LIBERTANDO-SE

CRISE >MEDITAÇÃO>AUTOCONHECIMENTO>LIBERTAÇÃO


Há alguns momentos de crise que são decisivos em nossas vidas. Certas situações são tão difíceis e dolorosas que deixam marcas eternas na psiqué e no corpo das pessoas: doenças físicas e psicológicas, depressões e até mesmo tentativas de suicídio. O pior é que  certas crises estão sempre retornando - com poucas mudanças – outros cenários, novos personagens, mas o roteiro é essencialmente o mesmo. Quem nunca teve uma sensação de Dejavú ou de estar preso em um “looping” do tempo?A questão é : como libertar-se destes verdadeiros “sonhos recorrentes” em que, de repente, nos vemos presos? 
 Perceber sua própria parcela de culpa no encadeamento das crises é o começo da libertação. Fugir para as igrejas, para as drogas, para o futebol, sexo ou alguma outra mudança superficial, não impede que os fantasma das crises nos acompanhem como sombras nefastas e perseguidoras. É importante compreendermos que as mudanças superficias não arrancam suas raízes . E somente extirpando essas raízes é que podemos evitar o círculo vicioso das crises . Mas onde estão estas raízes? Como exterminá-las totalmente de forma que não voltem a brotar?

  Primeiramente, temos que admitir que essas raízes estão dentro de nós. Mas admitir isso é muito difícil. Há que haver uma busca incessante e sincera pela verdade. Não de uma "Verdade Universal", abstrata e distante-mas da verdade sobre nossas vidas, sobre as consequências de nossos atos, desejos e pensamentos. Temos que olhar para nós mesmos, assumindo a culpa  pela configuração do nosso "agora". Há que se ter coragem  para admitir que tudo o que está ocorrendo em nossas vidas é resultado de nossas próprias ilusões, falhas e percepção errônea acerca da vida.

Depois deste primeiro passo - o da "mea culpa"-  temos  que saber como arrancar de vez estas raízes. Ora, isto poderá ser feito de alguma ação proposital e deliberada? Ou terá que haver uma outra ação - a ação da "Verdade"? Esta ação não é uma "atividade", é uma "ação" que surge com o percebimento da verdade, ou realidade. Por isso que devemos ter cuidado, se não incorreremos em grave erro. Não podemos partir do ideal para a realidade. Se não for assim  a "coisa" não funciona. O ideal é o que imaginamos ser, e o real é o que realmente somos. Se imaginamos sermos seres perfeitos, ou budas, ou iluminados - nunca seremos. Os verdadeiros illuminados não vivem de imaginação, ou ideais, eles vivem da verdade, movem-se nela, tornam-se ela. E a verdade é que quando o EGO se identifica com algo maior do que ele - a saber o estado búdico, ou iluminado- o resultado é a tragédia, a crise, a frustração.
Obviamente que a semente divina existe em algum lugar dentro de nós - mas ainda é uma semente e não é através de ilusões, de sonhos ou da identificação que ela "germina".

Temos que encarar a "Verdade" sobre o que realmente somos atualmente, não sobre o que somos potencialmente.  E o que somos atualmente? Somos apenas desejos em contradição, fragmentos de egos em conflitos, pensamentos condicionados, memória, passado, medos, angústias, esperanças, ilusões, sonhos, projeções .Na verdade somos resíduos de experiências passadas. Um monte de lixo imaginando ser ouro. É verdade que embaixo desse lixo, pode haver ouro puro. Mas ele existe como uma possibilidade, uma latência.  
Enquanto não encararmos nossa própria verdade interior, a MATRIX  continuará atuando dentro e fora de nós. E por isso é tão importante a MEDITAÇÃO e o AUTOCONHECIMENTO.

Infelizmente,  este processo é geralmente  incompreendido pela maioria das pessoas, inclusive espiritualistas. Muitos não entendem que o Eu-ego não pode analisar o Eu-ego. Como poderia? A ilusão analisando outra ilusão? O resultado, só pode ser mais ilusão. A liberdade não está na autoanálise ( processo dual EGO-OBSERVADOR x EGO-OBJETO OBSERVADO). Nem mesmo na busca ansiosa pela autoconsciência. Nem mesmo no perseguir o estado de " lembrança de si". O motivo é muito simples : se há esforço, expectativa ou desejo, então o resultado será tristeza, ansiedade, ou frustração. Isso indica, claramente, que o Ego "poluiu" o processo do autoconhecimento. No verdadeiro autoconhecimento, não existe dualidade.Isso é um paradoxo difícil de se entender, mas tentarei explicar de outra forma: o estado de percepção/meditação/autoconhecimento só se realiza no não-esforço e na não-dualidade. Se alguém quer despertar tem que entrar na dimensão da não dualidade - onde não há nem o eu que busca (observador), nem o desejo (a ânsia pela observação), nem o objeto de busca (o despertar). Há simplesmente o observar, o perceber, a consciência.

Isso acontece porque atualmente tudo o que somos é  EGO. Nós  percebemos o mundo através da "cortina" do EGO.  Esse EGO é como um sonífero poderoso que nos impede de despertar para a Verdade.  Essa verdade, é o que você  é agora, não o que será no futuro. Evite as idealizações e projeções. Este é o verdadeiro  autoconhecimento. Olhe, sempre que puder, para si mesmo. Olhar é ficar consciente de seus pensamentos, desejos, emoções e atitudes na hora em que eles estão ativos ou atuando. Mas "o desejo, a expectativa" de se alcançar este estado cria um novo problema. Por isso, esqueça a continuidade. Deixe que este estado "venha" naturalmente, por si mesmo. Sempre que você  se lembrar, fique consciente.  Evite analisar, criticar ou julgar o que você vê.  Essas atitudes fortalecem o EGO . 

Se preferir, você pode reservar alguns momentos do dia  para entrar neste estado.   Mas , não se prenda a horários e rotinas. Todavia, se preferir, você pode reservar alguns momentos do dia - pela manhã ao acordar, à noite antes de dormir- para "meditar".
Nesse estado, não há ator, não há entidade, não há Ego. Há apenas uma "consciência passiva" daquilo que é percebido. Mas não se deve achar que este é um estado de passividade mórbida. Não é. Krishnamurti dizia que a meditação é um movimento. Quando se percebe  que nada podemos fazer, uma vez que, "o observador e coisa observada são um só" inicia-se, então, um movimento, além de nós. Esse "movimento" faz surgir uma energia ou, em outras palavras, põe em movimento uma energia que está além da nossa compreensão (nós enquanto ego-pensamentos).

 Somente a CONSCIÊNCIA PASSIVA faz nascer o poder que enfraquece e vence a Matrix.
               
Autor: Alsibar