta no amadurecimento espiritual,  impulsionando, assim, a escalada evolutiva da consciência individual . Em suma, não há diferença entre a meditação e a iluminação. E quem está falando isso não sou eu. Leia a sentença abaixo de Dogen- um dos grandes reformadores do Zen-budismo:
“"Praticar o caminho diligentemente é, por si só, iluminação. Não há qualquer diferença entre prática e iluminação ou entre zazen e vida diária. Zazen não é meditação passo-a-passo".
Ora, em meditação todos nós nos tornamos momentaneamente “iluminados”. Na verdade, a meditação é uma degustação deste estado sublime e isso pode ser vivido por qualquer pessoa, a qualquer hora- desde que medite corretamente. É como um peixe que sobe momentaneamente à superfície e percebe o céu infinito acima dele. O céu está sempre ali, mesmo quando ele desce às profundezas sombrias do Oceano. Ele pode retornar de tempos em tempos para vislumbrar o espaço infinito. Assim também é na meditação: um olhar para fora do oceano da mente.
O problema é que devido a diversos fatores: cármicos, sociais, espirituais, culturais, as pessoas não se dedicam  bastante a isso. Quando digo “cármicos”, significa que dentro de nós mesmos há forças que não querem, que resistem à permanência definitiva neste estado, pois ele é devastador. É um estado que destrói o conhecido, as memórias do ego, os apegos, as imagens, os desejos . O ego fica reduzido a nada. Daí a fuga da mente. Então preferimos sentir isso apenas em alguns momentos de nossas vidas. Reservamos alguns instantes do dia, ou nos finais de semana, pra  penetrar nisso e muitas vezes de forma superficial e errada.
No fundo, nós mesmos não queremos a Iluminação. Preferimos algo que possamos manipular e tirar proveitos pessoais. Daí que, qualquer estado de bem-aventurança ou qualquer estado mental diferenciado, logo, logo se alardeia como sendo a grande “Iluminação”. É como se dissessem aos outros “ venham até a mim, agora sou uma pessoa especial, importante e espiritualmente realizada”. Lamentavelmente, alguns gurus  realmente acreditam que se autorrealizaram- é o chamado auto-engano.  Essas pessoas tem, em geral, sérios distúrbios e transtornos comportamentais. Estão numa zona intermediária entre a loucura, a sanidade e a tal  “iluminação”. Outros são espertalhões , e outros são charlatães mesmo- agem de má fé.
E a iluminação é um fenômeno permanente e estanque como em geral se acredita? Será que é algo que se alcança e fica-se lá eternamente em berço esplêndido?  Sabemos que a consciência vai e volta, sobe e desce, mergulha e volta à superfície… a profundidade do mergulho é que vai determinar a intensidade da experiência. Por isso que ninguém pode-se dizer iluminado… quando a consciência está mergulhada lá, nada se pode dizer acerca disso. E quando ela volta, voltou. Não deixou de ser, mas deixou de estar em contato com as profundezas iluminadas da própria consciência. Por isso mesmo que até seres como Jesus, Krishnamurti e outros, tem que manter constante vigilância  pois há sim o risco de queda. A subida e a descida da consciência individual ao Infinito é uma viagem arquetípica que ocorre sempre que a consciência desce à carne, ou sobe de volta à fonte. Essa mesma experiência é vivida por todos durante a meditação- mesmo que por alguns instantes. Veja o que Sri. Yukteswar disse certa vez a Yogananda sobre este assunto:
“- Se algum dia você assistir  à minha queda do estado de realização divina, por favor, prometa colocar minha cabeça em seu colo e ajudar-me a voltar ao Amado Cósmico que ambos adoramos.”
O fato é que quem diz “alcancei a Iluminação”, está na verdade, apartado dela. Esse em si é um sinal de que a consciência “voltou” do seu estado de união, para o estado de separação. E é exatamente aí que mora o perigo. Quando a consciência volta, o ego toma de conta e passa a manipular o tal “estado”  para controlar  pessoas, fazer discípulos, estabelecer-se e expandir-se.
Baseado nos argumentos acima, podemos concluir que o estado de iluminação não é algo que possa ser comunicado, nem manipulado,  não torna a pessoa um ser “especial”, não outorga privilégios, nem autoridade. Você poderá perguntar então: e como saberão que a pessoa alcançou aquele estado já que ele não pode ser comunicado?  É a própria vida da pessoa que comunica, seu ser, suas atitudes diárias, seu olhar, suas ações,  a forma como se relaciona consigo mesmo, com a vida e as pessoas ao seu redor- é isso que irá indicar ou até mesmo revelar que algo diferente aconteceu. O “iluminado” que orgulhosamente  divulga o próprio estado como quem passou num vestibular, terminou uma graduação ou alcançou o pico do Everest, está se iludindo e iludindo os outros. Na verdadeira iluminação, não há mais o sentido do “eu sou, eu alcancei, eu me tornei…” Daí a humildade natural dos verdadeiros despertos. Eles são como crianças, sem afetação ou sentido do “eu”.
Quer um exemplo? Veja o relato de Ram Gopal Muzumdar- o “Santo que Não Dorme” meditou por mais de 45 anos diariamente o dia todo, e mesmo assim não se achava digno diante de Deus. Quando  Yogananda lhe pediu a iluminação, o grande iogue respondeu de uma forma inesperada e significativa:
“- Você me pede a iluminação enquanto eu próprio cismo , insignificante como sou, e com a pouca meditação que fiz, se consegui agradar a Deus, e que merecimento poderei encontrar a Seus olhos no cômputo final.
- Senhor, não procurou Deus, com toda sinceridade, durante longo tempo?
- Não fiz outra coisa. Durante vinte anos ocupei uma gruta secreta, meditando dezoito horas diariamente. Em seguida, mudei-me para uma caverna mais inacessível e ali permaneci por vinte e cinco anos, mantendo-me em êxtase durante vinte e quatro horas todos os dias. Não precisava dormir, pois estava sempre com Deus, Meu corpo conhecia mais
Ram Gopal Muzundar
descanso, pela calma absoluta da superconsciência, do que poderia obter pela imperfeita paz do estado subconsciente ordinário. Os músculos se relaxam durante o sono; mas o coração, os pulmões e o sistema circulatório continuam a trabalhar incessantemente; não conhecem repouso. Em superconsciência, todos os órgãos internos permanecem em estado de animação suspensa, eletrificados pela energia cósmica. Por este meio, para mim, vem sendo desnecessário dormir durante anos.
- Céus, o senhor meditou tanto tempo e ainda não tem certeza do favor de Deus? - Então, que esperar para nós, pobres mortais?
- Bem, não vê, querido jovem, que Deus é a própria Eternidade? Pretender conhecê-lo em Sua plenitude, com quarenta e cinco anos de meditação, é expectativa bastante absurda. Bábají nos assegura, entretanto, que até uma pequena meditação nos salva do terrível temor à morte e aos estados pós-morte. Não fixe seu ideal de espiritualidade em pequenas montanhas, mas engaste-o na estrela da integral realização do Divino. Se praticar com firmeza e constância, atingi-lo-á.”
Este mestre vivia anonimamente em um pequeno vilarejo da Índia, em um local distante e de difícil acesso. Ele não precisou dizer para ninguém que era iluminado. Ninguém na vila sabia que morava ali um grande iogue. Mesmo assim, suas palavras e vida são fontes de inspiração e exemplo pra milhares de pessoas no mundo todo. Isso nos traz grandes lições. Uma delas- e a mais importante- é a da humildade . Nos mostra que ninguém precisa proclamar aos quatro ventos que  é um cristo, iluminado, guru ou salvador. Deus, a Vida- se encarrega disso quando realmente for necessário, útil e importante. Ou seja, quando está no plano divino a pessoa ser reconhecida, o próprio Destino se encarrega de torná-la conhecida. Não é necessário que a própria pessoa alardei isso. Ao buscador compete  apenas meditar e e se entregar- o resto vem pela providência divina.
Que cada um possa refletir sobre essas questões em seus corações e tirar suas próprias conclusões. Como sempre digo no final de meus artigos: as reflexões aqui apresentadas não se pretendem verdades absolutas, mas norteadores no caminho da sabedoria e do verdadeiro despertar espiritual.
Namastê!
Alsibar
Bibliografia: Autobiografia de um Yogue Contemporâneo- Paramahansa Yogananda- Self Realization Fellowship.




domingo, 4 de agosto de 2013

FOI GURDJIEFF UM MAGO NEGRO? Wa Gurdjieff a Black Magician?


(O artigo abaixo é do pesquisador e estudioso brasileiro Olavo de Carvalho e me foi enviado através de email. Como se trata de um assunto muito importante e uma figura bastante polêmica como Gurdjieff decidi- depois de muita hesitação e alguns “sinais”- publicá-lo. Quero deixar bem claro que nem sempre posto o que reflete minha opinião pessoal e nem quero fazer juízo de valor sobre quem não conheço. Mas é importante que todos tomem conhecimento de outras versões, opiniões e fatos relacionados aos tais mestres e gurus para que possam- por si mesmos- tirar suas próprias conclusões. O artigo é muito bem escrito e demonstra conhecimento das ciências “esotéricas” por parte do autor. Ao longo do artigo ele também cita Rajneesh (Osho) confirmando a forte influência que G. teve sobre a vida, os ensinamentos e o estilo adotado por Bhagwan. O artigo está em formato de livreto pois daria muito trabalho modificá-lo. Apesar dele citar alguns diagramas, estes não vieram na versão que recebi. Leiam, reflitam e tirem suas próprias conclusões -Alsibar.)


QUEM É GURDJIEFF?
por Olavo de Carvalho
"O diabo também tem os seus
contemplativos, como Deus tem os d'Ele."
THE CLOUD OF UNKNOWING

"No esoterismo islâmico, diz-se
que aquele que se apresenta a uma certa
'porta1, sem ter chegado a ela por uma
via normal e legítima, vê essa porta
fechar-se diante dele e é obrigado a
voltar para trás, não, entretanto, como
um simples profano, o que é doravante
impôss fvê l, mas como sãher ( feiticeiro
ou mágico que opera no domínio das
possibilidades sutis de ordem inferior ).
O último grau de hierarquia 'contra-
-iniciática1 ê ocupado pelos chamados
'santos de Sati1 ( awlTya esh-Shaytán ),
que são de certo modo o inverso dos
verdadei ros santos ( awlTya er-Rahmin ),
e que manifestam também a expressão
mais completa possível da 'espiritualidade
as avessas
RENÊ" GUÊNON









Raramente alguém menciona Gurdjieff sem acrescentar,
levantando as sobrancelhas, que se trata de uma figura
"misteriosa", "polêmica", e outras coisas do gênero.
Para nós ele não é nada disso. Quem quer que tenha
tido a oportunidade de acesso aos ensinamentos espirituais
das tradições reveladas (1) não encontra a menor dificuldade
em identificá-lo como aquilo que ele verdadeiramente é.
A atmosfera de mistério em torno do seu nome é apenas
fruto da ignorância, embora nem sempre se trate de ignorância
natural e inata, e sim de ignorância artificial e propositadamente
fomentada pelos interessados na manutenção do mistério.
§ 1.
A "doutrina"

Gurdjieff passou por muitas escolas esotéricas,
umas autênticas, outras degeneradas, sem permanecer em
nenhuma delas por tempo suficiente para alcançar qualquer
resultado espiritual apreciável ( como diz Bayazfd al-Bistãmi,
quem começa a abrir um poço aqui, depois outro ali, não encontra
nada, ao passo que aquele que cava continuamente na mesma
direção acaba por encontrar água abundante ).
No entanto, ele não estara realmente interessado
em resultados espirituais ( dos quais alguém como ele está
— e sabe que está -- excluído a priori e irremediavelmente ),
e limitou-se a colher, de cada uma, certo número de técnicas
e palavras-chave, referentes aos aspectos mais periféricos
e vistosos da doutrina, para com eles compor um amálgama
denso, opaco e obscuro, que veio a ser conhecido como a
"doutrina Gurdjieff". (2) Ela é constituída, no exterior,
de algumas iscas para atrair os curiosos e descontentes, e,
no interior, de uma série de camadas concêntricas de enigmas
e charadas progressivamente indeslindáveis, até chegar a
escuridão total. Tais enigmas são construídos com elementos
— simbólicos, doutrinais e rituais — extraídos das
tradições espirituais autênticas, mas oferecidos numa ordem
propositadamente falsa e com uma sucessão de pequenos mas
crescentes desvios, equívocos e rodeios, de modo que o
emprego das técnicas deles derivadas não possa nunca levar
aos resultados benéficos que deveria normalmente produzir
numa via espiritual tradicional. O fascínio exercido sobre
a mente dos intelectuais ocidentais pelo desafio de decifrar
o enigma Gurdjieff é praticamente irresistível, mas ele não
foi feito para ser decifrado, e sim para devorar a quem
acredite na possibilidade de decifrá-lo. (3)
- 2 -
O estudo dessas "doutrinas" e a prática desses
"métodos" leva a um estado de dúvida crescente e cada vez
mais opressivo; e à medida que as trevas se adensam na sua
mente, o estudante não raro cai na ilusão de estar-se
"aprofundando" no conhecimento, quando em verdade está
afundando na ignorância e no esquecimento. Incentivado
pela crença dominante no preconceito "cartesiano" que
concede à dúvida a primazia sobre a certeza, ele avalia
seu avanço no conhecimento pelo critério subjetivo e
individualista da sua própria dificuldade de entender as
questões, ao invés de guiar-se pelo critério tradicional
da evidência e universalidade das respostas; e, levado
também por um fundo de complexo de inferioridade que os
instrutores Gurdjieff sabem habilmente explorar, ele cai
na armadilha de avaliar, paradoxalmente, a pretensa
luminosidade da doutrina pela densidade da sombra que
ela projeta sobre a sua mente; o que vale dizer que a
sabedoria, do "mestre" é avaliada pela confusão e
imbecilidade que produz nos discípulos; e há mesmo um
certo prazer masoquista no tom de apatetada consternação
com que estes se confessam constantemente driblados pelo
"mestre" e frustrados no seu intento de entender o que
está se passando: "Mas ele é um bruxo!" dizem eles.
A ilusão de poder algum dia sair desse emaranhado e
tornar-se por sua vez um bruxo leva o estudante a permanecer
- 3 -
indefinidamente sob o fascmio de tais "ensinamentos". Sem
perceber que o "mestre" é por sua vez otário nas mãos de
outro mais maligno, e assim por diante até o cume de uma
curiosa "hierarquia espiritual às avessas"; sem dar-se
conta de que está sendo induzido em erro pelas contradições
e falsas pistas propositadamente semeadas ao longo do caminho,
e também parcialmente premido pela ambição de descobrir algo
que ninguém jamais soube ( sem reparar que isto o afasta para
sempre da universalidade do quod omnibus, quod semper,
quod ubique credita est, e o aprisiona irremediavelmente
na estreiteza subjetiva ), ele vai desenvolvendo um senso
crescente e exagerado da complexidade e dificuldade das
questões, até que as verdades mais corriqueiras e patentes
lhe pareçam sujeitas a caução, No começo, isto pode
parecer ate mesmo um amparo contra o tédio, uma arma contra
a opressão da "vida cotidiana", contra a tirania das crenças
estabelecidas do mundo burguês; mas, longe de libertar o homem,
acaba por conduzi-lo a um apalermado senso da impotência e
da impossibilidade de conhecer o que quer que seja, até mesmo
a sua identidade individual e os laços de sentimento que o
ligam às pessoas mais próximas. Embora este estranhamento
em face de quase tudo esteja nos antípodas da universalidade
tradicional, que faz o homem compreender a todos os seres
e coisas como se fossem letras ou palavras no "discurso
evidente" (4) que Deus dirige sem parar a todas as criaturas,
- 4 -
e embora esse isolamento subjetivo se assemelhe antes
à despersonalização esquizofrênica,  do que a qualquer estado
espiritual conhecido nas místicas tradicionais, o homem
que chega a tal estado apega-se com certo orgulho a seu
sentimento, e passa a encarar como incompreensivos e
profanos a todos os que não sentem como ele, a todos os que
continuam vendo as coisas com uma dose normal de evidência
e clareza. Chega um tempo em que ele sente como um dogmatismo
tirânico e intolerável a crença de que os olhos vêem, a água
molha e as galinhas botam ovos. E quando esta rebelião
contra o óbvio chega ao ponto de tornar-se uma incompatibilidade
radical contra o fato de dois mais dois serem quatro,
então ele está preparado para abandonar o estágio de
discípulo e tornar-se por sua vez um instrutor Gurdjieff.
§ 2.
Explicação do efeito
Esse efeito é produto da ruptura proposital da harmonia
entre os ritmos das diferentes faculdades cognitivas, harmonia
que as práticas tradicionais, do sufismo particularmente, se
empenham em manter e fortalecer. (5) O sufismo descreve sete
faculdades intelectuais básicas, cada qual correspondendo
simbolicamente a um planeta do sistema solar, portanto a um
determinado ciclo ou ritmo cósmico. E assim como os ciclos
- 5 -
planetários são de duração diferente ( 28 anos para Saturno,
12 para Júpiter, 28 dias para a Lua, etc. ), também as
diferentes faculdades cognitivas funcionam segundo
"velocidades" diferentes, que no entanto formam, juntas,
o padrão harmonioso do conjunto. Esta harmonia, no
macrocosmo, é possível porque entre os vários ciclos
existem certas analogias estruturais-, pelo fato de que,
grosso modo, eles se dividem em igual número de fases. Podemos
ilustrar essa analogia dizendo que a Lua percorre em 28 dias
as mesmas direções do espaço que Saturno percorre em 28 anos,
isto é, que em tempos diferentes eles passam pelos mesmos
signos do Zodíaco, de modo que estes representam a "medida"
das diferenças entre os dois ciclos, e portanto também
o parâmetro das suas semelhanças ou o seu "ponto de junção".
Tais analogias também existem entre as várias
faculdades cognitivas no psiquismo humano. No simbolismo
tradicional, o Sol corresponde a principal faculdade, que é
a inteligência pura ( enquanto Mercúrio, por exemplo,
corresponde ao pensamento discursivo, Vênus a imaginação e
memória, etc. ). E, assim como as direções do espaço, do
ponto de vista da Terra, não são demarcadas por outra coisa
senão pelo movimento aparente do Sol, assim também, segundo
o sufismo, a inteligência pura e supraformal instaura e demarca
os padrões formais, os moldes lógicos e simbólicos dentro
dos quais hão de operar as demais faculdades.
- 6 -
Deste modo, a contínua concentração da atenção
num objeto único, transcendente e em si mesmo supraformal
( Deus ), acompanhada de práticas rituais e morais destinadas
a eliminar a dispersão e demais obstáculos psíquicos, eleva
todas as faculdades em direção à inteligência pura, fazendo
com que todas as modalidades de representação formal concorram
obedientemente para refletir o supraformal; desta maneira
a imaginação, a memória, o raciocínio, etc., ao invés de
se erguerem como obstáculos ante a verdade, transformam-se
em superfícies translúcidas pelas quais a verdade pura e
supraformal apreendida pela inteligência passa como uma luz
através de um cristal; e assim todas as potências da alma
concorrem harmonicamente para a visão intelectual de Deus,
assim como no macrocosmo a harmonia do sistema solar provém
dos líames das órbitas planetárias com o eixo solar.
O diagrama l mostra a harmonização dos ritmos de
diferente extensão e igual estrutura:
DIAGRAMA l
__7__
Se, porém, ao invés de concentrarmos a inteligência
num objeto único e transcendente (6) e de disciplinarmos
as faculdades para que obedeçam à inteligência, bombardearmos
qualquer das faculdades com um excesso de estímulos e
solicitações, o resultado será que os ritmos internos se
desconectarão uns dos outros, e as faculdades não poderão mais
colaborar entre si. A vítima deste processo passa a ter
dificuldade, por exemplo, de simbolizar com a imaginação
aquilo que compreendeu com o pensamento discursivo, ou de
formular racionalmente aquilo que apreendeu pela imaginação,
ou ainda de condensar em decisões, em atos de vontade, aquilo
que compreendeu ou imaginou. (7) O diagrama I I ilustra
esquematicamente o que queremos dizer:
DIAGRAMA l l
Pequenas disritmias entre as várias faculdades são um
evento normal na vida diária, e podem ser vencidas seja pelo
esforço voluntário, seja por uma ajuda suplementar dada a
alguma das faculdades ( por exemplo, um símbolo visual pode
ajudar a imaginação e integrar um conhecimento abstrato;
- 8 -
a ingestão de um remédio homeopático pode ajudar a
imaginação a encontrar os símbolos de que necessita, um
movimento ritmado pode ajudar a condensar o pensamento
num ato de vontade, etc. ). A aquisição de qualquer
conhecimento novo requer também uma defasagem momentânea,
que é compensada em seguida por uma harmonização maior
num nível mais alto de integração. (8) A capacidade de
aprendizado pode ser muito ampliada aumentando-se a
tolerância aos estados de defasagem. Isto depende do
conhecimento doutrinal, bem como da fé e da esperança, que
sustentam o esforço nos momentos de obscuridade e
confusão passageira. O esforço maior e mais prolongado é
então recompensado por um conhecimento mais profundo ou
mais seguro. Créde ut intelligás; intellíge ut credas;
"crê, para entenderes; entende, para creres".
Mas — e aqui entra o gurdjieffianismo -- é possível
perverter inteiramente este processo, criando, de um lado,
um estado de defasagem crônica e crescente, e, de outro lado,
estimulando a vítima mediante a atração de uma pseudo-
-recompensa que se substitua ao conhecimento e a induza a
buscar sempre uma nova defasagem, uma nova dissonância, um
novo desafio, sem ter jamais chegado a vencer o anterior. (9)
A defasagem pode ser produzida, como vimos, pela
estimulação exagerada das faculdades inferiores ( isto é,
daquelas que, por si mesmas, tem baixa capacidade de integração,
- 9 -
como as sensações ou os sentimentos ), ou ainda pela
estimulação propositadamente incoerente de duas ou mais
faculdades.
Não vamos descrever aqui os processos de defasagem
artificial gerados pela escola Gurdjieff, porque eles são
bastantes conhecidos — evidentemente, sob o rótulo de
exercícios para a integração das faculdades superiores do
homem. Estudos recentes provaram que muitas seitas aberrantes
-- pura ampliação popular do gurdjieffismo -- empregam
deliberadamente o jogo da informação e contra-informação
para criar estados de confusão e dependência em seus
discípulos . Gurdjieff foi, em nosso século, o pai de todas
essas técnicas. Ao nomear-se "o arauto do bem vindouro"
( The Herald of the Coming Good ), ele mostrava estar
consciente da breve invasão do mundo pela pestilência dos
Moon, Rajneesh, etc.
Só para dar um exemplo de como a coisa funciona, pode-se
imaginar o quanto de defasagem é possível gerar quando se
ordena que alguém trace com os pés uma figura geométrica
baseada na sucessão 2x1 = 6 , 2 x 2 = 1 2 , 2 x 3 = 2 2 , a o
mesmo tempo que recita em voz alta a sequência 2 x 2 = l,
4 x 4 = 13, 5 x 5 = 28; ou quando se manda alguém derrubar
um grosso pinheiro a golpes de colherinha de café ao mesmo tempo
que decora um poema e recita interminavelmente um mantra. São
realmente exercícios Gurdjieff, e o atrativo que eles despertam
- 10 -
em muita gente reside tão-somente na expectativa que
só se cumpriria se tais exercícios não tivessem sido
concebidos especialmente para jamais chegar a um
desenlace feliz e se não fossem continuamente substituídos
por novos e mais intrigantes "desafios". A habilidade do
instrutor Gurdjieff reside em trocar esses exercícios
( que podem ser dados inclusive sob a forma de situações
vividas, sem que ninguém avise que se trata de exercícios ),
exatamente no momento em que a vítima esta a ponto de desistir
e de confessar sua derrota. Isto cria um estado de permanente
anseio sem satisfação: a ampliação da fome acaba por
constituir um ersatz (substituto) de comida. O próprio Gurdjieff dizia
que era preciso manter os discípulos "à beira do colapso
nervoso". Certa vez Gurdjieff, fazendo-se de irritado,
perguntou a seus discípulos: "Vocês pensam que eu estou
aqui para lhes ensinar a masturbaçao?" Nenhum dos presentes
foi sábio o bastante para perceber que a única resposta
verdadeira era: "Sim". O excesso masturbatório de desafios
sem proveito leva a um estado que os gregos denominavam
hybris, que significa a esterilidade a que é levado aquilo
que, pelo exagero, esgotou suas possibilidades de nascimento
harmônico e normal. A cada passo, o aluno é convidado a
avançar mais outro na escala da esterilidade. A passagem
a um grau cada vez maior de complexidade e dificuldade é
explicada então como uma ascensão na hierarquia esotérica,
e a satisfação assim dada ao orgulho do discípulo funciona
como uma compensação para a derrota sofrida pela inteligência
- 11 -
e pela vontade. O empedramento da inteligência e a
inflação orgulhosa do ego são os critérios de
"ascensão espiritual" nesta singular "escola mística".
Compreende-se então o sentimento de "aprofundamento"
que os discípulos experimentam, e também o fato de que se aleguem
detentores de enormes "segredos" ao mesmo tempo
em que vão dando mostras cada vez mais evidentes de
degenerescencia intelectual, que chegam mesmo, em casos
extremos, ao nível da estupidez. Numa curiosa inversão
dos processos tradicionais, onde o desvelamento de
mistérios leva a um estado de evidência, de plenitude da
inteligência, de transparência do real, o que acontece
com as vítimas Gurdjieff é que nelas se desenvolve, pela
opacidade crescente, um senso de amor ao segredo enquanto tal.
E que, ao invés de terem desvendado algum segredo, ao
contrário: o que era patente aos olhos de todos tornou-se
segredo para elas. (10) Como símbolo da capacidade de visão
espiritual, a águia está para os místicos assim como o
avestruz está para os gurdjieffianos.
O processo é acompanhado de um senso -- igualmente
"secreto" — de impotência e revolta ( sobretudo de revolta
contra a inteligência normal capaz de expressar-se em formas
transparentes ), e é deste sentimento obscuro, rancoroso,
soturno, que provém a impressão de intensidade emocional
- 12 -
que essas pessoas transmitem, e que não raro assusta os
espectadores, os quais caem por sua vez no trágico engano
de tomá-la como sinal de "intensa vida interior" e de
acreditar que quem pode atemorizá-los também deve ter
algo para lhes ensinar. E assim vai-se perpetuando o
engodo (11), até atingir-se o ideal da estupidez perfeita
coroada pelo grau máximo de orgulho, pretensão e arrogância.
Em suma, Gurdjieff transforma ouro em chumbo: é um
professor de esquecimento, um vidente da opacidade. Mais
que um cego guia de cegos, é um transmissor de cegueira.
§ 3
Inversão dos símbolos
Essa alquimia invertida não nos espanta, aliás,
porque não é somente nisto que ele toma as coisas às
avessas. Ele faz o mesmo com um grande número de símbolos
tradicionais. Por exemplo, nas obras escritas que
compendiam a ''doutrina" gurdjieffiana, Hussein -- nome do
neto do Profeta Mohammed ( Maomê, fundador do Islam e,
a fortiorí, do sufismo;) -- passa a ser o nome do neto de
Belzebu; Judas é apresentado como "o maior santo da
Cristandade"; e o ser humano passa a ser "um corpo que
nasce sem alma" ( só podendo adquirir uma mediante os
exercícios Gurdjieff e mediante -- é claro -- uma certa
quantia em dinheiro ), ao passo que nas doutrinas tradicionais
a alma antecede lógica e ontologicamente o corpo,
- 13 -
que não é mais que sua cristalização provisória; e
assim por diante.
Tomar as coisas as avessas é o trabalho por
excelência do "Adversário" ( ad versus = "pelo verso" ),
ou, em árabe, Shai tan, que se traduz habitualmente como
Satã — o que não quer dizer que Gurdjieff seja Satã, e
sim apenas um satanista. Prova de que ele não é o
capeta em pessoa é que seu delírio de grandeza o levou
somente a rotular-se Belzebu, ao passo que Belzebu
se proclama um segundo Deus.
Se ele toma o esquecimento como conhecimento,
é de se esperar que tome também a fraqueza como força,
e seu famoso handblezoin — corrente sutil de "energia"
com que ele fascinava e perturbava profundamente seus
discípulos -- não é na verdade senão o efeito, sensível
fisicamente, na pele, de um certo tipo de degeneração
celular provocada pela contínua quebra da harmonia orgânica.
Esta degeneração atinge todos os órgãos do corpo -- na
autópsia de Gurdjieff não se encontrou um único órgão
que não estivesse podre, numa curiosa inversão da incorruptibilidade
dos corpos de santos — e seu efeito é tão
devastador que a presença do doente provoca tremores,
calafrios e sensação de fraqueza nas pessoas presentes, sem
que estas entendam o que se passa.(12) Se tais pessoas,
ao invés de comparecerem ao encontro predispostas a
- 14 -
defrontar-se com um "mestre", estivessem avisadas
de que se tratava apenas de alguém excepcionalmente
doente, essas sensações não seriam fantasiosamente
explicadas como mostras de "poder espiritual"; na verdade,
se ha algum poder nisso, ele é do mesmo gênero daquele
que os leprosos e tuberculosos também possuem.
Esse estado não é somente uma doença, mas o
resultado de certas operações que visam precisamente a
criar uma capacidade de gerar mal estar, capacidade que
constitui a base para inúmeras prestidigitaçoes
posteriores. A "técnica", arquiconhecida e milhares de
vezes denunciada por todas as tradições, consiste
sumariamente em cometer transgressões metódicas e crescentes
a todas as leis morais, naturais e divinas ( incluindo as
leis da lógica e da gramática ), até que o indivíduo se
torne uma espécie de foco e compêndio de desequilíbrios
e carências, apto a arrastar na voragem a quantos se
aproximem, desavisados, da beira do poço. E claro que o
personagem de tais operações só se mantém de pé, depois
de um certo ponto, graças àqueles que o cercam, e que vão
servindo de contrapeso aos seus desequilíbrios ( ao contrário
dos grandes místicos, que por definição apreciam a vida
solitária, Gurdjieff jamais ficava sozinho por mais de
alguns minutos ), até que eles mesmos passem a necessitar
de contrapesos por sua vez, o que explica a voracidade
- 15 -
com que as organizações Gurdjieff aliciam e consomem
discípulos, gerando com uma rapidez espantosa multidões
de desequilibrados, ao ponto de, em certos casos, levantar
graves ameaças à ordem social ( como no caso Rajneesh ).
Daí o temor obsessivo que os gurdjieffianos sempre têm
de que os outros lhes "roubem suas energias". As ''técnicas"
fornecidas para evitar esse pretenso roubo os colocam
então numa atitude de permanente suspeição e espreita,
e as artimanhas mentais que concebem para livrar-se de
seus supostos inimigos lhes dá o ar vagamente lupino
— entre assustadiço e feroz — de quem não pode dormir
em paz. E este sobressalto permanente e neurótico,
tomado, para cúmulo de ingenuidade, como domínio de si
e vigília espiritual, é por sua vez gerador de novos e
intermináveis desequilíbrios.
O processo funciona mais ou menos como o
"moto perpétuo" descrito no capítulo I I dos Relatos de
Belzebu: baseado no princípio de que "tudo cai" ( que ele
denomina "lei de queda" ), basta, em cada nível cósmico,
"retirar as resistências de baixo" para que tudo caia
indefinidamente a um plano qualitativamente inferior.
Quer se trate de uma resistência moral, quer seja um ponto
fraco qualquer na estrutura do pensamento lógico de um
indivíduo, o gurdjieffianismo opera pela "linha de menor
resistência", que pode tornar difícil o fácil, obscuro
- 16 -
o evidente, pesado o leve, e fazer em pouco tempo de
um homem normal um doente, de um intelectual um idiota
e de um homem decente um ladrão. (13) É uma inversão
completa da escalada espiritual. Como diz whitall N. Perry,
"o mal não tem uma realidade própria, mas gruda-se como
uma sombra no lado escuro da manifestação, com a 'gravidade'
ou sucção do seu próprio vazio". (14)
Quem é Gurdjieff
Pelo que dissemos até agora, já é possível entender
que Gurdjieff -- longe do que gostariam de imaginar aqueles
que preferem explicar tudo por motivações simplórias e
materialistas, e que, aliás, na sua incredulidade aparente,
são as mais crédulas vítimas para o gurdjieffianismo —
não é um simples "charlatão" no sentido corrente e humano
do termo. Por outro lado, não sendo, obviamente, um
mestre espiritual, ele só pode cair na categoria daquilo
a que algumas tradições chamam "ascetas do mal"; são figuras
que, ao longo da história, em tempos normais, permanecem
relativamente obscuras e desconhecidas, vindo porém à plena
luz do cenário público em épocas de extrema decadência
espiritual como o fim do Império Egípcio, os últimos dias
de Roma ou este nosso atormentado fim da Era Cristã.
- 17 -
Com toda a sua anormalidade, grosseria, malícia
e estupidez, eles têm no entanto a sua função no conjunto
da economia cósmica. Seu papel, dentro da doutrina
tradicional dos ciclos cósmicos, é promover e acelerar
o fim. Retiradas as resistências tradicionais ( rituais
e legais ) que durante as épocas normais da civilizaçio
os mantinham a uma saudável distância da humanidade comum,
eles avançam pelos portais adentro, e fartam-se num
banquete sangrento com as almas dos incautos. Poucos são
aqueles que, diante dessa invasão, se lembram de buscar
abrigo junto as velhas e infalíveis defesas da religião
tradicional, defesas que, enquanto durem intactos os
ritos e preceitos, permanecem eficazes até o último
dia, e "contra elas não prevalecerão as portas do inferno".
Ao contrário: a maioria, se não se entrega como bois ao
matadouro, busca frágeis refúgios à sombra de explicações
ideológicas e evasivas pseudocientíficas de moda, que não
fazem senão facilitar ainda mais o trabalho do invasor.
Os "ascetas do mal" eqüivalem, tecnicamente
falando, aquilo que na mitologia grega — e também no
Budismo -- recebe o nome de titãs: são seres que, mediante
esforços e sofrimentos aberrantes -- voltados, nas palavras
do próprio Gurdjieff, "contra a Natureza, contra Deus" --
conseguem tornar-se o polo de vastos desequilíbrios em
torno, arrastando a muitos para a voragem da dissolução
- 18 -
total e irremediável ( para a qual, é claro, não existe
qualquer recompensa espiritual ).
Tais figuras não apenas não são nada difíceis
de identificar -- exceto para quem desconheça tudo das
doutrinas tradicionais ou já esteja entorpecido por
alguma prática de tipo Gurdjieff —, como também a
capacidade de identificá-las e evitá-las é mesmo como que
um requisito indispensável e preliminar para aqueles que
desejem seguir uma via espiritual dentro do quadro das
religiões tradicionais. Muitos santos e místicos das
grandes religiões, antes de encontrar seu caminho,
foram vítimas de titãs travestidos em mestres espirituais.
Santo Agostinho foi enganado pelos maniqueus, e o maior
homem espiritual do Islam em nosso século, o shei kh
argelino Ahmed El-'Alawy, disse mesmo que "jamais houve
um mestre espiritual a quem Deus não pusesse a prova,
mandando-lhe-aiguém que o enganasse, ostensivamente ou
pelas costas".
§ 5.
Pergunta sem Resposta
Finalmente, um aspecto interessante do gurdjieffianismo
-- e do qual os próprios gurdjieffianos, incapazes
de tirar qualquer conclusão mesmo dos indícios mais óbvios,
jamais se dão conta — é o seguinte:
- 19 -
No seu livro Relatos de Belzebu, Gurdjieff diz
que o rito central do Cristianismo, a Eucaristia, foi
um rito de "magia antropofágica" no qual Jesus teria
dado pedaços do seu corpo a comer e goladas do seu
sangue a beber. Esta "informação" é seguida de severas
críticas à Igreja Católica por ter-se "esquecido do
sentido originário do rito".
E claro que a interpretação dada por Gurdjieff
contraria a letra dos Evangelhos ( os quais falam que
Cristo partiu pão e serviu vinho, e chamou ao pão
"carne" e ao vinho "sangue" ); é claro também que ela
fere o mais elementar senso estético e rebaixa o
símbolo tradicional a um literalismo profanatório e
grotesco; e é claro também que ela é incompatível com
o simbolismo não somente cristão, mas universal, segundo
o qual o pão representa a doutrina exotérica e o vinho
os conhecimentos espirituais.
Mas o mais interessante é que Gurdjieff complementa
a crítica oferecendo uma alternativa ao "cristianismo
decadente": ele afirma que sua própria escola não é senão
"Cristianismo esotérico", isto é, o Cristianismo originário
em sua forma mais pura e inalterada.
- 20 -
Diante destes dados, temos o dever de perguntar:
os gurdjieffianos e similares, sendo, como se intitulam,
"cristãos primordiais", praticam ou não praticam o ri to
essencial do "Cristianismo primordial" , na forma em que
eles mesmos descrevem?
Se não praticam, então seu pretenso Cristianismo
esotérico é apenas teórico, sem mais interesse do que
qualquer curiosidade acadêmica, daquelas a que eles
mesmos tanto criticam.
Se praticam, então são antropófagos.
- o -
E não há mais nada a dizer sobre este assunto.
- 21 -
NOTAS
(1) Referimo-nos às grandes religiões universais,
fora de cujas místicas é impossível encontrar qualquer
"ensinamento espiritual" que valha. Em outras palavras:
a mística, de qualquer natureza, requer a filiação
preliminar a uma ortodoxia revelada -- por exemplo,
o Catolicismo, o Judaísmo, o Budismo, o Islam, em suas
formulações tradicionais -- e fora disto só é possível
tropeçar com gurdjieffs e coisas afins.

(2) Tudo o que diremos de Cjurdjieff aplica-se
igualmente a seus discípulos e continuadores, quer
aqueles que se apresentam formalmente como discípulos,
quer aos que se filiam ao "cisma" de Uspensky, quer aos
que se disseminaram pelo mundo sob outros rótulos e sem
ligação visível com o gurdjieffianismo ( Rajneesh, Oshawa,
Pak Subuh, etc. ), quer, finalmente, àqueles que, na
maior piada do século, se denominam os seus "mestres"
( Idries Shah, Ornar 'Ali Shah, etc. ). Em todos
esses casos, as técnicas e "doutrinas" variam somente
em estilo e cor local.

(3) Sobre o caráter premeditadamente insolúve]
desses enigmas e charadas, v. o Cap. l do nosso livro
O Pseudo-Sufismo no Ocidente.

(4) Corão, I I : 1-2. Sobre este tópico, v., de
um lado, Plotino, Enéada II, Tratado I I I , § 7, e, de outro,
o simbolismo das letras no sufismo, tal como exposto em
Martin Lings, A Sufi Saint qf the Twentieth Century, London,
Allen & Unwin, 1973, Chap. VI I.

(5) V. Seyyed Hossein Nasr, The Long Journey, em
Parábola, Vol. X n? 1, feb. 1985.
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(6) O termo "objeto", aqui, deve ser entendido
em modo figurado; no processo da realização espiritual,
Deus é Objeto e Sujeito ao mesmo tempo.

(7) A inconclusividade, a dificuldade extrema
de tirar conclusões das premissas mais óbvias, que é um
traço proeminente dos discípulos e egressos de tais
"ensinamentos", explica-se assim pelo fato de que o
"tempo" do raciocínio lógico se torna demasiado lento
em face da velocidade vertiginosa em que passa a operar
a memória sensível ou afetiva, sobrecarregada de informações;
entre duas premissas e uma conclusio, introduz-se uma
avalanche de recordações automáticas que dseviam o
pensamento do seu objetivo.

(8) Toda "irregularidade" parcial é assim
reabsorvida na harmonia do todo.

(9) Daí" a idealização da "busca infinita do
conhecimento", que é a inversão satânica do conhecimento
i n f i n i to.

(9) V. Fio Conway and Jim Siegelman, Snapping.
America's Epidemic of Sudden Personality Changes, Ney York,
Lipprncott, 1978.

(10) A seita de Idries e Ornar 'Ali Shah, curiosa
organização gurdjieffiana que se faz passar por uma taríqah
( escola sufi, isto é, da mística islâmica ), chega mesmo
ao requinte de usar o lema, autenticamente sufi, de que
"o segredo se protege a si mesmo". Os discípulos não percebem
que, no caso, eles protegem o segredo contra o assédio
deles mesmos, incapacitando-se assim para qualquer ensinamento
espi ri tual real.
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(11) Mas a raiva tem um dinamismo próprio, e acaba
por gerar, no lugar da inteligência, uma malícia, uma
astücia capaz de todos os sofismas: a trágica consolação
oferecida pela perda da inteligência é a capacidade de
confundir, embotar e finalmente sufocar a inteligência alheia.
(12) Rom Landau, famoso repórter, descreve estas
sensações, que experimentou durante um encontro com
Gurdjieff. Tivemos pessoalmente a ocasião nada memorável
de sentir as mesmas coisas, em encontros com um notório
gurdjieffi ano argentino, que aliás suspeitamos ser mesmo
um dos inúmeros filhos que Gurdjieff gerou em suas
discípulas no Castelo do Prieuré.
(13) A mesma organizaçio mencionada na nota k confessa
abertamente sua técnica de retirar as resistências morais
inferiores, após o que seus discípulos se tornam "delinqüentes,
ladrões e mentirosos"! ( Cf. O Sufismo no Ocidente,
trad. bras., Rio, Dervish, 1983, que ê o "manual" oficial
dessa pseudo-tá riqah. )
(14) Whitall N. Perry, Gurdjieff i n the Light of
Tradition, Bedfont, Middlesex, Perennial Books, 197Ü

( 2nd. i.mpr. , 1979 ), p. 53, n. 18.