quinta-feira, 29 de novembro de 2018

O QUE ACONTECEU COM VOCÊ?




( Diálogo real sobre um acontecimento pessoal)
Esse diálogo é uma descrição real de uma conversa que tive recentemente.  E exatamente por ter sido espontâneo, me pareceu adequado descrevê-lo aqui. Um amigo virtual -que será identificado apenas por “R”-de quase dez anos, puxou o assunto a respeito de algo que aconteceu comigo recentemente. Experiência, fenômeno, despertar, iluminação, ou só uma forma diferente de ser, agir e perceber o mundo e a si mesmo ? Use o termo que preferir. Mas adianto desde já que não me tornei nem mais santo, nem menos santo, nem mais perfeito, nem menos perfeito, nem mais humano, nem menos humano do que ninguém. Continuo sendo eu mesmo, mas com uma mutação no funcionamento ordinário da mente. O sentido do pensamento-eu parou. Com isso veio o findar do tempo e da dor psicológica. Prefiro ver isso mais como o despertar de uma condição especial que levou a uma mudança radical na mente e na forma  como esta lida com as questões internas e externas. 
Todo mundo tem uma especificidade, uma singularidade- alguma coisa em que se é peculiarmente bom. Uns são muito bons em matemática, outros em atividades físicas, outros em cantar, outros em falar, cozinhar, ganhar dinheiro, estudar, escrever... A minha singularidade  é a espiritualidade. Sempre me interessei por esses assuntos e considero que é uma área com a qual muito me identifico e amo. Daí anos e anos de leituras, pesquisas, estudos, meditações e vivências. 
Penso que o que aconteceu é o resultado de toda uma vida dedicada à investigação dessa área específica. Um interesse real de quem sempre buscou a Verdade com sinceridade e fé. Essa “coisa”, que não posso descrever, é detectada por alguns sinais de ordem externa e interna. Achei importante escrever sobre ela como forma de ajudar outras pessoas a encontrarem-na- já que está muito difícil encontrar alguém que seja verdadeiro e que tenha condições reais de apontar o caminho da Luz Interior no concorrido e corrompido mercado da espiritualidade humana moderna,
Tudo está nas mãos do Senhor. Não busco nem desejo nada mais. Estou aberto e disponível a ajudar outros caminhantes. Sou, no máximo uma placa luminosa numa noite escura ajudando os que estão perdidos a encontrarem seu rumo. Agradeça à placa mas siga seu caminho. Não se apegue a ela. Não a use como gaiola, nem muleta. Ela não é uma “tábua de salvação” pra você se agarrar , esperando que as águas lhe levem até seu porto seguro. Caminhe. Nade. Movimente-se por si mesmo. Assim como eu caminhei e cheguei- você também pode conseguir... Mas lembro que tudo pode ser completamente diferente daquilo que você imagina ser.
O diálogo abaixo nada mais é do que uma forma de ajudá-lo nessa sua jornada interior que deve ser feita somente por você mesmo e por ninguém mais:
R-Passou por alguma experiência ultimamente? Aconteceu alguma coisa com você?

Seria legal vc fazer um relato do que aconteceu com vc amigo. Servirá para outros buscadores.

A – É complicado falar sobre isso porque é muito pessoal e subjetivo.

R- - Em que momento? O que você fez? Ou você não fez? É tipo uma entrega? Sim...então fale o que vc puder

A-  Vou falar pra você porque é uma conversa... Já para escrever um texto sobre isso fica complicado. Um texto não pode ficar tão vago, tão fugaz e subjetivo.
Aconteceu uma mudança . Tá td diferente. Mas eu não posso tocar nisso. A mente não pode se apropriar disso. Só se manifesta quando a mente não está lá observando. Posso até tentar falar sobre coisas tangenciais. Mas sobre o que está no centro do acontecimento , não.
Mudanças gerais de percepção. Mudança nos sonhos. Desapego, silêncio e muitos insights.
R- Tá tudo mais leve?
A- Muito mais leve. Eu diria, que tá totalmente leve.
R- E quanto a situações que criam raiva eu outros sentimentos?
A-Não criam mais. Eu ainda sinto mas não afetam a paz da mente. Não perturbam-na . Se eu fosse Advaita ( linha não-dualista da filosofia Vedanta) eu diria: nada atinge aquela presença  (risos)
R- Que mais?
A-Amor, compaixão, energia, intuição mais desenvolvida, desapego das coisas...
R- O que vc diz sobre encontrar a Fonte dos pensamentos e a investigação?
A- Bobagem.
R-Ué?...  Li um relato seu sobre seu vislumbre . O que me chamou atenção foi que você usa as palavras humildade e entrega
A-Isso.
R-I sso foi fundamental?
A- Muito. Entregar tudo é um ato de humildade. Interiormente falando.
R- Você diz que não tem a ver com anos de meditação
A-Isso. Não tem.
R- Mas em algum momento você fez algo que desencadeou isso.
A- Sim, agradeci a Deus e depois abandonei tudo.
R-Abandonou como? Através de oração? Entregou tudo ao Pai?
A-Deixei de ficar tentando como eu sempre fazia : tentando ficar atento. Tentando ficar consciente. Essas coisas.
R-Parece uma parada total. Stop.
A- Isso mesmo
R- Para isso há uma renuncia de sua parte. Entregar nas mãos de Deus. Você deve ter entregado humildemente o seu coração a Deus e Ele fez o trabalho. Isso é muito bonito irmão. Ramana ensinava 2 caminhos :Vichara e a rendição a Deus .Que maravilha!Então quando estamos tentando fazer na verdade estamos bloqueando a ação de Deus? Você  vê isso?
A- Isso. Exatamente assim...Penso q é ação da graça . Você mesmo não pode fazer nada de forma direta...A única coisa que você pode "fazer" é deixar de fazer. Deixar de pelejar... De querer estar no controle...Porque até mesmo a observação, se tiver um observador, é ainda o ego no controle. Na verdadeira observação não há consciência da própria observação. Talvez seja difícil de entender mas é isso mesmo. Até quando tentamos ficar conscientes... Ficar presentes ou  buscamos a tal "matriz" do pensamento... Ainda é você ( o ego) agindo. E é exatamente esse agir... Que é o obstáculo.
Por exemplo : quando você foca a atenção no presente ... É uma ação do ego ainda. Sutil mas é. Eu também não acredito que a Vichara funcione. Porque há alguém ainda ali se auto questionando... E esperando uma resposta... Ou talvez... Esperando alcançar um estado de consciência... Se você largar tudo de uma vez o que resta? Nada. É o fim. É a extinção do Ego-ator... Ego-buscador... Ego-dor... Então... O que sobra?
Um silêncio... Mas que nem silêncio é porque não pode ser nomeado. É algo que a mente-pensamento não alcança . Não entende .Não toca . Não consegue ver. Descrever. Nem explicar.
R-E quanto aos pensamentos que surgem? Diminuíram?
A- Alguns continuam. Mas passam muito rápido. Raramente os percebo. Mas há sempre um sentido na mente de presença desse algo. E que os pensamentos não  conseguem alcançá-lo, nem abalá-lo, nem atingi-lo. Agora quando estou raciocinando de forma proposital... Ponderando, refletindo  ou racionalizando  sobre algo...Então eles aparecem como se eu estivesse falando mentalmente. Mas depois...Volta aquele estado.
O silêncio está sempre lá... Mas raramente o percebo diretamente... O que há é uma percepção indireta. Sabe, quando você vê algo  sem olhar diretamente pra esse algo? Eu "percebo" mas não foco minha atenção lá. Em geral minha mente fica num estado de total liberdade, como se eu não a tivesse mais. Sem barreiras. Sem limites, nem fronteiras.
Como se fosse uma bolha no mar... Cujas ondas não entram nem movem. Uma bolha estável. Tudo se movendo ao meu redor como ondas.Os acontecimentos ,os problemas, stress, bagunça, barulho, caos...E a mente intocável. Inabalável. Inatingível.
Os sonhos são um capítulo à parte. Parecem muito reais e sempre transmitindo paz e luz. E pouquíssimo sono à noite. Acordo de madrugada sem sono mas o corpo está  com as energias totalmente restauradas. Sem cansaço mental, só físico.
R-Caramba cara... nunca vi isso.
A-Geralmente fico quieto... E fico num estado de sono... Mas acordado. O corpo totalmente relaxado. Mas a consciência desperta. Já durante o dia...
R-Isso . Isso...então é verdade... Ramana falava de estar na vigília mas dormindo...incrível.
A- ...Já durante o dia, eu estou tão relaxado que chego a roncar. Me peguei roncando várias vezes. Outras pessoas também perceberam e me chamaram a atenção para isso porque eu não percebia. Eu resolvi checar isso. E vi que era verdade. E o curioso... Algumas vezes não estou sentado descansando. Estou fazendo alguma coisa, por exemplo, lavando os pratos, cortando uma laranja. Outras vezes estou sentado : no computador, comendo, tomando café... De repente escuto meu ronco. Levei um susto na primeira vez que percebi isso.
R-Nossa!!! Você chegou lá mesmo.
A- Algumas pessoas ao meu redor estão admiradas com a minha calma. Mas é que fico sentindo uma sensação boa, de paz e total liberdade.
R- Confesso q até eu estou admirado com tudo isso. Eu queria que você falasse desta auto entrega e rendição.
A- Sim. Você simplesmente para de querer qualquer coisa, ou melhor, de desejar qualquer coisa. Incluindo o tal “despertar”, a iluminação, Deus...Onde quer que você esteja está feliz. Em qualquer situação. Você se pega cantando. Sorrindo. Vem ondas de alegria. Mas não sem motivos é algo que flui independente de você. E nem sempre você percebe. Você simplesmente se deixa levar. Desiste de lutar. De buscar. De fazer. De querer. De desejar.
R- Mas isso parece não ser uma ação sua
A-Não é. Não é uma ação minha
R- Algo intervém.
A- Isso. Não há mais nenhum tipo de ansiedade em relação a fazer alguma coisa. Onde quer que eu esteja, me sinto bem. Completo. Satisfeito. Feliz e em paz.
R-Você falou que em algum momento você fez a rendição. De que forma?
A-Usei esse termo pra me referir à desistência de tudo. Rendição a esse silêncio. A essa “coisa”. Não é um termo muito exato. Rendição porque desisti de querer, de buscar, de desejar, de tentar, de fazer.. Não é  uma rendição a algo tangível, nem a uma ideia. Eu me rendi... Ou seja : desisti de tudo que eu achava que era certo e verdadeiro. E que era a base, a raiz do meu fazer. E que criava o  "fazedor", o ator, o experimentador... O tempo, a dor... O ego enfim.
R-Parece que houve a morte do ego em você. Erase the ego.
A-Isso . Pelo menos desse ego-pensamento centrado na memória
R- Mas não foi uma atividade sua. Interessante isso tudo. Fico muito feliz amigo pela vitória.
A- Não foi. Nem poderia ser.
R- Deus te abençoe! 
A- Esse relato tá servindo pra mim também como uma forma de entender um pouco mais sobre isso.
R- Mais alguma coisa?
A-Outras coisas que percebi: aumento da fé . Mas não uma fé intelectual. É como se eu soubesse com certeza que Deus está no comando de tudo. Mas não tenho consciência da certeza. Apenas sei que é assim. Aumento da intuição e muitos insights. Além do aumento da capacidade de "penetração" em assuntos de ordem espiritual ou existencial. Às vezes falo coisas que nem sei de onde vem. Coisas que nunca pensei antes. Mas que vem na hora da conversa, do diálogo. Acho que era o que JK chamava de inteligência criadora . Penso que é só. ( risos)
Ahhh... Lembrei de outra coisa. Desapego do corpo e diminuição dos desejos. Tenho que me concentrar bastante pra me “trazer” de volta... Pro corpo. Essa parte tá sendo muito delicada.
R- Uma coisa que já me falaram é que JK não era realizado... ele tinha percepções...
A-JK sempre foi uma polêmica. Desde que nasceu. Nunca será uma unanimidade porque ele é um ser humano real, não uma imagem idealizada. Os conservadores nunca o aceitarão. Mas isso acontece  porque idealizamos os iluminados como se fossem perfeitos, sem erros, sem máculas e infalíveis. Mas não são. Nenhum foi. Só os mitos e as imagens são perfeitas porque não são humanos. Até Jesus Cristo teve seus momentos de fraqueza .Por isso que a sociedade da época resistiu tanto em aceita-lo. Por que ele não parecia um ser humano "perfeito" como, em geral, idealizamos. Jesus bebia vinho. Adorava festas e banquetes. Era amigo dos ricos e prostitutas. Vestia roupas boas. Tinha raiva, tristeza, teve medo e desânimo. Ele era muito “humano” pra ser o Messias que eles esperavam- isso para os padrões das pessoas daquela época.
Falam coisas parecidas sobre JK. Os conservadores querem colocar os iluminados em um molde pré-fabricado por eles. Impossível. Um iluminado é um ser livre... Não tem que se encaixar em padrão nenhum
Segundo dia:
R-“If that mind-free consciousness, which is at the meeting point of deep sleep and waking, somehow becomes continuous, then the state that then dawns is declared by sages to be the state of deliverance.”- Maharshi’s Gospel
( Se aquela consciência livre-da-mente, que está no ponto de encontro entre o sono profundo e a vigília, de alguma forma se torna contínua, então o estado que está nascendo é declarado pelos sábios como sendo o estado de libertação) - Evangelho de Ramana
A-Very interesting. ( Muito interessante)
R- Isso que você experimenta é o que os sábios também experimentam. Mesmo acordado na vigília está dormindo. E como é a sensação de estar dormindo então?
A- Muito boa, maravilhosa até. É um sono muito profundo e restaurador. Talvez, por isso, o corpo não precise dormir tanto.
R-Nossa! A gente lê uma porrada de livros, faz isso e aquilo e a coisa é diferente.
A- Isso.
R-E quanto aos pensamentos do passado que surgem?
A- Não os vejo.
R-Não?
A- Não. Ou quando aparecem... é como se não tivessem força sobre mim... fossem muito fracos, sem força nenhuma... logo esvanecem.
R-Incrível mesmo amigo. Me diz uma coisa para terminar, e aquela história de que não existem os outros, só existe você?
A- Nem os outros, nem você existe.
R- Como assim?
A- Se ainda existe o “você”, então ainda há dualidade. Você perde o sentido da separação. Psicologicamente falando, é claro.
R- Isso é o máximo!
A- Fisicamente há separação, óbvio. Você tem um corpo. Precisa cuidar dele. Mas internamente você não tem mais esse sentido.
R- Disseram que a consciência cria o corpo, tipo uma projeção.
A- Isso são conjecturas. Pode ser , pode não ser...Tá mais pra ser verdade isso. Mas não faz diferença saber sobre isso... Esses tipos de questões passam a não ter muita importância.
R- Importa o que os outros digam sobre seu novo estado? Existe uma certeza absoluta em você sobre isso?
A- Não. Nenhuma certeza. Muito menos absoluta... Se houvesse certeza seria da mente. Não posso ter certeza acerca disso. Não sinto certeza, nem dúvida. Algo aconteceu que não posso, não devo, nem tenho como dissecar isso com a mente- por que está fora do alcance dela.
R- Obrigado pela conversa então!
A- Disponha amigo!
( Transcrição feita por Alsibar)

quarta-feira, 28 de novembro de 2018



O lado sombrio de Krishnamurti
By Helen Tworkov


   Krishnamurti e Rosalind

Jiddu Krishnamurti desconfiava de todas as religiões e denunciou a convenção Oriental de endeusamento dos mestres espirituais vivos. Mas quando ele morreu em Ojai, Califórnia, em 1986, com a idade de 91, ele ajudou — talvez mais do que qualquer um neste século — a introduzir os ensinamentos orientais sobre a natureza da mente para o Ocidente.

Em “Vidas na Sombra com J. Krishnamurti (Londres: Bloomsbury Press, 1991), os sujeitos principais, diminuídos por esta figura mítica, são os pais da autora, os americanos Rosalind e Rajagopal, compatriota e sócio dedicado de Krishnamurti ; Mas o personagem mais convincente é o lado sombrio do próprio Krishnamurti . Enquanto Radha Rajagopal Sloss levanta perguntas inquietantes, seu livro continua a ser uma alternativa refrescante para os muitos retratos hagiográficas oferecido pelos devotos de Krishnamurti.

Com delicadeza, detalhe e, às vezes, uma atenção minuciosa ao fair-play (jogo-limpo), Radha Sloss aborda a confusão que surge quando a percepção espiritual é apresentada e/ou percebida em contradição com a vida diária.  A Mãe de Radha Sloss foi amante clandestina de Krishnamurti ao longo de  vinte e cinco anos, e a lenta dissolução desse romance foi seguida por uma série de batalhas legais dolorosas em relação a dinheiro e propriedade iniciada pela Fundação Krishnamurti contra o pai de Radha Sloss, Rajagopal.

Depois de administrar as necessidades de Krishnamurti por mais de quarenta anos, bem como supervisionar a edição e publicação de sua obra, Rajagopal foi largado pelo círculo interno e acusado por Krishnamurti de má administração de dinheiro. A rejeição de Krishnamurti a Rajagopal foi tomada como genuína por seus partidários mais próximos, mas a autora retrata , de modo convincente, seu pai como vítima de uma vingança pessoal, alimentada por paixões emocionais.
       Krishnamurti com Rosalindae Radha, Califórnia 1934
.
Mantendo muito do seu afeto de infância por Krishnamurti, que era um pai mais ativo do que seu pai biológico, a mais pungente angústia em Lives in the Shadow with  Krishnamurti permeia a defesa do pai da autora. Ainda o grande drama da vida de Krishnamurti foi exposto muito antes de Radha Rajagopal Sloss nascer.

Quando tinha oito anos de idade, Krishnamurti, uma criança frágil e sonhadora, cheia de piolhos e boca aberta, foi descoberta numa praia no sul da Índia e proclamada pelos líderes da Sociedade Teosófica para ser o próximo instrutor do mundo . Com exigentes expectativas, os teosofistas iniciaram a “ Vinda do Messias" dos mundo espirituais com os quais eles alegaram ter contato direto. Além disso, eles apresentaram-lhe a informalidade artificial da sociedade internacional. Mas com a idade de vinte e nove anos, Krishnamurti se rebelou.

Recusando a função de ser o “escolhido”, ele alegou que a verdade não poderia ser alcançada por meio de um instrutor e que a iluminação oferecida por todos os sistemas de crença são igualmente e inerentemente inúteis. Ajudar os outros a encontrar seu caminho em uma “ terra sem caminhos” tornou-se a missão declarada de Krishnamurti para as próximas sete décadas.

Durante esse tempo, ele comunicou sua mensagem em uma linguagem instigante  e provocou questionamentos sobre a natureza humana e da mente que eram tão frescos e atraentes que a autenticidade de sua iluminação foi afirmada por centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo. Seus livros são impressos em mais de 40 idiomas, e dos cinquenta títulos disponíveis em inglês, mais de trinta e cinco venderam mais de 100.000 cópias cada. No entanto, em um cenário que se tornou demasiado familiar para as comunidades budistas americanas, Radha Rajagopal Sloss nos deixa em conflito para chegar a uma conclusão em relação à vida dos nossos guias espirituais e também lutando com nosso investimento pessoal tanto na criação quanto na destruição de suas dimensões míticas.

A entrevista

                                                                                  Radha Rajagopal Sloss. Cortesia de W.G. Harris.



Esta entrevista foi conduzida para o Tricycle por Helen Tworkov.

Triciclo: Algumas pessoas disseram que seu relato de um caso de amor de vinte e cinco anos entre sua mãe e Krishnamurti — incluindo três abortos  — não pode ser fundamentada, que você não tem provas e que ninguém pode confirmar a sua história.
Radha Rajagopal Sloss: Eu fui uma testemunha ocular. Quando comecei este livro, eu tinha planejado publicar cartas de Krishna para minha mãe, que eu tenho e que corroboram o que digo. Mas como você deve saber, as leis de direitos autorais foram alteradas. Cartas publicadas agora precisam o consentimento do remetente ou do património literário dessa pessoa. Eu não consegui obter permissão para publicar as cartas; mesmo se eu doá-los a uma biblioteca, eles estarão disponíveis para pesquisa, mas não para publicação.

Triciclo:  Eu ouvi pela primeira vez sobre o manuscrito de um editor da Knopf que não achou a história plausível, convencido de que o celibato de Krishnamurti além de qualquer dúvida. E então, eu mencionei o manuscrito para um professor de filosofia muito racional, que disse: " eu conheci Krishnamurti. Eu garanto que esta história não pode ser verdade." Isto é o tipo de resposta típica que você recebeu?

Radha Rajagopal Sloss: Até agora só ouvi de pessoas que queriam agradecer-me afirmando coisas sobre Krishnamurti que eles tinham suspeitado desde o início. Ouvi de segunda e terceira-mão sobre pessoas que não acreditam em mim ou se sentiram ofendidas  porque eu destruí o mito, mas as pessoas que eu sei que são críticas não vão ler o livro. Eles não querem.

Triciclo: Não querem  que o mito seja destruído?

Radha Rajagopal Sloss: É muito importante para eles.

Triciclo: o que está acontecendo com a publicação americana de seu livro?

Radha Rajagopal Sloss: Bloomsbury, a imprensa inglesa, estava em negociação com uma imprensa nos Estados Unidos, que tinha considerado publicá-lo lá, mas parece que alguém disse-lhes que o livro era fortemente tendencioso e decidiram não publicá-lo depois de tudo. Tenho certeza que há mais do que isso, mas não sei o que.

Triciclo: Seu livro levanta questões paralelas dos budistas americanos, tais como a necessidade de questionar a autoridade. Naturalmente, isto vem após algumas décadas em que ajudamos ativamente a construir muitos pedestais que estamos agora a tentar derrubar.

Radha Rajagopal Sloss: Isso é parte da história. Quando Krishna estava no seu melhor, na minha opinião, ele não queria seguidores. Ele avisou ao povo, "não sigam nem uma autoridade. Não me siga."

Triciclo: Uma das muitas ironias sobre Krishnamurti é que essa própria rejeição muito o tem definido como autêntico e absolutamente confiável.

Radha Rajagopal Sloss: Bem, isso era quando ele era muito jovem. Você sabe que ele cresceu na Índia, onde havia maravilhosos sábios que viveram vidas muito simples e não precisam de roupas extravagantes, passagens aéreas de primeira classe, carros e tudo isso. Em algum momento, Krishna queria isso. Ele não estava disposto a abrir mão disso. Portanto, ele não poderia dispensar seguidores. Ou apoiadores. Tinha que ter pessoas com muito dinheiro para apoiá-lo, suas viagens, seu séquito, suas escolas. E essas pessoas precisavam acreditar profundamente em sua imagem.

Triciclo: Seu pai acreditava nesta imagem?

Radha Rajagopal Sloss: Meu pai sentia que as palavras que Krishna falava eram muito importantes, não sua imagem. Ele fez essa distinção.

Triciclo: , Parecia que seu pai foi pego no mesmo dilema que muitos outros. Tendo investido tanto da sua própria vida em Krishnamurti, ele sentiu que,  ao proteger Krishnamurti ele estava protegendo também a si mesmo .

Radha Rajagopal Sloss: Eu não consigo explicar totalmente meu pai ; Acho que vejo Krishna mais claramente . Meu pai me disse que mesmo antes de eu nascer ele começou a ver que, de fato, não houve aqui nenhum professor do mundo, mas que por algum estranho milagre  Krishna disse coisas que eram muito boas. E então meu pai sentiu que não importasse quais eram seus sentimentos pessoais, ele havia feito um compromisso para cuidar de Krishnamurti. Ele ainda manteve alguns aspectos do seu passado Hindu. Seu compromisso era em prol de um propósito maior do que o próprio ou Krishna. Ele cuidou dele de uma forma muito pessoal, ou seja, em termos de sua saúde física, abrigo, comida, dinheiro.

Não sei o que ele pensava sobre todas as implicações. Ele nunca falava sobre seus pensamentos particulares naqueles dias. Ele ficava lá fazendo seu trabalho , e então tudo se desmoronou. Os processos judiciais começaram, e as pessoas se viraram contra ele. Ele percebeu que Krishna estava por trás de tudo isso, mas a essa altura, já era tarde demais para ele ir embora. 


Triciclo: Qual era a intenção por trás do mito do celibato?

Radha Rajagopal Sloss: Só podemos especular, porque isso nunca foi discutido. Posso estar enganada, mas muitos de seus seguidores eram  homens e mulheres ricos, mas em sua maioria mulheres, com fortes ligações emocionais com ele. E elas poderiam tolerar o fato de que ele nunca iria responder a estas ligações na medida em que entendia-se que ele não ia corresponder as de ninguém. Krishnamurti certamente  estava ciente desta situação. Se estava ou não , eu não sei. Ele era ambivalente em muitas coisas.

Por anos ele falou sobre o amor verdadeiro não ser possessivo, nem apegado a qualquer indivíduo, que a melhor maneira de ser era não precisar de nenhum ser humano em particular ou  família, que amava em geral — por assim dizer. Então em algum momento, seria uma contradição admitir que realmente ele tinha se apaixonado por uma pessoa por vários anos.

Triciclo: Como um caso de amor que durou vinte e cinco anos pode ser mantido em segredo?

Radha Rajagopal Sloss: Olhe a resposta do editor e o filósofo. Olhe para a negação. Mas não foi o caso amoroso que foi tão perturbador; foi a mentira.

Triciclo: Isto me parece familiar. Dentro das comunidades budistas que passaram pela exposição do comportamento sexual clandestina por parte de um instrutor, os sentimentos de traição tendem a centrar-se na duplicidade e hipocrisia.

Radha Rajagopal Sloss: Roshi Baker telefonou me outro dia. Ele pensou que meu livro poderia contribuir para as investigações da relação professor-aluno neste país.

Triciclo: Bem, ele saberia.

Radha Rajagopal Sloss: Mas a diferença é que enquanto Richard Baker foi o roshi e abade, professor e sumo sacerdote do centro Zen de San Francisco, Krishnamurti nem sequer reconhecia que ele era um professor.

Triciclo: Assim, nem ele assumia, nem negava a que a ética de um professor pertencia a ele?

Radha Rajagopal Sloss: Ele não gostava de rótulos, pois ele recusou a aplicá-las a si mesmo.

Triciclo: Suas descrições sugerem que ele era muito auto-consciente sobre cultivar uma imagem que garantiria seguidores.

Radha Rajagopal Sloss: Esta foi a sua dicotomia . Uma vez, ouvi um tibetano rinpoche falar sobre quão cuidadoso um professor tem que ser em assumir a responsabilidade por seus alunos. Uma vez que você aceitou um estudante você estava totalmente responsável e comprometido para com a vida daquele aluno. Mesmo se o estudante for embora, ele ainda tem o compromisso.

Até onde eu sei, Krishna nunca estabeleceu esse tipo de relação com ninguém. Ele era mais como um conselheiro da bolsa de valores . "Estas ações são boas . Elas podem cair, mas eu acho que elas são boas. Mas é por sua conta e risco." Ele nunca queria assumir a responsabilidade  por nada , nem por ninguém. Que o distingue de outros instrutores, mas isso não o absolve do problema da mentira e hipocrisia.

Triciclo: Sua mentira e hipocrisia prejudica seus ensinamentos?

Radha Rajagopal Sloss: Eu não sinto que isso invalide muito do que ele tinha a dizer. Porque uma pessoa mente sobre certas coisas, isso não significa que ele não temha verdades para dizer. Cabe a nós discernir o que fazer com isso por nós mesmos. De alguma maneira, conhecer este lado de Krishnamurti — seu relacionamento com a minha mãe — dá veracidade a certas coisas que não estavam lá antes.

Triciclo: Eu me pergunto se os discípulos de Krishnamurti concordaria com você. Afinal, ele não apenas falou. Ele apresentou-se  a si mesmo como um homem que transcendeu, como ele dizia, "a repetição de memória". Ele já não era, em teoria, escravizado pelos hábitos do desejo. Ele era a prova viva de que esta tarefa mais difícil era atingível. Alguma vez ele promoveu o celibato?

Radha Rajagopal Sloss:  Eu soube recentemente  através de algumas pessoas que tiveram extensas entrevistas com ele durante os anos 40 que ele  defendia fortemente o celibato para eles, dizendo que a sexualidade poderia ser perigosa para o muito delicado processo de iluminação (talvez ele não tenha usado essa palavra).  Agora, essas pessoas estão  muito chateadas ao descobrir o que estava acontecendo simultaneamente em sua vida pessoal. Eles sentem que eles foram chamados a construir  uma falsa premissa. Mais tarde, parece que ele mudou sua posição.

Triciclo: No que se refere as atividades sexuais de Krishnamurti, você parece determinada a ser justa, prudente em seu próprio julgamento. Mas quando se trata da assim chamada experiência de iluminação  de Krishnamurti, você soa bastante cínica, determinada a desacreditar. Todas as biografias de Krishnamurti (de Mary Lutyen, Pupul Jayakar, etc.) incluem descrições bem documentadas do "processo" — ataques físicos ou ataques acompanhados de febre e calafrios e dores de cabeça.

Esses episódios foram aceitos por muitas pessoas como experiências autênticas de Iluminação . E  você  sugere , ainda, que essas experiências podem ter sido manipuladas por parte de Krishnamurti para induzir as mulheres a cuidar dele e que elas são o resultado de necessidades maternais não resolvidas durante a infância. Você insiste em reduzir esses episódios  a fenômenos  psicológicos apenas.

           Krishnamurti e Rosalind em 1935.



Radha Rajagopal Sloss: Eu não insisto. É minha forma de vê-lo. Todo o mundo deve escolher sua própria explicação. Da minha experiência e o que eu testemunhei, isso faz o maior sentido para mim, isso é tudo. Posso ser uma pessoa muito cética, mas o próprio Krishna me fez assim. Acreditar nas experiências de  "Iluminação" de outras pessoas  foi considerado irrelevante por ele. Portanto, mesmo que a dele tivesse sido genuína, usando seu próprio raciocínio, isto não deveria ser usado para elevar seu status espiritual.

Triciclo: Parece que , ao esvaziar os mitos sobre Krishnamurti , você precisava invalidar as expressões mais tangíveis de sua iluminação.

Radha Rajagopal Sloss: Não costumo pensar em algumas pessoas como sendo superioras a outras. Acho que todos nós temos caminhos diferentes. E eu não tento colocar um valor sobre se é melhor ser um professor de literatura ou um professor de matemática ou um mestre espiritual ou um conselheiro no mercado acionário. Estes são apenas diferentes caminhos, que alguém pode tomar. Sinto-me um pouco céptica em relação às, assim chamadas, pessoas espiritualmente avançadas ou iluminadas, em geral, ou talvez apenas cautelosa.

Triciclo: Mas esses Episódios de Krishnamurti  são comparáveis a outras experiências bem documentadas, por exemplo, de Irina Tweedie e de Madame Blavatsky.

Radha Rajagopal Sloss: Isso é bem verdade. As descrições de Madame Blavatsky foram bem documentadas, e Krishnamurti foi criado sob esses relatos. Muitas coisas podem ser simuladas. Eu não disse que ele fez isso conscientemente — bem, acho que sou um pouco cética.

Triciclo: e sua mãe?

Radha Rajagopal Sloss: Minha mãe realmente tem uma visão diferente de Krishnamurti. Ela vê uma divisão mais completa e acredita que uma parte não sabia o que o outro estava fazendo. Embora ela tivesse apenas dezenove anos quando ela cuidou dele durante os primeiros episódios, ela tinha alguns questionamentos. Aquela pequena cena onde ele está acariciando seus seios no meio de um de seus ataques sugeriu a ela que  algo não estava batendo. E o tempo, a maneira que as convulsões sempre ocorreram com mulheres ao seu redor— porque elas nunca ocorriam em circunstâncias diferentes?

Triciclo: Quanto da escrita  deste livro foi um exorcismo pessoal para você?

Radha Rajagopal Sloss: Não tanto quanto pode parecer. Veja, eu nunca passei pelo  processo de choque como os outros passaram, porque as coisas sobre as quais eu escrevi  eram parte da minha vida desde que eu era uma criança. Foi o desdobramento gradual do personagem que foi se tornando cada vez mais clara.

Triciclo: , Mas você também queria defender seu pai.

Radha Rajagopal Sloss: Se Krishnamurti acabou  se tornando uma figura importante, deveria existir um registro equilibrado. E sim, é verdade, que eu acho que por minha própria causa e por meu pai, eu queria  as coisas mais bem explicadas do que têm sido em outras crônicas. Então, também, a verdade sobre uma figura como esta pode criar uma perspectiva melhor para as pessoas que estão seriamente interessadas em suas ideias.

Triciclo: Você descreveu um círculo encantado ao redor de Krishnamurti, composto por intelectuais internacionais e aristocratas que formavam uma espécie de  alta classe  espiritual. Será que estas pessoas teriam aprendido alguma coisa de alguém que olhava, agia, vestia, falava, de uma forma tão vulgar? Será que eles teiam prestado atenção a qualquer pessoa  um pouco menos carismática?

Radha Rajagopal Sloss: Você quer dizer para aprender  sobre nível espiritual?

Triciclo: Sim. Nas comunidades budistas americanos temos visto  equívoco da confusão da junção de carisma com sabedoria, várias vezes e novamente. No caso de Krishnamurti, tudo sobre ele, incluindo seu círculo, tornou-se extra-ordinário.

Radha Rajagopal Sloss: Bem, o que  eles aprenderam de verdade? Qual a profundidade da mudança pessoal  a que cada pessoa se submeteu? Ninguém  pode dar uma resposta geral. É completamente individual.

Triciclo: No final da sua história, há desordem, desarmonia e confusão. Mesmo no início, além da duplicidade,o que é muito problemático, há muitos exemplos em que Krishnamurti é simplesmente retratado  como um cara não muito legal

Radha Rajagopal Sloss: E , assim, o que acontecia ao redor dele também não era muito bom .

Triciclo: Então onde isso nos deixa?

Radha Rajagopal Sloss: temos diferentes formas de aprendizagem. Meu caminho é ver uma pessoa em ação, em uma situação específica. A vida é uma série de problemas, e é uma questão de, em uma base diária, de como nós lidamos com ela. Às vezes você chega até uma pessoa que lida extraordinariamente bem. Recentemente, veio um Tibetano rinpoche nos visitar, e vi-o aprender a nadar pela primeira vez. Ele foi até o final da piscina e mergulhou.

Crescendo com Krishna, eu vi um monte de coisinhas estranhas que ele fez em sua vida diária, que me ensinou mais do que ouvir seu ensino formal, e conheço pelo menos três ou quatro pessoas que ouviram uma frase de Krishna e receberam-na de uma forma que iniciaram um caminho que mudou suas vidas. Mas essas pessoas não eram particularmente próximas a ele. As pessoas que tiveram mais chance de se machucar foram aquelas  mais próximas a ele.

Triciclo: Gurdjieff costumava dizer: "Se você quiser perder  sua religião, faça amizade com o padre."

Radha Rajagopal Sloss: Isso é exatamente aplicável aqui. A única raiva que eu tive em relação a Krishnamurti foi por causa da maneira que ele traiu minha mãe quando ela ficou do lado do meu pai nos processos. Ele não esperava que ela fizesse isso. E então ele virou-se contra  ela e disse algumas coisas muito desagradáveis, nenhuma era verdade, mesmo assim estas coisas estão sendo citadas agora por alguns de seus seguidores.

Triciclo:  E isto aconteceu quando ele se virou contra seu pai, também, não foi? E começou a mentir sobre ele para desacreditá-lo dentro do grupo?

Radha Rajagopal Sloss: Sim. Ele tinha seus próprios problemas, e eu não o julgo por isso. Mas foi este ato de traição, que é difícil de aceitar. E, também, há diferenças de atitudes em relação a contar mentiras, entre as culturas asiáticas e cristãs.

Triciclo: Qual o efeito que você esperava que este livro tivesse sobre a mística de Krishnamurti, em vários países, entre os milhares e milhares de pessoas no mundo todo?

Radha Rajagopal Sloss: Eu subestimei o impacto. Quando eu leio as cartas que tenho recebido, não fazia ideia como as pessoas  seriam afetadas por este material. As outras biografiass foram tão incompletas; Senti que era uma maneira pobre de deixar a história. Simplesmente não é justo esta falsa imagem permanecer.
( Tradução: Alsibar)

 http://alsibar.blogspot.com/2018/11/o-lado-sombrio-de-krishnamurti-by-helen.html

https://tricycle.org/magazine/the-shadow-side-krishnamurti/
Helen Tworkov is Tricycle's founding editor and author of Zen in America: Profiles of Five Teachers.


terça-feira, 27 de novembro de 2018

O VISLUMBRE DA LUZ




Aqueles que almejam o Divino devem entender que Ele sempre está aqui. O que está bloqueado é nossa a percepção mental e espiritual. Esse bloqueio é uma espécie de segurança para o próprio aspirante pois o impacto de sua presença pode ser devastador- como o foi para algumas pessoas que tiveram o vislumbre sem o devido preparo- uns enlouqueceram , outros entraram em depressão ou cometeram suicídio.

 Um dos mestres de Yogananda dizia que uma manifestação divina no momento inapropriado poderia fulminar todas as células do corpo. Daí a necessidade de preparação e distância na medida certa. A preparação é necessária para fortalecer o cérebro de forma que ele possa ser capaz de perceber o vislumbre . O distanciamento é para que esse vislumbre seja na dose correta para poder garantir a segurança física, mental e espiritual do aspirante.

Quando Jiddu Krishnamurti viveu essa preparação, ele sentia como se houvesse seres de luz abrindo-lhe o cérebro, fazendo uma espécie de assepsia - para ver quanto " Dele poderia se manifestar"- uma experiência não muito agradável para o indiano imaturo, ainda novato nos mergulhos profundos da Consciência Divina.

O certo é que Ele vai aos poucos se mostrando de forma delicada, como um Sol nascendo no horizonte de uma praia com nuvens bloqueando parcialmente seu aparecimento. Ninguém pode olhá-lo diretamente mas sempre de forma indireta, como está escrito em Êxodo 33-20: " aquele que vê minha face não viverá". E sempre com os "pés descalços" em sinal de veneração e humildade. Há nítidos sinais de mudanças ocorrendo na mente, no espírito e no corpo físico. Nada pode ser feito, nem tocado. 
Ao homem só resta a entrega e a confiança.

(Alsibar)