sábado, 14 de janeiro de 2012

O SEXO E A (NOVA) ESPIRITUALIDADE - The sex and the (neo) spirituality


Qual a relação entre sexo e espiritualidade? Por que o sexo é tão poderoso? Será possível controlar o fluxo sexual? É possível libertar-se do sexo através da repressão e conflito ? Como a espiritualidade pós-moderna vê o sexo? Vamos investigar juntos este complexo e fascinante assunto? Você é nosso convidado! 
Sem sombra de dúvidas, o sexo é um dos assuntos mais polêmicos e complexos da espiritualidade . Ao longo dos séculos e, dependendo da cultura e sociedade, o sexo fora tratado de diversas maneiras. Na antiguidade clássica, era celebrado em rituais de fertilidade ao deus Baco. Havia festas com muitos vinhos, comidas -e claro- muito sexo. Na Idade Média, o sexo fora endemonizado pelas religiões dominantes, notadamente a Igreja Católica. Isso gerou muitos problemas, angústia e sofrimento devido ao conflito espírito-carne. Esta divisão gerou peças e obras artísticas que refletiam o espírito angustiado da humanidade na época. Em algumas organizações , o sexo ainda é considerado um verdadeiro veneno à elevação do espírito. Mas será assim mesmo?  Será correto condená-lo, reprimi-lo, proibi-lo? Onde está o problema com o sexo? Qual o papel do sexo dentro da concepção pós-moderna de espiritualidade ? Como podemos aproximar-nos deste assunto de uma forma correta, sábia, madura, sem erros  ilusões ?
Krishnamurti em “ A luz que não se apaga”, relata-nos o caso de um homem que fora conversar com ele sobre o desejo sexual. Este homem, no desespero de libertar-se do sofrimento causado pelo conflito, chegara ao extremo de amputar seus órgãos . O resultado não poderia ter sido pior:  o desejo não acabou, nem mesmo diminuiu- ao contrário- aumentou. E então sua vida tornou-se um verdadeiro tormento, um inferno . Pouca coisa podia ser feita. Ao homem restava resignar-se a sua situação irremediável. A que ponto o homem pode chegar em seu desespero? De quem é a culpa por séculos e séculos de condenação do sexo? Provavelmente os tais “mestres” e as tais “religiões”. 

Jesus  não condenou o sexo. Nem mesmo Buda . E mesmo que o tivesse feito, teríamos todo direito de duvidar. Afinal, ele mesmo já havia nos dado esta liberdade no sermão do “não acrediteis”. Lá, ensinou-nos a não aceitar nada, sem antes questionar, sem antes duvidar. A Verdade, dizia, tem que ser  percebida diretamente e por nossa própria experiência. Krishna no Bhagavad-Gita afirma “ Eu sou a vida sexual, que não é contrária aos princípios religiosos”. Na contemporaneidade, o livro Autobiografia de um Yogue,  cita o mestre Lahíri Mahasaya- o iogue pai de família- um dos maiores iogues de todos os tempos, ficando atrás apenas de seu mestre Babají- o iogue imortal . Lahíri nunca se separou da esposa e teve dois filhos. Através de seu exemplo,  houve uma mudança de mentalidade acerca do sexo. Antes, muitos homens abandonavam suas esposas com a desculpa da renúncia e busca espiritual. Com Lahíri- Deus ensina a humanidade que  a verdadeira renúncia é interior . Por último, o exemplo de Krishnamurti que segundo sua biógrafa Mary Lutyens, era um homem normal, com vida sexual ativa e que nunca defendera o celibato.
Mas por que será que o sexo causa tantos problemas? Por que será que ele é tão poderoso? O sexo é a energia da vida. Segundo a Psicanálise, são pulsões primitivas, orginárias   do inconsciente e que tem papel central na vida de todo indivíduo. A repressão desse impulsos, podem trazer sérios problemas psíquicos, gerando traumas e distúrbios comportamentais ou até  psicopatologias graves como, por exemplo, a pedofilia . Algumas correntes espiritualistas, consideram o sexo algo sagrado- a energia mais sagrada da vida, ela é chamada de Kundalini e estaria concentrada na base da espinha. A questão é que, estas mesmas correntes esotéricas, interpretam mal a forma de lidar com tal energia. Algumas delas, preconizam exercícios “tântricos” aos seus adeptos . Em geral, estas técnicas tem como base o controle do “sêmen” durante a cópula. Uma prática pouco aconselhada por médicos. Conheci um amigo meu que entrou para uma dessas “escolas espiritualistas” e começou  a sentir sérias dores na área genital. Ao saber de sua práticas “tântricas” o médico aconselhou-o a parar imediatamente . Segundo o médico, se ele continuasse, seu problema poderia piorar, vindo a desenvolver inclusive um câncer de próstata. 

Sabe-se que a ideia por trás de tais práticas, é "inverter o fluxo” da energia que antes ia “pra baixo e pra fora”, direcionando-o “ para dentro e pra cima”. O problema é que essa concepção decorre de uma interpretação equivocada  de alguns livros esotéricos que falam sobre a “mudança do fluxo da energia Kundalini”. É certo que o fluxo muda com o despertar. Mas isso é algo que acontece naturalmente. Além disso, a mudança de fluxo ocorre nas correntes sutis do corpo, não necessariamente em nível material e biológico. Com o despertar, a energia vital ou Kundalini, ativada, vivifica e energiza os centros espirituais ou chackras. Isso não quer dizer que a pessoa irá deixar de sentir desejos biológicos, próprios da natureza material. Todavia, mentalmente, o sábio está interiormente livre, como se diz no Bhagavad-Gita:
 “O sábio não se abala com as correntes dos desejos que são como rios que correm para o mar- mas que se mantém-se estável” – Krishna.
Sendo assim, qual seria a melhor atitude em relação ao sexo? Com certeza não é nem o controle, nem a repressão. Controlar as pulsões é mesmo que querer controlar  o fluxo de um rio, ou um vulcão. Mesmo que se tenha sucesso durante um certo tempo, logo, logo ele se romperá, causando sérios estragos. Assim também é o sexo. As consequências desse "estrago" são conhecidos principalmente nos meios religiosos, através dos casos de pedofilia , taras e escândalos diversos .
Então o que deve ser feito? O que os expoentes da nova espiritualidade ensinam sobre este assunto delicado? Será necessário mais repressão e controle? O conflito liberta o ser humano do desejo? Por certo que não. Urge então uma nova maneira de pensar e compreender tal dimensão do ser colocando-o em seu devido lugar.
Ora, o ser humano não é apenas um ser espiritual. Enquanto manifesto no corpo, ele é carne e espírito. E, sendo assim , o corpo tem suas próprias leis, necessidades e demandas .Na natureza, os animais fazem sexo não somente pra procriar- como defendem alguns religiosos. Mas também por prazer- como demonstram casos de “homossexualismo” no mundo animal. Quem nunca viu dois animais do mesmo gênero, tentando fazer sexo? Ou vivendo uma “amizade diferente’? Isso nos leva a refletir sobre o papel do sexo na natureza. O sexo nesse plano físico não seria apenas um reflexo distante ou - distorcido de algo que já ocorre em outros planos num nível superior? Ou seja, haveria, em outros planos e dimensões, outro tipo de “sexo”? Um sexo menos “ animalizado”, menos ligado aos instintos primitivos?
Adoração ao ' Shiva lingam"
Na verdade, o próprio Universo faz sexo. Na tradição Hindu Deus, representado por Shiva, faz sexo com a Criação, pois ele é a Força Procriadora Universal. O “lingam” é o símbolo fálico de Shiva,  que Fertiliza e Cria todas as coisas no universo. Ou seja, haveria sim vários “níveis” de sexo, sendo que o nível animal e primitivo- as pulsões do ID- seriam as mais “baixas”, numa escala, talvez, infinita. Desta forma , temos:
1ºo nível : sexual animal, totalmente primitivo, inconsciente e desregrado.
2º nível: a do homo sapiens inconsciente em sua complexidade tríada: corpo-mente- espírito. Some-se a isso, séculos de educação repressiva e  castradora. Tornando-o um ser neurótico e em constante conflito consigo mesmo.
3° nível- a do  homo sapiens consciente. Nesse nível, não há mais o conflito causado pelos anos de educação castradora e repressora. O homem consciente, superou o nível dos pensamentos condicionados e reativos. Por isso, alcançou a paz e estabilidade mental,  não através da repressão, mas através do autoconhecimento e da maturidade espiritual resultante da meditação.
4º nível – do quarto nível em diante, pouco ou nada se sabe. Neste nível estão seres como Babaji, Buda e Jesus. Os registros sobre  algo parecido com o que chamamos de “sexualidade” nesta elevada  consciência são raros ou inexistentes. Sabemos, no entanto, que eles vivem em constante Êxtase, Ananda ou Gozo Celestial. Algo inconcebível para a grande maioria dos comuns dos mortais.
Assim, o orgasmo, seria nas pessoas “comuns”, uma pequena e distante memória do Gozo Celestial ou “ananda” citados pelos grandes mestres iluminados. Eles vivem em eterno gozo interno pois alcançaram dentro de si aquilo que só conseguimos na cópula: a unificação dos opostos. A integração plena do Ying e Yang cósmico. Como o próprio  Bhagavad- Gita nos afirma:
“ A pessoa cuja felicidade é interna, que é ativa dentro de si, que se regozija e está iluminada dentro de si, é na realidade o místico perfeito. Ela está liberada no Supremo e no fim alcança o Supremo”
Sri Yuktéswar, discípulo de Lahíri Mahasaya e mestre de Yogananda, disse que o critério de aproximação com Deus é a “intensidade da Ananda sentida durante a meditação”. Mas, este assunto ainda é motivo de muito equívoco e ilusão. A verdadeira Ananda não pode ser manipulada, nem controlada por ninguém. Ela é a própria expressão do Espírito Divino no homem. Ela transcende todo o desejo, pensamento, ambição ou busca. Ela é gratuita, não resulta de práticas, nem de força de vontade. “ Ela vem sem ser chamada” como dizia Krishnamurti. A mente, em suas ilusões, tem capacidade de produzir uma espécie de “ananda” artificial, todavia, esta, em nada se compara àquela. A Ananda Celestial é infinita e sempre renovada. A ananda produzida pela mente é passageira e depende da intenção para ser ativada. Ora, tudo o que depende do pensamento e do desejo, é fonte de ilusão, frustração e sofrimento. A Ananda Celestial não causa dor, nem tristeza .Ela é “sempre renovada alegria” como disse Sri. Yuktéswar no Autobiografia.
Por fim, que devemos fazer então? Vivemos em sociedade e ela nos impõe certas regras de conduta, necessárias ao viver harmonicamente em comunidade. Não podemos sair fazendo sexo sem controle, nem critérios. Mas também não podemos reprimi-lo ou controlá-lo. Qual a saída? Como resolver este dilema secular?
Uma nova compreensão e percepção das coisas  e, de nós mesmos, se faz necessária. Ninguém poderá dizer-nos o que “devemos” fazer. Isso já foi feito antes, sem sucesso. O homem ao conhecer-se, haverá de compreender o sexo, aprendendo também a lidar com ele. Por compreender o poder da energia sexual, o sábio percebe todas as implicações e males causados pelo controle e, por isso, não envereda por este caminho. Nem muito menos pelo outro - da libertinagem. Por isso, é tão importante o conhecimento das energias sutis e como estas podem ser canalizadas. Resta-nos refletir: quando não há pensamento, há sexo? Qual o papel do sexo na consciência de quem se libertou da identificação com os pensamentos ? Do tempo, da busca e da continuidade?

O sexo, certamente, tem sua função e importância. O problema pode não estar no sexo em si, mas na mente que deseja sua continuidade. Ao buscar o prolongamento do prazer, o homem expõe sua nulidade, seu vazio, seu sofrimento .É como se o sexo fosse tudo em sua vida. Sem ele, não haveria nada além de tristeza e dor.  E ao buscá-lo de forma apaixonada e frenética aumenta mais sua angústia e sofrimento.  Todavia, uma mente liberta do tormento do pensamento-eu, que tem consciência do “aqui agora”, encontra paz e plenitude dentro de si.  Tal mente, saberá lidar com esta energia primal de uma forma sábia , inteligente e madura. O caminho do meio é uma boa sugestão dada por Buda.
Quando a mente , pelo autoconhecimento e sabedoria, alcança a paz o sexo haverá de ter o “seu lugar”. Se ele está presente, está! Um fato não pode ser negado, nem escondido, nem desprezado. Mas como liberar este fluxo de energia de uma forma harmoniosa? Cada um terá que encontrar  seu próprio “caminho”. Não há fórmulas mágicas, nem receitas prontas. A  própria pessoa terá que encontrar a melhor forma de se fazer isso, sem causar prejuízos ou danos nem a si nem aos outros. Mas não se deve cometer o erro de usar a MEDITAÇÃO como meio de controlar a energia sexual.  Pois quanto mais tentares controlá-la, mais poderosa ela ficará. A Meditação, ao contrário, quando bem conduzida, aumenta a energia do corpo, potencializando a energia sexual. E esta não pode ser reprimida. O certo é deixá-la fluir, sair, expressar-se da forma mais saudável e mais harmoniosa possível.
No novo milênio, a Consciência é a luz de cada um. A nova Era é a era das consciências despertas, em que cada um haverá de encontrar seu próprio caminho e sua própria luz. Tratar o sexo como algo natural, sem grilos, complicações ou exageros- é também sinal de maturidade espiritual .Que cada um encontre o melhor caminho para lidar com esta energia bela, importante e poderosa. Seja fazendo sexo com a esposa(o), namorada(o), parceira(o), ou tão somente sublimando-o. Contanto que não cause problemas ou danos nem a si, nem aos outros, sempre com muita consciência, responsabilidade e segurança.
Namastê!
Alsibar ( inspirado)

12 comentários:

  1. Obrigado, você é um grande amigo.

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  2. Sim! depois te mostro a foto da dupla bagaça!!

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  3. O equilíbrio. Nem a retenção do sêmen custe o que custar que muitos orientais pregam, tampouco o vazamento tão comum aqui no Ocidente.

    Mas o mais importante é estar presente no ato sexual.

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  4. Obrigado, amigo Bruno, por sua participação! Namastê!

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  5. Boas Alsibar
    Tem citado varias vezes a importância de nos desprendermos do Eu, EGO. Mas o sexo é um prazer que alimenta esse Eu. Sei também que devo antes de libertar-me do sexo, passar de pessoa comum para incomum, logo essa possibilidade fica muito longe. Tenho um desejo enorme de crescer. Gostava de ter ajuda nessa caminhada, como posso libertar-me do Eu? O que devo fazer já? E depois? Quais as etapas que devemos adoptar para essa libertação com equilibrio? Podia postar um texto no seu blogue sobre esse caminho, libertar o Eu?

    Obrigado por partilhar esse magnifico conhecimento comigo.

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    1. Ola Anonimo(a) de 4 de maio tudo bem?

      Você colocar o nome ou um pseudônimo para melhor comunicação? Esse artigo foi um dos primeiros que escrevi. Graças a você pude revisá-lo agora. Depois dê mais uma lida e me diga se ainda restou dúvidas, principalmente na questão do "ego". Observe que mudei a palavra "EGO" pra "pensamento-eu". Infere-se que o "EGO"- na verdade são apenas pensamentos que se autodenominaram "Eu". Em suma ele não existe. O que existem são os pensamentos em torno de uma ideia- a do "eu sou". Enfim, ao silenciar, se desindentificar, ou se distanciar dos pensamentos você perceberá que além deles há algo maior e melhor.

      Penso que tenho algumas postagens antigas sobre a Libertação do EU. Vou colocar o link abaixo. Qualquer coisa deixe sua mensagem, comentário ou dúvida.

      Obrigado pela participação.

      Até a próxima!


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  6. Ola: aí vai o Link que fala um pouco sobre o assunto que vc falou. É aqui mesmo no blog. Senão abrir, é so postar a palavra "ego" ou libertação na busca do proprio blog que você verá alguns artigos sobre o assunto. Abraços!

    http://alsibar.blogspot.com.br/2011/09/o-autoconhecimento-e-o-ego.html

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  7. Ola Alsibar, sou o anonimo de 4 de maio.
    Li o texto do link que postou, achei muito esclarecedor.

    No entanto, o meu interesse (se não for incomodo) era uma reflexão sobre o caminho para cessar o EGO, as etapas para alcançar, as consequências de seguir esse caminho (positivas e negativas), se é possível na sociedade em que vivemos em que o sistema social entorpece a liberdade de decidir.

    Grato
    rodrigo

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    1. Ola Rodrigo tudo bem?

      Amigo, sua pergunta dá uma postagem. Entendi que você quer algo mais completo e detalhado. Fique no aguardo que assim que puder farei um artigo exatamente sobre este assunto e o postarei aqui no blog.

      Grato amigo pela participação.

      Fraterabraços!

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  8. hey alsibar, blz? Uma dúvida, você cita "Krishnamurti que segundo sua biógrafa Mary Lutyens, era um homem normal, com vida sexual ativa e que nunca defendera o celibato". poderia me indicar o livro/biografia, capitulo, se possível o trecho, onde se afirma que krishnamurti tinha vida sexual ativa? ou será essa vida sexual ativa não é oque se entende convencionalmente como vida sexual ativa? sei que parece entranho meu interesse nesse aspecto da vida íntima dele, mas, mesmo assim, aguardo uma resposta. grato!

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  9. Sim, Diego vou procurar e lhe repasso. Me adiciona no Face pra conversarmos melhor. Fraterabraços.

    Alsibar

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