sexta-feira, 4 de julho de 2014

SOBRE OS BENEFÍCIOS E RISCOS DO CONSUMO DO CHÁ AYAHUASCA ( SANTO DAIME)- About benefits and risks of Ayhuasca tea



Algumas pessoas tem me enviado perguntas sobre o uso do chá Ayahuasca ou Santo Daime. Dentre as respostas que dei escolhi essa para ajudar aqueles que estão cheios de dúvidas e confusos em relação ao seu consumo. Quais os benefícios e riscos  do consumo do chá para a mente, corpo e espírito do indivíduo? Qual a importância do uso do chá para a evolução e aprimoramento espiritual? Lembrando  que essa análise é baseada em minha experiência e  percepções pessoais - não se pretendendo, obviamente, ser uma verdade absoluta e incontestável.
Caro Alsibar,

Bom dia, o principal motivo deste e-mail é sanar dúvidas que tenho no caminho espiritual. No começo do ano eu e alguns amigos começamos a fazer os rituais da ayahusca, mas tenho as minhas duvidas sobre o que estou fazendo. Agradeço se puder sanar esta duvida se eu e meus amigos estamos em um caminho correto ou ilusório?

Desde já agradeço

Caro amigo,
O  chá em si não é bom nem mal, é apenas uma bebida que desperta alguns poderes latentes no homem,  fazendo com que a consciência se expanda por alguns momentos adentrando dimensões desconhecidas e imperceptíveis no estado de consciência ordinária. Entendo o chá como uma energia secreta presente na natureza, possibilitando que povos longínquos e isolados pudessem ter vislumbres do sagrado, do transcendental, do mágico. Sabe-se também que tais percepções são comuns aos meditadores , iogues e místicos quando absorvidos em profundo estado de transe. O chá possibilita isso de forma rápida e instantânea, dispensando anos de dedicação, treino e amadurecimento espiritual. Para quem não se vale desse subterfúgio, essas percepções vem naturalmente ao longo do caminho espiritual, mas representam apenas uma fase, uma etapa da jornada. O buscador experiente não se distrai ou  se deixar seduzir por estas visões e experiências, mas continua firme em seu caminho em direção ao que realmente interessa : o encontro com a Verdade, a Liberdade,  e a Paz.

Há vários relatos sobre os efeitos benéficos do chá como, por exemplo: limpeza interna de bloqueios energéticos e emocionais, cura de traumas , resolução de problemas a nível psíquico, emocional e energético, maior autoconhecimento , resolução de conflitos inconscientes, perda do medo da morte etc. A pessoa pode se tornar mais calma, alerta, sensível, serena e presente . Tudo isso realmente acontece. Todavia, quando o efeito do chá passa e a consciência retorna ao seu estado ordinário, o ego volta a desorganizar e poluir tudo o que o chá limpou e organizou. E então a pessoa volta de novo a tomar o chá e o ciclo começa de novo. Em suma: o chá não limita, nem diminui a as ações autocentradas e separatistas do ego. Em alguns casos, ele o fortalece por conta da sensação de poder gerado pelo seu consumo . Muitas pessoas se sentem superiores, especiais ou diferentes pelo fato de tomarem o chá, ou fazerem parte desta ou daquela organização.  Pude testemunhar isso pessoalmente . Em alguns casos, o ego se  identifica com o movimento, a organização e então passa a agir em nome da causa, justificando para si mesmo suas atitudes auto-centradas e egoístas em nome  de um ideal utópico. Aí entram a exploração financeira, a arrogância, a prepotência, a ambição , o proselitismo e a competição entre os membros internos . Fenômeno não muito diferente do que ocorre com as religiões e movimentos religiosos em geral.


Não acho que o chá seja uma droga comum, ou um alucinógino qualquer- ele realmente te leva a uma viagem arquetípica que se bem aproveitada pode possibilitar uma compreensão diferenciada da vida. Todavia, critico e abomino a mercantilização do chá pelas organizações que dele se apropriam. Apesar de entender que a organização precisa do recursos para se manter, percebe-se que o dinheiro é muitas vezes usado para expansão e consolidação do poder de atuação e influência do movimento sobre a sociedade. Além disso, como o uso do chá é monopolizado pelas organizações, uma vez que ele só pode ser usado em cerimônias religiosas, a pessoa se vê obrigada a se ligar ou se submeter a alguma organização para poder  experimentar a magia do chá.

Em alguns casos, o chá pode ser uma espécie de atalho arriscado e perigoso. Ao despertar certas faculdades latentes, o chá dá acesso a uma dimensão que o meditador ou iogue só alcança depois de anos e anos de muita dedicação e meditação. Esse tempo é necessário para preparar e amadurecer a mente do indivíduo para as extraordinárias percepções vindouras . Abaixo cito 5 riscos que correm aqueles que não estão espiritualmente preparados e maduros para a experiência do chá:

1.O apego às sensações produzidas pelo chá é o mesmo apego às coisas materiais, faz a pessoa ficar presa à organização, ao grupo ou às sensações causadas pelo chá. Falei apego- não dependência.

2.A estagnação do espírito é o risco da pessoa achar que o chá é o suficiente e que não precisa fazer mais nada para crescer interiormente- o mesmo efeito que alguns gurus causam em seus discípulos ao darem a entender que basta estar em sua presença para que possam alcançar o nirvana, a libertação ou o céu. 

3.A confusão é a mente ficar confusa em relação aos conceitos espirituais fundamentais e universais, se apegando a dogmas, rituais,  símbolos e crenças religiosas- esquecendo-se da primazia da vigilância e do trabalho de transformação interna. 

4.Inadaptação é quando o indivíduo não quer retornar para este mundo por considerá-lo pobre, pesado ou sem graça em relação à dimensão do chá muito mais “atraente” e “sedutora”. 

5. E a loucura é quando o chá potencializa distúrbios que o indivíduo já possui e que pode levá-lo a cometer atos insanos, causando tragédias , assassinatos e suicídio- vide o caso envolvendo o cartunista Glauco. Obviamente- isso não é comum. Todavia, o risco existe e não pode ser ignorado.


Ressaltando que os riscos acima citados, não estão relacionados diretamente ao chá, mas ao indivíduo que o toma sem a devida preparação. É o mesmo perigo que corre quem tem visões, epifanias, alucinações ou iluminações repentinas e acidentais- sem a devida preparação, orientação e proteção. 

Pessoalmente, depois de ter tomado o chá,  passei a valorizar mais ainda o corpo, o cérebro e a dimensão material, física- ou 3D como atualmente está sendo chamada. Percebi que o cérebro codifica e filtra as informações que estão em estado embrionário e etéreo- as mesmas percebidas durante as sessões- e sem este importante trabalho do cérebro seria impossível viver nesse mundo. 

O corpo funciona como uma armadura protetora sem o qual ficaríamos sujeitos a todo tipo de influência energética e espiritual. É como uma roupa especial de nadador sem a qual o mergulhador não poderia atuar nas profundidades do mar. Ou como a roupa de um astronauta- sem ela  ele não poderia explorar o espaço além da atmosfera. Também me sinto mais confortável com o meu corpo e não quero mais me sentir desconectado com ele- algo que acontecia durante as sessões do chá. Aprendi a amar mais a vida, a cuidar mais do corpo e ser grato à Existência por esta oportunidade de aprendizado , experiência e evolução que só a densa dimensão da dualidade pode  proporcionar.

Se a pessoa vai ter mais benefícios do que “malefícios”  isso é algo muito pessoal e subjetivo. Não dá pra fazer generalizações pois as experiências são diferenciadas dependendo do grau de vivência, experiência, maturidade e sabedoria de cada um. É importante lembrar que mesmo tomando o chá, ninguém é dispensado do trabalho de transformação e iluminação interior que somente a pessoa pode e deve fazer por si mesma. É no embate da consciência comum e ordinária com os desafios da vida, que ocorre o aprendizado .E isso deve ser feito no estado normal da consciência- não em transe ou em algum estado alterado ou privilegiado de consciência. 

Particularmente, não considero  o chá um caminho ilusório- mas há um risco de potencializar as ilusões que o indivíduo carrega dentro de si. O sujeito pode se tornar vítima de suas próprias ilusões  e não do chá- que é apenas mais um instrumento de autoconhecimento, como a meditação, o eneagrama, a oração, os mantras, a peregrinação, o jejum, os sonhos, a psicanálise e tantos outros. O chá não  substitui  o difícil trabalho sobre si que o autoconhecimento  e a meditação proporcionam. Por isso que nem sempre as atitudes de alguns membros- mesmo os mais antigos- manifestam uma perceptível maturidade espiritual. Diante disso, algumas organizações,  reforçam a prática da oração, meditação, amor e serviço ao próximo exatamente para que as pessoas não caiam na apatia, na preguiça e na indolência. Todavia, o que se percebe na prática é exatamente o contrário: o “barato” do chá e a organização ficam em primeiro plano e a transformação íntima em segundo ou ultimo- com raras exceção.


A busca por experiências mais profundas e prazerosas reforçam o buscador e o experimentador- sendo este o principal obstáculo a ser vencido tanto na vida comum, quanto na viagem extrassensorial do chá. Por tudo isso é que ainda considero a meditação - apesar de mais demorada e trabalhosa- o meio mais seguro de evolução e crescimento espiritual pois ela vai transformando a  consciência de forma segura e natural- sem grandes saltos, riscos ou perigos. Além disso, ela te prepara para enfrentar os desafios da vida em sua própria consciência ordinária. E  é exatamente assim que deveria ser. A mente da pessoa vai aos poucos sendo transformado pela luz do autoconhecimento para que possa atuar em seu próprio nível de percepção e consciência. E o sujeito vai percebendo que a própria vida ordinária é em si mesma extraordinária e que não é necessário mais do que isso para que a pessoa possa se encontrar e ser feliz. 

Terminarei minha exposição com uma pérola da MPB brasileira, que resume minha atitude em relação não somente ao chá , mas também às drogas alucinógenas, bebidas, drogas químicas  e métodos de meditação que buscam as sensações prazerosas que a expansão ou alteração da
consciência  proporciona:

“Eu não estou interessado em nenhuma teoria/ Em nenhuma fantasia nem no algo mais/Nem em tinta pro meu rosto oba oba, ou melodia/Para acompanhar bocejos/ Sonhos matinais../Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria/ Nem nessas coisas do oriente/Romances astrais/A minha alucinação é suportar o dia-a-dia/E meu delírio é a experiência com coisas reais... (Belchior- Alucinação)




Fraterabraços!

Alsibar